Que nós vivemos em um dos países com as mais altas cargas tributárias do mundo, e também um dos mais corruptos, não há dúvida alguma. Mas estará correta a informação que anda circulando pelo Facebook, de que trabalhar 2.600 horas por ano só para pagar impostos? A resposta é: não, não está correta. 

mico_leao_de_cara_dourada.

Ontem eu repostei um artigo que havia sido publicado em outubro do ano passado no Estadão. O artigo repercutia uma denúncia publicada na prestigiosa revista Science quanto a um escândalo ocorrido entre as publicações científicas “open access” na internet: a fácil publicação de um artigo falso por mais de 150 periódicos.

Li e reli aquele artigo e no processo lembrei de uma informação que eu havia recebido anteontem no Facebook e – para meu constrangimento – repassado sem conferir previamente sua veracidade ou mesmo sua plausibilidade: a informação de que o brasileiro teria que trabalhar cerca de 2.600 horas por ano apenas para pagar seus impostos. De repente aquele número me chamou a atenção.

“Peraí! Qual é a proporção entre as horas trabalhadas para pagar impostos e as que sobram? Quantas horas o brasileiro trabalha por ano?”

E foi aí que me dei conta do que deveria ter percebido desde o início.

Uma semana de trabalho são 40 horas, ou 44 horas, na pior hipótese. 2.600 dividido por 40 daria um total de 65 semanas trabalhadas por ano só para pagar impostos. 2.600 dividido por 44 daria um total de 59 semanas trabalhadas por ano só para pagar impostos. O problema é que um ano só tem 52 semanas.

Não é que a informação seja falsa… A informação é ridiculamente falsa, é completamente absurda – e eu a repassei inadvertidamente, assim como milhares de pessoas no Facebook. 

E, uma vez que uma das informações contidas naquele panfleto virtual era tão ridiculamente falsa, o que pode ser dito a respeito de todas as demais informações que ele contém? Será que são confiáveis? 

O fato, meus caros, é que nós ainda não estamos adaptados ao mundo virtual. Sua velocidade de informação é muito maior do que aquela com que estamos acostumados a lidar – e isso tem conseqüências bastante significativas. 

Quando um amigo nos repassa uma informação, nós tratamos essa informação como se ela fosse proveniente deste amigo e portanto damos a essa informação a credibilidade que damos a nosso amigo. O problema é que durante toda nossa evolução pré-internet a quantidade de informação que podia nos alcançar em um único dia era extremamente limitada e na maior parte das vezes podia ser conferida antes que recebêssemos inúmeras outras informações para processar. Mas a internet modificou radicalmente esta dinâmica, e normalmente nosso amigo está tão sobrecarregado de informações quanto nós – e tão desacostumado a questionar e “sem tempo” para checar essas informações quanto nós. 

Na internet, especialmente nas redes sociais, nosso amigo recebeu uma informação de um amigo que recebeu de um amigo que recebeu de um amigo e assim por diante até chegar a um amigo que recebeu a informação de alguma fonte que não lhe pareceu suspeita, mas que não era confiável. E nosso outro amigo também recebeu uma notícia interessante do mesmo modo. E o outro também. E mais o outro. E assim somos sobrecarregados de informações não conferidas e que não temos tempo de conferir antes que a próxima informação chegue. 

É deste modo que surgem os hoaxes, ou boatos virtuais, que alcançam milhares ou até milhões de pessoas antes que alguém os confira e desminta – o que pode não ocorrer a tempo de evitar as conseqüências da multiplicação da informação falsa. 

É por este motivo que, apesar de toda a liberdade de expressão que a internet trouxe, em geral não podemos confiar no “jornalismo” da blogosfera e ainda precisamos conferir a veracidade da informação em uma fonte segura, ou seja, no portal de alguma grande empresa de comunicação. 

Verdade seja dita: as grandes empresas de comunicação agem com muito maior profissionalismo e de acordo com manuais de redação preparados ao longo de muitos anos de experiência justamente para evitar micos e tropeços que abalem sua credibilidade. 

Precisamos, portanto, cultivar o hábito de questionar as informações que nos chegam através do Facebook ou daquele blog superlegal cujo link nosso amigo compartilhou, para não colaborarmos com a transmissão das inúmeras informações falsas ou equivocadas que chegam até nós. Será que nossos amigos fazem a lição de casa antes de compartilhar algo no Facebook? Será que o blogueiro que edita aquele blog superlegal faz a lição de casa antes de escrever seus artigos? 

Bem, eu aprendi a lição. E você deveria aprender também, e repassar este artigo para que seus amigos também aprendam. 😉 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 09/01/2014 

 

7 thoughts on “Pagamos mesmo tanto imposto? Ou pagamos um belo mico?

  1. Que erro primário, uma simples regra de três e a afirmação perde qualquer nexo. Não posso falar nada, não chequei tão pouco desconfiei, dou a mão para a palmatória.
    Por hora continuo pagando o mico, fico no esperneio e no sufoco, pois a sensação de que pagamos por qualquer coisa seja pelo serviço ou por algum produto cada vez mais caro.
    Infelizmente para mudar tudo isso, vai por bem ou por mal quando uma baita crise bater a porta.

    1. Isso pra quem ficar no Brasil, que é o que eu estou começando a repensar com intensidade crescente.

      Eu quero viver em um ambiente de sucesso. Se não conseguir encontrar massa crítica para tentar formar um ambiente de sucesso no meu país, vou procurar em outro.

  2. Arthur,

    Na verdade estas 2.600 horas são o esforço que uma empresa média gasta para PAGAR impostos no Brasil segundo um estudo do Banco Mundial.

    Relatório do estudo: http://www.pwc.com.br/pt_BR/br/publicacoes/servicos/assets/assessoria-tributaria-societaria/pwc-paying-taxes-2013-full-report.pdf

    Os dados referidos estão na página 126, figura 2.53

    Notícias sobre o estudo:

    http://g1.globo.com/economia/negocios/noticia/2013/05/empresas-brasileiras-sao-que-mais-trabalham-para-pagar-impostos.html

    http://exame.abril.com.br/economia/noticias/os-paises-que-mais-roubam-tempo-das-empresas-com-impostos-brasil-e-lider

    []´s

    1. Pois é, o dado confere com o relatório… Mas continua não fazendo sentido.

      Primeiro, porque soma “corporate income taxes”, “labour taxes” e “consumption taxes”, o que não faz sentido, porque a taxa real não é aditiva entre estes fatores e sim multiplicativa.

      Segundo, porque o tempo real per capita consumido para pagar taxas NECESSARIAMENTE tem que ser inferior a 52 semanas por ano – na verdade muito menos, ou simplesmente ninguém sobreviveria.

  3. Acho que é por isso que prefiro repassar notícias descompromissadas. Eu sempre fico com o desconfiometro ligado, verificando a veracidade das informações, mas nem sempre é fácil.

    1. Eu adotei a política de não compartilhar mais nada que eu não possa verificar em uma fonte confiável antes.

    2. A não ser, é claro, bobagens.

      Bobagens não precisam ser verificadas.

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