A resposta é simples: porque são injustos. Mas por que são injustos? Essa é a verdadeira questão. Ao contrário do que normalmente se diz, o motivo pelo qual o racismo e o sexismo são injustos não é porque favorece algumas pessoas em detrimento de outras. 

“Favorecer algumas pessoas em detrimento de outras” é algo justo e razoável em muitas situações. Por exemplo, favorecer o faminto em detrimento do saciado na hora da distribuição do último bife é justo e razoável. Pouco importa que o exemplo pareça tolo: basta uma única exceção para invalidar a regra e eu poderia citar milhares delas. É justo e razoável favorecer o PhD em detrimento do analfabeto para dar aulas na faculdade. É justo e razoável favorecer o doente em detrimento do saudável para ocupar um leito hospitalar. E assim por diante. Portanto, “favorecer algumas pessoas em detrimento de outras” não é motivo pelo qual o racismo e o sexismo são injustos.

Mas nós sentimos que o racismo e o sexismo são injustos. Por quê?

O racismo e o sexismo são injustos porque são coletivistas. Eles despersonalizam o indivíduo e o julgam por supostas características atribuídas a todos os indivíduos que possuam alguma outra característica em comum, o que constitui uma falácia lógica – a falácia de tomar a parte pelo todo – e todo raciocínio ou sistema baseado em falácias assenta sobre bases falsas e gera injustiças.  .

Todos os leões são pardos? Não. Existem leões albinos. 

A falácia de tomar a parte pelo todo permanece mesmo que exista uma forte correlação entre ser leão e ser pardo. Ela só deixa de existir quando existe uma relação de causalidade entre duas características.

Todos os leões são carnívoros? Sim. A causa do carnivorismo do leão é o fato de ser leão.

Neste caso não existe falácia em pressupor uma característica – carnivorismo – a partir da essência do ser. Simplesmente porque não seria aquele ser sem aquela característica.

Voltando ao caso do racismo  e do sexismo, devemos perguntar se existe alguma característica essencial a alguma raça ou a algum sexo que justifique pressupor universalidade a alguma outra característica utilizada para fundamentar a discriminação racial ou sexual. Se houver, a discriminação é justa. Se não houver, a discriminação é injusta. (Atenção para o fato de que “discriminar” significa tão somente “identificar e tratar como diferente” e portanto não significa que este ou aquele tratamento diferente em si seja adequado ou inadequado.)

Existem situações claras em que indivíduos de diferentes raças e diferentes sexos são essencialmente diferentes entre si e que portanto tornam justo e razoável que isso seja identificado e tratado de modo diferente. Por exemplo, existem medicamentos que funcionam melhor em indivíduos brancos do que em indivíduos negros, e vice-versa, o que torna justo e razoável utilizar um medicamento específico conforme a raça do indivíduo. Por exemplo, existem exames médicos que só tem sentido em homens, como o exame de próstata, e outros que só tem sentido em mulheres, como o papanicolau. Isso – e somente isso – constitui discriminação justa e razoável. Mas observe que eu não usei as expressões “discriminação positiva”, “ação afirmativa” ou “condições especiais para reparar dívidas históricas”.

Toda vez que se toma um indivíduo por uma categoria – “branco”, “negro”, “homem”, “mulher” – em qualquer condição que não seja absolutamente essencial, comete-se uma injustiça em relação a esse indivíduo mesmo que a maioria dos indivíduos daquela categoria possuam a tal característica. O que pouca gente parece perceber é que uma injustiça tanto pode ser muito ruim como pode ser muito boa para esse indivíduo – o que não torna a injustiça menos injusta, somente mais interessante para quem dela se beneficia.

Quando a vida de alguns indivíduos “y” é prejudicada em nome dos direitos dos “x”, temos pessoas reais “y” sendo injustiçadas – sacrificadas – em nome de uma abstração que favorece injustamente algumas pessoas “x”. Portanto, o favorecimento aos “x” não é nem sequer decente, muito menos um objetivo a ser buscado.

Mais explicitamente: corrigir supostas “distorções na representação das raças nas universidades” não é um objetivo válido, assim como corrigir supostas “distorções na representação dos sexos nos cargos executivos das empresas” não é um objetivo válido.

O único objetivo válido que pode haver numa intervenção estatal sobre a educação pública é torná-la universal de de alta qualidade, jamais distribuir as vagas com critérios racistas, negativos ou positivos, porque sempre há uma vítima inocente do outro lado da moeda da discriminação racial.

E o único objetivo válido que pode haver numa intervenção estatal sobre a representação dos sexos nos cargos de uma empresa é garantir que não haja discriminação por critérios sexistas, negativos ou positivos, porque sempre há uma vítima inocente do outro lado da moeda da discriminação sexual.

O mesmo tipo de raciocínio vale, evidentemente, para todo e qualquer tipo de discriminação relativo a alguma característica sobre a qual o indivíduo não tenha escolha (raça, cor, sexo, idade, origem nacional ou social, etc.) ou que represente uma escolha lícita (religião, opinião política ou de outra natureza,  riqueza, etc.). Na verdade isso vale até mesmo para algumas características que a lei considera ilícitas, mas que não influenciem a capacidade do indivíduo gozar de algum direito. Por exemplo, viver do crime é ilícito, mas essa característica não influencia a capacidade do indivíduo de gozar do direito de ser julgado de acordo com a lei, por um tribunal imparcial e com garantia de ampla defesa, exclusivamente em relação aos atos que lhe são individualmente imputados. 

 Somente é lícito imputar responsabilidade a um indivíduo – ou seja, conseqüências – sobre os atos e omissões pelos quais ele é individualmente responsável, seja por dolo, negligência, imprudência, imperícia ou responsabilidade objetiva. Qualquer coisa fora disso torna o Estado um violador dos Direitos Humanos e das garantias e liberdades fundamentais da pessoa humana – a pessoa humana individual, que é a única que existe. 

Toda forma de coletivismo é violadora dos Direitos Humanos e das garantias e liberdades fundamentais. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 02/11/2012 

29 thoughts on “Por que o racismo e o sexismo são ruins?

  1. Eu não poderia ter escrito melhor.
    Provou por A + B.
    Eu sempre tive uma preguiça colossal de enraizar o argumento e ir desenvolvendo a lógica a partir desse ponto.
    E o que eu acho mais engraçado Arthur, é que nesse instante vemos o quão autoritaristas são muitos desses defensores quando os ouvimos dizer que os injustiçados da justiça social seriam o “efeito colateral”.
    Chega a dar medo.

    Atenciosamente,

    1. Obrigado, Gelson.

      Sabe, eu sempre quis entender por que Adolf Hitler foi apoiado por 89,9% da população alemã no plebiscito de 19 de agosto de 1934. Eu finalmente entendi isso observando o modo petista de fazer política.

  2. essa foi sempre a minha crítica ao “movimento gay”, e eles me chamavam de homofóbico por isso, mesmo eu sendo gay.

    1. Ah, sim, cansei de ver isso acontecer… Vários amigos meus, gays e lésbicas, foram praticamente escorraçados do movimento LGBTTTTTTTTTTT por “homofobia internalizada”, ou seja, por afirmarem abertamente que não se definem em função de sua orientação sexual. Basta colocar as coisas no patamar da razoabilidade para se tornar persona non grata nos movimentos sociais.

  3. Hoje em dia está na moda chamar de racista, machista, homofóbico e reacionário qualquer um que discorda de politicas afirmativas ou de qualquer meio de favorecer as “minorias”(engraçado quase sempre que incluem as mulheres aí).
    .
    Isso faz com que o “adjetivador” se sinta moralmente superior em relação ao sujeito de que se fala,(o “adjetivado”) no final das contas é um meio de se apossar da “superioridade moral”-falsamente- alegam ser os defensores do bem e, infelizmente, enganam muitas pessoas com essa conversa.
    .
    A verdade é que o estado não tem que defender o bem, a função do estado é defender a justiça e atribuir deveres e direitos individuais e coletivos para aqueles que usufruem de um estado democrático de direito.

    1. 1) As mulheres são 51% da população brasileira. Chamar as mulheres de “minoria” por si só já mostra que certos “movimentos sociais” são mentirosos.

      2) Talvez devamos começar a usar expressões como “malfeitores em pele de cordeiro” para adjetivar quem faz isso. Não tem como dar em processo, porque “malfeitor” é alguém que faz algum mal – e dizer isso não é injúria, nem difamação, nem calúnia.

      3.1) Hmmm… Eu acho adequado defender o bem. Só acho que o bem de x não está acima da autonomia individual de x.

      3.2) Direitos coletivos? ***Alerta Vermelho*** Não existem direitos coletivos, existem direitos difusos. Muito cuidado! Só pode ter direitos uma entidade senciente concreta, nunca um ente abstrato, amorfo, que prescinde de componentes concretos específicos para existir. Caso contrário, em nome do bem estar “do povo” é possível tiranizar cada indivíduo, como em geral toda ditadura faz.

  4. No seu texto você discute a justiça de discriminações sem explicitar seus princípios de justiça. Eu gostaria de discuti-los, mas para isso preciso entender melhor seu ponto de vista. Eu os organizei como segue, possivelmente com algum erro:

    I) Entidades sencientes concretas são dotadas de direitos.
    II) Membros de um grupo qualquer de entidades devem ser tratados igualmente.
    III) Os grupos são constituídos por entidades individuais com um conjunto de características em comum compartilhadas por todos os membros.

    Com os critérios de justiça definidos assim, surgem dois problemas, em primeira análise:

    1) Como escolher os direitos de cada grupo?
    Quais são os direitos de leões? E os de humanos? E os de homens? E os de lobos? E os de ovelhas? Eles poderiam ser definidos arbitrariamente, mas seria mais atrativo moralmente usar algum critério. Qual seria esse critério?

    2) Como formar os grupos?
    Quais são as características relevantes para formação de um grupo? Por exemplo, poderia-se dizer que há o grupo dos humanos e o grupo dos macacos, mas também poderia-se dizer que há o grupo dos mamíferos (que englobaria vários seres, inclusive todos os humanos e todos os macacos).
    Uma solução é fazer todos os agrupamentos possíveis, por exemplo, eu e você participaríamos ao mesmo tempo dos dois grupos, o dos mamíferos e o dos humanos. Por participar do grupo dos mamíferos, teríamos alguns direitos (p. ex.: direito de não sermos machucados sem finalidade justa), e teríamos outros direitos adicionais por sermos humanos (p. ex.: só sermos utilizados em pesquisas científicas sobre efeito de substâncias após elas terem sido testadas em outros animais).
    Essa solução, porém, traria um incômodo: poderia-se criar o grupo A dos humanos, com os subgrupos B (os homens) e C (as mulheres). Por sua vez, o subgrupo C, por exemplo, poderia ser subdividido nos subgrupos D (mulheres com salário até 5000 reais/mês) e E (mulheres com salário acima de 5000 reais/mês).
    Obviamente você poderia definir arbitrariamente quais são os grupos relevantes merecedores de direitos. Porém arbitrariedades teriam baixo poder argumentativo pois poderiam ser refutadas com outras arbitrariedades.

    Se alguma coisa não ficou clara, eu esclarecerei.


    1. I) Entidades sencientes concretas são dotadas de direitos.
      II) Membros de um grupo qualquer de entidades devem ser tratados igualmente.
      III) Os grupos são constituídos por entidades individuais com um conjunto de características em comum compartilhadas por todos os membros.

      I) Sim.
      II) Nem sim, nem não.
      III) Irrelevante do ponto de vista dos direitos.

      Explico.

      I) Seres sencientes são dotados de direitos conforme seu nível de organização e consciência. Por exemplo, um ser humano tem o direito à presunção de inocência, uma galinha tem o direito de ser abatida sem dor.

      II) Essa questão é extremamente problemática. Dizer que “sim”, devem ser tratados com igualdade, conduz ao problema do analfabeto que vota com o mesmo peso do intelectual; dizer que “não” conduz ao problema do político que pode ter arma e do cidadão que não pode. Não precisaria ser assim se a espécie humana fosse racional e honesta, mas infelizmente racionalidade e honestidade são atributos raros entre os humanos. Como tanto o “sim” quanto o “não” geram problemas graves, é necessário formular essa questão de outro modo.

      Pensei muito nesta questão nos últimos anos e cheguei a uma conclusão bastante complexa. Eu diria que há certos direitos que todo ser possui pelo fato de ser o que é. Por exemplo, os direitos citados no item I logo acima. Mas há um complicador. Um ser é o que é individualmente.

      Se a espécie humana inteira involuir ao nível do Pitecantropo dentro de dois segundos e só sobrar o Arthur postando num blog que jamais voltará a ser lido por outro ser humano em seu período de vida, o Arthur continuará com sua essência inalterada. E assim também será se a espécie humana inteira atingir a iluminação e só o Arthur continuar a ser um bruto com a consciência nublada pelas trevas da ignorância.

      Os meus direitos são meus direitos em função do que eu sou, não em função do que os outros são ou deixam de ser. Isso de modo ideal.

      Lógico que na prática a coisa não funciona assim, devido às limitações no reconhecimento e na implementação dos direitos, além de inúmeras distorções que ocorrem em função de interesses e ideologias.

      É em função destas dificuldades que surgem certas simplificações tão perigosas quanto inevitáveis – como por exemplo os Direitos Humanos.

      (Chocado? Muita calma. Já vou explicar.)

      Os Direitos Humanos são perigosos porque podem ser interpretados como ideologia coletivista. Tanto é verdade que isso está acontecendo, como podemos ver na apropriação indevida do campo dos Direitos Humanos pelos movimentos sociais. Para que deixassem de ser perigosos, deveriam se chamar “Direitos de Cada Ser Humano”. Percebes como a proteção parece mais profunda e segura quando assim expressa? Parece porque realmente é.

      Ao proteger cada entidade, protegemos todas. Ao proteger o grupo, permitimos que coletivistas abram brechas na estrutura cultural/legal/econômica/etc. para excluir alguns indivíduos em nome do bem do grupo – e daí para implantar uma tirania que escraviza cada um em nome do bem de todos é um passo apenas.

      Se eu atribuo um direito a um ser pelo simples fato de pertencer a um grupo, não faço isso “porque ele pertence a tal grupo”, mas porque ele individualmente possui uma característica que lhe confere tal direito – característica essa que é compartilhada por todos os indivíduos do tal grupo. Por exemplo, “todo leão tem o direito de não ser obrigado a comer alfaces”, afinal pelo simples fato de ser leão o indivíduo leão é carnívoro.

      No caso dos Direitos Humanos, a ideologia reconhece que todo ser humano – assim definido pelo simples fato de pertencer a espécie Homo sapiens – é dotado de igual dignidade. Eu discordo disso. É fácil ver que há seres humanos voluntária e conscientemente sórdidos, que não possuem nenhuma dignidade. Mas eu não resolvo essa questão alegando que eles não são humanos, nem que a sordidez possa ser alegada como causa de exclusão de certos direitos. Eu resolvo essa questão afirmando que todo ser humano possui potencial para a dignidade e que esse potencial é mais do que suficiente para justificar o que conhecemos como linha ortodoxa dos Direitos Humanos.

      É isso uma gambiarra argumentativa para salvar as aparências? Não. Eu realmente penso assim. Se assim não fosse eu não atrairia críticas afirmando, por exemplo, que o Tribunal de Nuremberg jamais poderia ter condenado os nazistas à morte. Nem se a humanidade inteira tivesse votado unanimemente pela morte dos nazistas eu consideraria isso razoável. Por quê? Porque seres capazes de filosofar sobre a morte não podem ser submetidos à pena de morte – um tratamento potencialmente da mais alta crueldade para um ser capaz de especular sobre o significado da existência.

      Ficou claro o item II?

      III) É isso aí, mas não importa a não ser em termos de facilidade de referência. O direito é sempre individual, a referência pode ser ao grupo por questão se praticidade – desde que essa ressalva permaneça clara.

    2. Ok. Vou apontar três problemas no seu pensamento (conforme o entendo após ter lido essa última resposta sua):

      1) Se eu atribuo um direito a um ser pelo simples fato de pertencer a um grupo, não faço isso “porque ele pertence a tal grupo”, mas porque ele individualmente possui uma característica que lhe confere tal direito

      Abstraindo-a dessa frase, eu enunciaria a seguinte Lei de Direitos de Arthur Golgo Lucas:

      Características individuais conferem direitos a seres

      Um problema sério com esse raciocínio é que podemos conceber um ser cujas características individuais exijam que ele inevitavelmente necessite de algo excessivamente custoso. Um experimento mental desse tipo: imagine um Monstro que tem consciência e sentimentos muito desenvolvidos e precisa comer um sétimo da massa total do planeta Terra por dia para sobreviver. Se ele passar um só dia sem comer sofrerá infinitamente (portanto, ele sofrerá bem mais se não comer do que causará sofrimento se comer). Porém, por meio de uma tecnologia que alienígenas deram aos humanos, temos como escolher se ele deve devorar a Terra ou não. O que seria justo, pelo seu raciocínio, e por quê?

      Esse exemplo é imaginário, mas como você mesmo disse no artigo original:

      Pouco importa que o exemplo pareça tolo: basta uma única exceção para invalidar a regra e eu poderia citar milhares delas.

      E de fato, há várias situações em que esse critério de estabelecimento de direitos conduz a conflitos de direitos difíceis de serem resolvidos. Alguns desses eu levantarei no segundo problema:

      2.1) O leão é carnívoro. Ele tem direito de comer outros animais? Esses animais não tem direito de não serem comidos? Os leões tem direitos de comerem humanos, inclusive?

      2.2) Imagine um homem com uma doença rara. Assim como o leão precisa comer outros animais para sobreviver, esse homem precisa consumir muitos recursos para sobreviver. Os recursos que ele consome poderiam ser usados, dentre outras coisas, para cuidar da saúde de várias outras pessoas. Como características individuais conferem direitos a seres (sua lei de direitos, que eu enunciei) a característica individual doença deve dar direito ao homem de ser tratado. Se não dá, por que não?

      Se o homem não tem o direito de ser tratado, nem todas as características individuais dão direitos. Nesse caso, quais características individuais conferem direitos e quais não conferem? Qual é o critério para se saber se uma determinada característica individual é geradora de direitos ou não?

      2.3) Agora imagine que a doença do homem do item 2.2 pode ser tratada de duas maneiras A e B.
      Se optarmos pelo tratamento A, o homem terá várias limitações na sua vida. Porém, consumirá recursos que seriam utilizados por uns poucos indivíduos saudáveis apenas.
      Se optarmos pelo tratamento B, o homem terá uma vida 100% normal. Mas o tratamento B é dispendioso: consome recursos que poderiam ser usados para tratar de milhares de outros doentes.

      Esse homem tem uma característica individual, a doença. Conforme enunciado, características individuais geram direitos. Porém, uma mesma característica individual pode gerar vários tipos de direitos (vou dar mais um exemplo disso no item 2.4). Como escolher quais direitos um ser tem devido a uma determinada característica individual? No exemplo, o homem teria direito ao tratamento A ou ao B (ou, possivelmente, a nenhum)?

      2.4) Eu posso comer carne exclusivamente por prazer? Posso comer quanta carne quiser?

      3) todo ser humano possui potencial para a dignidade e […] esse potencial é mais do que suficiente para justificar o que conhecemos como linha ortodoxa dos Direitos Humanos

      Suponha que após pesquisas exaustivas, cientistas concluam que 10% da população é incorrigivelmente corrupta, cruel e egoísta. Elas inevitavelmente vão tratar os outros mal, e sempre que a situação permitir, não hesitarão em cometer assassinatos, roubos, estupros, etc. Ou seja, eles não têm potencial para dignidade. Essa parcela da população não tem direitos humanos? Podemos escravizá-los? Maltratá-los?

    3. Bons questionamentos. Responderei provavelmente amanhã.

    4. Bá, passei os dois últimos dias revendo a Teoria dos Jogos para postar a atualização no artigo sobre a contagem de pontos no futebol e esqueci de responder a este comentário. Calma, não vou me esquecer dele… Mas não vai dar pra ser hoje de novo. 😛

    5. Acho que esse acabou ficando sem resposta.
      Realmente,o argumento do Elvis foi convincente. Desculpa “ressucitar” o tópico mas é que acabou ficando incompleto o raciocínio.

    6. Bom, então vamos lá.

      Em primeiro lugar, vamos deixar claro uma coisa: existem cenários perder-perder muito fáceis de construir como hipótese e muito difíceis de ocorrer como realidade.

      Quando eu era moderador da comunidade de Direitos Humanos do hoje extinto Orkut, volta e meia surgia a pergunta: “você torturaria ou não torturaria o terrorista confesso que está debochando da sua cara dizendo que escondeu uma bomba capaz de matar dez milhões de pessoas e espalhar radiação suficiente para contaminar uma área imensa, o que fará outros dez milhões de pessoas sofrerem terrivelmente?” ou algo ainda pior.

      Esse tipo de pergunta gerava um tipo de discussão que acabava levando ao mesmo exato raciocínio da piada abaixo:

      – Você transaria comigo por um milhão de dólares?

      – Claro que sim!

      – E por cem dólares?

      – Claro que não! O que você está pensando que eu sou, alguma prostituta?

      – Bem, isso ficou definido na sua primeira resposta. Agora nós só estamos discutindo o preço.

      Isso é o que acontece sempre que montamos cenários de conflitos de direitos. Primeiro o monstro do Elvis é combatido porque quer comer um sétimo do planeta por dia. Depois ele é combatido porque quer comer um ser humano por dia. Depois ele é combatido porque quer comer uma coxinha de galinha por dia, esse monstro atrasado que não quer virar vegan!

      Em um cenário perder-perder, qualquer resposta leva a uma perda. O leão tem o direito de comer a zebra? Responder “sim” leva à morte de zebras, responder “não” leva à morte de leões, e para cada uma dessas respostas isoladas a crítica é sempre fácil: “como você é malvado, a sua resposta leva à morte de milhares de animais”. Só que não. O problema não é a minha resposta. O problema é a situação perder-perder.

      Voltemos agora ao problema do homem com a tal doença rara. Esta é outra situação perder-perder. Qualquer que seja a minha resposta, ela implicará alguma perda. Novamente, o problema não é a minha resposta. O problema é a situação perder-perder. Só o que me cabe é escolher o que perder.

      Se eu escolher pelo critério proposto pelo Elvis, eu estarei cedendo ao coletivismo. Pode parecer bom hoje, pois mais gente ficaria com uma saúde melhor, mas essa é a terrível armadilha do coletivismo: hoje eu tenho que dar um fio de cabelo pelo “bem comum”, amanhã eu serei assassinado para doar meus órgãos para seis pessoas diferentes que estão na fila dos transplantes de córneas, fígado, rins (2), coração e fígado. Afinal, eu sou um, eles são seis. Melhor morrer um do que seis, não é?

      Para quem acha que o mundo nunca chegaria a isso, eu lembro que hoje existem bilhões de pessoas sem água potável, milhões de pessoas morrendo de fome ou de violência, diversas ditaduras cruéis cometendo os mais bárbaros crimes mundo afora, e ninguém está fazendo nada a respeito. Pelo contrário, a Organização das Nações Unidas impede que alguém ajude os povos massacrados alegando que isso seria interferir na soberania dos povos. Portanto, não me argumentem com uma suposta existência de limites para a barbárie. Isso non ecziste.

      O princípio que eu defendo, portanto, é o único que pode me manter em segurança – e a qualquer pessoa. O coletivismo (identificado com a esquerda) coloca a todos em risco permanente. O egoísmo (identificado com a direita) coloca a todos que não forem economicamente dominantes em risco permanente. Somente o individualismo solidário (atenção: isso é um pleonasmo) pode colocar todos em segurança. Somente a proteção do indivíduo – de todo e qualquer indivíduo indistintamente – pode proporcionar segurança a todos.

      Esse princípio, é claro, é altamente inconveniente para a elite econômica que considera seu direito ter no bolso uma fortuna equivalente ao PIB de diversos países. Isso porque a proteção de todo e qualquer indivíduo indistintamente exige uma completa reformulação dos direitos que regem as sociedades capitalistas. E isso coloca em risco o poder dos detentores de imensas fortunas.

      O sistema de saúde que eu afirmo ser não apenas desejável mas sim necessário para satisfazer o que eu considero o direito básico à saúde é que cada cidadão seja atendido pelo SUS imediatamente e com a qualidade de um Sírio-Libanês 24 h/dia 365 dias/ano em qualquer lugar do país. Não aceito o argumento de que isso é economicamente inviável – não enquanto um único indivíduo puder voar de avião, ou ter uma casa com mais de 100 m². Ou alguém vai argumentar que o direito de andar de avião sob alguma circunstância pode ser maior do que o direito de não sofrer por falta de atendimento médico de primeira qualidade?

      “Ah, Arthur, mas isso é coletivismo!”

      Não, não é. Todo indivíduo que não vive pelado e isolado no meio do mato usufrui das benesses da civilização. É dever de cada um que usufrui das benesses da civilização contribuir para a manutenção destas benesses. E deve contribuir mais quem usufrui mais. E o parâmetro desse usufruto é o atendimento das necessidades mínimas de todos com dignidade. E no que diz respeito ao atendimento à saúde em momentos de fragilidade não há como aceitar nada menos do que o máximo, do que o melhor existente no mundo.

      Noutros casos isso não será verdadeiro. Todo mundo deverá ter o direito de comprar o melhor automóvel existente no mundo, mas não o direito de ter o melhor automóvel do mundo. Para comprar é necessário produzir. Para ter sem produzir é necessário obrigar alguém a produzir. E eu sou da opinião de que só se pode obrigar o cidadão a contribuir com uma parte do que ele aufere, não se pode obrigar o cidadão a produzir. Essa é a diferença entre a justa cobrança de impostos para sustentar um Estado que garante a organização da sociedade no mais alto patamar civilizatório possível e a escravidão, como não sabem ou fingem que não sabem distinguir os anarco-capitalistas que se apresentam como “libertários”.

      Enfim, a questão dos irremediavelmente indignos. Ele existem. Tivemos mais de um na presidência da República. Há milhares deles ocupando cargos eletivos no país ao invés de apodrecer na cadeia, que é o lugar deles.

      Antes de prosseguir faço uma pequena ressalva: o psicopata. É uma exceção, mas é relevante. O psicopata não tem culpa de ser psicopata, mas também não pode ser deixado solto quando representa perigo (a maioria dos psicopatas não representa perigo). Nestes casos, minha prescrição é simples: prisão de luxo. Que seja feito o máximo possível para que estes indivíduos tenham uma vida de classe média alta, porém sem a liberdade necessária para colocar outros em risco. É o mais justo. E é um peso pequeno. Mas vamos ao caso geral.

      O caso geral é o sujeito que é capaz de compreender o sofrimento mas faz coisas que geram sofrimento. Roubar, furtar, cometer estelionato, mentir na política, matar, agredir, estuprar, etc. Estes indivíduos são perniciosos à sociedade (isto é, a cada indivíduo que pode ser alvo das conseqüências das ações deles). Portanto, que sejam mantidos afastados à força, para que não representem risco. E que permaneçam afastados a força enquanto representarem risco. Mas não do mesmo modo que os psicopatas. Sem mamata para safado. O direito que eles têm é de não serem maltratados. Já os privilégios de quem vive em liberdade eles precisam conquistar, sendo a liberdade o último deles.

      É uma escada: o sujeito que propositadamente (ou por imperícia, imprudência ou negligência) causou danos a terceiros será privado de sua liberdade e terá seus direitos mínimos garantidos (conforto biológico básico, como higiene, conforto térmico, cama decente, alimentação balanceada, etc.) e a oportunidade de conquistar privilégios durante o período mínimo da pena. Se ele demonstrar capacidade de convívio social harmônico ao final da pena, ele é solto. Caso contrário, permanece preso. Ninguém tem direito à liberdade às custas da vida de terceiros, nem o direito de certamente cometer uma agressão ou roubo ou estelionato a cada trinta anos.

      Mas é necessário um Estado muito honesto para implementar estes princípios com dignidade e sem abusos ou negligências.

    7. Isso deveria virar um artigo autônomo. 🙂

    8. O Arthur tarda mas não falha. Concordo que deveria virar um artigo.

    9. Eu ando estudando muito nos últimos dias. Coisas pessoais: dieta, exercícios, etc. MInha vida pessoal atrapalha minha vida virtual. Mas me puxa as orelhas de novo se eu demorar para transformar isso em artigo que eu me mexo. 😛

      Ficou tudo claro?

    10. Ficou sim! Queria saber argumentar usando a lógica tão bem assim.

  5. 1) Hahahahaha, de fato, é muito engraçado!
    .
    2) Acho que soa meio soft demais, eu sou um pouco mais hardcore.
    Antigamente o emocional das pessoas não era feito de açúcar como hoje em dia.
    .
    3.1)É válido defender o bem, só não é uma obrigação do estado, e concordo 100% com sua última colocação..
    .
    3.2)Verdade, não tinha pensado por esse ponto.

    1. 3.1) Entendi. Mas acho que sou um pouco mais radical em relação ao que exijo do Estado.

  6. Postei um comentário gigolesco mas não apareceu, estou com preguiça de digitar de novo.
    Concordo com o que você disse no último “item”.
    Arthur gostaria que você fizesse algum post sobre pseudointelectuais, adoraria ouvir sua opinião a respeito e debater se for o caso.

    1. É esse recuperado acima?

  7. Sim, esse mesmo.

  8. Essa discussão vai acabar invariavelmente falando de Rawls.

    1. Mindigo, deixa eu te pedir uma coisa. Para de dar spoiler. Para de entregar minhas estratégias. 😀

    2. Já que vocês começaram, vão adiante! 🙂

      Falem de Rawls…

  9. UHauhahuhuahuauhauhuha, mals ai.

    1. Mindigo, usa o Reply pra manter as respostas logo abaixo do comentário a que elas se referem. Assim a gente não perde a seqüência.

  10. Gostei muito da sua argumentação Elvis!

    O pessoal dos Direitos Humanos falaram que:”Todo ser humano deve ser tratado com dignidade”,por algum motivo não é?!

    Não é uma simples “frase de efeito”,tem um bom argumento por trás disso.

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