Por tudo que é mais sagrado, eu estou coberto de nojo por uma declaração perversa que vi no Youtube: “Angelina Jolie breast mutilation agenda exposed”. Já chegamos mesmo ao nível de perversão necessário para “respeitar” esse tipo de acusação infame e execrável? 

Imagine você que um exame médico traga uma péssima notícia: você tem 87% de chance de desenvolver uma doença fatal, cujo desenvolvimento pode ser lento e doloroso e cujo tratamento é desconfortável e debilitante, além de não ser eficaz em muitos casos. 

Imagine você que é jovem, que tem filhos pequenos, que tem muitos planos para a vida e que deseja muito viver com uma boa qualidade de vida… E que há 87% de chance de que tudo isso seja destruído pela doença. 

Imagine você que sua mãe já tenha sucumbido a essa mesma doença, morrido jovem, sofrido muito, e que você tenha acompanhado a agonia dela e de toda a família. 

Imagine você que a medicina conheça um modo de reduzir sua chance de sofrer tudo isso de 87% para menos de 5%, mas – sempre tem um “mas” – o método é cirúrgico, exige a remoção de tecidos e pode deixar cicatrizes e modificar um pouco o formato de seu corpo, o que faz você temer não somente por sua vida e saúde física, mas também por sua auto-estima. 

Imagine você que, após meses de angústia e dúvidas, conversas com sua família, conversas com seus médicos, mais conversas com sua família, mais conversas com seus médicos, você finalmente toma a difícil decisão de realizar um procedimento preventivo. 

Imagine você que, após toda essa tensão, você finalmente realiza o procedimento e corre tudo bem, seu corpo reage bem, sua família coopera com atenção e carinho, e você sente um grande alívio, começa a superar o trauma.

Imagine você que finalmente se dispõe a comentar o assunto em público, porque você é uma figura pública, e relata com a melhor das intenções todo o sofrimento por que passou, todo o processo de enfrentamento da doença e os sentimentos que que tinha antes, durante e depois do procedimento preventivo radical a que se submeteu para salvar sua própria vida. 

Imagine você que suas declarações a respeito sejam cuidadosas e responsáveis, evitando afirmar que sua solução é a melhor possível, ou que sirva para todo mundo, ou que é a coisa certa a fazer, e que se limite a sugerir que todo mundo que corre um risco semelhante ao que você correu deveria ter o direito e a oportunidade de tomar uma decisão bem informada, assim como você teve o direito e a oportunidade. 

E então um bando de pervertidos acusa você de “querer mutilar pessoas saudáveis” e vomita todo tipo de baboseiras ideológicas sobre “sustentar a indústria do câncer” e “celebrar o abuso médico contra as mulheres” com chamadas odiosas do tipo “Angelina Jolie breast mutilation agenda exposed “. 

Eu fico imaginando como deve se sentir uma pessoa que tenha passado por tudo isso e depois veja esse tipo de comentário na grande mídia ou na internet. Deve doer na alma. Deve magoar muito. Deve fazer a pessoa se sentir ferida, sem chão, sem saber o que fazer. Deve intimidar

E o que faz uma pessoa assim magoada, ferida, intimidada? Na maior parte das vezes, estas pessoas se calam. Deixam de defender o que pensam. E deixam assim o terreno livre para a expansão das ideologias porcas dos intimidadores. É uma tática brutalizante, maldosa, perversa, mas muitas vezes eficaz. 

Eu não acredito que Angelina Jolie vá se calar perante estes pervertidos. E não acho que ela jamais vá conhecer este blog e ler este artigo, até porque ela não fala português e na língua dela já há muito lixo e muitas manifestações de apoio sendo escritos. Mas faço absoluta questão de fazer o registro: vida longa à Angelina Jolie – e que as injúrias obscurantistas que estão sendo lançadas contra ela voltem para os esgotos de onde saíram. 

Se a decisão de Angelina Jolie foi a mais acertada? Não sei. 

Se eu tomaria a mesma decisão no lugar dela? Não sei. 

O que eu recomendaria a outras mulheres? O mesmo que Angelina Jolie recomendou: que se informem, que conversem com seus médicos e com suas famílias, e que tomem suas próprias decisões com base no melhor conhecimento disponível e de acordo com seu melhor entendimento. Mas acima de tudo eu recomendo que não se deixem intimidar por nenhuma pirotecnia ideológica odiosa ao decidir o que é melhor para suas vidas. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 16/05/2013

16 thoughts on “Angelina Jolie quer mutilar mulheres saudáveis?

  1. O caso é que deve ter muita, mas muita gente mesmo, comentando o fato a partir do que leu nos jornais, sem ler o artigo original (que foi postado numa coluna onde são publicadas opiniões pessoais, não artigos jornalísticos) no NY Times. Não sei se foi a decisão acertada, mas foi a que Jolie escolheu, e não me parece ter sido tomada de veneta. É um texto bastante objetivo e quem critica de maneira tão leviana certamente não deve ter lido nem uma linha sequer. Minha única crítica ao artigo dela é que, em seu lugar, eu teria enfatizado mais a individualidade do caso (mais na base do ‘isso serviu pra mim, mas não necessariamente vai ser pra você’) e a necessidade de se informar não só sobre a doença (ou a possibilidade dela) mas também sobre as opções. Ela fala disso, claro, mas sendo ela uma celebridade – e seguramente formadora de opinião- um pouquinho mais de cautela no tom teria sido o ideal. De qualquer forma, é um relato particular. Me preocupa mais o tom dos jornais ao comentar o caso…

    1. Foi ótimo teres dado este alerta. Postei o texto completo do artigo da Angelina Jolie e mais outros dois sobre o episódio, todos originalmente publicados no The New York Times, para quem quiser conferir os detalhes e os argumentos civilizados.

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      Eu bem que queria ter paciência para traduzir… Quem sabe um dia desses, milhares de anos após todo mundo esquecer o assunto?… 😛

  2. Eu sei perfeitamente o que é passar por uma situação dessas, ainda mais quando se tem filho pequeno. Com certeza foi uma decisão difícil para ela. Os críticos de plantão não perdem uma, né? Ela merece respeito e solidariedade!

    1. Eu considero a decisão dela perfeitamente passível de análise e também de crítica. Mas ler algo como “Angelina Jolie breast mutilation agenda exposed” me fez ferver o sangue, isso é inaceitável.

  3. Não sei se ela tomou a decisão certa do ponto de vista médico. Mas ela tomou a decisão de optar pelo que lhe pareceu ser o menor risco. Poderia ter escolhido fazer exames frequentes? Sim. Mas a decisão foi dela. Tinha que pagar um preço e aceitou isso.

    Mesmo quem discorda deveria respeita-la. Certamente não foi uma decisão fácil ou agradavel.

    1. Exato. Mas a primeira coisa que fizeram foi acusá-la de patrocinar um complô de mutilação de mulheres com objetivos capitalistas e misóginos. Isso fez com que quaisquer críticas sóbrias – desesperadamente necessárias para estabelecer um debate esclarecedor e produtivo, dada a radicalidade do procedimento que ela escolheu – simplesmente submergissem em meio à cacofonia de insultos e acusações disparatadas.

      O mal que essa turma de patrulheiros ideológicos agressivos faz à humanidade é impressionante.

  4. Eu coleciono 5 óbitos familiares por enfarto. Eu próprio já fui parar 3 vezes na UTI do Instituto de cardiologia para ser submetido a um CAT. Numa das idas fui brindado com 2 pontes de safena e uma mamária. Todas as minhas perspectivas são de um futuro curto e incerto com desfecho numa cardiopatia isquêmica. As chances de que eu venha a morrer de qualquer outra patologia que não esteja relacionada com a acima citada é de uma em cinquenta (e não me perguntem como os matemáticos chegam a essas contas!). Se, por um dos artifícios tecnológicos a disposição da medicina e por um dos artifícios burocráticos a disposição do poder econômico, eu furasse a fila e fosse submetido a um transplante de coração, conseguiria aumentar significativamente as minhas chances de, por exemplo, continuar a ser um dos comentaristas mais assíduos do Pensar Não Dói! Mas a mídia não se preocuparia muito com isso, por que a minha imagem não vende nada interessante e apareceriam dúzias de médicos e matemáticos provando, por a mais b, que se eu tomasse todos os cuidados preventivos eu poderia, no mínimo, equilibrar o jogo contra o determinismo genético e (quiçá – uma palavra que cabe muito bem, aqui!) viver até mais do as primeiras contas diziam e acabasse morrendo de um prosaico câncer de próstata.

    Em suma: se eu fosse Jolie faria exames de três em três meses, e transformaria os meus hipotéticos belos seios em monumentos a favor da medicina preventiva.

    1. Hmmm… Eu não quero perder comentaristas assíduos, então agenda aí um dia para discutirmos dois tratamentos alternativos que podem ajudar. 🙂

      (Obviamente que por “alternativos” já sabes que são coisas que o Conselho de Medicina não aprova… Mas isso não quer dizer que não funcionem, como deves saber.)

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      Eu jamais poderia ser médico. Não admito nenhum argumento contrário a um tratamento exceto a evidência. Teria meu CRM cassado pelos legalistas e burocratas em poucos meses.

  5. Concordo com a colocação da Monica. A Angelina deve ter pensado e muito para fazer um procedimento que eu considero bastante radical. Como ela viu a mãe padecer de forma dolorosa e precoce nada mais justo ela realizar tal procedimento. Ainda mais sabendo que pode desenvolver um câncer bastante agressivo.
    Tem uma coisa que espero que ela tenha considerado, ela não extirpou por completo o tecido mamário como deveria. Ela recolocou o mamilo e o mamilo faz parte do tecido, justo o tecido que tanto teme. Vai ser trágico se repentinamente esse mamilo se tornar cancerígeno.
    Esse exame genético( aquele em que a Angelina fez ) pode ser útil no futuro ou abrirá outros debates inclusive no que tange a reprodução humana, pais pensarão duas vezes sobre o sexo da criança, avaliando pelo sexo quais patologias poderão desenvolver,patologias estas herdadas pelos seus antecessores. Isso com certeza poderá dar uma dor de cabeça no que tange a bioética.
    Com relação ao artigo só tenho uma coisa, como tem gente maldosa e com falta completa de empatia.

    1. Que bom que tocaste no tema “bioética”. Eu preciso ler um pouco mais pra saber o que andam chamando de “bioética” hoje em dia. Acho até que tenho uma boa noção, mas como discordo em trocentos por cento do que vi em inúmeras pesquisas médicas e biológicas, andei com pouco vontade de ler sobre o assunto.

      Sobre “gente maldosa e com falta completa de empatia”: esse pessoal age assim porque a intimidação é eficaz. O simples fato de não nos intimidarmos perante estes abusos já melhoraria a situação.

  6. Concordo com o Romacof.

    Cada um se trata como bem entende.
    Se bem que no SUS….

    Defendo a medicina preventiva.

    Vai que a sorte vira e me vejo com o que tanto temia num lugar que não posso remover.

    Disse, para meu médico,que não aceitava hormonios.
    E que iria morrer com um útero miomatoso,ele me chamou de louca.

    Ainda estou aqui,e a morte é só mais uma etapa de algo que ainda não sei.
    Ter medo porque?

    Os filhos são filhos da vida.

    Se nada temos de NOSSO…viver é um grande barato.

    1. Mamãe sempre diz: uma coisa conservada é melhor do que uma coisa consertada.

    2. Mas quando quebra tem que consertar, não tem?

  7. Se for bem conservada é menos provável que quebre, em pouco tempo! Se quebrar, é por que faz parte do ciclo da coisa quebrar, por mais cuidados que se tenha. É diferente de jogar no chão e chutar. Aí quebra mesmo! Se é pra usar, um dia vai quebrar! Um copo, uma coronária, um corpo, um planeta. A diferença está que um copo eu jogo fora, uma coronária, ocasionalmente, eu desentupo, um corpo eu enterro e um planeta eu me lasco. Assim disse o anjo do Senhor!

    1. É… É bem isso mesmo que estamos fazendo com o planeta… Jogando no chão e chutando…

      [Pensativo]…

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