Em quatro a cada cinco atendimentos médicos que eu preciso eu tenho algo grave a reclamar. O brasileiro não têm um sistema de saúde a seu serviço, tem uma máfia com um braço político e um braço classista que seqüestrou sua saúde e colocou o cidadão a serviço do sustento e da burocracia do Estado e do sistema de saúde. 

Mafia

Eu estou com um probleminha de saúde (coisa inofensiva, fiquem tranqüilos) para o qual a solução é um medicamento cujo nome, dosagem, freqüência e duração de uso eu conheço. 

Em um país civilizado e livre, eu iria até a farmácia, compraria o medicamento e pronto, problema resolvido. 

No Brasil, a minha saúde não é minha. E a sua saúde, leitor, não é sua. Nós não somos donos dos nossos corpos. O Estado brasileiro é dono de nossos corpos. E nós temos que pedir autorização para uma classe de profissionais para podermos cuidar da nossa própria saúde. Se eles não deixarem, nós não podemos decidir como tratar nosso próprio corpo. 

Eu e você somos escravos do governo brasileiro e da classe médica. Eles são os nossos donos, e podem dispor de nossas vidas como bem entenderem. Podem decidir contra nossa vontade se trataremos nosso próprio corpo deste ou daquele modo, e quando poderemos nos tratar. E, se não gostarmos disso, a opção que temos é morrer estrebuchando.

Isso não é governo. Isso não é medicina.

Isso é escravidão. Isso é máfia.

E nós somos gado, criados para o abate

Ao invés de ir à farmácia comprar o que sei que preciso, eu tive que ir a um posto da máfia. Lá havia uma fila, na qual eu tive que esperar em pé. Quando finalmente chegou minha vez o atendente atrás do balcão me perguntou em voz alta, na frente de inúmeras outras pessoas: “o que você tem?”. E eu me vi tendo que falar sobre a minha saúde para um balconista, em público, sem nenhuma privacidade, para ele poder preencher uma ficha. 

O fato de eu conhecer suficientemente o vocabulário técnico para informar o motivo de minha presença lá não diminuiu em nada a violação da minha privacidade, porque o infeliz que me atendeu não conhecia o vocabulário técnico e eu tive que explicar tudo em termos leigos. Ele anotou tudo e me disse para aguardar na fila da triagem. 

Um bom tempo depois, a enfermeira me chamou, me passou para uma segunda sala de espera, me fez aguardar mais um pouco, me chamou para uma sala e perguntou de novo “o que você tem?”. Lá fui eu explicar tudo tim-tim por tim-tim de novo enquanto ela tomava notas. E então ela me disse para voltar ao saguão geral e aguardar na fila do atendimento.  

Depois de passar cinco horas em três filas, fui finalmente chamado de volta para a segunda sala de espera, depois tive que atravessar um corredor cheio de macas com pessoas em situação precária e o médico que me chamou saiu a procurar um consultório livre em que eu pudesse ser atendido.

Quando ele finalmente encontrou um consultório e me chamou, eu ouvi novamente a pergunta “o que você tem?” e tive que explicar tudo detalhadamente pela terceira vez, enquanto ele tomava mais notas.

Para que três pessoas diferentes tiveram que tomar nota três vezes da mesma informação? Que absurdo de perda de tempo e de duplicidade de procedimentos!

Mas ainda não foi o fim. O médico que me atendeu era na verdade um estudante de medicina, então ele foi confirmar o diagnóstico e discutir o tratamento com a médica que estava de plantão. E depois de um tempo ela apareceu e me fez pela quarta vez todas as perguntas que os três anteriores já haviam feito, tomou mais notas, coçou a cabeça com a caneta e disse que não me prescreveria nenhuma medicação. 

Ela disse que o diagnóstico que o estudante fez estava correto (óbvio, eu cheguei com o diagnóstico pronto), mas que não poderia me receitar o medicamento que eu havia solicitado porque eu poderia ser diabético. 

Eu disse: 

– Eu não sou diabético. Eu não tenho e nunca tive nenhum sintoma de diabetes. Eu não tenho nenhum parente diabético. Mas de todo modo, qual a dificuldade de medir minha glicemia agora mesmo? Vocês não têm uma lanceta, uma fita e um leitor? O processo todo demora menos de trinta segundos! 

Não, claro que não. Pra que medir a glicemia em trinta segundos com uma lancetadinha no dedo se dá pra me mandar esperar sem solução alguma até segunda-feira, acordar de madrugada para tirar uma ficha, esperar mais cinco horas para ser atendido, ter que meter uma agulha no braço e esperar mais algumas horas até sair o resultado do laboratório, aguardar em outra fila para ser atendido novamente e só então pegar a receita que eu poderia ter recebido hoje?

Ela ainda reclamou que eu tinha ido a uma emergência ao invés de um posto de saúde. Ignorou solenemente quando eu disse que eu não poderia esperar até segunda-feira para somente então agendar uma consulta para novembro de 2017. E disse que eu é que tinha que ajudar o sistema a funcionar melhor, usando os recursos que são colocados à minha disposição conforme o planejamento do próprio sistema. 

É como dizia o fascista e torturador O’Brien em 1984 de George Orwell: não basta exercer o poder, é necessário fazer o outro sofrer. E não basta fazê-lo obedecer, é necessário fazê-lo amar você. Ou seja, você tem que ser um escravo e tem que ser um escravo que sofre e que gosta da escravidão, caso contrário eles darão um jeito de fazer as coisas ficarem ainda piores para você. 

Além da hipótese maluca e injustificada de diabetes, a médica disse que, como eu estou acima do peso, ela precisa se certificar de que minha função hepática está bem antes de poder me autorizar a comprar com o meu dinheiro o que eu já sei que preciso para tratar a minha saúde mas não posso ter acesso sem a decisão dela. 

Ora, bolas. Eu nunca tive qualquer problema de fígado. Não bebo. Não fumo. Não tive nenhuma hepatite. Já tomei o medicamento em questão e nunca me fez mal. Não tenho nada alterado no meu hemograma. Meus batimentos cardíacos estão ótimos. Minha pressão é excelente. Meus pulmões estão ótimos. Não há nenhum sintoma presente nem nada no meu histórico que sugira nenhum motivo para nenhuma investigação extra. 

Entretanto… 

Eu não vou poder comprar o que eu já sei que preciso e que eu sei que não me faz mal se eu não me submeter a uma bateria de exames para proteger o sujeito que vai assinar a receita.

Eu não vou poder comprar o que eu já sei que preciso se eu não passar horas inúteis esperando um sistema ineficiente, burocratizado, impessoal e desagradável me moer no meio de suas engrenagens.

Eu não vou poder comprar o que eu já sei que preciso se eu não for furado, analisado e registrado para que quem não deixa eu mesmo me cuidar não possa ser responsabilizado pelas decisões que insiste em tomar sobre minha saúde. 

Ou seja, não é a mim que o sistema de saúde protege. É a si mesmo.

Não é a mim que o sistema de saúde serve. Eu é que tenho que fazer as vontades dele, sob pena de ser deixado sem tratamento.

Mas quem disse que eu sou obrigado a passar por tudo isso? 

Sempre é possível receber um atendimento V.I.P, rápido e ágil, e não ter que passar por todo esse incômodo. 

Basta poder pagar o preço. 

O sistema de saúde do Brasil é uma máfia que impõe dificuldades para vender facilidades. E a moeda em jogo é o meu corpo, o seu corpo, a nossa dor, o nosso bem estar, a nossa vida. Ou melhor, a vida não é nossa, é deles, os nossos donos. 

Tudo isso com uma linda justificativa politicamente correta: “é para o nosso bem”. O governo e a classe médica sempre sabem melhor do que nós o que é melhor para nós. 

Não é isso que todo fascista sempre diz? 

::

E ATENÇÃO:  

Se você é médico e não é um fascista, então não vista a carapuça. Eu tenho vários bons amigos que são médicos e não compactuam com o fascismo médico. Então, não venha me acusar de generalização indevida. 

Escreva um e-mail para o Conselho Federal de Medicina, coloque o link deste artigo, diga que concorda com minha reclamação, que concorda que eu devo ser dono de meu corpo, que eu não tenho que pedir autorização (receita) para ninguém para fazer o que quiser com meu corpo e que deseja se responsabilizar somente pelas receitas que prescreve a quem vai voluntariamente a seu consultório ou posto de trabalho.

Diga que é contrário ao fascismo médico, diga que sua profissão não pode se degradar ao ponto de se colocar na posição de máfia, diga que cada pessoa tem que ser livre para decidir tudo sobre sua própria saúde e diga que você só quer atender quem quiser ser atendido por você. E diga que o Conselho Federal de Medicina tem que lutar por isso junto ao Congresso Nacional. 

Você quer ajudar as pessoas a terem saúde ou controlar a vida delas? Quer que todos sejam cidadãos ou quer exercer os direitos das pessoas no lugar delas? Não queira ser dono de minha saúde. Defenda minha liberdade. Defenda a liberdade de todos. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 08/02/2014 

48 thoughts on “Medicina degenerada (4)

  1. joaquim salles

    15/02/2014 — 12:37

    Olá Arthur,

    Bom, quem sabe pode ser uma “solução” como propõem os anarquistas e semelhantes. Quem sabe eles tenham razão e estamos tão habituados a existência de chefes,reis e estado que achamos isso comum e normal. Muitos que estudamos temos um tendencia “positivista”, “de sermos melhores dos que os outros”. Pode até ser, mas vivemos em comunidades, grupos, onde o consenso é necessario. Não adianta ser “melhor do que o outro” se o outro não “achar isso”. No final isso acaba,normalmente, em conflitos e brigas. Talvez um dos “méritos” da democracia representativa e/ou republicana não é escolher o “melhor de todos” mas minimizar os conflitos entre as partes. Pois se o objetivo fosse apenas o “melhor de todos”, sem consenso, uma ditadura absolutista ( e as varias formas com que ela surgiu) fossem melhor. Mas mesmo nela, e com toda coerção possível, é necessario um certo consenso, uma “aceitação das regras”, se não existe uma revolta entre os membros.

    Já outros, e por causa desse motivos sitados (coerção por exemplo), acham:

    Justamente pelo fato do Estado ter estas características de ser o aparato social de compulsão e coerção é que deve ser mínimo, com fortes e claras limitações constitucionais, restringindo-se ao law enforcement do estado de direito. Segundo o Mises os liberais aceitam a existência do Estado porque haveriam certas pessoas que não aceitariam se submeter às restrições da leis legítimas do estado de direito que limitam certos graus de liberdade necessários à coexistência dos cidadãos e a sua diversidade. Desta forma o cidadão e o governante na civilização deve colocar a regra universal da civilização acima do instinto de matar, roubar, agredir, invadir o domínio alheio e demais restrições à liberdade individual.

  2. Sempre usei exatamente esse termo “mafiosos” todas as vezes que precisei passar no médico para não ser olhado na face e sair com uma simples receita de amoxilina com clavulanato de potássio….

    1. O que me deixa maluco é a quantidade de [xxxxxx] que proclama em altos brados “isso mesmo, eu não sou médico, o médico é que sabe o que é melhor pra mim”.

      Sem paciência agora para pensar em uma alternativa publicável para o termo censurado…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *