Acabo de assistir à reconstituição de um ataque de sucuri a uma pessoa. O sujeito morreu. Mas quem matou o cara não foi só a sucuri, não… A estupidez dele e da mulher dele foram decisivas para o desfecho. 

Essa foto não tem nada a ver com o fato relatado. É simplesmente a única foto de uma sucuri supostamente atacando alguém que eu encontrei para ilustrar o artigo. (E até eu finjo melhor que isso é um ataque, dá licença... Quem quiser saber por que pergunte na caixa de comentários.)

Vem o casal numa camionete por uma estradinha de chão batido no meio da floresta, daquelas em que só passa um carro por vez, e ele avista uma sucuri. Pára para olhar o bicho. Decide descer do veículo. A mulher reclama, diz que é perigoso. Ele vai mesmo assim. 

Desce da camionete, caminha até a cobra, fica olhando, a cobra nem tchuns. Saracoteia em volta, fica quieta a cobra. Vai o sujeito cutucar a cobra. 

Cutuca daqui, cutuca dali, a cobra vira a cabeça na direção dele. Sabe aquela cara de “qualé, meu”? Pois é, dá até pra imaginar a sucuri fazendo cara feia. E o sujeito cutucando a cobra. 

Acontece o óbvio: o sujeito chega perto demais, a sucuri dá o bote, pega o sujeito pela cintura. E mordida de sucuri dói, porque ela tem um monte de dentinhos beeeeem afiados, embora não tenha veneno. 

Grita o sujeito com a dor, grita a mulher com o susto, mas não grita a sucuri, talvez porque sucuri não grita, talvez porque esta sucuri estava de boca cheia e era bem educada, vai saber. 

Começa a sucuri a se enrolar no sujeito, que fica com os dois braços soltos

Grita o sujeito para a mulher: “Socorro! Me ajuda!” 

Grita a mulher para o sujeito: “AAAAAAAAHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!” 

Grita o sujeito para a mulher: “Socorro! Me ajuda!” 

Grita a mulher para o sujeito: “AAAAAAAAHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!” 

Grita o sujeito para a mulher: “Socorro! Me ajuda!” 

Grita a mulher para o sujeito: “AAAAAAAAHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!” 

[Repete até dar nojo. Ou raiva. Ou ambos.] 

E morre o sujeito. 

E não sabe dirigir a mulher. 

E fica a sucuri fazendo um banquete enquanto a palerma caminha alguns quilômetros até a aldeia avisar que o imbecil morreu e que é pra alguém ir buscar a camionete, que fica horas bloqueando a estrada. 

— // — 

Pergunto: 

1) Com os dois braços soltos, não dava para o sujeito reagir? Ele não podia tentar pegar nada no chão para bater ou espetar na cobra? 

2) Depois de gritar “Socorro! Me ajuda!” duas ou três vezes e só obter como resposta “AAAAAAAAHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!”, não dava pro sujeito chamar a mulher pelo nome e dar uma instrução objetiva, do tipo “pega uma chave de fenda no porta-luvas e traz aqui, rápido!”? 

3) A mulher não tinha nada mais útil pra fazer do que berrar, não? Ela não podia pegar uma chave de fenda, uma faca, o macaco da camionete, qualquer coisa para matar a cobra? 

4) Como é que gente que vive no local, que conhece a fauna, que está acostumada a ouvir histórias deste tipo, faz tanta besteira assim? 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 02/08/2013

22 thoughts on “Estupidez mata

  1. Foi muita estupidez do cara mesmo ter ido mexer com um animal com um tamanho daqueles e ainda ficar ‘brincando’ com o bicho. Mas quando ele sofreu o ataque da sucuri acho que ele foi tomado pelo pânico e por isso ficou paralisado sem fazer nada e acho que a mulher, com medo de ser atacada pela sucuri, também fez o mesmo por isso. Claro que foi muito estupidez, que custou uma vida aliás, o homem poderia ter lutado, batido na cobra com as próprias mãos e a mulher também poderia ter lutado,chutado a sucuri na cabeça, tentado tirar ela do marido com as mãos, pegado algo do chão e ter batido na cobra, etc.( Acho que mesmo em pânico eu tentaria todas essas ações, ao invés de virar ‘lanchinho’ ou ver um ser humano ser devorado pela sucuri).
    Quanto a foto por que não é um ataque?

    1. Pois é. Qualquer coisa é melhor do que entrar em pânico.

      A Elise matou a charada de por que a cena na foto não é um ataque: a sucuri primeiro morde, depois se enrola. Até pode acontecer de a sucuri se defender no estilo “morder, soltar e dar no pé”, mas se ela não se enrola na vítima, então não está atacando.

      Observa que essa sucuri está em zigue-zague: o sujeito tomou a precaução de usar a perna para forçar o corpo da cobra a ficar em zigue-zague justamente para evitar o enrolamento. É uma cena pra lá de montada. 🙂

  2. Acho que você podia criar o Selo Darwinito para Pessoas que não Usam o Cérebro, sabe… só acho. Primeiro é uma doida indo pra praia ignorando avisos de “Perigo” e sendo obviamente atacada por um tubarão, agora esse cara aí virando almoço de sucuri… como é que pode?

    Max, acho que a sucuri ataca de modo diferente desse aí que tá na foto, exatamente como o Arthur descreveu no artigo: ela primeiro abocanha uma parte do corpo da presa e depois vai se enrolando nela pra quebrar os ossos a fim de facilitar a deglutição… na foto o cara tá segurando a cabeça dela e não tá nem um pouco enrolado [só o pé, mas isso não mata, só aleija :-)].

    1. Boa idéia essa do Selo Darwinito! 🙂

      E acertaste quanto à sucuri: se ela não está se enrolando na vítima, não é um ataque. Ela morde para conseguir um bom ponto de apoio para começar o enrolamento. Essa pose da foto só é possível montada por humanos, jamais a sucuri assume esse padrão espacial por conta própria, ou no meio de uma luta.

  3. Eduardo Marques

    02/08/2013 — 13:15

    Foi são Darwin olhando pelo futuro do pool genético da humanidade. 🙂

    1. Rogai por nós. 🙂

  4. Muito bizarro essa história, chega ser inverossímil a imbecilidade do sujeito, um misto que vai da falta de bom senso e o mínimo de noção da periculosidade, parece que há uma falha de cognição por parte do sujeito e da mulher idem, parece criança que brinca com os fósforos num ambiente inflamável.
    Até mesmo a onça pintada pode perder se entrar em confronto direto com a sucuri, dependendo da extensão da cobra a parte vulnerável que seria a cabeça pode não ficar acessível aos dentes desse predador, imagina então o ser humano.
    Ai,ai… Perdoe-me o cinismo, no entanto é um imbecil a menos nesse planeta.
    Ser surpreendido com um ataque da sucuri é uma coisa, agora ir de encontro com ela e ainda por cima fica brincando com ela. PQP!!! Santa infantilidade e zero no instinto quanto ao perigo.
    Cadê o instinto de proteção dessa mulher? A vida moderna tirou o instinto de sobrevivência e incutiu nela a covardia e a histeria.

    1. Quando eu digo que nossa educação nos torna menos capazes para a sobrevivência, porque anula instintos importantes e não coloca nada que preste para preencher a lacuna, tem gente que acha que eu estou exagerando…

  5. Memorizar: travar constritoras com a perna para evitar enrolamento toráxico!

    E rezar pra nunca precisar testar isso.

    1. Eu juro que procurei o botão de like no seu comentário, Gerson 🙂

    2. Hehehehe… É difícil travar o bicho com a perna durante o ataque, porque elas se enrolam a partir de uma das extremidades (a cabeça). O cara da foto primeiro pegou a sucuri pelo meio, deixou ela se enrolar para um lado nas pernas e depois enrolou ela ao contrário a partir do meio, em direção à cabeça. Aí a cobra fica completamente sem saber o que fazer, ela não atina enrolar uma parte do corpo para um lado e outra parte para o outro lado.

      Aliás, uma vez um professor me comentou que as constritoras ou são destras, ou canhotas, ou seja, elas se enrolariam sempre para o mesmo lado. Não procurei checar isso na literatura científica, então nem concordo nem “desconcordo”, como diria a Mônica. 🙂

      A melhor maneira de escapar de um ataque de um bicho desses é mesmo ter mais alguém com a gente – desde que não seja uma acéfala como a descrita no artigo. Basta pegar o bicho por qualquer uma das extremidades e ir puxando para desenrolar. Se forem mais duas pessoas, então, dá até pra brincar de “vamos ver se aperta mesmo” e cada um se enrolar na cobra uma vez… 😛

    3. 🙁

    4. Deprimiu. 😛

      Calma, calma, quando formos passear pela Amazônia para divulgar o Movimento Iluminista, nunca estaremos sozinhos no meio da Floresta… 😛

    5. 🙂

    6. Temos que começar a pensar onde arranjar um motorhome. 🙂

  6. Tragédia maior seria os dois terem filhos.

    1. Infelizmente a reportagem não informava isso.

  7. Oops, foi no artigo errado.

    1. Tranqüilo. 🙂 Valeu a dica. 🙂

  8. Achei muito interessante as explicações sobre como a sucuri se enrola na pessoa, obrigado Arthur e Elise ^^

    Arthur:’A melhor maneira de escapar de um ataque de um bicho desses é mesmo ter mais alguém com a gente – desde que não seja uma acéfala como a descrita no artigo. Basta pegar o bicho por qualquer uma das extremidades e ir puxando para desenrolar.’

    Tá aí uma ótima dica pra guardar num caso de ataque de sucuri, ao invés de se desesperar e sair tacando paulada no bicho haeuheauhae…

    1. Pensar Não Dói, um blog cheio de lições super práticas para o cotidiano! 😛

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *