Quando eu criei este blog, a idéia era que ele fosse um espaço alto-astral. Revendo alguns artigos mais ou menos recentes, todavia, percebi que o tom estava longe do que eu tinha planejado. E me perguntei por quê. Para minha surpresa, não foi difícil identificar o motivo. Toda vez que eu me pus a analisar a política brasileira senti tamanha indignação com o que vi que fui me embrutecendo. Caí na armadilha. 

Em toda e qualquer época da humanidade os extremistas sempre fizeram o mesmo: com discursos raivosos e com forte apelo por violência, sem nenhum freio moral exceto aqueles impostos por fora, voltados exclusivamente para seus próprios objetivos, usando os seres humanos como peões facilmente sacrificáveis por seus objetivos egoístas, os extremistas sempre embruteceram os adversários e os inimigos, com demonstrações revoltantes de absoluta imoralidade, apresentadas como se fossem virtudes por voluntário deboche, confundindo muitos e enfurecendo e embrutecendo muitos, trazendo todos para seu nível natural de combate, onde prospera melhor que todos – a lama. 

Dos dólares nas cuecas ao mensalão, dos sanguessugas à entrega da CDHM a Marco Feliciano e a concomitante indicação dos condenados pelo mensalão para a CCJ, tudo foi tão revoltante que não havia mais como analisar a política sem sentir o sangue ferver. O fim da picada foi assistir Lula induzir conflitos (e mais tarde o MST atender ao pedido e já entrar em cena prometendo abertamente violência) e o Dalai Lama emprestar o prestígio de sua suposta e agora desmascarada iluminação a um regime genocida, fratricida e que ele mesmo reconhece falto de compaixão e pleno de ódio. E eu me vi de repente me rebaixando ao nível embrutecido deles devido à indignação que eu sentia ao ver o que eles faziam. Eu nem sorria mais. 

A corrupção moral é insidiosa, é uma ladeira escorregadia em que o inimigo nos puxa cada vez mais para baixo no combate, levando-nos ao nível em que ele sabe lutar melhor. A simples aceitação deste tipo de combate já é nossa derrota. Felizmente, entretanto, existe um longo caminho de corrupção necessário para chegar ao nível mais baixo, e a partir de qualquer ponto em que ainda estejamos respirando é possível perceber a armadilha e caminhar no sentido oposto, trazendo a batalha para o campo em que nós lutamos melhor: o campo das luzes, dos nossos valores, da razão a serviço da sensibilidade e da ética. E neste lado luminoso do campo é muito mais fácil sorrir. 

Eu me dei conta que estava tão furioso com o que estava acontecendo em minha volta que meu modo de me expressar já não emanava o alto-astral que eu queria. Conversando com um amigo ao telefone, lá pelas tantas ele me pediu calma, de tão exaltado que eu estava. Estávamos justamente falando sobre política. E aí eu me perguntei: “o que é que eu estou fazendo, deixando esses canalhas contaminarem minhas emoções de modo assim tão venenoso?”. Plim. Acendeu-se a luz. 

No momento em que joguei luz sobre minhas emoções, todas as minhas ações recentes fizeram um novo sentido: entrar no campo de combate do inimigo já é perder o jogo. É como no jogo de Reversi, em que nossas peças se transformam nas peças do adversário quando ele nos envolve em seu território. A vitória nesse tipo de jogo consiste em permanecer no seu território e expandi-lo. 

O Pensar Não Dói deve, portanto, mudar um pouco a partir de agora. A Revolução Iluminista começa no interior de cada um. Não naquele sentido místico-esotérico furado de que suas “energias” vão alterar o plano de vibração do Cosmos, mas no sentido bem racional e prático de que, se perdermos o nosso chão, estaremos chafurdando em pântanos nos quais quem nos atraiu para lá se move com muito maior velocidade e força, por estar acostumado com o ambiente e conhecer bem o terreno. Eu percebi que a lama já estava molhando meus sapatos e decidi voltar a pisar em terreno firme e bem iluminado. 

Os leitores podem ajudar. É só me dar um puxão de orelhas se eu escrever demais com o fígado. Criticar o Dalai Lama tudo bem, mas eu não precisava ter sido grosseiro. De vez em quando isso poderá acontecer de novo, afinal de contas meu senso de indignação não será desligado, e às vezes poderei rasgar a camisa-de-força e a focinheira e escrever um artigo antes de tomar meu litro e meio diário de Clonazepam intravenoso, então avisem se acharem que está espirrando muita bile da tela. 

O lado legal de ter compromisso com a Verdade é que a gente não precisa ficar inventando justificativas para os erros. Assume-se que errou, transforma-se os erros em aprendizado, assume-se que pretende tentar acertar melhor a partir do reconhecimento do erro, e bola pra frente, numa boa. Para quem nunca tentou, eu recomendo. É um jeito fácil e indolor de sair da armadilha. Para mim, que escrevi este artigo com leveza, já funcionou. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 04/07/2013

20 thoughts on “Iluminismo versus embrutecimento

  1. Eulhedisseulhedisse!
    Mas eulhedisseulhedisse!
    Mas eulhedisseulhedisseulhedisse!

    Ainda bem que você acordou. Mas realizar esse estado de calma na batalha são outros 500. Esse foi só o primeiro passo.

    1. Raios… Ser “eutedissado” – ou “eulhedissado”, conforme o dialeto – dá vontade de… de… de…

      .

      .

      .

      … de concordar que mereci. 😛

  2. E acho que o jogo a que você se referiu foi o Reversi. No Go as peças do adversário envolvidas somem, não se tornam as suas.

    1. ISSO. Corrigi no texto e acrescentei um link para quem quiser jogar uma partida de Reversi online. 🙂

      Foi confusão mesmo, porque eu sei jogar os dois. Ou melhor… Não costumo jogar, mas sei as regras e já joguei umas partidas. Jogo os dois tão bem quanto futebol e basquete. 😛

  3. “Os leitores podem ajudar”
    Bom, precisamos da garantia de que, caso ajudemos, não aparecerá um subito cutelo voador em nossa direção 😀

    1. Cutelo é com o Chef. Eu faço mais o estilo marretada. 😛

      Olha… Garantia, garantia mesmo, não existe. Temperamento é genético, autocontrole é um verniz. O que dá pra fazer é tentar manter a atenção para minimizar os estragos durante os surtos de indignação com esse mundo torto…

      O inimigo ainda vai vencer batalhas. Mas eu quero vencer a guerra.

  4. Mas falando sério, gostei de ver. Lembra do que eu lhe dizia na DH? A bagunça e a gritaria é o estilo do bruto de interagir. E se você joga no jogo dele, a possibilidade de se dar bem contra quem “é do ramo” é infima. 😉

    1. Como eu queria ter esta noção tão clara quanto hoje em 2005, quando comecei a participar na antiga DH.

      Vamos ver se no grupo Revolução Iluminista eu não cometo os mesmos erros que no Orkut…

  5. Legal! E apesar do exagero contra a lama, ops, o “Lama”, eu curti e compartilhei. Perdi alguns amigos faceanos… mas foi bom, é uma forma de seleção natural tbm. O próximo movimento contra qqr coisa devia ser contra a religião. (Não confundir com “iluminação”) 🙂

    1. Lamento pelos teus amigos perdidos no Facebook. Mas atenção aqui: eu não mudei de opinião sobre o Dalai Lama do artigo sobre ele para cá. O que aconteceu foi que eu abri os olhos em relação ao quanto minha maneira de reagir à imoralidade e aos absurdos do mundo estava me prejudicando.

      Eu estava sendo contaminado. O grande mal das ideologias de ódio e das “lógicas” corruptas é que elas nos embrutecem, nos rebaixam ao nível delas, nos transformam no que combatemos.

      Lembrar de manter os pés em terreno firme e trilhar o caminho estreito e iluminado já é meia vitória. Mostrar isso para um número suficiente de pessoas capaz de formar massa crítica para começar a mudar a política e a economia é a outra metade. Facim, facim… 😛

    1. Afff…

      Embrutecimento por todos os lados. 🙁

      Eu sou totalmente a favor de cada pessoa poder portar os instrumentos necessários para a legítima defesa, mas também sou a favor de que o indivíduo que portar qualquer instrumento para essa finalidade saiba utilizá-lo tanto de acordo com os requisitos da legítima defesa quanto de a cordo com a melhor técnica…

      Que lástima. E por causa de futebol. 🙁

  6. Bem, então, onde mesmo que tínhamos parado? 🙂

    1. Não paramos. Só voltamos para os trilhos. 🙂

  7. Caminhando e Cantando e seguindo a canção
    Somos todos iguais braços dados ou não
    Nas escolas, nas ruas, campos, construções
    Caminhando e Cantando e seguindo a canção

    Vem, vamos embora que esperar não é saber
    Quem sabe faz a hora não espera acontecer
    Vem, vamos embora que esperar não é saber
    Quem sabe faz a hora não espera acontecer

    Pelos campos a fome em grandes plantações
    Pelas ruas marchando indecisos cordoes
    Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
    E acreditam nas flores vencendo o canhão

    Há soldados armados, amados ou não
    Quase todos perdidos de armas na mão
    Nos quarteis lhes ensinam uma antiga lição
    De morrer pela pátria e viver sem razão

    Nas escolas, nas ruas, campos, construções
    Somos todos soldados armados ou não
    Caminhando e cantando e seguindo a canção
    Somos todos iguais braços dados ou não

    Os amores na mente, as flores no chão
    A certeza na frente, a historia na mão
    Caminhando e cantando e seguindo a canção
    Aprendendo e ensinando uma nova lição

    1. A música é linda. Pena que o cara estava falando de comunismo.

  8. Sinto muito, Arthur, em lhe dizer.. mas vc está perdido! Não por culpa sua…já que é visível ser um homem de boa vontade…
    O problema é que suas encruzilhadas darão sempre no mesmo lugar… Pois não importa o caminho que se escolha… se o objetivo/destino não for factível… é simplesmente bobagem caminhar…. Entendeu???

    1. Andréa, fico grato pela avaliação pessoal positiva… Mas eu não posso desistir do ser humano! No mínimo porque seria desistir de mim mesmo!

      Como espécie, o ser humano tem sido um desastre. Inventamos mais maneiras de produzir dor e morte contra nós mesmos do que maneiras de mitigar nosso sofrimento. Mas como indivíduos temos alguns seres humanos sensacionais. Gente com quem vale a pena conviver e gente que produz coisas belíssimas, ou muito úteis. Gente que se preocupa com o bem estar dos demais macacos que acham que são sapiens e luta para que eles mesmos não se arrebentem uns aos outros desnecessariamente.

      Eu tenho me decepcionado muito, mas ainda acho que vale a pena lutar por um mundo melhor. Mesmo que eu tenha que reduzir minhas expectativas para a formação de pequenos grupos de ação, com ação local ou em pequenas redes de relacionamento, ainda assim pretendo organizar alguma coisa, porque sei que o indivíduo isolado não tem força suficiente para mudar muita coisa.

      Ao invés de desanimar, é necessário repensar estratégias. Não podemos desistir de nós mesmos e do mundo que deixaremos para nossos descendentes.

  9. Concluindo… se vc não tem certeza de onde ou porque está indo [e vc (seres humanos) não tem, vamos combinar!!! rsrsr…]… pare e recomece a perguntar !!!

    1. Sim, isso sim. Mas não desistir! 😉

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