Desde a década de 1980 eu sabia que o transporte se tornaria um fator importantíssimo na qualidade de vida de todos os centros urbanos. O autorama urbano foi desenvolvido naquela época e ainda hoje permanece um projeto futurista, mas eu acredito firmemente que veremos algo semelhante funcionando nas próximas décadas, eu adoraria se em conjunto com os túneis de casulomóveis. 

Autorama Urbano

Você foi passar as férias em um país exótico, onde se fala uma língua da qual você não sabe uma única palavra. Você alugou um carro, mas deixou-o no hotel e saiu com uma turma de brasileiros que encontrou no saguão, todos meio bêbados e com a camiseta da seleção. Vocês foram a um bar, e quando você foi ao banheiro e voltou todo mundo tinha sumido. 

São duas horas da madrugada, você não sabe onde está, não fala a língua local, não há ninguém nas ruas, nem táxis, o bar está fechando, só sobraram alguns centavos no seu bolso e você não lembra o nome do hotel, só sabe que fica bem longe. O que você faz? 

Se houver um autorama urbano funcionando, você simplesmente liga para seu carro e pede para ele ir buscá-lo no bar e levá-lo em segurança de volta para o hotel. 

Gostou? 

Pois saiba que o autorama urbano pode fazer isso usando somente os carros atuais e a tecnologia que já existe e já está disponível no mercado hoje em dia, com poucas adaptações. 

O que é o autorama urbano 

O autorama urbano é um sistema de trânsito auxiliado por computador, baseado originalmente no conceito de carrinhos que correm em trilhos, como num autorama de brinquedo, e posteriormente aperfeiçoado com conceitos de inteligência artificial, robótica e cibernética para adequar-se às exigências do trânsito real. Este sistema pode organizar o trânsito real de nossas cidades em níveis somente sonhados na ficção científica mais futurista. 

O autorama urbano tem duas versões: a primeira é da década de 1980, quando ainda não existiam computadores pessoais disponíveis no nosso mercado; a segunda é da década de 1990, quando pouca gente usava computadores pessoais mas eu já tinha uma boa noção do que seria possível fazer com eles com um pouco de ousadia e boa vontade. Vou falar sobre as duas. 

A primeira versão surgiu na minha adolescência, quando eu imaginava poder instalar um sulco físico nas ruas, de tal modo que o automóvel pudesse encaixar algum tipo de guia que o conduzisse pela rota desejada, exatamente como acontece em um autorama. 

Esta não é uma boa idéia, por diversos motivos, mas vou citar apenas um, que eu percebi já naquela época e que é válido ainda hoje: qualquer sulco nas ruas do Brasil logo seria entulhado pelo lixo jogado nas ruas.

Ou, numa sacada mais recente, os sulcos poderiam ser facilmente sabotados com cimento por algum esquerdista imbecil sob a alegação de que “carro particular é coisa de burguês, o povo usa transporte coletivo”. Enfim. 

A segunda versão é bem mais razoável e factível. Hoje em dia, com o grande desenvolvimento da computação e da robótica, o autorama urbano 2.0 se tornou uma idéia arrojada, com um potencial muito maior (tendo inclusive total compatibilidade com o projeto dos túneis de casulomóveis, como eu disse antes.) Vamos a ela. 

Imagine um automóvel qualquer com direção hidráulica. Este é nosso ponto de partida. Neste automóvel, vamos instalar os seguintes equipamentos:

1) um computador de bordo com GPS, 3G e wi-fi; 

2) um dispositivo robótico capaz de controlar o volante, a aceleração e os freios e de trocar as marchas, controlado pelo computador de bordo; 

3) um kit com dois conjuntos de sensores: um longo sensor laser, semelhante aos que são usados para ler códigos de barras, colocado sob o pára-choque dianteiro do veículo, e um grupo de vários sensores de distância, colocado ao redor de todo o veículo, cobrindo 360 graus. 

O sistema é completado pela instalação de pontos de wi-fi nos semáforos e pela colocação de sinais codificados no pavimento, como na imagem abaixo. 

asfalto sinalizado
Perceba que as faixas brancas e amarelas já são, elas mesmas, sinalizações que o carro consegue perceber facilmente. E que os códigos de barras na imagem são diferentes conforme o sentido do deslocamento.

 

Como funciona o autorama urbano

Voltemos a sua desventurada aventura naquele bar que fica longe do hotel que você não sabe como se chama nem onde fica. 

Você envia um torpedo para o carro que alugou – cujo número está na memória do seu celular porque cadastrar seu número no computador de bordo é condição necessária para completar o aluguel – com o código HELP. Afinal, você não lembra dos comandos, então precisa perguntar ao carro o que pode mandá-lo fazer. E o carro envia um torpedo de volta com o manual: 

“Responda: 

1 para que eu vá até onde você está; 

2 para que eu volte para a concessionária; 

3 para que eu vá até a delegacia mais próxima e soe o alarme;

4 para enviar as coordenadas para onde devo ir;

5 para receber o menu de opções avançadas.” 

Você responde 1. 

O carro identifica onde ele mesmo está pelo próprio GPS, identifica onde você está pelo GPS do seu celular, traça uma rota otimizada entre os dois pontos, manobra sozinho e sai lentamente do hotel para a rua sem encostar em nada com a ajuda dos sensores de distância e começa a se deslocar na direção correta. 

O carro é dirigido pelo computador de bordo com base nas informações obtidas de três fontes distintas: os sensores de solo, que lêem as informações disponibilizadas pela prefeitura no pavimento (onde ele está, a que velocidade deve se mover, a que distância está do próximo semáforo, faixa de pedestres, cruzamento ou curva, qual o tipo de pavimento sobre o qual está rodando, etc.), os sensores de distância e os sinais wi-fi dos semáforos e de outros pontos onde o Poder Público julgar interessante transmitir informações (por exemplo, sobre as condições meteorológicas, ou sobre rotas alternativas para evitar engarrafamentos). 

Ao longo do trajeto, o carro segue rigorosamente as regras de trânsito e as regras de segurança, seguindo na velocidade correta, parando caso haja alguém atravessando na faixa de segurança para pedestres e respeitando os semáforos e as preferenciais. Se houver um trecho de túnel de casulomóvel disponível no caminho, o carro calcula se é vantajoso utilizar ou não o túnel para chegar mais cedo a seu destino. 

Ao encontrar você, o carro abre as portas  e espera que você assuma o comando ou que determine que ele mesmo volte para o hotel, do mesmo modo que veio, enquanto você olha a paisagem ou tira uma soneca.

Você quer assumir o controle rapidamente, em função de alguma necessidade que o carro não pode prever, como a aproximação de um assaltante, ou a ordem de um agente de trânsito? Basta pôr as mãos no volante e em milissegundos o carro estará em modo manual.

Você quer devolver o controle ao computador de bordo? Basta apertar o botão do piloto automático no painel e o computador de bordo assumirá o controle e se dirigirá ao último destino programado, procurará uma vaga,  estacionará e avisará pelos alto-falantes que você já chegou a seu destino e que horas são – na sua língua.

O mais incrível é que tudo isso pode ser implementado gradualmente, sem causar nenhum prejuízo ou transtorno a quem não tem veículos adaptados. E eu bolei tudo isso na década de 1990. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 28/01/2014 

5 thoughts on “Projetos arthurianos (6): o autorama urbano

  1. Esse é de longe o mais perto de se tornar realidade.

    1. Pois é… Mas o das locomotivas de bicicletas seria muito mais rápido e barato de implantar, e muito mais útil hoje em dia.

      E o primeiro de todos, de incentivo à reforma urbana através do IPTU verde, seria o que teria maior impacto na qualidade de vida urbana.

    2. E tem outros ainda. 🙂

  2. Aiaiai Arthur… Eu tenho um Smart, uma bolinha que, na versão não econômica dele, faz 20km/L, estaciona em qualquer bimboca (liberando espaço nas vias), e o pobre coitado não ganha UM incentivo de redução de impostos de qualquer natureza (coisa que a Belina véia do tio da esquina, que polui e engarrafa o trânsito toda vez que quebra, tem).
    Nem as imbecilmente mais simples, como essa, são implementadas… imagina qualquer coisa que exija investimento e planejamento como essas tuas ideias.
    Alias, tu já deve conhecer a história do inventor do Aeromóvel, né?
    Eu tenho algumas ideias tambem, desse tipo. Foram melhor recebidas quando as fui apresentar às “otoridades” (dão voto), só não tive tempo para tocá-las adiante. Abre o forum das ideias que eu publico a minha.

    1. Num país em que se decidiu premiar a mediocridade e punir a capacidade, estas minhas antigas idéias são apenas curiosidade de museu. Só serão implementadas aqui quando já forem velharia no resto do mundo.

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