A maior parte das pessoas pensa que, para combater a intolerância, é necessário ser sempre tolerante. Isso está errado. Há momentos em que ser tolerante aumenta a intolerância e em que ser intolerante aumenta a tolerância. Confira a análise lógica desta afirmação. 

1. Tolerar a tolerância aumenta a tolerância.
2. Tolerar a intolerância aumenta a intolerância.
3. Não tolerar a tolerância aumenta a intolerância.
4. Não tolerar a intolerância aumenta a tolerância.

Se queremos produzir um mundo onde a tolerância é um valor a ser presevado, não podemos ser ingênuos e tolerar a ação dos destruidores da tolerância. Tolerar a intolerância não é tolerância, é ingenuidade – ou burrice – pois destrói o objetivo que se pretende atingir.

Os intolerantes sabem disso. Por isso, quando é do interesse deles, eles usam de forma distorcida o discurso do “respeito à diversidade”. Com isso eles conseguem confundir os mais ingênuos e obter visibilidade para seu pensamento brutalizante. Uma vez conquistado qualquer tipo de poder por estes indivíduos ou grupos, o discurso muda rapidamente e as ditaduras se instalam. Isso acontece desde as ONGs e pequenas empresas até as maiores nações, e constitui uma ameaça a ser combatida com a máxima intensidade possível.

Rigor conceitual

Sempre que proponho este debate, desde 07/08/2007, acontece algo que me incomoda. Eu tenho a impressão que alguns dos debatedores passam batido pelo significado profundo da tabela-verdade que eu postei acima. Passam batido, aliás, em dois pontos: primeiro em relação a o que significa intolerância, e segundo em relação a o que implica promover qualquer ação que a potencialize.

Tolerância ou intolerância podem ser tanto métodos de ação quanto resultados da ação.

Para que o mundo se torne cada vez mais tolerante (resultado) freqüentemente é necessário atuar de modo intolerante (método), mas isso só é válido no caso específico da tabela-verdade acima – em todos os outros casos o método da intolerância conduz ao resultado da intolerância. 

Entenda: 

Se eu desejo um mundo em que a intolerância seja minimizada, a primeira decisão que eu devo tomar é jamais produzir intolerância. Ora, as ações (2) e (3) da tabela-verdade são claramente produtoras de intolerância, então eu e qualquer um que objetive minimizar a intolerância não devemos cometer estas ações. 

Se eu desejo um mundo em que a tolerância seja maximizada, a primeira decisão que eu devo tomar é produzir tolerância. Ora, as ações (1) e (4) da tabela-verdade são claramente produtoras de tolerância, então eu e qualquer um que objetive maximizar a tolerância devemos promover estas ações. 

Pense bem

O que muita gente vê como desagradável é assumir a necessidade de, para maximizar a tolerância, ser intolerante com a intolerância, ou seja, usar a intolerância como método. Alegam que isso é equivalente a combater a violência com violência, e dizem que isso é ruim… Mas em muitos casos isso não é ruim. Até mesmo a violência pode ser usada para defender a paz – e em muitos casos a violência é realmente usada com este objetivo e funciona.  

O exemplo mais simples possível: você está caminhando na rua e alguém puxa uma faca e anuncia um assalto. Neste momento você prefere que apareça um pacifista fru-fru acenando com um lencinho branco ou uma viatura com quatro policiais fortemente armados? Em qual das duas hipóteses é mais provável que sua integridade física seja respeitada? 

É neste sentido que eu afirmo que não tolerar a intolerância aumenta a tolerância. E é em defesa de um mundo mais tolerante e harmônico que eu afirmo que não devemos tolerar os arautos da intolerância. Especialmente os arautos da institucionalização da intolerância. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 10/11/2012 

Tentando poupar tempo – algumas objeções previsíveis

1) “Se você age de modo intolerante, você está aumentando a intolerância.” 

Afff… Leia o artigo de novo, por favor. 

2) “A vida não é tão lógica assim.” 

Errado. As pessoas são freqüentemente ilógicas ao planejar suas ações, mas o resultado de suas ações não foge da relação de causa e conseqüência. Se não fosse assim, um louco poderia dar um tiro na própria cabeça e não aconteceria nada. 

3) “Você está dizendo algo perigoso.” 

Certo. O mundo está cheio de idiotas que ou não entendem ou distorcem de propósito o que ouvem ou leem. Pois não queimaram gente na fogueira e querem retirar direitos de cidadãos inocentes e inofensivos em nome do ensinamento “ama teu próximo como a ti mesmo”? Não dá pra ficar paralisado em função dos idiotas.

4) “Quer dizer que eu tenho que ser tolerante com um idiota que diga que dois e dois são cinco?

Depende. Se o idiota exigir apenas o direito de acreditar nisso e de viver de acordo com este conceito sem que isso influencie a vida de mais ninguém, então ele é um cara tolerante e tem todo o direito de ser otário, piranha ou usar burca. Mas se o idiota insistir em impor este conceito a terceiros ao arrepio da razão, da ética e da tolerância, então ele é um cara intolerante e merece mesmo é ser (chicoteado, amarrado com urtiga, crucificado de ponta-cabeça no meio de um formigueiro em praça pública e depois incinerado vivo) duramente combatido – sempre com o uso da razão e da ética. 

19 thoughts on “A intolerância pró-tolerância

  1. no fim das contas mais do mesmo, intolerância boa é a minha, ruim é a dos outros… duvido nada que todos os intolerantes pensem assim 😉

    1. Você não compreendeu a diferença entre intolerância enquanto método e intolerância enquanto resultado da ação. Esse conceito, lido nos conformes da tabela-verdade apresentada, tendo em mente a ressalva de único caso de aplicação, faz todo o sentido na busca de um ambiente de tolerância. O argumento em essência trata tão somente de não aceitar a intolerância desde o princípio e por princípio, para que ela jamais se enraize. Logicamente perfeito.

    2. Nenhum intolerância é boa. Por isso não se deve tolerar nenhuma intolerância. 🙂

  2. Eu sou tolerante com todos os que concordam comigo.

  3. Ora! Tolerar os nossos amigos é a coisa mais fácil do mundo.

    1. Mas não estou falando de tolerar alguém específico, ou algum grupo específico, ou quem tem conosco um tipo específico de relacionamento. Estou falando da intolerância em si, das ideologias e ações que tornam o mundo um lugar mais sufocante e violento. Isso é que não pode ser tolerado.

  4. Uma variação (verdadeira) da frase-piada “pra acabar com a violência só com muita porrada”*.

    Gostei da formulação precisa.

    *-Sem humor inclua-se “nem sempre, mas muitas vezes.”

    1. PARECE MUITO uma variação daquela frase, mas tem uma diferença lógica fundamental: de fato a violência pode ser usada contra a violência, mas ela não chega a ser logicamente recursiva, ou seja, a violência aplicada contra a violência não necessariamente reduz a violência, podendo até mesmo simplesmente somar-se, enquanto a intolerância aplicada contra a intolerância produz esse resultado necessariamente, devido ao aspecto recursivo da definição.

      Consegui me explicar ou só piorei as coisas? 😛

  5. Arthur, teria esse post alguma relação com um artigo que saiu recentemente na VEJA?
    .
    Aceito a lógica da sua tabela, faz todo sentido, não cabe a mim ficar brincando de semântica aqui.
    Quando li esse post me veio à mente a nova onda de “democratização dos meios de comunicação”, atualmente todos aceitam promoção mas a crítica logo se torna algo inconcebível, inaceitável.
    .
    Estava lendo um dia desses um blog feminista de uma professora de curso superior, consideravelmente famosa na blogosfera (provável que você saiba a quem me refiro), e fiquei impressionado com a INTOLERÂNCIA às opiniões diversas, e vejo que isso está se disseminando como um vírus na população, essa mentalidade de “não concordo, logo condeno, demonizo, criminalizo e calo” é perigosíssima!
    .
    Quase nunca vejo, em qualquer lugar que seja, alguém contra-argumentando um texto, um artigo ou nada relacionado de forma a expor a ilogicidade, desconstruir as falácias argumentativas ou nada do tipo, o que eu observo é uma ânsia de calar a opinião alheia, de tolher a liberdade de expressão.
    .
    Creio que falta às pessoas, o princípio de Voltaire “Não concordo com o que dizes, mas defenderei até a morte teu direito de dizê-lo”, muitos não percebem que estão aos poucos retalhando os próprios direitos ao censurar os outros por apenas emitirem uma opinião que não lhes seja agradável.
    .
    Enfim acho que me demorei muito, mas foi um assunto oportuno, gosto do seu blog por ser o mais comedido e lógico que me deparei, claro, não concordo com muito do que você diz, mas esse espaço é justamente para debater ideias não?Aceitar isso e ver que podemos divergir, convergir e até mesmo mudar nossas opiniões mostra alguém com honestidade intelectual, caso raro hoje em dia.

    Atenciosamente,

    Gelson Rocha

    1. Respondendo rapidinho, porque tenho um compromisso AGORA: não, não tem nada a ver com nenhum artigo da Veja. É raro eu ler a Veja, nem se de que artigo se trata. Mas sei de que blogueira se trata, claro. 🙂

      O resto comentarei mais tarde. Desde já, entretanto, fico grato pelo reconhecimento de que este espaço respeita a divergência. 😉

    2. Sobre o princípio de Voltaire: eu estava escrevendo justamente sobre isso quando vi teu comentário. 🙂 Tenho um reparo a fazer em relação á frase de Voltaire, o que será exposto num artigo a sair em breve. Mas que o “direito à censura” está se tornando uma exigência dos “politicamente corretos”, isso parece que ninguém percebe – ou ninguém se importa. Até que seja tarde demais, como sempre.

  6. No último parágrafo, favor ignorar o “quando”, estou fazendo um orçamento gigolesco aqui e acabei por deixar isso passar.

    Atenciosamente,
    Gelson Rocha

    1. Deletei o “quando”. 😉

  7. A pergunta que se faz é a seguinte.Como é que vamos da liberdade a ideológias que primeira coisa que ela faz quando chega ao poder é tirar a liberdade dos outros.

    Como o nazismo e comunismo?

    1. Simples: isso acontece quando o que se defende na verdade não é a liberdade, é alguma coisa sórdida travestida de liberdade.

      Mas, Nelson… Isso acontece nos países capitalistas também. por exemplo, nos EUA os pobres não tem liberdade de fato para se organizarem em um partido. É uma liberdade de aparências, no sentido de que “a lei não proíbe”, mas o sistema está estruturado de modo tal que isso seja de fato impossível.

  8. Vamos deixar que eles tenham liberdade expressão para tirar a nossa própria liberdade expressão?

    1. Estou escrevendo sobre isso. Citarei Voltaire no artigo. Nos próximos dias.

  9. joaquim salles

    03/02/2014 — 23:27

    Ao ler o artigo abaixo

    http://oglobo.globo.com/opiniao/a-intolerancia-dos-tolerantes-11493018

    lembrei desse post ( estou pensando na questão tolerância e intolerância)

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