Sabem aquelas pessoas que acham que, porque não estão cometendo um crime nem fazendo nada ilegal, pensam que podem fazer qualquer coisa sem levar em consideração o que os outros vão sentir ou pensar? Pois é, a vida costuma ensinar do pior jeito aos sem-noção que ter direito não implica necessariamente ter razão, muito menos estar seguro. 

O caso que relato aconteceu em 1988. Eu tinha, portanto, 19 ou 20 anos, estava em plena forma física e já pensava que é dever de todo cidadão contribuir com a segurança pública. Mas isso é só para contextualizar a história. 

Eu tinha saído de alguma aula qualquer e estava me dirigindo à parada de ônibus quando alguém gritou “PEGA LADRÃO!!!”, eu me virei e vinha correndo na minha direção um sujeito enorme, evidentemente muito forte, com o rosto coberto por uma camiseta, uma bolsa vermelha vistosa na mão e três ou quatro caras correndo atrás. 

O sujeito já estava muito perto de mim, não tive tempo para pensar em nada. Reagi ligado no piloto automático e protocolei uma solicitação de entrevista com o pé no meio da cara do meliante em fuga, que tombou desacordado. 

Imediatamente os perseguidores levaram as mãos à cabeça, sinal claro de preocupação, abaixaram-se ao lado do sujeito e puseram-se a chamá-lo pelo nome e tentar acordá-lo. Um instante depois apareceu alguém com uma filmadora enorme no ombro, vindo de trás de um grupo que parecia estar justamente escondendo o cinegrafista. E logo completou o grupo a suposta vítima do furto, quase histérica, abraçando o “ladrão”. Xiiiii… 

Era uma turma da FAMECOS filmando um trabalho de aula qualquer – sem isolar a área, sem colocar qualquer aviso para o público e pelo que soube sem autorização de quem quer que fosse para fazer filmagens ali – e eu tinha acabado de nocautear um deles. 

O protocolo da entrevista foi tão bem carimbado que o sujeito teve que ser levado ao Hospital São Lucas, onde acordou bem dolorido, mas não sofreu qualquer lesão. Como eu passei mais um ano circulando pelo campus sem que ninguém me interpelasse sobre a questão, suponho que o grupo tenha violado alguma regra qualquer da universidade e decidido abafar o caso para ninguém se complicar. MAS… 

Imaginem se o sujeito tivesse quebrado o nariz, ou um dente. Eu bati para parar bem parado o que parecia ser um criminoso forte em flagrante delito, mas alguém maldoso poderia ter batido para quebrar alguma coisa. Alguém ainda mais maldoso, tendo um segundo ou dois a mais para pensar no que fazer, poderia ter aleijado ou matado aquele estudante. Bastaria alguém juntar uma pedra do chão e acertar a cabeça dele ao passar correndo e seria absolutamente inútil discutir os detalhes legais do caso. 

E, assim como nesse caso o sem-noção encenou um furto no meio de um público desconhecido e heterogêneo, muitos outros sem-noção fazem coisas estúpidas que os colocam desnecessariamente em risco. Gente que atravessa a rua olhando para o lado oposto, para obrigar o motorista a frear. Gente que vai a baladas com roupas chamativas, jóias ou objetos de valor. Gente que bate boca e ofende alguém com o dobro do seu tamanho. Gente que coloca fotos expondo sua intimidade na internet, pouco importa o quão restritas sejam suas configurações de privacidade. Gente que pensa que, porque “tem direito”, seu direito será respeitado. 

Ah, sim. Estou organizando uma excursão para conhecer Chernobyl, incluindo no pacote turístico uma semana de pesca embarcada na costa da Somália. Algum interessado? 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 11/10/2013

6 thoughts on “O prêmio dos sem-noção

  1. Depende, que dia sai? Quando volta? Quanto custa? Qual o padrão dos hotéis? Precisa levar protetor solar? Fator 50tera é suficiente?

    1. 1° a 30/01/2014, US$ 1.199.99, hospedagem cinco estrelas, refeiçoes e protetor solar incluído.

      Posta aqui teus dados – nome completo, RG, CPF, data de nascimento, telefone, endereço, conta bancária e senha – que eu faço uma reserva.

  2. “Ah, sim. Estou organizando uma excursão para conhecer Chernobyl, incluindo no pacote turístico uma semana de pesca embarcada na costa da Somália. Algum interessado?”

    https://www.facebook.com/photo.php?fbid=564571823597115&set=a.456809171040048.120660.414015301986102&type=1&theater

    1. Que que tem esse piá folgado com o assunto? 😛

  3. Por falar em gente sem noção, vejam a verdadeira cara do feminismo, http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2013-10-09/desafio-assista-ao-debate-sobre-profissionalizacao-da-prostituicao.html, notem o nível de respeito quanto a autonomia das mulheres que pensam diferente do feminismo. Agora imaginem a consideração que têm com a opinião masculina.

    1. Putzgrila! Não assisti o vídeo, mas requeiro o título de “notório saber” na área. Fui moderador de fóruns de Direitos Humanos por sete anos, poxa. 🙂

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *