Quando eu pedi ajuda com sugestões de bibliografia para estudar os conteúdos necessários para compreender um artigo histórico sobre os fundamentos da estatística, meu velho desconhecido e implicante amigo que usa o pseudônimo de “Raiden” aproveitou para zoar comigo dizendo que afinal as inutilidades dos currículos escolares não eram assim tão inúteis. Mas eu mantenho minha posição original. Vejam por quê. 

Professora-ensinando-algo-util

Talvez eu não tenha sido claro o suficiente. Ou talvez poucos tenham feito a ligação entre o artigo “Nossos professores nos traíram“, que incomodou o Raiden, e o artigo “Como ensinar matemática, física e estatística para crianças e adolescentes“, que só não incomodou ninguém porque foi considerado apenas humorístico, embora tenha sentido pedagógico e uma moral bem séria ao final. Mas tudo bem, vou aproveitar a presente oportunidade para explicar melhor. 

Eu tive aulas de física no segundo grau. Entre os diversos conteúdos da física secundarista constam coisas como “ótica”, “eletricidade” e “movimento”. E eu aprendi aquela porcariada toda e me saí muito bem nas provas de física (e de química, e de matemática, e de biologia, e de língua portuguesa, e de língua inglesa) de duas universidades, tanto que fui o primeiro colocado da turma em dois vestibulares e fiquei entre os doze melhores colocados no geral de duas universidades. 

Agora me pergunte se eu sei construir uma simples luneta. Ou se eu me arrisco a escolher o fio da espessura certa para uma caixa de força doméstica. Ou se eu sei calcular a distância que um automóvel percorrerá do momento em que os freios forem acionados até parar dada sua velocidade e o tipo de pavimento sobre o qual se desloca. 

A resposta para todas estas perguntas é “não”, e eu fui o primeiro colocado no ingresso em dois cursos cursos universitários e o décimo-segundo colocado no geral de dois vestibulares das duas maiores universidades de um dos mais avançados estados da federação. 

Ou seja, não é que eu não tenha aprendido o que me foi ensinado. Eu aprendi e demonstrei que aprendi melhor que mais de quarenta mil outros estudantes que concorreram naqueles dois anos. Na verdade, em todo o Rio Grande do Sul só vinte e quatro pessoas tiveram desempenho melhor que o meu naqueles dois vestibulares. Mas eu aposto que nenhum destes vinte e quatro sabe construir uma simples luneta, escolher o fio da espessura adequada para a caixa de força de uma residência ou calcular a a distância que o automóvel percorrerá antes de parar. É simplesmente ridículo que tenhamos perdido tanto tempo estudando estas coisas e mesmo assim não saibamos aplicá-las nas mais simples situações que se apresentam no cotidiano. 

Ainda mais ridículo é o fato que, daquilo que eu lembro, não tenho utilidade para nada, e, para aquilo que eu poderia ter alguma utilidade, eu não lembro direito, porque, além de não ter havido ênfase alguma nas possíveis aplicações daqueles “conhecimentos”, também não houve a menor qualidade na estratégia de fixação dos conteúdos. 

A questão é que aquilo que é ensinado acaba sendo totalmente inútil mesmo quando poderia ter algum potencial de ser útil, porque é tão absolutamente mal escolhido, mal lecionado e mal aplicado que só muito depois de sair do pós-graduação (e portanto da roda-viva de decorebas e provas) é que se consegue perceber o quanto de tempo foi desperdiçado dentro de um sistema de tão péssima qualidade, sem objetivo algum exceto a própria reprodução. 

SE, entretanto, ao invés de inutilidades como números quânticos e cálculo de determinantes de matrizes, os conteúdos fossem escolhidos de acordo com sua utilidade para o cotidiano, ENTÃO teríamos tanto um motivo razoável para o gasto de todo aquele tempo quanto uma natural fixação dos conteúdos devido a sua utilização constante.

Será tão difícil assim entender o óbvio? A questão é: para que raios serve “ensinar” dezenas de coisas que nunca serão utilizadas e que serão esquecidas justamente porque não são utilizadas? E a resposta é: para nada.

Por outro lado, conteúdos úteis serão utilizados com freqüência e portanto serão mantidos ativos na memória, permanecendo disponíveis para aplicação em novas situações, desde que o sistema de ensino também estimule o aluno a pensar de modo crítico, criativo, autônomo e resolutivo

O problema, todos devem ter percebido ao ler a última frase, é  que o sistema de ensino – ou seja, nossos professores – não querem lidar com alunos que pensem de modo crítico, criativo, autônomo e resolutivo. Um aluno assim é a pior coisa que um medíocre que poderia ser substituído por um CD-player quer ter em sua sala de aula levantando a mão para fazer perguntas.

E, para quem não se deu conta disso ainda, um conteúdo inútil e inverificável no mundo externo é muito mais seguro para um professor medíocre.

Se você ensina uma turma a calcular um circuito em teoria e cobra o cálculo teórico numa prova, só quem está sendo avaliado é o aluno: se ele acertar, é porque você ensinou bem, se não acertar, é porque ele não estudou direito.

Mas se você ensina uma turma a construir um receptor-transmissor de rádio, quem está sendo avaliado é tanto o aluno quanto você: se a maior parte dos rádios funcionarem, ótimo, se não funcionarem, que porcaria esse professor está fazendo que nada do que ele ensina funciona? 

Se você ensina uma turma a calcular o determinante de uma matriz de terceira ordem, o único lugar no mundo em que os alunos utilizarão esse conteúdo é dentro de duas salas de aula: a da escola e a sala onde ele prestará vestibular. Nunca ninguém mais sequer verá os cálculos.

Mas se você ensina uma turma a calcular juros e amortizações, o aluno vai usar isso para calcular os juros daquele liquidificador vendido em 36 prestações, ou o quanto ele realmente vai pagar naquele cartão de crédito anunciado nos domingos à tarde na TV e que cobra 17% ao mês de juros.  E o aluno vai se surpreender com os resultados, vai discutir com o balconista da loja de varejo e com o gerente do banco e vai ficar furioso se um deles disser que seu cálculo está errado. 

Se você ensina números quânticos ou “humanidades”, se você diz que a escola “contribui” para “socializar o aluno” e “desenvolver a consciência do cidadão”, então você nunca vai se incomodar. 

Mas se você ensina algo que preste, que tenha real utilidade para a vida do aluno, então você terá que ser competente, ou as pessoas vão perceber que você não passa de um charlatão. 

Recapitulando:  

1) Conteúdos sem aplicação prática são inúteis e de qualquer modo acabam esquecidos.

2) Conteúdos com aplicação prática são úteis, permanecem na memória devido ao uso freqüente e podem ser utilizados em outros contextos por alunos estimulados a pensar criticamente. 

3) É bem mais fácil e seguro um medíocre ensinar inutilidades com ares de importância e dizer que “ajuda a formar o cidadão” do que ser julgado pela real utilidade do que faz.  

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 16/01/2014 

 

 

4 thoughts on “Nossos professores nos traíram (2)

  1. Dogbert, quase todos os países que lideram os ranking´s de educação e de inovação tecnológica possuem algo em comum, nestes países existem mais de uma modalidade de ensino médio. Antes de prosseguir, veja estes vídeos:

    http://www.youtube.com/watch?v=ryn-0Hoy9RM

    http://globotv.globo.com/rede-globo/jornal-nacional/v/programa-na-alemanha-garante-emprego-para-jovens-antes-de-terminar-o-ensino-medio/2975220/

    No modelo alemão, que também é adotado em outros países “campeões” nos rankig´s de educação, ao terminar o ensino fundamental, onde os alunos passam quase o dia todo na escola, ele e sua família podem escolher o “modelo” de ensino médio que ele vai cursar e os mais importantes são o ensino médio técnico e profissionalizante e o ensino médio científico (que prepara para a universidade). Então de acordo com suas escolhas, ele vai estudar coisas que vc consideraria “úteis” para o cotidiano dele (caso ele escolha o modelo técnico e profissionalizante) ou “inúteis”, como determinantes ou binômio de Newton (caso ele escolha o modelo científico). Na verdade tudo é útil dentro de certo contexto, mas deixa pra lá.

    Eu até concordaria com vc se caso o nosso modelo educacional fosse como o destes países. Mas acredite em mim, no nosso modelo educacional, a sua proposta seria a certeza do fracasso a médio e a longo prazo.

    Eu acho que nem todo mundo deve, ou melhor, precisa fazer universidade, e que um curso técnico tem certas vantagens em relação ao um curso superior, como por exemplo, poder ingressar no mercado de trabalho mais cedo, e que para certos cursos técnicos, o estudo de certos conteúdos seria inútil. O problema é que aqui no Brasil a esquerda burra encastelada na universidade é contra este modelo, eles acusam os proponentes desta modalidade de ensino que coisas como querer promover um apartheid na universidade entre pobres e ricos, querer deixar as universidades para as elites, e outras sandices do gênero.
    Mas o fato é que as fórmulas de sucesso existem em vários lugares, o problema é implementá-las por aqui.

    1. Exausto agora, mas responderei em breve.

  2. Arthur,

    Concordo, mas permita-se fazer algumas considerações.

    Estudar não tem apenas a função de adquirir conhecimento. Explico: estudar (assim como uma série de atividades intelectuais como, por exemplo, xadrez) serve TAMBÉM para aumentar a capacidade cerebral. Se considerarmos que as crianças estão se desenvolvendo, este benefício é especialmente positivo. Estudar trigonometria e desenho geométrico, por exemplo, pode não ter muita utilidade prática, mas faz com que os alunos tenham que pensar sobre “objetos abstratos” o que certamente ajuda a desenvolver a capacidade cognitiva deles.

    Assim, o que se estuda serve também para aumentar a capacidade cognitiva e permitir que, no futuro, dependendo do que o sujeito escolher fazer, tenha capacidade para compreender conceitos mais sofisticados.

    É claro que uma coisa não exclui a outra. Se for possível conciliar os dois (algo que seja útil e que ao mesmo tenho sirva ao propósito de desenvolver o cérebro) é evidente que será melhor.

    Enfim, a verdade é que o nosso sistema de ensino é muito fraco e exige muito pouco dos alunos. Particularmente, penso que a molecada (não todos, é claro, mas boa parte) tem capacidade de absorver os dois tipos, isto é, tanto o que talvez não seja útil mas ajuda no desenvolvimento quanto o que tem utilidade na prática.

    De todo modo, o que me parecer mais crítico mesmo é o fato do nosso sistema não ensinar os alunos a pensar de forma crítica. Isso certamente é o pior de tudo.

    A propósito, segue um video já bastante conhecido, mas que não custa relembrar

    http://www.ted.com/talks/ken_robinson_says_schools_kill_creativity.html

    abs

  3. José Alves duarte

    11/07/2014 — 12:35

    Estou lendo o livro “Parerga e Paralipomena” de Arthur Schopenhauer onde ele fala que existe quem vive para a ciência e quem vive da ciência, aquele não pode ser professor pois não lhe sobra tempo para ensinar. É bem interessante e concorda com muito do que você disse. “Quem não sabe ensina”- Missão Impossível 3.

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