Essa foi pra matar. A novela Avenida Brasil já acabou, a postagem do Sakamoto é de vinte dias atrás, mas o ridículo é tanto que vou ter que gastar uns minutos para comentar a completa inversão de valores contida no texto – e no contexto – que o Sakamoto escreveu. 

Em primeiro lugar, leiam o texto dele. Quando as náuseas passarem, voltem aqui. 

Pronto? 

Pois é, Sakamoto termina o texto afirmando que despreza um espantalho que ele mesmo criou e também o mocinho da novela, a quem ele acusa de violência doméstica e que portanto não seria um “mocinho”. 

Vejamos. 

Tufão deu um tapa na cara de Carminha. Um tapa.

Sakamoto o despreza e quer processá-lo com a Lei Maria da Penha. 

Carminha já entrou na relação com Tufão mal intencionada e mentindo sobre seu passado. Ela arquitetou maquiavelicamente um plano sórdido de longo prazo, traiu Tufão durante mais de vinte anos, fez seu amante se casar com sua cunhada para levá-lo para dentro da casa do marido, teve filhos com o amante e fez o marido criá-los ignorando isso, destratava e humilhava toda a criadagem, abandonou uma criança para surrupiar-lhe bens e direitos, forjou um seqüestro, fez várias ameaças de morte, tentou de fato assassinar Nina, traiu o próprio amante, matou o próprio amante, deu um tiro no próprio pai, entre outros diversos crimes que eu desconheço porque não assisti a novela. 

Sakamoto nem sequer criticou Carminha. 

Vejam bem:

Sakamoto não escreveu um artigo para criticar o mau caráter de Carminha, não escreveu um artigo para criticar o abandono de uma criança, não escreveu um artigo para criticar a traição conjugal, não escreveu um artigo para criticar a fraude perpetrada por vinte anos contra um marido fiel, atencioso e bom caráter, não escreveu um artigo para criticar o comportamento abusivo de Carminha contra a criadagem, não escreveu um artigo para criticar a simulação de um seqüestro, não escreveu um artigo para criticar as diversas ameaças de morte feitas por Carminha contra Nina, não escreveu um artigo para criticar a tentativa de assassinato de Nina, não escreveu um artigo para criticar o assassinato do amante de Carminha e não escreveu um artigo para criticar o tiro que Carminha deu no próprio pai. 

Mas Sakamoto escreveu um artigo sobre o tapa de Tufão em Carminha, desejando a Tufão um processo pela Lei Maria da Penha e dedicando-lhe o seu desprezo. 

Parafraseando o próprio, as prioridades de Sakamoto são bem didáticas. 

Quando eu digo que os movimentos sociais feminista, negro e gay não defendem Direitos Humanos e que a causa dos Direitos Humanos corre grave perigo, tem gente que acha que eu estou exagerando. Mas a completa inversão de valores mostrada pelas prioridades de gente como Leonardo Sakamoto, que exige civilidade total e absoluta de uma vítima das mais sórdidas e humilhantes ações e deseja processar e despreza a vítima que falhar em manter completo controle de suas emoções enquanto nem sequer se preocupa em criticar uma criminosa maquiavélica que cometeu as mais abjetas crueldades mostra muito bem que há algo profundamente podre e corrupto na visão de mundo, no senso de valores e nas intenções políticas das pessoas que partilham das ideologias de Leonardo Sakamoto. 

A causa dos Direitos Humanos pressupõe “o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis”. Quando alguém considera um tapa desferido por uma pessoa de bom caráter em um momento de absoluta indignação mais passível de atenção e de punição do que vinte anos de crimes, traições e humilhações arquitetados e praticados por alguém de mau caráter – e acha que aplicar a Lei Maria da Penha num caso desses é “uma lufada de ar fresco” – é impossível dizer que essa pessoa compreenda o que é “dignidade humana”. E quem não sabe o que é dignidade humana nem tem um senso de valores minimamente equilibrado, a ponto de tentar criminalizar a reação indignada da vítima enquanto ignora a crueldade do algoz, não é e não pode ser chamado de defensor de Direitos Humanos. 

Atualização

Ah, sim. 

A lição que esse povo precisa aprender: 

Como defender Direitos Humanos sem sectarismo

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 29/10/2012 

14 thoughts on “Sakamoto quer processar Tufão. Nenhuma palavra sobre Carminha

  1. Meu primo foi em cana por se defender da mulher e da sogra. Enquanto isso, mulheres continuam sendo estupradas e mortas, e destratadas nas Delegacias de Mulheres.

    1. Fico pensando quando é que – se é que algum dia – o povo vai se dar conta de que não estamos na posição de “patrões dos políticos” e sim na posição de gado criado para o abate.

      O objetivo de leis como a Lei Maria da Penha não é “proteger as mulheres” ou “proteger” quem quer que seja. O objetivo é criar um clima de terror legal e sufocar a elite pensante que discorda e tenta combater o projeto de poder da quadrilha instalada no Estado.

  2. Já tinha lido num blog de direita que o Sakamoto tava com vários leitores sem engolir o que ele escrevia. Só nesta visita à ultima página do blog dele já vi 2, sendo uma mulher:
    “Rodrigo Borges
    Que tal processar a Dona Florinda e todos os outros personagens que batem em homens na TV? qt besteira….”

    e

    “Nanda Torres

    Que tal criar uma lei Mario da Penha para homens que apanham de mulheres? Mas infelizmente isso não será criado, pq homens que apanham não possuem os mesmos direitos. Não podem ir a uma delegacia denunciar sua companheira por agressão sem ser motivo de chacota. Uma questão pra quem escreveu esse texto sem argumentos válidos pra situação: E por que a sociedade pode assistir uma mulher dar um tapa na cara de um homem e não haver punição para isso? A violência eh menor? Sim..pq nós vemos isso todos os dias…seja em filmes, tv ou mesmo na rua e todo mundo acha normal.”

    Tenho visto sinais animadores de um despertar anti-mentalidade marxista. Se não se exagerar é um bom sinal.

    Só um adendo, a Carminha atirar no próprio pai foi algo bom, pra salvar os mocinhos.

    1. Processar a Dona Florinda pelos tapas no Seu Madruga – eu apóio! 😛 E Sakamoto, será que aprovaria ou desconversaria?

      Eu não compartilho desse otimismo sobre um despertar anti-marxista. Marx foi eleito pelo pessoal das “ciências humanas” como “o mais importante filósofo da história”. Cruel.

      E, poxa, eu vi a cena da Carminha baleando o pai. Ridículo. Ele estava parado xingando ela e continuou ali parado xingando ela. 😛 (“Xingando-a” seria o certo, mas que se dane.) 😛

  3. Eduardo Marques

    29/10/2012 — 19:11

    http://www.canudoscoloridos.com/2012/09/sakamotinho.html

    Ou ele é carente, ou é pirado mesmo.

    1. Acho que nem um, nem outro, Eduardo. Se bem conheço o tipo, esse é um caso de desprezo pela crítica. Rir de uma crítica aguda dessas… só se fosse de nervoso. Eu achei essa crítica devastadora. Mas, lógico, “falem bem ou falem mal, mas falem de mim”.

  4. Esse ai vai ganhar o prêmio o “imbecil coletivo” do ano.

    1. Quem fornecerá a taça? Instituto Von Mises? 🙂

    2. Eduardo Marques

      03/11/2012 — 07:52

      “Imbecil coletivo” é coisa do Olavón.

    3. Estou mal acompanhado em algumas boas críticas que faço…

  5. Como o próprio admitiu que não assistiu a tal novela, portanto a crítica dele é superficial. Qual foi a motivação do tal tapa se torna portanto irrelevante. Esse foi o erro crasso. Lamentável.E disse que assistiu por acaso. Ah, tá me engana que eu gosto!
    Nem vou entrar no mérito da questão, não assisto novela já faz um bom tempo.O formato das novelas e o texto não me agrada, e a repetição das mesmas fórmulas tanto que as novelas oscilam muito no Ibope, portanto os mais críticos estão no bojo, pois perceberam que o negócio já está bem desgastado.Essa última novela mal alcançou os 50% de audiência, realmente as novelas não encantam mais as massas.Não vejo mais as pessoas comentando sobre as novelas, aliás está difícil ver alguém comentando sobre novelas. Talvez essa novela deu um sopro de vida, talvez pela polêmica dos personagens sobretudo nas suas idiossincrasias.

    1. Olha, EU NÃO ASSISTO NOVELA mas sei todo o enredo de Avenida Brasil, conheço quase todos os personagens e seus dramas pessoais. É impossível não ficar sabendo do que acontece, porque passa comercial o tempo todo e eu ouço muita gente comentando, além de que sempre tem alguém que assiste e a gente passa na frente da TV. Impossível o Sakamoto não conhecer a Carminha.

  6. Quando li esse texto só consegui pensar numa cena: dois personagens, o Politicamente Correto e o Femin[az]ismo de mãos dadas, cada um com um porrete na mão, espancando outro personagem, o Bom Senso, enquanto um quarto personagem, a Hipocrisia, morre de dar risada no canto.

    1. Genial. Não acrescentarei nada pra não estragar.

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