São Paulo assiste uma onda de homicídios que vitima diversas pessoas todos os dias, entre policiais à paisana, criminosos diversos e gente sem nenhuma ligação com nada suspeito. Isso mostra que, seja lá quem estiver por trás desta iniciativa criminosa de larga escala, é um grupo que compreende a eficácia da introdução dados aleatórios e de falsos padrões estatísticos para dificultar a detecção do verdadeiro padrão por trás dos dados amostrais. 

Eu estava relutando para escrever este artigo, porque afinal isso poderia instruir a bandidagem, mas depois de assistir os noticiários de ontem à noite eu percebi duas coisas muito importantes: primeiro, que a estratégia já é do conhecimento deles; segundo, que a resposta do Estado brasileiro é estúpida e equivocada, isso se não for mal intencionada. 

Entenda o que é mascaramento de padrões por introdução de dados aleatórios e falsos padrões: 

Se alguém matar apenas dez pessoas ligadas á questão “x”, o padrão será muito evidente e portanto facilmente detectável. 

Se esse alguém matar estas mesmas dez pessoas e mais outras novecentas e noventa escolhidas aleatoriamente, o padrão “mortes ligadas a x” será muito menos evidente e portanto muito menos detectável.

Se esse alguém matar estas mesmas dez pessoas, mais vinte ligadas à questão “y”, mais trinta ligadas à questão “z”, mais novecentas e quarenta escolhidas aleatoriamente, não somente o padrão “mortes ligadas a “x” será muito menos evidente e detectável como ainda haverá uma grande alocação de recursos e um imenso esforço de investigação direcionado a pistas falsas, diversionistas, e uma grande resistência à investigação do padrão “x” devida a análises do tipo “não, isso é teoria da conspiração, os dados indicam uma clara vinculação desta onda de homicídios à questão z”. 

Isso é o que está acontecendo em São Paulo. 

O conjunto de pessoas mortas em São Paulo inclui policiais à paisana, ladrões, traficantes e outros bandidos procurados ou não, trabalhadores sem antecedentes criminais, donas de casa inofensivas, pequenos comerciantes de bairro, mendigos e moradores de rua, tanto na cidade de São Paulo quanto em diversas cidades ao redor da capital. 

Um padrão é evidente: não há um padrão evidente. E, se não há um padrão evidente, só há duas possibilidades: ou as mortes são de fato aleatórias, ou o verdadeiro padrão por trás destas mortes está sendo propositadamente ocultado pela introdução de ruído estatístico e/ou falsos padrões introduzidos no conjunto de mortes. O que seria mais provável? Depende de quem está promovendo esta onda de homicídios. 

Que a autoria desta onda de homicídios é de uma quadrilha criminosa, isso ninguém tem a menor dúvida. O que me espanta é que todo mundo pensa direto no PCC ou em braços do CV e dos ADA, como se não houvesse milícias e corrupção nas polícias, nos gabinetes políticos e nas empresas prestadoras de serviços na maioria das cidades brasileiras. 

Ninguém lembra do caso Celso Daniel, no qual a polícia insistiu que o assassinato de um prefeito de uma grande cidade foi um crime comum mesmo depois que sete a quinze testemunhas foram assassinadas, o partido do prefeito assassinado (PT) votou contra as investigações do homicídio de um de seus e o principal partido rival (PSDB) transferiu uma testemunha para um presídio controlado pela facção criminosa rival a dela, que foi assassinada numa rebelião 48 horas depois da transferência?  

Tudo isso foi mera coincidência? 

Eu não tenho a menor dúvida de que com essa onda inexplicável de homicídios o crime organizado está demonstrando que atingiu um nível de organização inédito no Brasil. E também não tenho a menor dúvida de que o modo como o Estado brasileiro está reagindo a esta situação é no mínimo inepto, talvez cúmplice. 

Os noticiários de ontem mostraram o tipo de iniciativa que está sendo implementado supostamente para tentar combater o crime em São Paulo: a instalação de placas para avisar aos bandidos que estão sendo filmados. E muitos “especialistas em segurança” apóiam a medida. Assim me caem os butiás do bolso. A medida é pior do que inepta, é ridícula e traz consigo um grande perigo. Eu explico. 

A medida é inepta porque na melhor das hipóteses ela apenas informa ao criminoso “esta área está sendo filmada, portanto, não cometa crimes aqui – ou esconda seu rosto para não ser identificado e seja rápido no cometimento do crime para escapar antes que a polícia chegue”. 

A medida é ridícula porque mesmo que reduza o crime em uma determinada área ela não tem impacto algum na criminalidade total – que simplesmente será deslocada para outras áreas. 

A medida é perigosa porque tende a transformar o Estado em um Estado policial, que instala mais e mais câmeras de segurança “para inibir o crime” nas áreas para onde o crime vai se deslocando, até que cada milímetro quadrado do território seja permanentemente vigiado e controlado pelo Estado. É como se cada cidadão estivesse permanentemente dentro de um programa “Big Brother”, completamente sem privacidade e com cada movimento controlado pelo Estado, como na terrível distopia de George Orwell, “1984”. (Clique aqui para ler o livro 1984, clique aqui para assistir o filme 1984.) 

Todo mundo que acompanha o blog sabe que eu sou a favor do empoderamento da população honesta pela implementação de um sistema de segurança desenvolvido a partir do exemplo da Suíça, porém aprimorado pela introdução de treinamento em defesa pessoal já nos currículos escolares, desmilitarizado e tornado realmente universal, sem dispensas de natureza alguma e obrigatório para ambos os sexos. A médio prazo isso tornaria as ruas do Brasil mais seguras que qualquer outro lugar no planeta. Para resolver o problema a curto prazo, entretanto, é necessária outra abordagem. Vamos a ela. 

A primeira coisa que tem que ser feita é um estudo estatístico profundo nos registros dos crimes ocorridos desde o início desta onda de homicídios. São necessários três tipos de análise estatística: uma grande e complexa análise multivariada para detectar possíveis correlações entre características das vítimas e outros padrões ocultos pela introdução de ruído e padrões falsos, uma análise de série temporal econômico-criminológica e uma análise de clusters georreferenciados cruzada com a curva de distribuição dos eventos em busca de vieses de delineamento no planejamento dos criminosos. Se você não sabe o que essa quizumba de nomes pomposos significa, não se preocupe: o governo também não tem a mínima idéia do que se trata e de como fazer uso destas ferramentas. 

Se a coisa toda for bem feita, entretanto, surgem insights do tipo “sempre que este grupo específico de policiais estava de folga houve um incremento de 15% a 20% no número de homicídios de policiais, simultaneamente a redução de 15% a 20% no número de homicídios de mendigos e criminosos pé-de-chinelo, de modo que o número total permaneceu semelhante mas o perfil das execuções foi alterado”. Suponho que o leitor do blog poderá interpretar adequadamente o significado desta hipótese mesmo sem qualquer conhecimento estatístico. 

A segunda coisa que tem que ser feita é identificar objetivamente quem ganha o quê com essa situação. Este é o momento mais vulnerável a distorções em toda a análise, porque normalmente as correlações incômodas que surgem da análise estatística são classificadas como “teoria da conspiração” – a despeito do fato de evidentemente haver alguma conspiração acontecendo de fato, como atestam os inúmeros cadáveres.

É por isso que é necessário auditar e investigar cuidadosa e rigorosamente em primeiro lugar todos os políticos, agentes do Estado, fornecedores e prestadores de serviço que possam lucrar de alguma forma com um episódio deste tipo, por mais alucinada e absurda que possa parecer qualquer correlação surgida da análise dos dados – precisamente porque números frios não são entidades com interesses pessoais, políticos, ideológicos ou econômicos. 

E a terceira coisa que tem que ser feita é levar a sério tanto os conhecimentos e insights que surgirem deste tipo de investigação quanto a lógica e a eficácia mensurável das medidas a serem tomadas para combater o crime, sem ouvir os ideólogos do absurdo que dizem que a investigação científica é “preconceituosa e abusiva” toda vez que surge uma informação que os desagrada. 

Há gente demais sofrendo e grandes riscos á cidadania se avolumando a nossa frente. Já passou da hora de abandonar os discursos furados e investir em competência técnica e medidas efetivas para proteger e manter segura a população brasileira. É lógico que a longo prazo inúmeras outras medidas são necessárias – e aí teríamos que falar muito sobre política – mas para atacar pelo ângulo certo a crise que está instalada em São Paulo e começa a se espalhar para outros estados é necessário primeiro compreendê-la ao invés de tomar medidas imbecis e fascistas como transformar o território brasileiro num imenso reality show protagonizado por bandidos armados e vítimas indefesas sob os auspícios de um Estado inepto e corrupto. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 16/11/2012

4 thoughts on “Sobre a onda de homicídios em São Paulo

  1. Caro Arthur,

    De todas as soluções que vc abordou, apenas concordo com este: “A segunda coisa que tem que ser feita é identificar objetivamente quem ganha o quê com essa situação. Este é o momento mais vulnerável a distorções em toda a análise, porque normalmente as correlações incômodas que surgem da análise estatística são classificadas como “teoria da conspiração” – a despeito do fato de evidentemente haver alguma conspiração acontecendo de fato, como atestam os inúmeros cadáveres.”

    O resto se aplicado na prática, complicaria mais do que resolveria. Acho que nesses casos, pensar em soluções a longo prazo não seja eficiente para este tipo de crime que acredito ser específico, pois na minha visão tem um mandante por trás. Se envolver policiais e políticos, complica mais ainda, embora não seja impossível chegar aos responsáveis. Eu sei que pouco posso dizer, pois não li nada a respeito além deste comentário. Não ligo a TV a séculos e meu único (meio exagero…) contato com o mundo exterior é o facebook. Meus babies não me dão muita folga…. Mas irei procurar saber mais deste assunto mais tarde.

    Abraços!


    1. “O resto se aplicado na prática, complicaria mais do que resolveria.” (Shoy)

      O que, por exemplo?

      “Acho que nesses casos, pensar em soluções a longo prazo não seja eficiente para este tipo de crime…” (Shoy)

      Mas eu não dei soluções para o longo prazo! As análises estatísticas que sugeri são estudos que demoram uma semana ou duas para serem concluídos se forem adequadamente realizadas.

  2. O primeiro ponto importante é a imprensa parar de acobertar o PSDB, e tentar diminuir o poder do PCC chamando-o genericamente de quadrilha não ajuda. O primeiro passo para resolver um problema é reconhecer que ele existe.

    1. Eu estava conversando sobre isso hoje com dois ilustres desconhecidos na sala de espera de uma clínica, onde todos aguardávamos o término das consultas de familiares.

      Um deles disse: “o governo federal já ofereceu tropas do exército para lidar com esse problema mas essa porcaria de PSDB não aceita”.

      O outro respondeu: “o governo estadual sabe que aceitar essa interferência seria o seu fim político, o que provavelmente é a verdadeira intenção do PT ao oferecer as tropas”.

      O primeiro rebateu: “então esse Alckmin é um criminoso, pois está impedindo o PT de ajudar e deixando pessoas morrerem para não comprometer o futuro político do PSDB”.

      E o segundo devolveu: “ou ele sabe que está lidando com a criminosa da Dilma, que pode muito bem estar MAIS UMA VEZ promovendo ações terroristas, desta vez para prejudicar o PSDB, e mandar cessarem os ataques quando o exército chegar para dizer que foi o PT quem resolveu o problema”.

      Sabem o que é interessante nessa história? É que eu acho que os dois podem ter razão. Não afirmo isso, mas também não aposto um centavo contra.

      E, quando um cidadão chega ao ponto de não duvidar que os partidos no poder sejam capazes de fazer essas coisas, é porque o país está atolado na lama da corrupção há tempo demais, fundo demais.

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