Era uma vez um grupo de trogloditas famintos que vivia caçando coelhos. Um pegava um coelho aqui, outro pegava um coelho ali, mas coelhos são pequenos demais, permitiam apenas que os trogloditas fossem vivendo sempre com fome e com dificuldade. 

Mamutes

Um belo dia, um troglodita com um espírito mais criativo e empreendedor teve uma idéia. Chamou os outros, fez uns rabiscos na areia com um graveto e explicou o seguinte:

– Pessoal, nós podemos afiar a ponta de um galho com umas pedras – vamos chamar isso de “lança” – e usar isso para caçar um mamute! Cada um pega uma lança, nós cercamos o mamute e jogamos as lanças nele, até matá-lo! Então teremos carne de sobra para todo mundo! 

Um segundo troglodita disse:

– Que absurdo! Mamutes são caça de tigres-de-dentes-de-sabre! Trogloditas comem coelhos! Se Deus quisesse que os trogloditas comessem mamutes, teria feito os trogloditas com dentes de sabre!

O primeiro respondeu:

– Mas trogloditas comem mamutes! Nós já comemos as carcaças que os tigres-de-dentes de sabre acabaram de matar e devorar parcialmente! Por que não matarmos nós mesmos os mamutes e ficarmos com as melhores partes?

O segundo respondeu:

– Você é um herege com idéias malditas! Se você pensa mesmo assim, eu não vou ajudar você! Faça você sozinho!

E foi embora, acompanhado por mais alguns.

O primeiro troglodita, surpreso, perguntou aos que restaram:

– Bem, pessoal, vamos caçar mamutes?

Um terceiro troglodita respondeu:

– Ih, cara, não vai dar certo. Nunca ninguém caçou mamutes antes. Que garantia a gente tem que isso vai funcionar? Pode ser que a gente gaste um tempão construindo essa sua invenção aí e ela não funcione.

O primeiro respondeu:

– Garantia mesmo não há, mas as chances são muito boas. Você pode apontar alguma falha no raciocínio? Eu acho que devemos tentar!

O terceiro responde:

– Não sei, não. Acho que você é um sonhador. Não acredito que isso vá dar certo. Faça você sozinho.

E foi embora, acompanhado por mais alguns.

O primeiro troglodita, decepcionado, perguntou aos que restaram:

– Bem, pessoal, vamos tentar caçar mamutes?

Um quarto troglodita disse:

– Eu não tenho tempo.

Um quinto troglodita disse:

– Eu estou ocupado.

Um sexto troglodita disse:

– Eu prefiro caçar coelhos.

Um sétimo troglodita disse:

– Faça você sozinho.

E foram todos embora, deixando o primeiro argumentando sozinho com as paredes da caverna.

Então o primeiro troglodita, sem nenhum apoio, decidiu que ia mesmo fazer aquilo sozinho.

Ao mesmo tempo em que precisava continuar caçando coelhos para sobreviver, ele procurou árvores adequadas, com madeira dura o suficiente para fazer lanças, cortou diversos galhos com pedras lascadas, aprimorou seu invento com ponteiras de pedra cortante, produziu com muito esforço um grande conjunto de lanças, estudou a distribuição dos mamutes, traçou um plano estratégico, contratou uns neandertais para ajudarem na execução da caçada e conseguiu matar vários mamutes! 

E, tendo obtido tamanho sucesso na caça de mamutes que passou a sobrar carne de mamute, decidiu oferecer o excedente aos trogloditas da região, em troca de peles, frutas e do serviço de preparar lanças para as próximas caçadas. 

A notícia do sucesso do troglodita empreendedor se espalhou e chegou aos ouvidos dos trogloditas que o haviam deixado sozinho.

O segundo disse que ele só conseguiu aquilo por bênção de Deus.

O terceiro disse que ele só conseguiu aquilo por sorte.

O quarto, o quinto e o sexto disseram que ele só conseguiu aquilo porque tinha recursos de que eles não dispunham.

O sétimo disse que não é justo que ele monopolize toda a carne de mamute enquanto os outros passam fome e criou o Partido dos Trogloditas,  prometendo fazer “justiça social” com a carne de mamute do primeiro. 

Ele passou a defender “cotas de carne de mamute” para os “trogloditas excluídos” e passou a chamar o troglodita que criou a lança de “explorador” e qualquer um que dissesse que o primeiro tinha razão de “reaça”. 

Num mundo minimamente civilizado, é óbvio que o primeiro troglodita encontraria muitos parceiros para aquele empreendimento, que a quantidade de mamutes caçados seria suficiente para todos se alimentarem bem, que todos desfrutariam de mais tempo livre para produzir novos e interessantes avanços que melhorariam a qualidade de vida de todos e que ninguém daria atenção para o safado do sétimo troglodita. 

Num mundo de trogloditas, entretanto, é bem provável que o primeiro troglodita tivesse que pagar para que os outros trabalhassem em equipe, que acabasse apontado como o causador da miséria dos que não se organizam para caçar, que o sétimo troglodita fosse eleito Presidente dos Trogloditas e que instituísse cotas de carne de mamute para sustentar os trogloditas que não querem caçar nem mesmo coelhos. 

Mas um absurdo desses só poderia acontecer na ficção, entre trogloditas. 

Ainda bem que no mundo civilizado somos todos cidadãos suficientemente inteligentes, empreendedores e politicamente atuantes para jamais permitir que um absurdo desses aconteça, não é mesmo? 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 13/01/2014 

 

29 thoughts on “Aos caçadores de mamutes

  1. Ótimo texto, parabéns.

  2. O Arthur tá mordido com o PT. Imagine se ele tivesse votado e feito campanha pro PT como eu, como ele estaria! GRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR!!!!!!

    1. Não é bem isso.

      De um escorpião o que se pode esperar?

      O que mais me incomoda é a falta de reação a eles.

      .

      .

      .

      (No teu lugar eu me flagelaria em penitência.) 😛

    2. Lept! Lept! Lept!

      Quase marcozygoteei a mão que pôs o voto na urna!

    3. Não faz isso! Não reduz os recursos de que dispomos para a resistência! 😉

  3. Às vezes dá vontade de perguntar “mas agora TUDO virou culpa do PT?”, mas como eu não entendo lhufas de política eu fico quietinha na minha…

    1. Quando o PT era oposição, TUDO era culpa do governo e o PT fazia oposição estilo terra arrasada. Agora que o PT é governo, a lógica não pode mudar. Questão de coerência.

  4. Genial, véio!!! Hahahaha!!!

    1. Tem mais de onde veio isso. 🙂

      Mas, apesar do tom macio e da ironia final, o artigo é um chamado à conciência dos Caçadores de Mamutes – ou aqueles que gostariam de sê-lo – para a organização política.

    1. O que significa GGN? Grupo de Groselha do Nassif?

      O texto é um lixo. Perverte completamente a noção de meritocracia e se apóia em falácias absurdas para negá-la e defender – pra variar – a ideologia de cupinzeiro.

      O único ponto no qual ele acerta – que as classes alta e baixa não são meritocráticas – é usado como trampolim para chegar à aburda conclusão de que é possível conceber uma sociedade independente da qualidade dos indivíduos que a compõem.

      Este é o parágrafo que contém o cerne da perversão coletivista do pensamento do autor:

      “Bem, como o mérito está fundado em valências individuais, ele serve para apreciações individuais e não sociais. A menos que se pense, é claro, que uma sociedade seja apenas um agregado de pessoas. Então, uma coisa é a valorização do mérito como princípio educativo e formativo individual, e como juízo de conduta pessoal, outra bem diferente é tê-lo como plano de governo, como fundamento ético de uma organização social. Neste plano é que se situa a meritocracia, como um fundamento de organização coletiva, e aí é que ela se torna reacionária e perversa.”

      Observa o tom com que ele afirma “a menos que se pense, é claro, que uma sociedade seja apenas um agregado de pessoas”: ele fala como se isso fosse uma inverdade óbvia, da qual se deve ter vergonha. Mas isso só pode ser vergonhoso para quem precisa se afirmar como membro leal à sua colônia de cupins.

      Eu afirmo com toda tranqüilidade: é óbvio que uma sociedade é “apenas” um agregado de pessoas – o que mais ela poderia ser senão isso? Se ninguém vier perverter o conceito de “pessoa”, alegando que eu “esqueci as relações entre elas”, eu não precisarei explicitar que não existe “pessoa” sem relações sociais e pertencimento a um grupo humano. (Bem, de qualquer modo já o explicitei.) E daí? Por acaso pertencer a um grupo humano deve converter o indivíduo à condição de cupim?

      É por isso que eu digo que tanto a esquerda quanto a direita partem de concepções erradas de ser humano e por isso TODO o conjunto de suas ideologias só pode nos levar a uma condição desumana.

      Os itens que ele elenca em seguida constituem tamanha distorção do conceito de meritocracia, com inúmeras implicações falaciosas non sequitur e outras barbaridades lógicas, que exigiriam um artigo inteiro para constituir uma resposta razoável. Neste momento faço apenas o seguinte alerta: mesmo que a meritocracia tivesse a maioria dos defeitos que ele aponta, e não tem, isso não significaria que uma solução coletivista seria solução melhor, e não é.

      O jogo de palavras que ele faz entre merecimento e desempenho, então, é o ápice da perversão esquerdista, coisa de quem acha que merece sentar no trono de imperador sem ter competência para isso, só porque pensa como um cupim, o que na avaliação dele é o suprassumo da perfeição evolutiva. Mas o que poderia se esperar de quem idolatra a organização social de um inseto e luta por rebaixar os seres humanos ao mesmo nível?

      O autor não consegue perceber – como fica evidente no primeiro item “e” de sua argumentação (há dois “e”) – que o que falta no país é meritocracia, razão pela qual acabam acontecendo os jogos de poder que descreve. E, para variar, como todo esquerdista, aponta como “solução” beber sempre mais e mais do mesmo veneno, mudando apenas de fabricante… Desde que o cupinzeiro dele seja o novo fabricante, óbvio.

      E a conclusão final do autor – de que devemos combater a meritocracia – é exatamente o que está sendo feito pelo PT. O “fundamento ético de uma organização social” que o autor propõe e que o PT executa é explicitamente anti-meritocrático. O que significa isso?

      Ao invés de ser sempre atendido pelos melhores médicos, em breve o brasileiro terá no mercado uma abundância de médicos medianos.

      Ao invés de ter sempre edifícios, pontes e túneis construídos pelos melhores engenheiros, em breve o brasileiro terá no mercado obras construídas por engenheiros medianos.

      Ao invés de ser sempre defendido pelos melhores advogados, em breve o brasileiro terá no mercado uma abundância de advogados medianos.

      Mas lembra bem: na hora do aperto, Lula e Dilma foram tratar suas doenças no Sírio-Libanês. Cupinzeiro só é colírio no olho de idiota útil.

    2. Camargo.

      O problema do texto é falar que qualquer ordem social baseada em qualquer medida no mérito é perversa.

      Ou seja, uma sociedade em que pessoas mais esforçadas, trabalhadoras e talentosas tem mais sucesso, mesmo sendo uma sociedade onde todos começam exatamente do mesmo ponto de partida é perversa.

      Ou se trata de inocência/imbecilidade ou desonestidade intelectual mesmo.

    3. Aliás, só corroborando o que o Arthur falou.
      Da wikipédia:
      Sociedade –

      “É um grupo de indivíduos que formam um sistema semi-aberto, no qual a maior parte das interações é feita com outros indivíduos pertencentes ao mesmo grupo. Uma sociedade é uma rede de relacionamentos entre pessoas. Uma sociedade é uma comunidade interdependente. O significado geral de sociedade refere-se simplesmente a um grupo de pessoas vivendo juntas numa comunidade organizada.”

      Ou seja, a frase “A menos que se pense, é claro, que uma sociedade seja apenas um agregado de pessoas.” do autor, por estar correta anula todo o restante do argumento.

    4. Grande sacada, Gelson! 🙂

  5. Achei bem divertido esse texto.

  6. Quem quer o poder deve assumir o ônus da cobrança quando as coisas não ocorrem conforme o prometido para assumir o poder. Não importa se a cabeça é do Partido dos Trogloditas ou do Partido dos Senhores que Devoram Bestas. Avaliem antes e façam promessas exequíveis. Só ganhar o direito de subir no rochedo mais alto para poder sentar no obelisco orgasmático não é o suficiente. Tem que saber o que fazer quando ganhar. Só então vai sobrar carne de mamute.

    1. Concordo em gênero, número e grau.

      O problema tem sido aquele descrito por Zamenhof: para que um projeto dê certo em grande escala, é necessário que primeiro dê certo em pequena escala.

      Porém, como hoje em dia as pessoas só querem aderir a projetos que já deram certo em grande escala, acaba se instalando uma daquelas dinâmicas do tipo “o ovo ou a galinha”.

      E os neandertais foram todos corrompidos pelo Bolsa-Família e pela Blogosfera Progressista.

  7. Eu sou uma microempreendedora caçadora de mamutes que está desde 2011 tentando obter a licença para poder comercializar lanças, mas graças à infinita burocracia das agências reguladoras de lanças do Governo Federal Troglodita ainda não consegui essa façanha.
    Antes disso, eu era engenheira concursada da estatal tiradora de betume do fundo do mar do Governo Troglodita, mas não é exatamente o tipo de trabalho que estava me realizando e me deixando feliz, então eu pedi demissão, apesar de todo mundo me achar maluca por conta disso.
    Então, eu não sou bem o tipo de caçadora de mamutes que fica quieta num cantinho reclamando. Tenho tentado nadar contra a maré do Sistema Troglodita há um bom tempo, mas cada vez mais cansada e desapontada.
    Mas, do jeito que eu faço melhor, venho batalhando… conte com minha resposta ao chamado, seja ele qual for.

    1. Tu não és maluca, não. Eu fiz o mesmo, pelos mesmos motivos. Podia estar ganhando mais de R$ 6.000,00 (salário de “rico”, segundo o Lula) de salário básico, acrescido de 45% de periculosidade, o que depois dos descontos me daria um salário líquido de mais de R$ 7.500,00… Mas isso não pagaria o stress e a frustração que viver naquele ambiente me traziam.

    2. O grande problema do Brasil é que o Brasil definitivamente não é um ambiente de sucesso. Há casos de sucesso aqui e ali, esparsos, mas isso não caracteriza um ambiente de sucesso.

      Em um ambiente de sucesso, não se fica mais de dois anos esperando um licenciamento para uma microempresa, não se tem centenas de regras estúpidas que nos fazem gastar tempo desnecessário indo a vinte locais diferentes para obter trinta documentos diferentes, não se tem que jogar dinheiro fora implementando exigências estúpidas, não se tem medo de denunciar um funcionário público que exigiu propina para fazer um processo andar, não se tem dificuldade de contratar mão-de-obra minimamente qualificada e comprometida com o gerenciamento da própria carreira, não se tem dificuldade de se livrar de mão-de-obra imprestável…

  8. Por falar em mão-de-obra imprestável eu conheço um homem-bomba que anda querendo conhecer o planalto central.

    1. O cara é brasileiro?

      Acho melhor ele ir a pé.

  9. Hahaha, são EXATAMENTE esses os (piores) problemas. Acrescenta aí o juro abusivo, a dificuldade em obter crédito, impostos, e sai a unanimidade: só maluco empreende no Brasil hoje em dia. Os sãos estão debandando para bem longe dessa merda desse país.
    Mas, agora já fomos longe demais para voltar atrás… acho que é só por isso que eu levanto da cama todo dia.
    Arthur, tu já pensou em fazer algum “arthurcontro” do blog em algum bar? Ia ser uma experiência ímpar nessa vida, hehehe!

    1. Até esse exato momento eu nunca tinha pensado nisso. O problema é que o público do Pensar Não Dói é esparso, distribuído por todo o país e até pelo mundo (EUA e Portugal principalmente). Mas já rolou de eu me encontrar com gente que eu conheci pelo blog. Uma turma muito legal.

  10. joaquim salles

    17/01/2014 — 20:57

    Oi Arthur, já que estamos falando menos burocracia, mais liberdades veja esse link: http://www.heritage.org/index/.

    O que ache interessante foi quando falam do Chile : http://www.heritage.org/index/country/chile que esta em melhor posição que até mesmo o USA ( o Chile esta na sétima posição). Agora, apesar desse ranking, a “esquerda” venceu as ultimas eleições.

    Só uma curiosidade: já escutei ou li por ai, que nos seres humanos, por sermos “caçadores de manutes”, fomos responsáveis pelo fim dos manutes 🙂 Matamos e comemos todos 🙂

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