Eu estou escrevendo um artigo sobre “quem são nossos interlocutores”, mas, como ele está ficando muito longo e requererá nova redação, o que vai demorar, resolvi escrever de improviso algumas considerações.

Fiquei uns dias sem acessar a internet, porque estava com uma visita que veio de longe. Hoje voltei a acessar e fui dar uma olhadinha em um certo fórum de debates. Ó, céus, que desânimo que me dá às vezes.

Eu estou me preparando para implementar uma decisão já tomada: não falar mais com certos tipos de pessoas, a não ser quando quiser que terceiros ouçam ou leiam as explicações que eu julgar adequadas.

Por quê? Porque tem gente com quem não vale a pena gastar tempo. 

Por exemplo, tem um cara que alega que “não se pode levar a lógica muito a sério”, porque o ser humano não é sempre lógico. Adianta gastar tempo com um estúpido desses?

Por exemplo, tem um cara que alega que “todo intervencionismo é criminoso”, porque não existe uma moralidade objetiva. Adianta gastar tempo com um insensível desses?

Por exemplo, tem um cara que alega que “os fins justificam os meios”, porque no final não interessa quem foi ético e sim quem foi eleito. Adianta gastar tempo com um safado desses?

Nós poderíamos explicar para o primeiro que o argumento dele é um imenso non sequitur. Adiantaria? 

Nós poderíamos explicar para o segundo que existe uma boa razão para proteger inocentes indefesos de massacres. Adiantaria? 

Nós poderíamos explicar para o terceiro que alguém que se elege mentindo não representa o eleitor e assim viola a razão de ser da eleição. Adiantaria? 

Então, se sabemos que nada disso traz resultado positivo algum, que é uma imensa perda de tempo e de energia que poderiam ser muito melhor empregados, por que raios tantas vezes tentamos fazer essas coisas? 

Às vezes credito a “culpa” por essa perda de tempo e gasto inútil de energia aos pioneiros iluministas. Mas eles não tinham internet. Eles não tinham perfil no Orkut. Eles não debatiam em comunidades povoadas por antas psicopatas mal intencionadas. Eles julgavam o ser humano em geral pelos seus próprios padrões e pelos padrões de seus pares. Eles não tinham como ser realistas. É compreensível que tenham sido excessivamente otimistas. 

Com toda a intensa experiência que acumulamos nesses últimos oito ou dez anos de internet, entretanto, estamos em melhores condições do que todos os filósofos dos últimos três ou quatro séculos para chegar a uma conclusão terrível, porém impossível de ignorar: temos poucos interlocutores simultaneamente razoáveis, empáticos e decentes. Muito menos do que normalmente acreditamos ter. 

Adianta reclamar disso? Não, não adianta. Assim é o mundo. 

Que bom que a gente sempre pode aprender e se adaptar. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 19/08/2013

20 thoughts on “Sobre certos interlocutores

  1. Creio que vale a pena entrar em discussões assim quando o local em que o energúmeno coloca suas imbecilidades é frequentado por pessoas de todos os tipos e opiniões, assim você contribui para que nenhum desavisado caia na lábia do canalha. Quando se trata de locais onde a regra é ser imbecil, é melhor nem frequentar e deixar que falem sozinhos. A menos que você seja da polícia, aí seria bom monitorar a imbecilidade para que o virtual não se converta em real.

    1. Pois é… Mas isso não significa que, no fundo, os verdadeiros interlocutores não são as pessoas com quem se está falando, mas as pessoas para quem se está falando?

  2. Eu falei, no outro tópico pra combater fogo com fogo, no artigo do politicamente correto. Depois como disse, fica elaborando resposta milimetricas, gastando tempo e energia. De a resposta mais prática, no nível da argumentação do interlocutor.

    1. Hmmm… Não sei, não… Descer ao nível de certos interlocutores é exatamente o que eles querem. Isso me lembra um ditado bem pertinente:

      “Jamais discuta com um idiota. Depois de algum tempo se torna impossível identificar quem é quem.”

      Outra versão:

      “Nunca discuta com um idiota. Ele vai puxar você para o nível dele e vencer o debate pela experiência.”

  3. Seu texto me lembrou um ocorrido na semana passada. Eu sou aeromodelista e geralmente o pessoal é bem camarada nesses grupos. No meu grupo tem uma mulher que é grossa pra caramba, tudo bem, é da personalidade da pessoa se não for grossa comigo estou tranquilo.

    Aí outro dia ela estava se debatendo tentando configurar um controle remoto e falou em voz alta “Caramba, não sei configurar o curso aqui” Aí eu prontamente, pois tenho um rádio igual, respondi ingenuamente: “entre no menu X que é lá”

    A maluca me responde com grosseira e de forma ameaçadora, não sei por que esperava uma resposta diferente pra ser sincero, “Quer fazer você? Odeio que se metam no que eu estou fazendo”

    Pedi desculpas, sai de perto e fui brincar com as minhas coisas. Não faço questão de ter alguma relação de camaradagem com gente assim, simplesmente agora cumprimento a pessoa quando vejo e ignoro sua existência no resto do tempo.

    1. Agiste bem melhor do que eu agiria.

      Se bem me conheço, eu diria no mínimo algo do gênero “Tu dizes que tens uma dificuldade, eu ofereço ajuda e tu me dás um coice? Qual é o teu problema?”.

      Isso se eu estiver em um bom dia.

      Mas tens toda razão, o melhor mesmo é passar a ignorar gente grosseira assim.

  4. Algumas frases são verdadeiras pérolas. Com relação a questão lógica do qual não se pode levar a sério, de duas a uma, caio na risada ou simplesmente eu falo para o sujeito: Quer dizer que eu não posso levar a sério já que a priori tudo que for dito é mentira, então pra quê levar a sério ou que a tua pessoa professa? Devaneios… diria para essa pessoa.

    1. É. Quando uma pessoa diz que a lógica não deve ser levada a sério, TUDO que ela diz passa a ser suspeito.

  5. Tem gente que acha mais válido “ganhar” uma discussão do que chegar a uma conclusão verdadeira.

    1. Abomino isso. Estou me treinando para simplesmente cair fora quando vejo que a coisa é assim.

  6. Arthur, minha humilde opinião quanto à assertiva do interlocutor 1: ““não se pode levar a lógica muito a sério”, porque o ser humano não é sempre lógico”.
    De certa forma (friso, beem de certa forma) até concordo com isso. Seres humanos não reagem à lógica da mesma forma. Olha meu problema: em algumas discussões, aqui em casa mesmo, eu trago a lógica da situação, e o porque reajo de forma bem lógica ao exposto. Ganho em troca um “tu é muito lógica, muito matemática, mas eu sou emocionall, tenho sentimentosss, tua lógica não seervee para mimm”.
    Não é verdade? De certa forma, em alguns casos bem específicos, às vezes eu tenho de prescindir da lógica (a lógica como “coerência”, em seu sentido figurado) para conseguir me acertar com alguns coleguinhas de raça. Não conheço o contexto da colocação do cara, mas não seria isto um mal entendido?

    1. TG, olha bem o que o cara disse: que “não se pode levar a lógica muito a sério”, porque o ser humano não é sempre lógico.

      Isso é mais ou menos como dizer que não se pode levar a boa nutrição a sério porque tem gente que gosta de fast-food.

      Ou como dizer que não se pode levar os exercícios a sério porque existe gente sedentária.

      A lógica sempre terá que ser coerente e sempre dará a palavra final sobre a validade ou não de um argumento.

      Se as pessoas não agem de modo lógico, isso traz conseqüências para a vida delas e de outras pessoas, mas não significa que a lógica não deva ser levada a sério.

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      O cara em questão que me inspirou o artigo é um contumaz perversor da lógica, sofista, safado e sem-vergonha, do tipo que em um debate fala qualquer coisa sem compromisso algum com a verdade, distorce tudo que o interlocutor fala e produz um non-sequitur atrás do outro. Felizmente acordei a tempo e não debato mais nada com ele a não ser eventualmente para mostrar para terceiros que ele está dizendo besteira.

      Ele não quis defender as pessoas que eventualmente agem de modo ilógico devido a suas emoções ou conveniências – isso sim uma atitude humana não inesperada – e sim realmente desqualificar a lógica enquanto fundamento para a validade de um argumento. Por isso minha reação indignada.

  7. Uma das técnicas satânicas mais usadas pelas feministas é a de MISTURAR PROBLEMAS SÉRIOS E REAIS COM BABOSEIRAS, TENTANDO NIVELAR TUDO NA MENTE DAS MULHERES INGÊNUAS QUE CAEM NESSA ARMAÇÃO.
    Olha o absurdo: Numa matéria de violencia de genero, onde é citado agressão e estupro, encontramos a seguinte declaração:
    “Outro caso, de um blogueiro ensinando o que é menina pra ficar e o que é menina pra namorar. Isso não é liberdade de expressão, é liberdade de opressão, é nocivo. Em 2013 esse tipo de coisa ser publicada… ”
    Isso mesmo, no meio de problemas sérios como estupro e violência contra a mulher, é citado o caso “sério” de um blogueiro que, como homem, ousou fazer uma lista para determinar o que para ele é mulher pra namorar e o que é mulher pra ficar. Nossa, que crime! Isso é opressão!
    E veja que ela diz, expondo claramente a natureza censuradora desse tipo de pensamento “isso não é liberdade de expressão”. Isso mesmo, ela diz que não é liberdade de expressão, para ela isso não está incluso na nossa liberdade, ou seja, se dependesse dela e de outras feministas fazer um simples post como o do blog seria PROIBIDO, CONTRAVENÇÃO.

    1. Sim, Pedro, isso é uma estratégia antiga, usada não somente pelos “politicamente corretos” mas por todo indivíduo ou grupo interessado em justificar seus próprios abusos.

      Como é que se justifica a tortura? Como fez George W. Bush: afirmando que a tortura não é tortura e sim “técnica dura de interrogatório”.

      Como é que se justifica a cassação da liberdade de expressão? Como tu apontaste: afirmando que a liberdade de expressão não é liberdade de expressão e sim “liberdade de opressão”.

      É a mesma técnica.

  8. Minha grande decepção com a universidade foi que ela é “intra – muros”.

    Minha segunda grande decepção foi com a Net.

    Pensei que ambas pudessem mudar a sociedade,não podem.

  9. Fora que elas censuram mesmo. Postei um comentário no site blogueirasfeministas.com, que foi aceito, mas fui chamado de transfóbico. Logo postei outro, educado, sensato, que não foi aceito. Questionava que não era possível deixar travesti usar banheiro feminino por motivos obvios, que se travesti é uma mulher, por que não chamam de mulher e não “mulher trans”, que foi uma injustiça punir um cara de um torneio MMA que criticou um travesti que lutava contra as mulheres por ser injustiça, entre outras coisas.

    Depois, mandei outro comentário reclamando, educadamente, que o outro não foi aceito. Nada tb.

    Essas feministas tem medo da verdade???

    1. É errado mesmo um trans competir com mulheres. Muito homem já aprendeu na prática que travestis batem como homens.

    2. Transexual é uma coisa, travesti é outra, pessoal.

  10. “temos poucos interlocutores simultaneamente razoáveis, empáticos e decentes. Muito menos do que normalmente acreditamos ter.

    Adianta reclamar disso? Não, não adianta. Assim é o mundo.”

    Concordo.

    “os verdadeiros interlocutores não são as pessoas com quem se está falando, mas as pessoas para quem se está falando?”

    E também concordo. Muitas vezes, o interlocutor não participa diretamente da conversa. Mas é cansativo mesmo assim.

    1. Nos últimos dias eu tenho me esforçado para colocar o pé no freio quando não-interlocutores interagem comigo em debates públicos. Mas é uma disciplina difícil.

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