Como você classificaria uma substância que possui valor alimentar zero, que seduz para o consumo através de um prazer fugaz, que com a continuidade do uso aumenta o desejo e a probabilidade do consumidor ingeri-la novamente e em maior quantidade, que causa alterações metabólicas, que altera o estado mental e que provoca danos graves e permanentes à saúde? Isso não é uma droga? Pois é, isso é o açúcar. 

Se fosse lançado no mercado hoje, o açúcar seria imediatamente denunciado por biólogos, nutricionistas, dentistas e médicos como um veneno perigoso. O consumo de açúcar causa gengivite, cárie, perda de dentes, alterações de humor, obesidade, diabetes, pancreatite, hipertensão, endocardite, infarto do miocárdio, disfunções hepáticas e provavelmente alguns cânceres. E vicia. 

Colocar açúcar na comida para torná-la mais palatável é como colocar cocaína no ar para torná-lo mais respirável. Funciona, como prova o hábito dos indígenas andinos de mascar folhas de coca, mas somente em dosagens muito baixas e sem qualquer processo de refinamento prévio. Em doses maiores ou mais concentradas do que as contidas em suas fontes naturais, ambas as substâncias são daninhas. 

Ou melhor… O açúcar é muito mais daninho que a cocaína. 

A única estatística de mortes causadas pela cocaína que eu encontrei consta na Wikipédia em inglês, devidamente referenciada: “Unintentional Drug Poisoning in the United States“. Segundo este estudo do Centres for Disease Control and Prevention, ocorrem cerca de 5.000 mortes por ano devidas ao abuso de cocaína nos EUA. 

Já para o número de mortes causados pelo açúcar há inúmeras estatísticas, entre as quais eu selecionei – por me parecer a mais confiável – a informação que consta em no artigo Public health: The toxic truth about sugar. Segundo este artigo do respeitadíssimo periódico científico Nature, ocorrem mais de 35.000.000 de mortes por ano devidas ao abuso de açúcar no mundo. (O acesso ao artigo é pago, então eu me baseei em comentários do The Healthier Life e do Mail Online.) 

Sim, sim, um dos dados é sobre os EUA e o outro é sobre o mundo inteiro. Não são diretamente comparáveis. Mas vamos fazer o cálculo mais conservador possível, exagerando muito – e bota muito nisso – o número de mortes por cocaína no mundo. Os EUA são o maior consumidor de cocaína do mundo, mas vamos supor que houvesse 200 outros países com o mesmo número de mortes por ano devidas à cocaína, o que é obviamente um exagero monstruoso. Ainda assim seriam míseros 1.000.000 de mortes por ano devidas à cocaína contra os 35.000.000 de mortes por ano devidas ao açúcar. 

Rosquinhas com açúcar, uma linha de cocaína e pedrinhas de crack: entre as três, a droga que mais mata no mundo é o açúcar.

As estatísticas acima são relativas apenas ao total de mortes. Se contarmos também os custos sociais devidos a perdas de dias de trabalho, internações, gastos com medicamentos e principalmente a pura e simples infelicidade humana devida às limitações e sofrimentos causados pelo abuso do açúcar, descobriremos que estes números se encontram várias ordens de grandeza acima dos números da cocaína. No popular: o consumo de açúcar traz de milhares a milhões de vezes mais infelicidade, sofrimento e custos médicos e previdenciários do que o consumo de cocaína ao redor do mundo.

Sabe o que isso significa? Que, se você acha que a cocaína deve ser proibida “porque é uma droga” ou “porque faz mal à saúde”, mas acha que deve continuar a ter o direito de comprar açúcar no supermercado, os seus conceitos sobre saúde, políticas públicas de saúde e cidadania estão bem equivocados. 

Não gostou da crítica? Achou que eu cometi um disparate comparando açúcar com cocaína (apesar de a Sociedade Brasileira de Cardiologia e a ANVISA terem dito que açúcar, sal e cocaína são “o trio assassino”)? Ficou estressado com o artigo? Não dá nada – tome uma agüinha com açúcar que isso passa. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 23/11/2012 

 

60 thoughts on “Açúcar não é alimento – açúcar é droga

  1. Existe uma dieta fácil,é diminuir as porções de alimento.
    Demora,mas dá resultado.

    E o bom é que vc pode comer o que gostar.

    Preferir os alimentos cozidos também ajuda.

    1. Aguarda a publicação da dieta que eu pretendo seguir. 🙂

    2. De onde tirasse essa ideia? se uma dieta é baseada no objetivo da pessoa, no biotipo, na taxa de metabolismo basal, na divisão dos nutrientes e a contagem final das calorias. E qual a diferença entre alimento cozido e cru? entre um porco cozido e um ovo cru, com certeza o ovo é mais saudável. Não faz sentido algum o que tu falou.

  2. Sensasional a sua matéria, copiei alguns trechos para o meu blog,mas te dei total crédito com um link direcionado para seu site. Você pode dar uma olhada em http://senhoritajane.blogspot.com.br/,se vc não estiver de acordo eu apago.

    1. Esse link ai está errado, dá numa página sem nada, o correto é
      http://senhoritajane.blogspot.com.br/2013/01/acucar-droga-da-vez-c-omo-voce.html

      Claro que o Arthur vai deixar quando voltar (fico preocupado quando ele some 🙁 )

    2. Não precisa apagar nada, não.

      Grato por citar corretamente a fonte.

  3. Camilly victoria de jesus souza

    12/04/2013 — 13:05

    muito legal isso vai servir pro meu trabalho de escola

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