Uma parábola chinesa do Século XIV de autoria de Liu Ji descreve muito bem o entendimento negligenciado do poder político: 

No estado feudal de Chu, um velho sobrevivia mantendo macacos ao seu serviço. O povo de Chu o chamava de “ju gong” (mestre dos macacos). Todas as manhãs, o velho reunia os macacos em seu pátio, e dava ordem ao mais velho de liderar os outros até as montanhas para colher frutos de arbustos e árvores. A regra era que cada macaco tinha que dar um décimo de sua colheita ao velho. Aqueles que não conseguissem fazê-lo seriam chicoteados impiedosamente. Todos os macacos sofriam amargamente, mas não se atreviam a reclamar. 

Um dia, um pequeno macaco perguntou aos outros macacos: “Foi o velho quem plantou todas as árvores de fruto e arbustos ?” Os outros disseram: “Não, eles cresceram naturalmente.” O pequeno macaco ainda perguntou: “Não podemos colher os frutos sem a permissão do velho?” Os outros responderam: “Sim, todos nós podemos,” O pequeno macaco continuou: “Então, por que devemos depender do velho; por que todos nós devemos servi-lo?”

Antes que o pequeno macaco pudesse terminar sua declaração, todos os macacos de repente se tornaram iluminados e despertos. Naquela mesma noite, vendo que o velho tinha adormecido, os macacos derrubaram todas as barricadas da paliçada em que estavam confinados e destruíram totalmente a paliçada. Eles também levaram os frutos que o velho tinha em estoque, trouxeram todos eles consigo para a floresta, e nunca mais retornaram. O velho finalmente morreu de inanição. 

Yu-li-zi diz, “Alguns homens no mundo governam seus povos por meio de truques e não através de princípios justos. Eles não são exatamente como o mestre dos macacos? Eles não estão conscientes das suas confusões mentais. Assim que seus povos se tornam iluminados, seus truques não funcionam mais.” 

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Esta história, intitulada originalmente “Governo por truques” é de Yu-li-zi por Liu Ji (1311-1375) e foi traduzida por Sidney Tai, todos os direitos reservados. Yu-li-zi também é o pseudônimo de Liu Ji. A tradução foi publicada originalmente em Nonviolent Sanctions: News from the Albert Einstein Institution (Cambridge, Mass.), Vol. IV, n o 3 (Inverno 1992-1993), p. 3.

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Iluminação… Iluminismo… 

“Alguns homens no mundo governam seus povos por meio de truques e não através de princípios justos. Eles não são exatamente como o mestre dos macacos? Eles não estão conscientes das suas confusões mentais. Assim que seus povos se tornam iluminados, seus truques não funcionam mais.” 

5 thoughts on “O Mestre dos Macacos

  1. Voce é libertario tb?

    Acha que a internet seria a forma de “iluminação” dos povos?

    Se é que entendi direito.

    1. Depende do que se chama de “libertário”. No sentido do Líber, por exemplo, certamente não. Eu prezo a liberdade como um grande valor. Clamar por liberdade para usar essa liberdade para destruir a liberdade dos outros, como faz o Líber, é uma abominação.

      Na biologia a gente aprende dois conceitos de “ótimo”: o ótimo fisiológico e o ótimo ecológico.

      O ótimo fisiológico é aquele potencial que o organismo teria se tivesse todas as condições perfeitas para seu desenvolvimento, sem qualquer limitação ambiental. Nestas condições qualquer bactéria ocuparia a Terra inteira em poucos dias. É esse tipo de liberdade que o Líber quer, sem qualquer consideração pelo bem estar do outro ou pela sustentabilidade do sistema.

      O ótimo ecológico é aquele potencial que o organismo realiza de fato dentro de um ambiente equilibrado, que permite a continuidade do sistema. Nestas condições a estabilidade ambiental de longo prazo permite a evolução e co-evolução como as conhecemos. É esse tipo de liberdade que eu busco, em permanente evolução sustentável.

      Noutras palavras: a máxima liberdade possível não é a liberdade ilimitada. Para que cada um possa ser tão livre quanto possível, é necessário que a liberdade de cada um ceda algum espaço para a liberdade do outro.

    2. A internet é apenas uma ótima ferramenta de comunicação, através da qual podemos fazer muitas coisas interessantes. Uma dessas coisas interessantes é organizar um Movimento Iluminista para tentar arrumar um pouco a casa, que anda bem bagunçada.

  2. Iluminar, Esclarecer, Transparecer. Parece um ideal justo. Dentro da democracia teórica em que vivemos o pleno esclarecimento, para o todo, parece utópico. Até quem tem a pretensão de movimentar o iluminismo, ocasionalmente, se vê coagido ao emprego de elaborações prolixas, por força da falta de definições simples, ou para usar uma terminologia técnica apropriada a um determinado tópico. Vi isso em alguns comentários na página do movimento. O governo, já mais experiente na arte de complicar para evitar que muitos participem, justifica a dúvida entre plebiscito e referendo tendo em vista a complexidade da reforma política para que os macacos entendam. Quando me prego a questionar a necessidade de um objetivo visível, ou compreensível, ou equacionável, como um a+b=ab, para o movimento, não acho que as coisas sejam tão simplificáveis a esse ponto, mas que necessitam ter um esqueleto para ser apresentado. O pequeno macaco tinha duas coisas: a complexa compreensão da relação natureza, árvores, frutos, macacos sem a necessidade de um opressor inútil, e a singela retórica na comunicação com os outros macacos. Se ele não tivesse essa retórica direta e compreensível ele seria uma iluminado solitário. E o ju gong continuaria sustentado pela escuridão.

    1. Corretíssimo. E talvez não seja mesmo possível trazer iluminação a todos – ou pelo menos é muito difícil. Mas alguns princípios já estão ficando claros mesmo no atual estado incipiente dos debates. Por exemplo, que as pessoas parecem precisar de metas identificáveis, “ticáveis” em uma lista, para ter uma noção do que realmente está sendo proposto, enquanto eu tenho me focado no processo em si. Já vi que terei que elaborar uma gambiarra do tipo “processo ticável” se quiser preservar a lógica original ao mesmo tempo em que ofereço possibilidade de suficiente controle intelectual para os interessados continuarem interessados. Não vai ser fácil esse malabarismo, mas será feito.

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