No início da década de 1990 eu apresentei à prefeitura de Porto Alegre, numa reunião ocorrida na Secretaria do Meio Ambiente, a sugestão de que fossem aumentados os índices construtivos e reduzido o IPTU de prédios que fossem construídos segundo certas especificações que contribuiriam para tornar a cidade mais bela e com um microclima mais ameno.

green home

Minhas especificações eram as seguintes:

a) 20% da área construída deveria ser área verde suspensa em sacadas, floreiras ou jardins construídos entre os apartamentos;

b) toda a água servida (exceto a do esgoto cloacal, óbvio) deveria ser armazenada e usada para irrigar a vegetação suspensa ou para limpeza; 

c) todo o esgoto cloacal deveria passar por tratamento primário, com a fase sólida sendo fermentada em tanque séptico para produção de metano, que seria captado e usado para aquecimento de água, e lodo, que seria peletizado e destinado a uso agrícola, como adubo;

d) toda a superfície exposta deveria ser constituída de painéis solares;

e) todas as arestas do prédio deveriam conter captadores eólicos, harmonizados com a estética do prédio, em todos os andares exceto o térreo.

A ideia era tornar a cidade bela (seria uma revolução paisagística), amenizar o microclima urbano, reduzir a poluição dos corpos d’água e produzir parte da energia consumida pelo prédio no próprio prédio, economizando recursos ambientais e financeiros. 

Minha sugestão incluía também a possibilidade de que prédios que implementassem somente parte destas especificações e prédios antigos que passassem por reformas recebessem um desconto no IPTU proporcional ao quanto conseguissem se adequar a estas especificações. 

Fui ridicularizado e chamado de “idiota sonhador”. 

Vinte e poucos anos depois, descubro que um projeto chamado “Bosco Verticale“, que executou apenas o primeiro item entre os cinco que eu planejei, foi construído em Milão e é considerado um projeto revolucionário.

Milão 1
A maior floresta vertical do mundo está prestes a ficar pronta. Construída em Milão, ela nada mais é do que um complexo de prédios nos quais os apartamentos têm diversas árvores.
Milão 2
O Bosco Verticale, como é chamado, ajuda a reduzir o impacto ambiental por conta da grande quantidade de árvores plantadas e ainda é tido como um dos projetos mais inovadores na tentativa de explorar o potencial da paisagem de Milão.
Milão 3
Com conclusão prevista para o segundo semestre deste ano, o projeto conta, até o momento, com nada menos do que 100 diferentes tipos de árvores.
Milão 4
Ou seja, antes mesmo de ficar pronto, o Bosco Verticale já está atuando na qualidade do ar de Milão e mostrando que projetos ousados podem aliar modernidade à desenvolvimento ambiental.

Nada pode ser mais irritante do que ver um projeto menos avançado do que um projeto eu fiz há mais de vinte anos ser considerado “inovador” e “ousado” e elogiado como grande contribuição ao paisagismo urbano por aliar modernidade e desenvolvimento ambiental.

Saber que eu estava um quarto de século à frente do meu tempo é um prazer, mas não chega a ser um grande consolo. Se essa idéia tivesse sido colocada em prática há mais de vinte anos, como eu sugeri, imagine que cidades lindas teríamos! 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 20/01/2014 

13 thoughts on “Mais de duas décadas à frente do meu tempo

  1. O problema é que você está no Brasil, Arthur. Talvez se você estivesse em outro país naquela época seria você aí nessa matéria. :/

    1. É… Imagina que essa idéia foi ridicularizada dentro da Secretaria do Meio Ambiente…

  2. Paulo Rossi

    20/01/2014 — 20:53

    Sua ideia não teve o amparo esperado há 20 anos, tão pouco haveria agora e nem daqui a 20 anos… falou em reduzir o IPTU e os sangue sugas entram em desespero. Não abririam mão da arrecadação.

    1. Mas haveria compensação devido ao aumento dos índices construtivos, justamente para não deixar cair a arrecadação. Pensei nisso na época. 😉

  3. Que droga! Concordo com os comentários acima, tás no país errado AGL.

    1. Pois é. É a isso que me refiro quando digo que o Brasil é um ambiente de fracasso: o brasileiro quase sempre rejeita as idéias de sucesso, e, quando não faz isso, dá um jeito de fazer tudo tão mal feito que anula as vantagens de qualquer inovação relevante.

  4. Continue tentando,os vitoriosos são os que não desistem.
    O mundo precisa de mais homens sonhadores e de boa vontade.

    O país que sonho pra mim ainda vai existir.

    1. Só que eu duvido que esse dia seja no nosso tempo de vida. 🙁

  5. Pode ser,mas a esperança é que importa.

    Existem pontes que devem ser construídas,ou pelo menos iniciadas,rs.

    1. Isso eu pretendo fazer.

    1. Sim, isso fazia parte do meu projeto, pena que esqueci de colocar no texto (foi há muito tempo). Os engenheiros disseram que isso só serviria para criar ratos e causar infiltrações, trazendo riscos para a saúde e aumentando o custo de manutenção dos prédios.

    2. Na época eu dizia que os telhados precisavam ser úteis tanto para quem estava embaixo deles quanto para quem estava ao redor deles, ou amenizando o microclima, ou produzindo energia para poupar o ambiente.

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