Tem gente que não consegue ficar uma semana longe da musculação, ou de alguma atividade física vigorosa. Eu não consigo ficar muito tempo longe da neuronação – preciso de algum estímulo intelectual para manter os neurônios em forma. E não precisa ser nada realmente complexo, basta que seja uma boa alternativa a vegetar em frente à TV. 

Este artigo nasceu na caixa de comentários de outro artigo, quando o Félix comentou: “Relaxar a mente daquilo que é estrito racional. Não somos 100% racionais, e por isso mesmo precisamos relaxar da racionalidade de vez em quando.” Eu comecei a escrever a seguinte resposta: 

Hmmm… Eu não vejo necessidade nem vantagem em “relaxar da racionalidade”. Tipo… Se eu quero relaxar mesmo, uma “internação de férias” na praia naturista funciona às mil maravilhas. Durmo a qualquer hora, acordo a qualquer hora, como o que bem entendo na hora que bem entendo, tomo banho de mar a qualquer hora e leio artigos científicos e/ou técnicos sobre diversas áreas do conhecimento para me divertir. 🙂 

Isso ocorre naturalmente. Se eu fico muito tempo sem alimentar os neurônios com informações novas para digerir, começo a ficar entediado. Dali a uns dias eu já me vejo fuçando em alguma banca de revistas ou livraria em busca de algo para os neurônios mastigarem.

Se eu estiver no campo, num acampamento, isolado do mundo, a algumas horas de caminhada da banca de revistas e da livraria mais próximas, eu dou um jeito diferente: começo a bolar alguma pioneiria ou a tentar resolver algum “problema” do acampamento de um modo mais complexo que o usual. Por exemplo, uma vez eu… 

E foi aí que me dei conta que o comentário tinha que virar um artigo autônomo. 

Eu tenho uma tese a respeito de como relaxar para quem tem trabalho intelectual e para quem tem trabalho manual: é necessário inverter o padrão nas férias. Quem resolve equações tem que passar as férias quebrando pedra, quem quebra pedra tem que passar as férias resolvendo equações – mas sem abandonar completamente suas preferências. 

Jogar-se numa espreguiçadeira e apodrecer sob as intempéries é uma delícia – nos três ou quatro primeiros dias. Depois disso o corpo e a mente começam gradativamente a pedir um pouco mais de cuidado. Quem vive de atividade intelectual começa a sentir falta de ler um jornal. Quem vive de atividade manual começa a sentir falta de movimento. E aí damos ao corpo e à mente o que eles estão pedindo – normalmente do jeito errado, simulando justamente a rotina que nos estressava. Precisamos de outro tipo de equilíbrio. 

Tendemos a gostar de fazer aquilo que sabemos fazer bem e a não gostar de fazer aquilo que não sabemos fazer bem. Pense em um matemático jogando futebol e em um jogador de futebol resolvendo equações. Captou a idéia? É por isso que no verão não vemos os caras do Prêmio Nobel disputando pelada na praia, nem os titulares da Seleção Brasileira de Futebol curtindo umas aulas de geometria analítica. Mas isso é burrice de ambas as partes. Faz muito bem à mente e ao corpo realizar eventualmente atividades que mexam com nossas habilidades sub-ótimas. 

Quando queremos ou precisamos descansar, relaxar, recarregar as baterias, é importante deixar de sobrecarregar as funções que utilizamos sob a pressão do trabalho – até porque os circuitos neuronais e neuromusculares associados às atividades com exigência de desempenho estão também associados com a tensão que acompanha a exigência de desempenho. E a melhor forma de fazer isso é realizar deliberadamente atividades que demandem habilidades em relação às quais não temos e jamais teremos qualquer exigência de desempenho. Ou seja, atividades nas quais podemos nos dar o luxo de sermos ruins. Algo assim como o matemático jogar bola e o boleiro resolver equações. 

Lá pelas tantas, entretanto, acontece algo interessante: a mente e o corpo “pedem” envolvimento com uma atividade que exija nossas habilidades de alto desempenho. É o momento em que o intelectual em férias tem vontade de ler algo mais complexo que o jornal diário e que o atleta profissional tem vontade de realizar alguma atividade vigorosa. Neste momento é justo atender às reivindicações da mente e do corpo, mas sem exigência de desempenho, apenas pelo prazer de fazer um pouco aquilo que se sabe fazer bem. 

Eu sou um ativo solucionador de problemas. Não me importa muito a complexidade do problema, eu gosto de encontrar soluções. Tanto faz encontrar uma solução para a paz no mundo quanto para evitar o trabalho de lavar panelas em um acampamento. Qualquer solução me diverte. 

Naquele acampamento uma das coisas que fiz foi inventar um modo de “lavar” as panelas mais facilmente: eu construí um guindaste de bambu, de modo que as panelas pudessem ser colocadas cerca de 20 cm submersas a mais ou menos cinco metros da margem, entre os juncos, sem que alguém tivesse que entrar na água. Desta forma foi possível suspendê-las e colocá-las no local onde mais havia peixes no lago, sem espantar os peixes. 

A solução foi extremamente eficaz: em menos de vinte minutos, as panelas voltavam limpinhas, limpinhas, sem qualquer esforço, nem gasto de sabão. 🙂 

Estes momentos são mágicos. São os momentos em que associamos novamente o prazer à atividade na qual costumamos sofrer exigência de desempenho. São os momentos em que realmente recarregamos as baterias.

O importante é realizar deliberadamente atividades que não exijam as habilidades em relação as quais usualmente sofremos exigência de desempenho e quando a mente e o corpo pedirem realizar despreocupada e prazerosamente uma atividade que requeira estas habilidades. Essa é a fórmula. 

É por isso que, antes mesmo da bicicleta que vou me dar de presente de Natal, eu adquiri um bom livro didático sobre Teoria da Probabilidade e Estatística para devorar nas férias… 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 16/12/2012  

 

8 thoughts on “Como relaxar nas férias

  1. Acho que eu já comentei que faço faculdade de Letras. O ano letivo costuma ser estressante, porque são prazos, obrigações e tudo o mais. Mas quando entro em férias, a coisa que eu mais gosto de fazer é justamente o que eu faço o ano inteiro: análise, interpretação, tradução etc. Só que de um jeito muito mais leve: eu pego tudo aquilo que eu tive que deixar pra trás durante o ano letivo e descanso fazendo exatamente a mesma coisa, pelo puro prazer de fazer uma coisa que eu adoro sem nenhuma pressão em cima de mim.

    1. Hmmm… Eu recomendo experimentar algum hobby que exija outra habilidade, do tipo ir rachar lenha no estilo naturista ou montar móbiles, o que parecer mais relaxante. 🙂

    2. Bom, eu não sou muito boa em trabalhos manuais. Talvez essa ideia do móbile dê certo. =)

  2. Eu parto do princípio, caro Arthur, de que se passo um ano inteiro em atividade intelectual extrema, pelo pelo por uma semana, nas férias, eu desligo minha mente de toda e qualquer racionalidade ou tentativa de raciocínio complexo. Para mim tem dado certo. Por exemplo: quando passo o ano inteiro dedicado à pesquisa, nas férias ou quando termino de exigir do lado racional, vou à minha cidade e faço parte da novena da padroeira, mesmo eu não sendo católico, apenas pelo prazer de me envolver. Me sento com a peãozada da fazenda e ponho a conversa em dia, ajudo meu pai com as vacas. Trabalho manual e nenhuma leitura por alguns dias “recarregam” as baterias da minha mente. Depois de uma semana, quando minha mente simplesmente pôde se desligar, é que começo a religá-la aos poucos para o raciocínio complexo. Isso não só relaxa, como deixa os pensamentos mais claros, pois ficam na gaveta mofando um pouco e, quando resgatados, estou com a cabeça mais fria para lidar com eles.

    1. Pois então! O que tu fazes é bem parecido com o que eu sugiro! 🙂

    2. Pois é aí onde entra a arte: se ela fizer sentido pra mim, deixa de ser um “descanso de tela” do meu cérebro, pois a função dela é fazer sentir, e não fazer entender.

  3. Não preciso de férias.

    Procuro ser criativa em tudo que faço,brincar de viver.

    O que para muitos é um saco,para mim é uma alegria.

    Tento fazer bem aquilo que não gosto,como passar roupa,para não ter que refazer nada.

    Parece que imaginação e prazer estão em falta no mercado.

    A vida é uma aventura, um imenso parque de diversão.

    Divertimento é uma boa leitura,um filme incrível,um passeio solitário,receber os amigos.

  4. Para todos BOAS FESTAS !

    Como o mundo nao acabou.
    A vida continua no tear dos ventos.
    Na quilha da alegria.
    Pelas cores do arco-íris.

    Desejo muita paz,saúde,esperança,fé,magia,amor.

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