Quem canta vantagem tem que garantir desempenho, caso contrário seu mundo desaba. Incrível a virulência dos comentários sobre a derrota de Anderson Silva para Chris Weidman porque o “Spider” teria “brincado” no ringue. E isso em todas as mídias: no Facebook, no Twitter, na grande mídia e na blogosfera. Sem dúvida o velho ditado sobre a mulher de César continua sendo um ótimo conselho. 

Quero ver você me bater!
Quer ver? Então toma!
Quer mais um pouquinho?
Pô, o cara não gostou da brincadeira não, mano!

Mesmo sabendo que tudo aquilo não era brincadeira e sim uma técnica psicológica que objetiva a desconcentração e a desestabilização do adversário, porém, eu também “não perdôo” o Anderson Silva. 

Na minha opinião, seja qual for sua área de especialização, se ela inclui disputar algo contra algum adversário, é no seu desempenho que o profissional deve confiar, não na sabotagem do desempenho do outro através de técnicas emocionais ou de qualquer modo alheias à habilidade específica que está sendo medida.

Outros dirão: “na guerra só o que importa é o resultado, você tem que agir com todas as forças e usar todos os recursos disponíveis, ou será derrotado”. Sim, reconheço que em alguns tipos de conflito isso pode ser verdade, dependendo do adversário. Gandhi não teria vencido Hitler ou Stalin, simplesmente porque qualquer um dos dois o mataria assim que pusesse as mãos nele. Quando o adversário joga pela tática da aniquilação total, ignorar esse dado é suicídio. 

No caso de um assalto, estupro, invasão de residência, etc., igualmente: não vejo problema nenhum em olhar com cara de espanto para o lado de trás do agressor e arrancar a jugular dele com os dentes quando ele virar para ver o que haveria ali. Quando se luta pela sobrevivência contra um agressor injusto, não se pode condenar esse tipo de estratégia. 

Só que o Anderson Silva é um desportista profissional, e, se existe uma atividade que por excelência não deve usar o vocabulário da guerra, esta é o esporte competitivo. No esporte as regras são, ou deveriam ser, outras. Vencer não é o que importa. Vencer de modo honesto, justo e digno é o que importa. A ética e o cavalheirismo são a essência do esporte competitivo. Quando essa noção é desrespeitada, a reação costuma ser de indignação. E isso é justo, muito justo. 

Eu encarei, ele encarou... Rolou um beijinho!
Mas quem vai pro abraço sou eu!

O deboche, a provocação com intuito de desestabilizar psicologicamente o adversário, o beijo na pesagem e as mãos na cintura durante a luta não são ilícitos no tipo de esporte competitivo em que Anderson Silva se especializou, mas não são percebidos como fair play, não são algo que pareça a coisa certa a ser feita, não representam a ética que o esporte deveria representar – e por isso muita gente desabafou sua insatisfação contra o dez vezes campeão Anderson Silva. 

Isso é sinal de que não estava contente com o comportamento do campeão, que esperava uma postura melhor dele. É justo isso? Não muito, no sentido em que Anderson Silva sempre foi um excelente lutador, respeitador das regras dento e fora do ringue. Mas o episódio deixa bem claro que a estética tem muito a ver, sim, com a ética, como já sabia o próprio Júlio César, autor da máxima:à mulher de César não basta ser honesta, ela também deve parecer honesta“.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 07/07/2013 

18 thoughts on “Anderson Silva e a mulher de César

  1. Beijinho na boca não vale: http://www.youtube.com/watch?v=x9mm9NQCdrE

    Só faltam chamar o cara que deu o murro de homofobico. kkkkk

    1. Eu vi duas agressões no vídeo. O da direita agrediu primeiro, depois o da esquerda devolveu a agressão.

  2. Joaquim Salles

    07/07/2013 — 11:12

    Muito do que acontece “é jogo de cena”. É para a mídia, pra TV ou NET. Gera “IBOPE”.Gera comentários nas TV,mídias etc.Movimenta a “grana”.Até mesmo o famoso Muhammad Ali-Haj, nascido Cassius Marcellus Clay Jr, era um tagarela no ring. Entre outras coisas servia para o “marketing” dele.Claro que seu comentário é correto e é importante a mensagem ética e estética transmitida nesse caso.Mas, para quem faz o show, é preciso gerar burburinho, conflito, comentário, “xingamento” etc. E isso acontece em vários esporte e espetáculos.

    🙂

    1. Pois é, isso ressalta o lado mais baixaria do esporte competitivo ao invés de ressaltar seu lado mais elevado.

    2. Pensando na possibilidade de escolha que temos quanto ao que oferecemos às pessoas, graças a este teu comentário, surgiu o artigo “A Verdadeira Lei da Atração”. 🙂

  3. Fazer um debochezinho em alguns momentos da luta é válido, até bom para da umas risadas, só não pode ser algo rotineiro, se não perde até a graça. Na luta contra Demian Maia, AS exagerou.

  4. Lutador tenta imitar Anderson Silva e vai a nocaute

    http://www.youtube.com/watch?v=oxlwKkKwGss

    Gordo só faz gordice

    kkkkkk

  5. Joaquim Salles

    07/07/2013 — 11:18

    Sem falar que muito do que rola na MMA pode ser “pura caça níquel”, tudo pra ganhar dinheiro, tudo armação , tava tudo combinado para o Anderson Silva perder, e agora vão fazer uma revanche para ganhar mais dinheiro ainda. E o espetáculo continua e a audiência paga de novo. Claro que esto sendo levemente paranoico aqui :). Na luta livre profissional muita coisa desse tipo também acontece. Muita coisa combinada ( os atletas são bons de verdade) para acontecer o melhor espetáculo e aumentar o retorno de grana.

    1. Sei lá, acho pouco provável, mas é aquela história…

      Alguém põe a mão no fogo pela perfeita honestidade e conduta ética ilibada da organização do UFC?

      Alguém pula de indignação perante a simples sugestão de que possa haver interesses antidesportivos envolvidos?

      Se nada disso acontece, algo se pode dizer sobre o mundo em que vivemos…

  6. Fiquei foi com pena dos caras que apostaram nele na luta e não viram ele nem ao menos lutar.

    1. [mode teoria da conspiração ON]

      Bem, pelo menos o decacampeão invicto do UFC teve o cuidado de não cair logo no primeiro assalto, pra não dar muito na vista…

      [mode teoria da conspiração OFF]

      🙂

  7. Duas possibilidades : Se houver revanche, significa que foi armação . Pois havendo revanche seria lucro em dobro.
    Se não houver, significa que ele quis perder por ja estar de saco cheio de sustentar esse cinturão.

    1. Eu já acho que o que indica que pode ter havido alguma armação foi o comentário dele sobre não estar interessado em revanche, em ter só mais dez lutas por contrato pela frente e em estar interessado em descansar com a família – tudo poucos minutos após a primeira derrota de uma longa carreira de vitórias. O discurso pareceu MUITO pronto.

      Lembrei até da Susane von Richtofen, que assim que seus pais foram assassinados apressou-se em mostrar para a polícia os recibos do motel em que estava na hora do crime, para provar que não tinha sido ela. Como é que é? A garota acabou de ter os pais brutalmente assassinados e a primeira coisa que faz é mostrar recibos de motel para sustentar um álibi? Mas quem é que guarda recibos de motel? Quem é que pensa em mostrar que tem um álibi sólido antes mesmo de ser apontado como possível suspeito? E quem é que pensa nisso em primeiro lugar logo após perder a família e ter sua vida virada de pernas para o ar?

  8. É…
    Pode ser jogo psicológico, olhando para as fotos, fica evidente que o sujeito abriu a guarda na forma de menosprezo.Bastou um no queixo e ele beijou a lona.Tomou do próprio veneno, esse tipo de coisa só funciona de vez em quando, pelo que eu vi, ele sempre fazia isso. O truque ficou manjado. O sujeito estando concentrado, não estará nem ai para as provocações. Bom, o resultado está aí.
    Muita gente ficaram surpreendido, nada é para sempre. O pessoal enchendo a bola dele, aumentou a soberba dele. Quem derrubou ele foi ele mesmo + o americano.
    Não acompanho essa bagaça, azar para os fãs…

    1. Pior que o cara nem precisava fazer isso, porque a técnica dele é muito boa. Não foi por acaso que ele foi decacampeão.

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