Eu não canso de me surpreender com a estupidez humana. Traduzindo o título acima: “Estado teocrático planeja disseminar campanha internacional de ódio contra cidadãos inofensivos”. Uma intenção declarada de interferir na soberania de outras nações com propósitos fascistas tratada como questão de “liberdade de crença”. 

O Vaticano, reagindo a fortes conquistas para o casamento gay nos Estados Unidos e na Europa, prometeu neste sábado nunca parar de lutar contra as tentativas de “apagar” o papel privilegiado do casamento heterossexual, que descreveu como sendo “uma conquista da civilização”.

Pelo segundo dia consecutivo, a mídia do Vaticano publicou editoriais contundentes declarando a inequívoca oposição da Igreja Católica Romana. “Está claro que nos países ocidentais há uma tendência disseminada de modificar a visão clássica do casamento entre um homem e uma mulher, ou então de renunciar a ela, apagando seu reconhecimento legal específico e privilegiado em comparação a outras formas de união”, disse o padre Federico Lombardi em um duro editorial na Rádio Vaticano. 

Fonte: Veja Online

Li essa notícia e fiquei aqui pensando: o que será que leva uma seita de supostos celibatários transcendentalistas a atacar obstinadamente os direitos civis, a dignidade e a busca da felicidade de pessoas inofensivas ao redor do mundo todo? 

Cheguei à conclusão de que se trata da necessidade de ter um inimigo. 

Muito pouca gente faz qualquer esforço a favor de alguma causa nobre, justa ou produtiva, mas é bem mais fácil encontrar gente disposta a se manifestar contra alguma coisa qualquer. É muito mais fácil mobilizar as pessoas pelo ódio do que pela compaixão. E todos os líderes das grandes religiões sabem disso. 

As igrejas mais teologicamente (chinelonas) medíocres – essas com tele-evangelistas que mandam colocar copo de água em cima da TV, que fazem sessões de desencapetamento e que não param de falar no demônio – têm um público predominantemente ignorante e supersticioso, então usam o próprio Diabo como “inimigo”. Cola. 

Já as igrejas teologicamente mais elaboradas – essas com mitologias antigas e largamente comentadas por exegetas convenientemente há muito falecidos – têm um público com um pouco mais de instrução, que vê suas alegorias mitológicas como metáforas, então precisam usar inimigos concretos para mobilizar seus seguidores. Nestes casos os gays e lésbicas são vítimas convenientes, pois já são alvo de preconceito e qualquer coisa que digam em favor próprio é ignorada porque “vai contra a Palavra de Deus” – o pote já está envenenado. 

O ensinamento principal do sujeito que todas estas igrejas dizem seguir, “ama teu próximo como a ti mesmo”, não dá muito IBOPE. Faria com que cada fiel, para ser coerente, tivesse que agir em favor de outras pessoas, como na Parábola do Bom Samaritano. Isso dá muito trabalho. Espanta as pessoas. Portanto, não é jamais enfatizado. 

Para manter a máquina arrecadatória de dízimos e doações funcionando, é necessário apresentar um show ao gosto do freguês. A maioria das pessoas prefere apontar os supostos defeitos do outro a corrigir os seus próprios defeitos. Nada mais lógico para estas igrejas que escolher uma vítima conveniente para apresentar como “inimigo” a ser combatido e então pedir financiamento e apoio político para “a obra de Deus”.

Alguém acha que é coincidência o fato de o Vaticano ser o único país europeu além da Bielorrússia que não assinou a Convenção Européia dos Direitos Humanos

Ontem foram as bruxas. Hoje são os gays. Que vítima inocente será o inimigo conveniente de amanhã? 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 11/11/2012 

21 thoughts on “Vaticano promete combater casamento gay

  1. Pergunta pro Chico Bento 16 se vai rolar um combate à pedofilia dentro da igreja.

    1. A Igreja Católica instituiu o celibato obrigatório devido a questões jurídicas envolvendo interesses financeiros – mulheres e filhos de padres requerendo como herança ou em usufruto as casas onde os padres viviam e coisas do gênero.

      Se eles não se importam em violar as leis da natureza e fazer seus próprios membros sofrerem exigindo o celibato sacerdotal, haveriam de se importar com o sofrimento dos gays ou das crianças abusadas?

      Eu tive uma educação católica e tinha muito respeito pela Igreja Católica até bem pouco tempo atrás, mas quando parei para analisar os objetivos manifestos e as práticas da ICAR eu me decepcionei de modo “indesfazível”. (Existe algum vocábulo oficial da língua portuguesa para dizer isso?)

      Não que as igrejas protestantes ou evangélicas estejam numa situação muito melhor nesse sentido, apesar de seus pastores poderem casar. Pelo visto o tipo de ambiente cultural que coloca o padre ou pastor como autoridade moral incontestável perante os fiéis é intrinsecamente pernicioso e favorece o cometimento deste tipo de abuso.

  2. o que esperar da poderosa igreja católica “hipócrita” romana além de opressão, repressão e tirania? os próprios católicos discordam de alguns de seus dogmas absurdos. mas como sabiamente disse o doutor Dráuzio Varela
    “a igreja católica é coerente, os católicos é que são incoerentes”

    1. Por um lado é SORTE que os católicos sejam incoerentes. Consegues imaginar que inferno seria viver entre mais de cem milhões de fanáticos que acham que não se pode fazer sexo antes do casamento, que a mulher tem que ser submissa ao homem, que os homossexuais precisam ser curados à força, que devem obediência cega ao bispo de Roma porque ele é o próprio representante de Cristo na Terra, etc.?

      Se bem que prevejo um recrudescimento de algumas destas loucuras muito em breve…

  3. Oi Arthur.

    Bom,nem vou comentar a respeito desse Bento XVI e seus subalternos quererem trazer o mundo para dentro da igreja,não é?!

    Mas mudando um pouco o assunto,mas com o mesmo foco, essa semana a revista Veja publicou uma reportagem do jornalista J.R.Guzzo com o seguinte título: “Parada gay, cabra e espinafre” rsrs.Link abaixo:

    http://www.fazenda.gov.br/resenhaeletronica/MostraMateria.asp?page=&cod=855031

    Gostaria de saber sua opinião sobre o texto e suas comparações um tanto quanto esquisitas rsrs.

    Abraços!

    1. Tá rolando uma campanha no Facebook contra a Veja por causa desse artigo:
      http://www.facebook.com/events/243335425793743/

      Tou pensando. Não gosto muito de campanhas, prefiro respostas inteligentes. Tem 2 textos apontando os erros do artigo. Vou colocar depois, pro sistema não barrar.

    2. 2° artigo:
      http://jezebel.uol.com.br/10-erros-do-texto-parada-gay-cabra-e-espinafre/

      Aqui toca-se no problema da doação de sangue. Já se discutiu isso no PND, eu sei, mas agora tou correndo, saindo. Ficam ai os links pra reflexão.

    3. Alisson:

      O cara do espinafre ia muito bem até chegar na parte que define casamento como sendo “entre um homem e uma mulher” e começar a desfilar comparações absurdamente falaciosas. E, convenhamos, o texto é grotescamente ofensivo ao comparar a homossexualidade ao bestialismo.

      Observa bem o mal que as lideranças LGBTTTTTTTTTTT fazem aos gays: por causa dos abusos destas lideranças porcas e mal intencionadas, torna-se possível publicar no site da Fazenda Pública Federal um texto ignominioso com ares de crítica sóbria e respeitável.

      Nada faz mais mal aos gays e lésbicas do que suas próprias lideranças “politicamente corretas” e o modo como conduzem uma verdadeira guerra entre sexualidades ao invés da isonomia de direitos e da integração harmônica na sociedade independentemente de orientação sexual.

    4. Gerson:

      O primeiro texto é ótimo. O segundo é claramente engajado na mesma linha das lideranças de movimentos sociais que estragam toda a causa pelos Direitos Humanos.

      Tive um insight quando li tua mensagem e os textos que indicaste. Vai virar um artigo provavelmente intitulado “os arautos do ódio”.

  4. Boa a sua matemática para demonstrar a necessidade de um inimigo ao gosto da freguesia! E falando em matemática fico pensando na negação celibatária ao casamento heterossexual (“como uma conquista da civilização”), na contramão da história! Na Bíblia, em determinado momento, o hipotético Deus teria dito: “Crescei e multiplicai-vos!” A Igreja negou aos padres essa máxima vinda da boca do Cara em Pessoa. Deu no que deu! Vocações em queda livre, argumentações com focagens medievais, e pedofilia de sacristia. Quem não se multiplica não só não cresce. Se extingue!

    1. Pela “minha matemática” o único inimigo é a intolerância. Não é uma pessoa ou um grupo, é uma idéia, postura ou uma atitude. Sempre que alguém age de modo intolerante e nós toleramos isso, a idéia, postura ou atitude intolerante se fortalece e eventualmente ganha poder suficiente para esmagar as idéias, posturas e atitudes tolerantes que desejamos ver universalizadas.

      Que um fanático obtuso diga que uma imbecilidade é uma conquista da civilização não deveria nos surpreender. O casamento heterossexual é tão “conquista da civilização” que qualquer pombo faz isso muito melhor que a maioria dos seres humanos. Mas na chafurda moral da desinformação-que-me-interessa vale tudo para ganhar no grito.

  5. Sou gay e tenho essa mesma percepção. Só teria uma outra coisa a acrescentar: é o mesmíssimo modo de agir da chamada “militância gay”.

    1. E da maioria das militâncias de qualquer causa hoje em dia. É impressionante e aterrorizador, mas me parece que os valores do iluminismo estão em franca decadência numa sociedade a cada dia mais corrupta e tendente a recorrer a fanatismos diversos.

  6. É só explicar para o Chico Bento 16 que não se combate o casamento gay de sunguinha, atracado com mancebos musculosos numa piscina de gelatina de morango, que ele desiste da idéia.

    1. Eu ri, mas acho que não é por aí.

  7. Obrigado Gerson B!

    Realmente muito coerente e bem embasada a contra argumentação do senhor Orsi.

    Mas triste mesmo,é muitas pessoas criticarem essa contra argumentação achando que o texto do Guzzo foi “mal interpretado” pelo autor ou que havia algo de mais “profundo” nas entrelinhas do famigerado texto.

    Aff,me poupe viu?! Parecem até as Olavetes rsrs.

    É claro,que ele elucida certos exageros da militância gay,algo que no entanto não justifica a desonestidade intelectual e a falta de argumentos que se sustentem com relação aos homossexuais propriamente ditos e não da militância gay.


    1. “Mas triste mesmo,é muitas pessoas criticarem essa contra argumentação achando que o texto do Guzzo foi “mal interpretado” pelo autor ou que havia algo de mais “profundo” nas entrelinhas do famigerado texto.” (Alisson)

      Tu ainda te surpreendes com isso, Alisson? Esse é o tipo do “argumento de quem não tem argumento” – igualzinho àqueles cretinos que dizem que a Lei Maria da Penha não fere o artigo 5° inciso I da Constituição Federal de 1988 porque “é necessário compreender a norma de forma hermenêutica”, para a qual são necessários profundos estudos sobre a natureza do Direito… Ou seja, um ridículo argumento de autoridade travestido de suposta profundidade acadêmica que não se sustenta perante uma criança de quinta série que saiba ler. Mas cola, porque o que vai pra súmula não é o que acontece no gramado, é o que o juiz apita.

  8. O livre arbítrio nunca foi respeitado plenamente.

    É triste porque ele nos foi dado PELO PRÓPRIO DEUS,em quem as pessoas juram acreditar e defender.

    Impedir os erros alheios tem sido a grande cruzada dos que não olham para as próprias limitações.

    É por isso que sou meu próprio mestre,além daquele que amo dentro do meu coração,em segredo,com respeito e humildade.
    Sabendo que ele não é o que fazem dele.

  9. Eu sou ateia, mas nem todo ateu é massa de manobra da esquerda. Condenar o homossexualismo é fazer cruzada contra os homossexuais? Não viu o caso do Kaique na semana passada? Se precisaram transformar um suicídio em assassinato por homofobia antes de sequer investigar o que houve, fazemos ideia do nível de homofobia no Brasil.

    1. Ninguém tem nada que “condenar o homossexualismo”. Quem gosta, seja livre para praticar; quem não gosta, seja livre para não praticar; em qualquer dos casos, não se meta na vida do outro e não tente promover nenhuma diferença nos direitos civis de ninguém em função de orientação sexual.

      Teu argumento sobre o garoto Kaique está equivocado, Abigail. Se transformaram o suicídio em homicídio antes mesmo de investigar, isso não significa nada em relação ao nível de homofobia do país, mas diz muito sobre os interesses dos movimentos sociais e dos grupos políticos que fomentam essa radicalização e intolerância.

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