Todos nós conhecemos algum ecochato. É aquele sujeito que enche o saco para você fechar a torneira da pia enquanto escova os dentes, ou que dá um discurso no churrasco da galera porque você usa sacolas descartáveis no supermercado ao invés de comprar uma durável. Mas há um tipo que representa o extremo do espectro da ecochatice: o ecoxiita. 

Eu sou biólogo, mestre em ecologia, ambientalista de carteirinha desde a 5ª série primária. Conheço como poucas pessoas no planeta a problemática e a extensão do risco do aquecimento global (que eu prefiro chamar de “desestabilização climática”). SEI que os dois principais fatores na desestabilização climática são a recolocação de carbono fóssil em disponibilidade na biosfera e a destruição da capacidade regulatória dos grandes ecossistemas terrestres e marinhos (através de diversos mecanismos que não vêm ao caso agora). E no entanto eu tenho um carro a gasolina e dirijo muito.

Incoerência? Não. Simplesmente eu não vou cair na armadilha em que os ingênuos caem e que os transformam em ecoxiitas – e portanto em ecochatos muito chatos e pouco ecoqualquercoisa. 

Quando eu participava de uma certa ONG, eu conheci um cara que não andava nem de carro, nem de ônibus, nem de avião, porque todos estes veículos usam combustíveis fósseis. Ele se deslocava a pé ou de bicicleta, exclusivamente. Quando nós marcávamos um evento em outra cidade, ele se deslocava de bicicleta no dia anterior para chegar a tempo. Dormia numa barraca, ou num banco da rodoviária, porque não tinha dinheiro para pagar um motel. Tomava banho na rodoviária, ou chegava fedendo a suor. E discursava furiosamente contra nossa “incoerência” por andarmos de carro para ir a tais eventos.

Com o tempo, nós paramos de convidá-lo para ir a qualquer evento.

Ele tinha razão? Bem, até onde eu sei, apesar dos trinta e tantos anos de militância fervorosa contra os automóveis, até hoje ele não convenceu uma única pessoa a vender seu carro. O máximo que ele conseguiu foi convencer alguns amigos a fazer alguns trajetos de bicicleta com ele – eventualmente. E é assim que a humanidade se comporta, gostemos ou não.

Não adianta fazer sacrifícios dos quais as pessoas desdenham. Toda minoria que o fizer, colocando-se em situação mais difícil que a média, simplesmente se tornará irrelevante. Não adianta dar murro em ponta de faca. Pode até ser uma pena, mas é assim que funciona. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 19/05/2013 

13 thoughts on “Todo ecoxiita é um ecochato

  1. O uso de carro aqui no país é praticamente inevitável, só há um jeito de evitar o seu uso excessivo:
    1) Aumentar de forma substancial a gasolina( coisa que o governo não faz, prefere a Petrobrás tomando prejuízo a aumentar a gasolina como deveria ser seguindo as regras do mercado);
    2) Melhorar e aprimorar o uso do transporte coletivo, mais trem e ônibus, coisa ninguém fez, somos um país que privilegiamos demais o uso do transporte individual, hoje são carros e muitos estão migrando para as motos.
    3) A sociedade e o Estado deveria chegar num consenso afim de permitir que as pessoas morem perto do seu trabalho, pois a tendência é ficar cada vez mais longe.Se não tem transporte adequado, fica muito complicado e o trânsito idem, não temos vias suficientes e mesmo que façam cadê o espaço físico para isso a não ser desapropriação de muitos lugares já com a população fixa.

    1. Os ecoxiitas jamais se contentam, Alexandre. Para estes caras, o ideal seria a extinção da espécie humana.

  2. A solução é a bicicleta elétrica. Tem a flexibilidade do carro sem exigir o mesmo espaço, a um custo ínfimo. Mas ao invés de facilitar, o governo dificultou a vida dos ciclistas.

    1. Moto a biodiesel caseiro não vale? Imagina abastecer a moto com o óleo que sobrou da fritura das batatinhas. 😉

  3. Uma coisa sempre digo aos meus amigos: “Não deem discursos, sirvam de exemplo”.

    Se gastássemos mais tempo servindo de exemplo e menos falando, teríamos mais adeptos para qualquer ideologia.

    1. E conseqüentemente maior influência. É isso aí.

  4. Sou uma chata de carteirinha…

    Vivo vigiando a luz,a água,os preços do supermercado,farmácias e outras coisas mais.

    Acredito nos exemplos,mas tem uma galerinha nova que precisa também ouvir.

    Não me importo como vou ser rotulada.

  5. Boa Li.
    Cada um faz a sua parte. E se não der, chame os outros e tentaremos de forma conjunta a resolver os nossos problemas.
    Radicalismo dos ecochatos não leva a nada e o pior é que cria estigmas inúteis para quem leva a questão do meio ambiente a sério.

  6. Rafael Holanda

    20/05/2013 — 13:01

    Triste esse post. Dá aquela sensação de que os governantes/industrialistas/sociedade terão de ter água batendo no gogó pra decidir “Tá, agora é sério. Vamos parar de consumir combustíveis fósseis AGORA”.

    E tem um erro na terceira linha da chamada. Corrige lá antes que eu te ponha na câmara de gás :D!

    1. Já arrumei o erro de português. Foi na digitação. Culpa dessa droga de teclado que fica se torcendo embaixo dos meus dedos. 😛

      Mas eu não tive a intenção de dizer que não é correto ser proativo, e sim de que o modo de ser proativo é muito importante!

  7. Conheço um assim também: só caminha a pé ou de ónibus, passa na rua vê lixo e junta, não come carne, fica dando discurso toda hora pra poupar água, fechar bem as torneiras…Tudo muito legal e muito bonitinho mas que infelizmente não irá adiantar nada com o atual consumo de combustíveis fósseis,com o desmatamento e destruição do ambiente, etc. E eu não vejo muita saída não com os políticos e grandes empresários, que eu não sei se não se importam ou se não sabem o grande desastre que isso vai causar à Biosfera.

    1. Eles não se importam. Saber, eles sabem há décadas.

  8. Espero que entrementes tenha mudado de idéia sobre ser econômico com a água (chamado no seu artigo de ecochato) e deixar a água correndo enquanto escova os dentes, lava a louça etc… Pobre Brasil do desperdício… Melhor ser ecochato!

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