O estilo musical que você aprecia diz muito a seu respeito. Não somente em relação ao seu bom gosto e refinamento auditivo, mas em relação a sua educação, sua civilidade, seu respeito a terceiros. 

Notas Musicais Soltas

Eu nunca vi pessoas que apreciam música clássica, erudita, jazz, blues e outros gêneros musicais refinados instalarem sons automotivos de altíssima potência em seus carros e passarem uma madrugada fazendo guerra de som uns contra os outros no meio de um bairro residencial. 

Mas eu já fui mantido acordado madrugada adentro por hordas de “apreciadores” de funk, sertanejo, eletrônica, axé, rap, hip-hop e outros gêneros musicais medíocres diversas vezes. 

Eu nunca vi pessoas bem vestidas impedirem a livre circulação de automóveis em uma avenida durante horas dançando elegantemente valsa, bolero, foxtrote ou tango. 

Mas eu já fui impedido de circular e até mesmo de entrar em casa por hordas de “dançarinos” de chinelos-de-dedo, bermuda caída com a metade da bunda de fora (ou atolada na bunda, conforme o sexo) e boné vestido com a aba para trás se contorcendo como macacos no cio e fazendo gestos obscenos mais de uma vez. 

Eu nunca tive medo de ser mal interpretado ou mal recebido ao pedir para um vizinho que estivesse ouvindo alto demais música de alta qualidade que abaixasse um pouco o volume, pelo contrário, na única em que me lembro de ter feito isso na minha vida – na adolescência – o que eu ouvi foi um pedido de desculpas pelo incômodo. 

Mas eu temo pela minha integridade física, se não pela minha vida, na hipótese impensável de pedir que um desses pornocontorcionistas que ouvem lixo abaixe um pouco o volume porque eu não consigo dormir dentro da minha própria casa. 

Eu imagino que haja exceções. 

Mas exceções não anulam a regra. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 1°/01/2014 

33 thoughts on “Estilos musicais e respeito a terceiros

  1. Eu acho tenso taxar de “preconceituoso” alguém como você. A gente observa correlações. Correlações permitem fazer previsões. Precisamos usar esse tipo de heurística. Em outras palavras, com certeza existe muito funkeiro gente boa. Mas se a pessoa ouve funk, ela perde pontos comigo (que ela pode recuperar, é claro).

    1. Pois é.

      A palavra “preconceito” tem sido muito mal empregada.

      Eu não “preconceituo”, eu discrimino.

      Sendo que “discriminar” é outro termo mal compreendido.

      Todo mundo discrimina. Sal é sal, açúcar é açúcar. Não se põe sal no café, nem açúcar na batata-frita.

      O problema não é nem discriminar antes de conhecer. Se alguém vir uma moita se mexendo na savana, faz bem em se proteger, mesmo que o movimento tenha sido causado por um filhote de zebra, não por um leão. Arriscar a vida para evitar a possibilidade de ferir os sentimentos do filhote de zebra não seria uma boa idéia.

      O problema real é negar-se a conhecer. E, uma vez conhecendo, negar-se a agir de acordo com o conhecimento adquirido.

      Veja bem, portanto: eu conheço o funk. E minha opinião é bem fundamentada na experiência.

      Preconceituoso é quem nega que haja uma diferença entre a qualidade e o refinamento dos diversos estilos musicais e dos públicos que preferem este ou aquele estilo.

      Eu reconheço a possibilidade de haver exceções. Mas não reconheço razoabilidade nem legitimidade alguma em impor a negação de uma regra observável. Além de preconceito, isso é autoritarismo.

  2. Como se trata de música de consumo rápido, uma hora alguém enjoa como diria nada é ad eternum. A questão é quando essa bagaça passa? Até lá muita paciência e chá de maracujá. Eles estão crentes que o gosto deles é supremo e que o resto tá de mimimi, vítima do preconceito e do politicamente correto. O engraçado é que a vulgaridade deles é sinônimo de “sensualidade”. O trágico é silêncio das feministas diante disso. Até lá somos obrigados a suportar a poluição sonora, pois nós somos culpados por não tolerar eles. Portanto só resta a risada amarela já que chorar não resolve.

    1. Se eu estivesse com dinheiro sobrando, talvez instalasse um som-monstro num carro para contra-atacar o funk com a Rapsódia Húngara n°2 no volume de uma turbina de Boeing 747. Seria divertido observar os desdobramentos.

  3. Elvis, Elvis, isso seria benevolência ou ingenuidade, eis a questão? O funk produzido por aqui não tem dignidade o suficiente de ser tachado de “boa” música, se é que podemos chamar isso de música. O gosto musical reflete a idiossincrasia da pessoa e revela aspectos importantes no caráter e traços na sua personalidade. Pode ser preconceito da minha parte, porém dificilmente uma pessoa que curte funk pode ganhar a minha simpatia. A antipatia não é bullying, o pessoal do funk precisa entender isso, ninguém é obrigado a curtir o que ele curte, ninguém é obrigado a compartilhar de forma involuntária.

    1. “ninguém é obrigado a compartilhar de forma involuntária”

      Pois é. Deveria ser assim.

      Especialmente depois da meia-noite.

  4. Uma vez fui acordado por um carro de som desses telegramas sentimentais que estava rolando para uma vizinha. Não sei se o que me incomodou mais foi o nível pornográfico do som ou a quantidade de elogios mentirosos (a vizinha era uma legítima representante de tudo de pior que um ser humano pode ser) que ela estava recebendo.

    1. Voto no volume pornográfico do som.

      Se o cara dissesse as mentiras no ouvido dela, ninguém se incomodaria.

  5. É André está aí o exemplo, você compartilhou de forma involuntária, ai,ai e ai de você se você reclama. Entre eles mesmo rola uma ciumeira desgraçada, inclusive tivemos um caso de homicídio num desses shows. Reclamar é encarar uma briga de foice. Deixa esse bagulho de lado, toma um chá de maracujá. E reze que ela um dia se mude daí ou… sei lá. O grau de periculosidade não é desprezível.

    1. Acabo de lembrar da Teoria das Janelas Quebradas.

  6. Vinicius Silva

    04/01/2014 — 10:32

    Rapaz, acho que entra também um pouco um pensamento matemático.

    Quantas pessoas gostam de músicas populares, como funk, pagode, axé, etc? Qual é a parcela da população?

    Paralelamente, qual é a parcela da população que é atraída por uma música mais refinada?

    Não tenho estudos fundamentados, mas creio ser correto admitir que a parcela da população que aprecia músicas mais populares é muito maior do que a outra parcela, até porque a nossa cultura estimula muito mais músicas populares do que as mais refinadas. Seja por causa da mentalidade média das pessoas, ou seja por uma questão de mercado mesmo, a indústria da música empurra goela abaixo canções como “Stupid hoe”, ou “Aqui tem piru, Aqui tem dinheiro”. Logo temos uma predisposição maior, matemática até, de encontrar pessoas que gostam mais do tipo popular de música do que ao contrário.

    Ainda poderia argumentar que as músicas mais populares, com “batidões”, estimulam uma certa parte animal do corpo e determinados chakras que ressoam com o nível de consciência dessa parcela de pessoas, mas aí eu entraria em misticismo e sei que você não gosta muito do tema 😀

    Abraços.

    1. Um problema é que as músicas populares de hoje tiveram se nível bem piorado. Antigamente a escola pública prestava, então tínhamos autores pobres com cultura. Gente que veio da pobreza, Cartolas e tais, que faziam coisas lindas. Hoje o popular caiu muito. Mas acho que a classe média caiu tambem.

    2. Eu não tenho nada contra quem curte lixo musical. Que sejam muito felizes, porque gente feliz enche menos o saco dos outros. Meu problema é com quem me obriga a ouvir lixo musical ou furadeira ou qualquer coisa no meio da madrugada.

      E é verdade, “chakras” e “níveis vibracionais” realmente não fazem parte do meu cardápio. 😉

  7. Basta ver que a classe média assumiu a mediocridade, detalhe o pessoal pobre não fica de lero-lero pedante e muito menos pratica o falso moralismo. Por hora o down grade é a grande sacada, basta ver que o pessoal paga o maior pau para a Anitta, cuja música é tão “boa” que serve de propaganda de camisinha pelo menos estimula seu uso entre os jovens que não estão nem aí para as DSTs sobretudo para a Aids.

    1. “O show das poderosas, que descem, rebolam, afrontam as fogosas…”

      Quer dizer, ser “poderosa” é balançar melhor a bunda?

  8. Gosto de ouvir música,qualquer uma,depende muito do meu estado de espírito.
    Sou louca por instrumental.
    Escuto música para mim,não para informar os vizinhos do meu gosto musical.
    Já bati na casa vizinha antes das seis da manhã por causa do rádio que estava nas alturas.
    Porque me respeito o vizinho ficou meu amigo,é uma ótima pessoa….meio surda!
    Uma vez tive um vizinho que amava samba enredo,lá pelas oito da manhã,ou até antes,ele botava o som nas alturas.
    Aquilo me incomodava bastante,e ninguém se atrevia a por fim ao suplício,o sujeito era um armário.
    Um dia liguei o rádio no volume máximo,numa rádio evangélica…e sai de casa.
    Passei a manhã toda longe de casa.
    Deu certo,nunca mais o tal escutou som alto.
    Verdade que alguns vizinhos ficaram furiosos comigo,mas levaram em consideração o fato de eu jamais tê-los incomodado com poluição sonora.
    Se eu fosse tu,colocava a nona do Beethoven bem alto.

    http://youtu.be/t3217H8JppI

    1. Rádio evangélica? 😮

      Li, a terrorista! 😛

  9. Que bom que descobri este blog!!! Vou devorá-lo!!! Obrigada, Arthur, por tirar as palavras da minha boca!

  10. Interessante a tua colocação Li, quanto a Beethoven colocaria a quinta sinfonia primeiro movimento com um arranjo de guitarras (muita gente detesta o som de guitarra) e colocaria em modo de repetição. Para evitar conflitos alheios combinaria com a vizinhança a se retirar e deixa-lo isolado. Aí quem sabe o zé-ruela se liga, quem sabe…

    1. Pô, eu tinha a Quinta num arranjo com guitarras… Perdi junto com centenas de obras clássicas que estavam em um HD que deu pau. :-/

  11. Arthur tenho problemas desse tipo frequentemente.
    Não moro em condomínio nem apartamento, moro em residência e os vizinhos adoram compartilhar o gosto musical com bastante entusiasmo.
    Por exemplo, pegam a caixa de som e viram em direção à rua para que o som se propague para todas as residências nas redondezas.
    E como de praxe a música é sempre da tríade brega-funk-sertanejo, variando entre músicas deliciosas desde “A p*rra da b*ceta é minha” até “Ela sai de saia e bicicletinha uma mão vai no guidão e outra tapa a calcinha”.
    Fora o pessoal que paga 13 mil em um carro usado e ao menos 20 mil em equipamentos de som para esse mesmo carro apenas para exacerbar seu gosto musical em alturas inalcançáveis para pobres mortais.
    Eu sinceramente não sei a causa dessa necessidade incontrolável, já desisti de tentar entender.

    1. É de chorar, né, Gelson? Alguns anos atrás um amigo meu estava procurando uma casa para comprar e eu fui visitar alguns imóveis com ele. Uma casa em especial o agradou e ele decidiu adquiri-la. Por pura coincidência eu passei de carro em frente àquele imóvel no dia seguinte e estava tocando um funk-pancadão em volume-turbina no vizinho.

      Parei o carro, desci, fui falar com uma vizinha que estava com cara de poucos amigos no portão de uma casa próxima. Ela me disse que aquilo acontecia o tempo todo, que era um inferno, que ninguém na vizinhança agüentava mais.

      Relatei o fato a meu amigo e disse: “Não entra nessa fria! Não compra essa casa!”. Ele não me deu atenção. Disse que isso não é critério para escolha de um imóvel, que em último caso é pra isso que existe polícia, etc., etc., etc. E comprou a casa.

      Pouco mais de um ano depois ele coloco a casa à venda novamente, porque depois da terceira o quarta vez a polícia parou de atender quando ele chamava e a Secretaria do Meio Ambiente e sei lá qual outra que deveriam fiscalizar a poluição sonora simplesmente nunca apareceram apesar de inúmeras promessas.

      E muito provavelmente a coisa vai continuar assim até que o imóvel desvalorize o suficiente para ser adquirido por algum mequetrefe que goste de funk-pancadão em volume-turbina, ou até que um policial não muito dado ao cumprimento das leis a adquira. (Por que aí a coisa se resolve rapidinho.)

  12. Um cara passa duas vezes por dia na frente da minha rua “tocando” a mesma “música”. Nós o denominamos de Tuc-Tuc-Tuc-Tuc. Não consegui ainda identifica-lo pessoalmente, embora ele tenha usado a frente da minha casa como rota para o inferno, seja lá onde fica isso, já há 2 meses, criando em mim uma profunda necessidade de conhece-lo pessoalmente. Agora já é uma questão de curiosidade científica! Queimo de vontade de saber como é o cérebro de uma pessoa que ouve estridentemente, todos os dias, sempre, indefinidamente, a mesma coisa: Tuc-Tuc-Tuc-Tuc, Brrr, Brrr, uma pausa curta, seguida de um blaghrra-blaghrr gutural (talvez seja um gargarejo) e repetindo e repetindo a trilha per “omnia secula seculorum”. O Brrr-Brrr, no início, eu pensava que fosse um tabor rapidamente tocado por uma macaco epiléptico, mas depois percebi que era a trepidação da placa do carro provocada pela eterno solo de bateria gargarejado. Imagino a reverberação dessa porra no interior daquele carro! Como deve ser o pensamento de uma criatura assim? O que sobra? O que lhe vai na alma? Como devem estar os seus tímpanos? Será que os seus nervos auditivos, que clamam desesperadamente por socorro, não estão a beira da ruptura? Será que o encéfalo do cara já não virou mingau? E depois o Arthur reclama que o apocalipse não chegou! Só pode estar surdo!

    1. Mas então o Apocalipse está chegando! Esse cara aí só pode ser a própria Besta do Apocalipse! 😉

  13. Ta aí duas coisas que eu nunca entendi: por que fazem carros que alcançam velocidades de 160 km/h quando o limite máximo em estradas é 100 km/h e porque fabricam sons com intensidade tão grande quando com 100 decibéis já pode-se ter uma perca de audição.

  14. “Poderosa”…

    Só pode ser isso, eta metáfora medíocre(misericórdia!!!!). Ai de você, no caso as mulheres se não tiver as protuberância nas nádegas. Pode enterrar a cabeça, isso é bullying com as desbundadas…

  15. não mesmo!

    18/11/2014 — 00:18

    Fala em respeito mas chama rap/hip-hop de medíocre,se orienta completamente paradoxal esse texto!

    1. Não, não é paradoxal. É que esses gêneros são medíocres, mesmo. Vamos parar com essa bobagem de que qualquer crítica é desrespeito. É muito mimimi. E mimimi vira fascismo quando tenta calar as críticas.

    2. O texto criticou o desrespeito aos direitos dos outros. Pessoas podem ser desrespeitadas em seus direitos, gêneros musicais não. Se alguem acha alguma forma de arte medíocre é questão de opinião.

      Mas acontece que esse desrespeito aos limites dos outros costuma estar associado a apreciadores de alguns gêneros musicais. Se o gosto do Arthur quanto a esses gêneros é algo subjetivo, é um fato que impedir a circulação ou fazer barulho alto é falta de educação. Seria mesmo que fossem outros tipos de música (por exemplo, música gospel tocada em igrejas evangélicas).

    3. Gerson explicando muito melhor que eu. 🙂

      Eu passei do limite da paciência, Gerson. O stress me prejudicou muito. E hoje recebi uma má notícia derivada do stress. Bom, o próximo artigo será sobre isso.

    4. Tinhamos que falar melhor mesmo.

    5. Só pra registrar que vou deixar o tal artigo sobre isso para um dia de cabeça mais fresca.

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