Minha casa acaba de ser arrombada. À luz do dia. Acordei com o barulho do pontapé na porta. Fui ver o que aconteceu e encontrei o ladrão no meio da casa. 

ladrao pulando janela

Era um sujeito forte. Para que vocês tenham uma idéia, eu preferiria mil vezes lutar de novo com aqueles três que tentaram roubar meu carro  do que com esse cara sozinho. 

Assim que me viu, ele teve uma reação bizarra: simplesmente passou por mim caminhando calmamente e foi em direção à porta, como se estivesse tudo normal. Como a reação dele foi de retirada, eu tratei de simplesmente não interferir, para evitar ter que entrar em confronto físico. Foi uma situação tensa, mas por sorte não passou disso. 

Eu cheguei a falar com o sujeito. Lógico que eu já sabia que era um ladrão, mas me fiz de desentendido, caprichei no tom de voz casual e perguntei quem ele era, com o objetivo de passar por debilóide e reduzir a probabilidade de uma reação violenta. Funcionou, porque ele respondeu na boa: ele disse “eu moro aqui”. E eu logo percebi que ele não tinha visto de onde eu tinha aparecido. Deve ter pensado que eu entrei logo atrás dele. 

Aproveitei a resposta absurda para manter o diálogo ativo. Falando, mentindo e enrolando o cara teria menor chance de se tornar violento. Perguntei desde quando ele morava aqui. Ele disse que fazia pouco, que “tinha falado com o magrão que mora aqui e ele tinha me convidado para passar uns dias”. E saiu pela porta. 

Fui atrás, me esforçando para aparentar uma suspeita crescente. Na falta de bobagem melhor, perguntei por que ele não tinha aberto a porta com a chave. Aí ele se perdeu no jogo. Engrossou o tom de voz, disse “qual é, meu, tá achando que não é verdade o que eu tô falando?” – e pegou a bicicleta. (Sim, tem de tudo nesse mundo, eles usam bicicleta para varrer uma área maior mais rapidamente em busca de oportunidades de “trabalho”.) 

Foi aí que eu abandonei o tom de debilóide, engrossei também e disse “cara, te arranca daqui”. E ele respondeu “qualé, que ‘te arranca daqui’ o quê, o que que tá pensando”… E saiu pedalando, mas me fuzilando com o olhar.

Tem toda a cara de quem pretende voltar. 

Eu poderia ter capturado o sujeito. Não vou dizer no blog qual era o recurso que eu tinha para fazer isso, mas não era o recurso adequado que eu deveria ter sempre em mãos para poder proteger minha vida e minha propriedade. Com o recurso que eu tinha em mãos, eu teria que me aproximar demais e teria que ferir para valer ou matar o sujeito se ele resolvesse reagir – e ele reagiria se eu lhe desse voz de prisão, porque ele teria chance de vencer o confronto, uma vez que é alguém bem mais forte e bem mais acostumado a lutar. 

E por que eu não tinha em mãos o recurso adequado para defender minha vida e minha propriedade? Vocês sabem: os ladrões que dominam o governo federal e o Congresso Nacional são solidários com sua classe.

Nós, os cidadãos honestos, estamos reféns da bandidagem. Enquanto uma parte da quadrilha ocupa o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, outra parte da quadrilha circula livre e despreocupadamente, obrigando-nos a nos trancar atrás de muros e grades, permanecer tensos e com medo de uma agressão, um furto ou coisa pior. Somos gado, criados para o abate

Na última vez, a raiva me salvou. 

Nesta vez, a calma me salvou. 

Será que terei tanta sorte na próxima vez? 

E você, será que terá tanta sorte também? 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 04/02/2014 

12 thoughts on “Bandidagem a cada dia mais ousada (3)

  1. 🙁

  2. Tá precisando fazer regime. Sua massa excessiva distorce o espaço tempo e acaba atraindo para o seu horizonte de eventos todo o tipo de maluco do universo.

    1. HAHAHAHA!!! 😛 Boa!

      Mas é este país que está virando um buraco negro. 🙁

  3. joaquim salles

    04/02/2014 — 21:32

    Olha caro Arthur, com a “sorte” que vc tem é melhor chamar um padre exorcista 🙂 Se preferir, faça um regime ( como sugeriu o Andre) para ver se essas coisas desaparecem do seu horizonte de eventos 🙂

    1. Pareço um ímã de encrenca, né? :-/

      Mas meu Anjo-da-Guarda é o n°1, o bam-bam-bam. 🙂

    2. Existe cardiologista pra anjo da guarda?

    3. Anjo da Guarda deve ser igual ao Coiote. Explode bomba na cara, cai de precipício, cai pedra em cima… E na cena seguinte está inteiro de novo. 🙂

    4. O seu com certeza é. Bip bip! 🙂

    5. Hehehehe…

      Desta vez ele quase infartou. Foi tenso.

  4. Instale em todas as aberturas da casa, pelo lado de dentro, uma estrura semelhante à “gaiola de Faraday” de forma a permitir que o meliante (gostou de meliante?) entre pela abertura (janela ou porta) mas não passe das paredes gradeadas da gaiola para o interior utilitário de sua residência.

    Eletrifique as estruturas de forma adequada ou faça um acordo entre a sua consciência e a alma de Ohm. Sugere-se algo com gradações que possam alcançar voltagens acima de 1000 se corrente alternada ou 1500 se corrente contínua, que já são quantificações comprovadamente eficazes. Pelo menos a cobertura interna da porta da frente necessita ser móvel (como as portas de garagens) para que você possa entrar e sair utilizando um controle remoto sem ficar frito no processo. Também é adequado, inicialmente, por alguns dias, usar o sistema com baixas voltagens até que você se acostume com a tralha, sem riscos (lembra Pavlov?).

    Procure um advogado e estabeleça um princípio de “Legítima Defesa Prévia” alegando que o Estado demonstra não ter condições de proteger você e os escambau (há jurisprudência sobre o assunto!)

    Tenha em mente que quando você receber visitas é interessante desligar o sistema, ou mantê-lo numa gradação baixa, inversamente proporcional à sua satisfação com a visita.

    Quando você estiver dormindo ligue o sistema e tenha bons sonhos. Quando você sair de casa ligue o sistema e seja assaltado na rua. (Do Manual Moderno para Viver no Planeta)

    1. Na verdade eu já estou providenciando uma surpresa eletrizante para o próximo não-convidado indesejável que aparecer por aqui. Mas isso não é o suficiente para ficarmos seguros. É apenas um paliativo para situações de baixo risco – e tende a aumentar o risco a longo prazo, porque, com o sistema judiciário e o sistema policial que temos, o vagabundo pode querer retaliar.

      Quando um ferrenho defensor de Direitos Humanos começa a dar razão a quem defende o uso soluções de defesa letais já como primeira alternativa, para que o vagabundo nunca possa retaliar, é porque realmente estamos sendo empurrados para a barbárie.

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