Se você acha que está seguro em ambientes públicos movimentados e bem iluminados, leia este relato com atenção e imagine o que aconteceria com você se estivesse em meu lugar. 


Nas proximidades de onde eu morava em Porto Alegre havia uma lancheria que começou com o carrocinha de cachorro-quente e logo cresceu passou a ocupar o prédio em frente ao qual ficava. O forte deles continua sendo o cachorro-quente, que é imenso e de ótima qualidade. Então, como eu estive por lá no mês passado, resolvi comer um cachorro-quente na noite anterior a meu retorno para onde estou morando atualmente. 

Estava caindo uma chuvinha leve naquela noite. Então, embora eu tivesse que andar apenas umas poucas quadras, fui de carro. (Eu iria de carro mesmo que não estivesse chovendo, mas a chuva me dava a desculpa. Mas divago.) A lancheria estava cheia e havia muitos carros estacionados em frente – tantos que não encontrei onde estacionar. Dei umas voltas e surgiu uma vaga a uns 50 m da lancheria. 

Estacionei o carro “na contramão”, com a porta do motorista rente à calçada, desci, tranquei as portas, acionei o alarme, esperei as janelas subirem e se fecharem, me virei para ir para a lancheria… E recebi um empurrão. Bati com as costas na porta do motorista. 

– Perdeu, perdeu! Cadê a chave do carro? 

Eram três. Nenhum deles tinha nada nas mãos, nem deram a entender que tinham armas ou facas. Ao que tudo indicava, resolveram me assaltar com base unicamente na superioridade numérica. Riam alegremente, despreocupados, como se aquilo fosse uma brincadeira já repetida diversas vezes impunemente. 

Um deles meteu a mão num dos meus bolsos e pegou a nota de R$ 20,00 com a qual eu ia pagar o lanche. Outro meteu a mão no bolso do outro lado e pegou a chave do carro. Não paravam de rir e debochar, embora seus gestos fossem brutos. Até então eu ainda estava “travado”, sem reação, já lamentando mentalmente que ia perder o carro. Nesse momento o terceiro disse: 

– Sai, sai, playboyzinho de merda! 

E passou a mão em mim, para me humilhar. 

No momento em que ele fez isso, meu sangue ferveu. E então eu fiz uma coisa muito, muito, muito estúpida: fechei a mão e esmurrei com raiva a cara do desgraçado. 

Com toda a sinceridade, não me lembro bem das cenas que se seguiram. Lembro de flashes.

O sujeito que eu esmurrei caiu desacordado. Nocaute. Logo em seguida acho que dei um soco no nariz do que tinha pego a nota de R$ 20,00, porque me lembro que a camisa dele se encheu de sangue e ele deu uns para trás meio abobalhado. Depois lembro de estar trocando socos com o que pegou a chave do carro. Em algum momento eu acertei um mata-cobra no sujeito, que caiu, e na seqüência um pontapé na cabeça. Segundo nocaute. Lembro que neste exato momento fui agarrado pela cintura pelo sujeito que eu tinha esmurrado primeiro, que acordou, se levantou e me atacou novamente. Suponho que ele ainda estava meio grogue, porque eu estava desequilibrado e mesmo assim ele só conseguiu me empurrar até eu bater com as costas no portão de ferro da casa em frente. Então eu agarrei o sujeito pelo pescoço e bati com a cabeça dele no portão de ferro até ele parar de se mexer. Terceiro nocaute. Virei para o terceiro assaltante e ele saiu correndo. Fim de luta. 

Ofegante, juntei as chaves do carro, que estavam caídas na calçada, e percebi que havia umas vinte pessoas assistindo tranquilamente a cena, apontando para mim e rindo como se estivessem em frente a um ringue e acabado de ganhar uma aposta. Xinguei todo mundo de covarde e gritei enfurecido que não tinha nenhum homem ali. E não tinha mesmo, porque continuaram todos parados onde estavam, só pararam de rir. Então, entrei no carro, dei meia-volta e fui embora sem passar em frente ao grupo, deixando dois dos assaltantes desacordados no chão. Tudo que eu queria naquele momento era voltar logo para casa. 

Foi somente quando eu cheguei em casa que eu me dei conta que estava com uma marca de sangue no queixo e outra no braço, mais uma marca de solado de tênis na camiseta, na altura das costelas, e lembrei que eu tinha levado um soco no rosto e um pontapé nas costelas, entre outros golpes. 

Ironicamente, nenhuma das agressões que sofri nem sequer doeu – bendita adrenalina – mas eu tive que adiar minha viagem porque estava com o pulso inchado e o ombro doendo demais para dirigir por ter batido nos assaltantes. 

Só de lembrar do episódio me ferve o sangue de novo. Pobre teclado. 

Esta é a situação em que nos encontramos: a bandidagem está tão auto-confiante que já está assaltando em público e sem sequer usar armas. Três vagabundos tentaram me roubar o carro em frente a mais de vinte pessoas sem o menor temor. Os vinte, entretanto, eram tão covardes – e canalhas – que se limitaram a ficar assistindo e rindo da briga. A Gangue do Huehue está nas ruas, como covardes que atacam em bando e como covardes que se omitem em bando. Todos rindo, assaltantes e espectadores… Até que chegue a vez de cada um deles ser a vítima, claro. 

Quando covardes agem de modo ousado, é porque têm certeza de que não correm risco. Só quem tem segurança hoje em dia é a bandidagem. O assaltante sabe que nenhum cidadão honesto pode ter arma, o cidadão honesto se borra de medo porque sabe que o Estatuto do Desarmamento não desarma nenhum assaltante, a polícia é ineficiente, o judiciário é uma tranqueira de quem todo mundo quer distância e o governo é corrupto e faz tudo que pode para deixar o cidadão honesto cada dia mais vulnerável e a bandidagem cada dia mais segura e confiante para nos tomar o que quiser e barbarizar como bem entender. 

Que inferno. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 23/11/2013 

31 thoughts on “Bandidagem a cada dia mais ousada (1)

  1. Eu moro em uma cidade de cem mil habitantes no norte do RS. Não teria coragem de morar em Porto Alegre ou qualquer outra capital, a impressão que eu tenho é que são cidades muito violentas.

    1. Porto Alegre já foi muito melhor neste aspecto. Está piorando nitidamente, é tendência nacional. A violência chega primeiro nas grandes cidades, mas vai se espalhando como câncer.

  2. É triste o pessoal tirando onda com a tua cara. Ainda bem que a tua fúria ficou restrito apenas aos meliantes. Numa dessas algumas pessoas com descontrole emocional poderia pegar o carro e atropelar a “platéia”. Já não bastasse a plena atividade dos bandidos pior ainda a passividade medíocre dos transeuntes.
    Aparentemente você não sofreu nenhuma fratura. Seja como for estimo melhoras.

    1. Grato, Alexandre.

      Nunca pensei na hipótese de atropelar os omissos. Esse tipo de coisa me dá tanto nojo que minha única vontade é sair de perto. Mas obrigado pela idéia, quem sabe na próxima… 😛

      Hehehehe

  3. Por isso que não saio de casa sem minha faca. Se o meliante estiver armado, que leve tudo, fazer o que, mas se não estiver é faca no bucho sem hesitar.

    1. Somente em legítima defesa, somente em legítima defesa!

  4. O que é um mata-cobra?

    1. É um soco dado na descendente, com abertura de guarda, giro amplo do braço e grande aproveitamento do impulso do corpo para aumentar a potência do golpe.

      O mata-cobra tem duas variações, conforme a parte da mão que atinge o adversário: a marretada (proibida no boxe), que foi o que usei, e o swing (usado no boxe).

      Se pegar é nocaute na certa, mas se não pegar o risco de contra-ataque é muito grande em função da abertura de guarda. Como eu já estava com o pulso detonado pelo gancho do primeiro nocaute (falta de treino é uma droga…), não consegui bater com força e tive que finalizar o cara com um chute.

      Aliás, o mata-cobra marretada é a alternativa que sobra quando se está com a mão ou o pulso machucados e não se consegue mais aplicar jabs, diretos e ganchos devido à dor.

    2. Hehehehe… Explicando assim parece tudo muito lógico e técnico… Na hora foi pura porradaria, foi do jeito que deu.

  5. Não me admira que teve sucesso, levando-se em conta da sua desvantagem numérica, apesar de todos os riscos.

    1. Santa Adrenalina!

    2. Sabe o Wolverine, quando ultrapassa os limites do autocontrole? 😮

  6. Com isso vc pode andar na rua http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-524364699-arma-de-choque-vipertek-vts-989-19-milhoes-de-volts-taser-_JM

    Em casa use uma balestra que é legal, ainda.

    O governo passa essa visao utopica de que desarmando todos vao viver felizes para sempre, pois o homem é naturalmente bom, mesmo a população sendo contra o desarmamento.

    1. Eu tenho uns truques para me proteger, mas é o tal do negócio… Como eu ia imaginar que já havíamos chegado ao ponto de assaltos “no grito” em ambientes públicos? É o tipo da coisa que a gente não imagina que vá acontecer até que acontece ou até que leia relatos reais. Supor uma coisa dessas costuma ser chamado de “teoria da conspiração” ou puro e simples exagero ou paranóia. Mas a realidade está se tornando pior que imaginamos muito rapidamente.

  7. PÔ, Arthur, vê se te cuida. Não dá mais pra sair de noite e comer lanche inocentemente por aqui. Por sorte não estavam armados. Eu fui assaltada com armas pesadas e estavam mascarados e em 4. Mas ninguém ficou rindo pq todo o mundo entrou no arrastão. E eram só 20:30 na Ipiranga, perto do Shopping – POA.
    Vivendo em SC agora vejo que a criminalidade aqui tem outra face.. a covardia é corrente por aqui. São os próprios moradores, a população, que te engana no troco e tu nem percebe. Claro que tem exceção mas a gente já fica de pé atrás. TEns razão. Isso espalha… na verdade, todos querem levar vantagem em alguma coisa. O que me impressiona é que eles fazem inúmeras vezes o mesmo crime e continuam atacando no mm lugar. É de pensar se não há conivência com algum policial. No meu caso, eu e outra assaltada fizemos BO mas os caras só pararam de assaltar no mm local meses depois. Tem que ter muita mobilização e, pelo jeito, o povo prefere ver um bom espetáculo do que justiça.

    1. Eu sou um ímã pra encrenca. Sorte que meu anjo da guarda é o melhor do universo! 🙂

  8. O melhor maneira seria todos ter o porte de arma. Qual bandido iria assaltar sabendo que todo mundo alí no mercado tem uma arma? Se lembra daquele filme do Predador 2? onde uma gang entrar no metro esculachando e todo mundo puxa uma arma ao mesmo tempo? Então!

    1. Não vi o filme, mas imaginei a cena e adorei a idéia. 🙂

    2. Isso. 🙂

      MAD, certo?

    3. Exato. O velho e bom Don Martin.

  9. É a bandidagem que está cada dia mais ousada ou é o Arthur que está cada dia mais azarado?

    1. É a bandidagem que está a cada dia mais ousada.

      Pensa bem e verás que eu tive foi MUITA SORTE. 😉

  10. Camarada Moderado

    15/02/2014 — 09:21

    Se chegar a vias de fato, nunca use soco; palma de mão na região nariz, use os cotovelo se o cara estiver perto, se te agarrar por trás acerte no plexo solar. Evite cair no chão e sempre se mantenha em movimento.

    A teoria é maravilhosa, mas infelizmente um pouco de prática e treino são necessárias para adquirir essa simplicidade. A maioria das artes marcias modernas e o krav magá são eficientes no que tange a defesa pessoal, com um pouco de exceção ao jiu-jutsu porque é muito voltada a lutas um contra um. E, normalmente, no mundo real, nunca é um contra um.

    1. Gostei, é raro alguem de visão realista quanto à nobre arte da porradaria.

    2. Essa do não usar soco é difícil de lembrar. Somos muito condicionados a reagir com este golpe específico. Eu já quebrei um osso (lesão do boxeur) e arrebentei o pulso duas ou três vezes por causa disso.

      Naquela vez recente em que sofri a tentativa de assalto e reagi contra três agressores, tive que adiar uma viagem por dois dias porque machuquei o pulso batendo nos caras. Passei esses dois dias tomando anti-inflamatório.

      O mata-cobra com que eu nocauteei um dos caras foi no estilo marreta (felizmente um dos mais eficazes) justamente porque eu já tinha estourado o pulso ao dar um direto num outro agressor e não agüentaria dar outro direto com a mesma mão.

      Mas nada como um soco tradicional para dar um upper. 🙂

    3. Esse é um dos motivos porque a luta que eu e o Aristein fazemos praticamente só usa a mão aberta. O bagual :), lembra? Com um treininho básico de endurecer a palma o efeito é ótimo.

    4. Tentarei lembrar disso no próximo assalto. 😛

    5. Mas tem que condicionar antes. A palma e o reflexo motor.Pena que tanto eu como o Aristein tamos longe. Eu adoraria ensinar prum casca grossa inteligente como você.

    6. Hehehehe 🙂

      Mas não é bem a palma, né?

      É a base da palma. A continuidade do antebraço.

      Dali pra cima a chance de virar a mão para trás é grande.

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