O Arroio Dilúvio é um arroio de Porto Alegre que foi fixado pela construção de uma avenida em cada margem. É o Rio Tietê de Porto Alegre, digamos assim. E corta uma grande extensão da cidade. 

Arroio Dilúvio 1 - vista aérea da bacia hidrográfica
Vista aérea da bacia hidrográfica do Arroio Dilúvio

O Arroio Dilúvio tem os mesmos problemas de praticamente todo rio engolido por uma cidade: poluição, assoreamento, carreamento de lixo, enchentes, etc. A situação do Dilúvio já era crítica na década de 1980, eu fiz a proposta abaixo na década de 1990 e tudo continua igual até agora. 

Para entender bem a situação, é interessante ver algumas imagens do Arroio Dilúvio: 

 

Arroio Dilúvio 2 - assoreamento e poluição
Assoreamento e poluição

 

Arroio Dilúvio 3 - assoreamento
Assoreamento

 

Arroio Dilúvio 4 - assoreamento e lixo
Assoreamento e lixo

 

Arroio Dilúvio 5 - acidentes
Acidentes

 

Arroio Dilúvio 6 - espaço
Espaço

 

Arroio Dilúvio 7 - espaço
Espaço

 

As margens do Arroio Dilúvio por muito tempo estiveram como nesta última foto e agora estão como na penúltima foto – mas não deve demorar para que voltem a ficar como na última foto novamente, devido à ação dos pichadores, vândalos e falta de manutenção, como costuma ocorrer. Daqui a mais duas décadas e meia a gente confere de novo. 

Lá pelo início da década de 1990, a situação das margens era como na última foto, e a situação do leito do arroio nunca mudou. Há décadas são necessárias dragagens constantes para retirar a areia e o lixo que entulham o arroio, num trabalho que nunca tem fim e que freqüentemente estrangula o trânsito na Av. Ipiranga – uma artéria importante da cidade – por semanas a fio. E não precisaria ser assim com o projeto Parque do Dilúvio. 

A idéia central do projeto era revitalizar o arroio com o apoio da iniciativa privada, licitando o espaço aéreo sobre o arroio para exploração comercial. 

Vou usar duas imagens de outros projetistas, publicadas no site “vitruvius” (seja lá o que for isso), para dar uma idéia do que eu havia sugerido duas décadas antes. 

Arroio Dilúvio 8 - estações suspensas
Estações suspensas

 

Arroio Dilúvio 9 - estacionamentos e mini-shoppings
Estacionamentos e mini-shoppings

 

Estas duas imagens, entretanto, não correspondem bem ao que eu propus no início da década de 1990, porque o que eu propus era uma fusão dos elementos que aparecem nelas. Minha proposta era que, sobre o arroio, fossem construídas estações como as da primeira imagem, com prédios de estacionamento, lojas e restaurantes ao centro de cada estação, como os da segunda imagem, bem ao centro das estações. E, claro, uma linha de bonde (vulgo “metrô de superfície”) suspensa, passando pelo alto de todas as estações. 

Como a Avenida Ipiranga possui cerca de 10 km de extensão, seriam construídos cerca de 10 destes módulos, ficando cada um sob administração do consórcio de lojas neles instalados, que ficariam responsáveis pela segurança (inclusive colocando guard-rails), manutenção e paisagismo de uma extensão de cerca de 1 km do arroio. 

Como você bem pode imaginar, a turminha socialista odiou a idéia de “privatizar o espaço público” e transferir o gerenciamento de uma grande, importante e visível extensão territorial para a iniciativa privada. 

Mas os ecochatos de plantão surtaram mesmo foi com a sugestão de criar capivaras ao longo do arroio, alugar rifles para as famílias praticarem caça urbana e disponibilizar quiosques com churrasqueiras para quem quiser poder carnear e assar sua capivara ali mesmo. 

Arroio Dilúvio 10 - capivaras
Capivaras – espécie nativa com ótimo potencial cinegético

 

Arroio Dilúvio 11 - caça urbana
Caça urbana – papai ensinando que a carne não vem do açougue

 

Arroio Dilúvio 12 - churrasco
Churrasco – podia ser de capivara caçada, não fossem os ecochatos

Ecochato não tem nada de eco, só de chato. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 22/01/2014 

Atualização a 26/01/2014

Achei melhor postar esta atualização para não ter que me explicar depois… 

Fora a parte da caça, que eu só apresentei DEPOIS que o projeto já estava sendo apedrejado e ridicularizado, todo o projeto é perfeitamente tradicional, convencional, prático e viável tanto legal quanto economicamente, inclusive com a criação das capivaras, que afinal de contas são parte da fauna nativa e ficariam confinadas ao espaço interno do Dilúvio, sem causar risco algum ao trânsito ao redor. 

A parte da caça eu lancei como retaliação, para chocar e provocar o debate da idéia, impedindo que ela fosse rapidamente esquecida, no que eu tive um sucesso parcial: até hoje tem gente que lembra disso. Mas é uma lástima que um projeto tão legal tenha sido morto no nascedouro justamente em função de sua maior qualidade: aproveitar o interesse da iniciativa privada para promover um investimento altamente positivo para a cidade. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 26/01/2014 

15 thoughts on “Projetos arthurianos (2): o Parque do Dilúvio

  1. E porque não criar patos,sem caça-los…

    1. Pato voa. Imagina um pato no pára-brisa em alta velocidade.

  2. Acho a ideia boa mas não tenho know how na área para dar nenhuma opinião técnica.

    1. Fora a parte das capivaras, é tudo bem convencional e bem adequado, Gelson. 😉

      Eu não registrei no artigo, mas o fato é que ele já havia evidentemente sido rejeitado quando eu finalmente falei de caçar capivaras. Tipo… Já que não vai adiante mesmo, então que pelo menos estimule o debate. Nisso eu tive algum sucesso na época.

  3. Acho que deves tentar convencê-los.

    Embora eu tenha achado a Protásio Alves um horror,com aquela rotatória.

    E Ipanema um lugar fantasma,bem diferente do que eu conheci nos anos 70.

    O PT acabou com a cidade.

    Até a Redenção ficou perigosa.

    1. A idéia está aí, “de grátis”. Agora é com quem mora em Porto Alegre, o que não é mais meu caso.

  4. Grrrrrrrrrrrrrrrr! Arthur feio!

    Mas fora a parte da caça a ideia é ótima.

    1. Por que todo mundo implica com a parte da caça?

      Eu entendo que isso aconteça, mas não entendo o motivo.

      Até parece que ninguém come carne.

  5. Mais uma vez gostei das suas ideias! Infelizmente, os governos, qualquer que seja a orientação politico-ambiental deles, geralmente recuam frente a ousadia. Parece que tem medo de perder apoio da população, ou então é mera “síndrome do chefinho”, onde qualquer ideia que não seja do chefe é ruim. E olha que pode ainda melhorar o motor dasengenhocas com aquele sistema hibrido combustível renovável/elétrico (tipo Toyota Prius) ou o mais barato ar comprimido (carro do Guy Negre/ Tata licensed MDI’s technology)
    Agora, os veículos – sejam bondes, tramways ou casulomóveis – não tem que andar em alta velocidade em contexto urbano, mais ainda com com estação a cada quilometro. Portanto, pato pode entrar, e vai diversificar o cardápio do churrasquinho. Só me pergunto se os valentes Nemrods não vão confundir bondinho com elefante! Tem cada maluco hoje em dia…

    1. 1) Que bom que gostaste. 🙂

      2) O problema dos patos seria a possibilidade de se esborracharem no pára-brisa dos automóveis nas avenidas ao redor. A velocidade máxima na região é de 60 km/h, como na maior parte dos ambientes urbanos. Nessa velocidade um pato no pára-brisa pode causar um acidente grave.

      3) Carro a ar comprimido não é uma boa idéia.

      Primeiro, porque esse papo de emissão zero é balela: para comprimir o ar é necessário uma fonte de energia – e essa fonte de energia será uma fonte convencional, como combustível fóssil, biodiesel, etanol ou eletricidade. É o mesmo caso do “aeromóvel”, bem conhecido dos portoalegrenses.

      Segundo, porque toda conversão energética gera perda. Se é pra comprimir o ar usando uma destas fontes externas, então é melhor usar essa fonte diretamente no carro.

      Terceiro, porque um tanque de ar comprimido a 4.500 psi, se for abalroado no trânsito, pode se romper e matar alguém.

  6. Fábio Leite

    23/09/2014 — 12:08

    Arthur, você vai me xingar porque estou reproduzindo um trecho do Olavão, mas queria sinceramente sua opinião a respeito da veracidade eco-biológica do que ele diz no caso, em que postou um texto sobre sua caçada de ursos:

    “Durante milênios as comunidades humanas mantiveram-se a salvo de animais ferozes graças a um vasto círculo de proteção constituído de caçadores, guardas florestais, fazendeiros etc. É assim até hoje. O típico cidadão urbano dos nossos dias ignora a existência desse círculo e imagina que é simplesmente natural os bichos ficarem em paz no seu “habitat”, como que obedientes a um imenso Registro Cósmico de Imóveis, só se tornando perigosos quando seu território é “invadido” por malvados seres humanos. Isso é de uma estupidez monstruosa. O “habitat natural” de um urso ou de um lobo não é um lugar fixo: é onde ele encontra uma comida do seu agrado. Pode ser um galinheiro, uma fazenda de gado ou uma pequena cidade. Se ele não passa daí é porque alguém lhe deu um tiro. O idiota urbano, a milhares de milhas, intoxicado de maconha, tagarelice ideológica e programas de TV, acredita-se protegido pela gentileza das feras e pelo milagre do “equilíbrio ecológico”. É preciso ser muito, muito burro para acreditar que, deixada a si mesma, ou mantida como um santuário inviolável pelos cultores do animalismo, a Mãe Natureza resolverá tudo na mais perfeita harmonia. Essa gentil progenitora já liquidou mais espécies animais do que toda a humanidade caçadora reunida. De todos os fatores naturais, o homem é o menos mortífero. É aliás o único que se preocupa em preservar as outras espécies. Nenhum tigre faz passeata de protesto quando um de seus parentes come quatrocentos indianos pobres e desarmados. Nenhum grizly publica editoriais indignados quando um da sua espécie mata dezenas de filhotes, fêmeas e ursos mais fracos.”

    Sinceramente, até hoje eu sou dos caras que pensam assim: animais atacam só quando seu habitat é invadido. Mas o que define um habitat pra um animal qualquer? É disponibilidade de comida? Ausência (ou presença reduzida) de inimigos naturais?

    1. Bem, o texto está tão imundo de olavices que é muito mais fácil explicar a coisa toda do zero do que tentar limpar a porcaria toda para extrair o pouco que há de informação correta.

      Nenhuma espécie conhece ou reconhece limites. Os organismos simplesmente procuram se alimentar, se abrigar, se reproduzir e conquistar território. O que impede cada espécie de tomar conta de todo o planeta e depois sucumbir em um grande colapso são os diversos fatores ecológicos: disponibilidade de alimento e abrigo, competição inter e intraespecífica, limitações geográficas e climáticas, predação, etc.

      Então, se um urso sai caminhando por aí, ele não pára em frente a cartazes informativos do tipo “limite entre a área natural e a área urbana”. Ele também não pára onde termina o gramado e começa o asfalto. Ele só pára quando algum fator impede de fato seu deslocamento ou inviabiliza sua sobrevivência, como um rochedo impossível de escalar ou um deserto… Ou uma cerca intransponível ou uma selva de pedra.

      Já a discussão sobre a caça é de outro tipo. Nossa espécie sempre foi caçadora-coletora. O besteirol mimimizento de questionar “com que direito podemos matar outros animais” é coisa de ignorantes em biologia intoxicados por ideologias igualmente ignorantes em biologia. O urso do exemplo não teria escrúpulos filosóficos para matar e devorar os detratores da caça. Na biologia não existe mimimi. A natureza é extremamente cruel. A atividade dos caçadores produz muito menos sofrimento do que a própria predação natural, ou até reduz o sofrimento, porque caçadores humanos não devoram a presa viva a dentadas até que ela morra sentindo seu corpo ser despedaçado. As reais considerações que devem ser feitas dizem respeito à manutenção de estoque, equilíbrio ecológico e outras de interesse humano.

    2. Fábio Leite

      15/10/2014 — 15:18

      Valeu, Arthur, pela paciência!

    3. Arthur:

      acho que você incorre na chamada “falácia naturalista”. Muita gente acha que a moralidade deve ser distinta da natureza. Não só porque algo é natural, aquilo é moral. Não que eu tenha uma resposta boa para esse problema, mas acho que seu argumento não seria convincente para muita gente. E não só para gente teimosa e ignorante, mas também gente razoável.

    4. A existência da tal “Falácia Naturalista” é que é uma falácia, Elvis. Basicamente os que usam esse pseudo-argumento afirmam – sem qualquer fundamentação razoável – que o “dever ser” não tem qualquer derivação do “ser”. Ou, noutras palavras, que é impossível extrair princípios morais da existência material. Bem, isso está simplesmente errado. TUDO é derivado da existência material. Quem alega o contrário é que tem que provar a existência de um “mundo das idéias” completamente desvinculado da existência material. Como isso é impossível, porque nossa própria consciência não pode ser desvinculada da existência material para fazer a checagem, a tese da existência de uma “Falácia Naturalista” não se sustenta.

      Aliás, mesmo que houvesse uma possibilidade de realizar uma projeção de consciência imaterial, baseada em algum tipo de energia ou em algum tipo de espírito ou sei lá o quê, ainda assim continuaria absurdo sustentar a existência de uma suposta “Falácia Naturalista”, pois o que esta excrescência conceitual postula é que a derivação de idéias (inclusive da moralidade) não tem relação com a natureza, ou seja, com a realidade. Qualquer coisa que exista é real (tautologia, aliás), não há como “fugir da natureza”. Falar em “Falácia Naturalista” é, portanto, misticismo.

      Existem, é claro, muitos filósofos que defendem a existência de uma “Falácia Naturalista”. Essa turma tinha que compreender os Teoremas da Incompletitude de Gödel e estudar mais biologia evolutiva antes de viajar nesta maionese. Por exemplo, já vi alguns deles afirmarem que “não é possível definir o conceito de ‘bom’ e ‘mau'”. Qualquer um que já tenha pregado um prego sabe que “bom” é não martelar o dedo no processo, menos estes caras. Logo, “mau” é que eles sejam levados a sério no ambiente acadêmico. Hehehehe 😉

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *