O cidadão honesto e ordeiro costuma ver a administração do mundo por lentes distorcidas. Ele acredita que as instituições em geral fazem aquilo que deveriam fazer, mas enfrentam alguns problemas devido a exceções como a incompetência e o crime. Wishful thinking.

 O texto abaixo é um trecho do livro “A revolta de Atlas”, de Ayn Rand. 

O Dr. Ferris sorriu.

– O senhor pensa que a gente não havia percebido isso? – perguntou, no tom de voz de um criminoso que mostra a um colega de profissão que é mais esperto que ele. – Esperamos um bom tempo até termos alguma coisa contra o senhor. Gente honesta como o senhor dá muito trabalho, muita dor de cabeça. Mas sabíamos que mais cedo ou mais tarde teríamos uma oportunidade. E conseguimos. 

– O senhor parece satisfeito.

– E não tenho razão para estar?

– Afinal de contas, eu violei uma das suas leis.

– Ora, para que acha que elas foram feitas?

O Dr. Ferris não percebeu a expressão que surgiu subitamente nos olhos de Rearden, a expressão de quem vê pela primeira vez aquilo que esperava ver. O Dr. Ferris já havia passado do estágio de ver e estava ocupado em dar os últimos golpes num animal preso numa armadilha. 

– O senhor realmente pensava que a gente queria que essas leis fossem observadas? – indagou o Dr. Ferris. – Nós queremos que sejam desrespeitadas. É melhor o senhor entender direitinho que não somos escoteiros, não vivemos numa época de gestos nobres. Queremos é poder e estamos jogando para valer. Vocês estão jogando de brincadeira, mas nós sabemos como é que se joga o jogo, e é melhor o senhor aprender.

O Dr. Ferris continuou: 

– É impossível governar homens honestos. O único poder que qualquer governo tem é o de reprimir os criminosos. Bem, então, se não temos criminosos o bastante, o jeito é criá-los. E fazer leis que proíbem tanta coisa que se torna impossível viver sem violar alguma. Quem vai querer um país cheio de cidadãos que respeitam as leis? O que se vai ganhar com isso? Mas basta criar leis que não podem ser cumpridas nem ser objetivamente interpretadas, leis que é impossível fazer com que sejam cumpridas a rigor, e pronto! Temos um país repleto de pessoas que violam a lei, e então é só faturar em cima dos culpados. O sistema é esse, Sr. Rearden, são essas as regras do jogo. E, assim que aprendê-las, vai ser muito mais fácil lidar com o senhor. 

Sim, é um trecho de uma obra de ficção… Pelo menos no que diz respeito aos nomes dos personagens. O diálogo é fleugmático demais e um tanto estereotipado. A lógica é apresentada de modo muito explícito. Tudo pelo bem da compreensão do leitor.

A realidade, porém, é bem mais dura, mas apresentada de modo muito mais nebuloso. Afinal, só mesmo em um romance existe interesse em que o público compreenda este enredo. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 18/10/2013 

2 thoughts on “Você acha que as leis são feitas para serem cumpridas?

  1. Bruno Ferreira Porto

    18/10/2013 — 11:01

    MUITO OBRIGADO pela dica de leitura 😀

    A propósito e mudando de assunto – eu e um amigo físico ficamos muito interessados na visita a Chernobyl – pode me mandar um e-mail ou mensagem no FaceBook a respeito, por favor?

  2. Bah, e aquela do “todos são iguais perante a lei”??
    O nosso sistema jurídico é cheio de pegadinhas.

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