Houve uma época em que eu participei de ações voluntárias de fiscalização do desmatamento dos morros de Porto Alegre junto com um pessoal da AGAPAN, percorrendo os morros de carro. Depois de ser corrido uma vez a facão e outra vez a bala, comecei a pensar em estratégias mais razoáveis de fiscalização ambiental. 

paramotor-1
Esta é a foto de um paratrike em primeiro plano, com um paratrike e uma bela paisagem ao fundo, tirada a partir de outro paratrike. O objetivo desta foto é mostrar como é possível usar este equipamento para fazer fiscalização ambiental voando com um equipamento simples e barato e fazendo filmagens ou tirando fotografias nítidas das mais diversas altitudes.

Minha idéia era fazer o seguinte:

Primeiro, encomendar um levantamento aerofotogramétrico de toda a cidade. Isso é uma coisa cara, mas só seria necessário fazer isso uma vez. 

Segundo, zonear toda a cidade em unidades de fiscalização. Isso é simples de fazer, pois o zoneamento pode ser arbitrário, conforme a conveniência das equipes de fiscalização.

Terceiro, sobrevoar cada equipe de fiscalização uma mesma zona, digamos uma vez por mês, tirando fotografias a partir de paramotores ou paratrikes. 

Quarto, comparar as fotografias da equipe de fiscalização com as do levantamento aerofotogramétrico, enviando equipes convencionais de fiscalização aos locais onde forem detectadas alterações indevidas. 

Quinto, registrar no levantamento aerofotogramétrico as alterações legais realizadas e as ilegais já resolvidas, referenciando-as a um banco de dados de fotografias aéreas digitais tiradas pelas equipes de fiscalização. 

Pronto. Estaria implementado um sistema de “fiscalização voadora” capaz de realizar um monitoramento ambiental censitário de todo um município, com muito maior agilidade, precisão, eficácia e segurança que qualquer técnica de fiscalização por amostragem ou por denúncia. 

Naquela época me perguntaram: e se o município não dispuser de recursos para encomendar um levantamento aerofotogramétrico? Isso não inviabilizaria a implantação deste sistema de fiscalização?

Não, não inviabilizaria. Sem o levantamento aerofotogramétrico, o sistema perderia um pouco de precisão cartográfica, mas permaneceria perfeitamente viável e igualmente útil. Só daria um pouco mais de trabalho para zonear o município e organizar as fotografias com as limitações da computação do início da década de 1990. 

Hoje em dia, entretanto, um levantamento aerofotogramétrico é totalmente desnecessário, graças a recursos como o Google Earth, o Google Maps e a Wikimápia, que, usados em conjunto com uma câmera com GPS, permitem realizar o mesmo tipo de fiscalização com muito maior agilidade, permitindo inclusive intervir e impedir impactos ambientais e realização de obras clandestinas em poucas horas ou no máximo dias, dependendo apenas da organização do trabalho das equipes de fiscalização. 

paramotor-2
Eu prefiro este equipamento – um paramotor clássico – aos paratrikes para fazer a “fiscalização voadora”. Os motivos são a maior manobrabilidade e a maior independência em relação ao tipo de terreno a partir do qual decolar e onde aterrizar.

E, quanto ao equipamento necessário para realizar a cobertura fotográfica, nada mais simples: 

capacete com camera
Câmera acoplada ao capacete. Permite tirar fotografias e fazer filmagens sem que o piloto tenha que tirar as mãos dos controles de vôo.

Eu era voluntaríssimo para compor a primeira equipe de fiscalização, não preciso nem dizer, né? Mas não rolou. 

Na época eu pensava que este projeto tinha sido rejeitado porque era muito avançado para a mentalidade vigente. Hoje penso que este projeto foi rejeitado justamente por ser eficaz demais. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 26/01/2014 

6 thoughts on “Projetos arthurianos (5): a fiscalização voadora

  1. PRa que um paratrike caro (custo operacional e ainda o risco de vida mesmo que pequeno) se você pode fazer o MESMO trabalho usando um drone/vant de R$ 5000?

    Eu mesmo construi um e estou calibrando para fazer o mapeamento do sitio da minha mãe, apenas pelo hobby.

    1. Taí uma outra ótima idéia! 🙂

      Drones provavelmente podem fazer a maior parte das tarefas para as quais eu imaginava usar paramotores, mas por um custo mais baixo e com menor risco. É surpreendente que as administrações públicas sejam tão estúpidas ou mal intencionadas que não usem estes incríveis recursos tecnológicos para atender as necessidades do povo e melhorar a qualidade de vida em nosso país.

      Tenho interesse em conhecer mais detalhes desse teu projeto aí, Bruno!

  2. Só atualizando:

    http://conservationdrones.org/

    ou

    http://www.3drobotics.com/ podem te dar uma noção do que estou falando 😀

    1. Gostei! Se tiveres outros semelhantes, posta aqui!

  3. Bom, o que tenho até agora é o computador de voo APM 2.5 (“ArduPilotMega”) que é uma placa de código e hardware aberto, baseada no Arduino (se não conhece o Arduino, procure saber mais sobre ele pois é muito interessante o conceito de “open hardware”). Junto com seus sensores e circuitos de comunicação. Com isso instalado em qualquer aeromodelo comum você já tem um Drone que pode tanto ter modos de piloto automático como “estabilizar” quanto fazer todo o voo autônomo desde a decolagem, missão até o pouso.

    Ia testar a gerigonça no meu aeromodelo a combustão mas como vi que pequenos erros podem derrubar o modelo preferi partir pra um aviãozinho mais adequado e barato. Então comprei um “Raptor RPV” que é um avião elétrico, de isopor e plastico bem resistentes a quedas para fazer o trabalho. Falta agora botar tudo junto e voar mas como estava me mudando tudo ficou pra daqui um mes 😀

    Um bom exemplo da simplicidade e baixo custo é esse aqui: http://www.makedrones.com/2013/04/drone-uav-x5.html

    Todas as peças na hobbyking (loja chinesa de modelismo) saem por cerca de US$ 700.

    Depois que o drone determinar os pontos de fiscalização aí sim uma equipe vai la de moto/helicóptero dar uma olhada mais de perto. Que é a proposta do site “conservation drones”

    1. Como eu queria ter feito mecatrônica ao invés de biologia… Ou ao menos paralelo à biologia, pois minha visão de mundo seria completamente diferente (e equivocada) sem a biologia…

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