Às duas horas da madrugada do último dia 4 o porteiro aqui do prédio bateu na minha janela (apartamento térreo) para me avisar que um pedreiro (não o trabalhador da construção civil, mas o usuário de crack) tinha acabado de quebrar a janela do motorista do carro do meu pai (que estou usando desde que o meu carro foi batido) para roubar o rádio. 

Cheguei rapidamente ao local, mas o ladrão já havia se evadido. O miserável quebrou a janela do carro, tentou arrancar o rádio com tanta força que destruiu o equipamento no processo, quebrou o painel do carro, remexeu rapidamente no porta-luvas e acabou fugindo sem levar nada. Hoje eu levei o prejuízo. Amanhã será você. 

Aproveito a ocasião apenas para reiterar duas verdades óbvias que nosso governo e nossa grande mídia parecem ignorar – por cegueira ou por vontade – a respeito da questão das drogas e do aumento da delinqüência em geral. 

Primeira, que o atual modelo de enfrentamento da questão das drogas é um fracasso absoluto. Nunca tivemos tanta gente usando drogas nas camadas econômicas mais baixas da população, nunca tivemos tantos pequenos crimes perpetrados para a satisfação das necessidades geradas pelas drogas e nunca tivemos tanta repressão em tempo de plena vigência da normalidade democrática. Vivem a mesma situação todos os países que implementaram modelos de “guerra às drogas”, de forma tanto mais grave quanto maior a intensidade da repressão. É uma estupidez completa investir neste modelo falido.

Segunda, que a solução nunca foi, não é e nunca será endurecer a lei, aumentar penas, aumentar o alcance das penas, submeter a sociedade a um Estado Policial cada vez mais invasivo e controlador da vida do cidadão, etc. Eu fiquei com raiva na hora, é claro, mas a emoção não me cega para o fato óbvio que o miserável que me roubou não aprenderia nada e não agiria de modo mais honesto e produtivo no futuro se eu o tivesse pego no ato, enchido de porrada e transcafiado numa cadeia por um a quatro anos. Ele sairia de lá pior do que entrou, com quase 100% de certeza. 

Precisamos de uma visão mais ampla, mais solidária e mais inteligente sobre a questão das drogas. Esta é a mais importante questão de segurança pública do início do século XXI no Brasil e provavelmente em todo o mundo ocidental. Não é mais possível ouvir somente as vozes retrógradas que nos prescrevem cada vez mais veneno para tentar corrigir uma sociedade já extremamente intoxicada.

Precisamos acreditar mais no potencial dos seres humanos e agir de acordo com esse entendimento, ou perderemos esta guerra não para as drogas, mas para as supostas soluções que apenas transformarão nossa sociedade em um antro de intolerância e repressão. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 06/01/2013

 

8 thoughts on “Drogas e furtos na madrugada

  1. Industria das drogas é um mercado gigantesco, que gera muitas divisas para governo, empresas privadas de segurança, presídios, justificar toda medida falaciosa para controlar o população com o argumento de está protegendo.

    1. Pouca gente percebe isso. E menos ainda se importam com isso. 🙁

  2. Manga-Larga

    07/01/2013 — 09:27

    Você viu o projeto do dep. Osmar (na) Terra que pretende não prender, mas internar compulsoriamente usuários de drogas? (Lógico que não de álcool ou cigarro) O que pensa a respeito?

    1. O usuário de drogas que deve ser internado compulsoriamente é aquele – e somente aquele – que já não tem uma vontade a ser respeitada. É o usuário que se tornou disfuncional na família, nos estudos, no círculo social e no trabalho em função da droga. É o usuário que gasta tudo que tem, que se prostitui ou que comete furtos ou roubos para conseguir se abastecer de droga. Em resumo, é uma pessoa que precisa realmente de socorro porque não consegue mais viver de modo saudável, digno, satisfatório.

      Óbvio que não é essa a ideologia desse projeto.

      O discurso do Osmar Terra é nitidamente alinhado com a “Guerra às Drogas” e com o fascismo médico. Ele desqualifica de antemão qualquer usuário de qualquer droga como “dependente” e portanto incapaz de raciocinar de modo razoável e de tomar decisões por conta própria.

      Se o objetivo do Osmar Terra fosse o que alega ser, ele teria que apresentar uma lista bastante clara de critérios objetivos para serem checados antes de uma internação compulsória: o usuário mantém bom relacionamento com a família e com amigos que não usam a droga? O usuário apresenta bom desempenho nos estudos? O usuário continua trabalhando com bom desempenho? O usuário consegue pagar suas contas e cumprir com suas responsabilidades?

      Uma pessoa que satisfaça critérios assim não precisa e não pode ser internada contra sua vontade, mas eu não vejo essa ressalva no discurso do Osmar Terra. Pelo contrário, eu vejo uma incrível ênfase na decisão do médico, que é alçado ao nível de dono da razão independentemente dos fatos: pelo discurso do Osmar Terra, basta que o médico opine que deve haver a internação compulsória do usuário e este perde qualquer direito de tomar decisões sobre sua própria vida.

      Eu já tratei desse tema e na ocasião pouca gente além de ti discutiu: http://arthur.bio.br/2011/08/02/drogas/proposta-de-criterios-para-intervencao-e-tutela-temporaria-de-usuarios-de-drogas

      ..

  3. Apesar de aprovar a liberação das drogas, creio que situações como essa (ou médicos operando chapados, etc) tenderão a aumentar. Também acho que delitos cometidos sob influência de drogas não podem ter algum tipo de atenuante. Penso que a pena de furto poderia ser substituída por indenização da vítima mais liberdade condicional, ou prisão (para os reincidentes) dignas (mas sem luxo) separada de bandidos profissionais. Prisão não é só recuperação, é exemplo e castigo. O fato de o sujeito sair pior que entrou não deve ser motivo único para evitar prendê-lo.

    1. Concordo que prisão também é castigo, mas não faz sentido prender alguém para deixá-lo pior do que estava. A sociedade que faz isso dá um tiro no próprio pé.

  4. Aqui em São Paulo o [des]governador Geraldo Alckmin resolveu instituir a internação compulsória de viciados em drogas ilegais. Tô vendo que isso vai dar m***a.

    1. Se não usar critérios razoáveis, vai. E o que são critérios razoáveis? Na minha opinião, isso aqui: http://arthur.bio.br/2011/08/02/drogas/proposta-de-criterios-para-intervencao-e-tutela-temporaria-de-usuarios-de-drogas

      Observa duas coisas:

      Primeiro, que o meu foco não é “uso de drogas” e sim “perda de controle”, ou seja, eu me foco na capacidade do indivíduo se autodeterminar e exercer sua cidadania, não na questão moralista/ideológica centrada no combate às drogas.

      Segundo, que somente um dos meus critérios é um critério médico, ao contrário do que está sendo imposto no Brasil, que é uma avaliação puramente médica/impositiva da questão.

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