“Uma gota de mel atrai mais abelhas que um balde de fel.” Esta é uma sabedoria antiga que temos grande necessidade de resgatar em tempos tão conflituosos na política, na economia e nos relacionamentos de modo geral. 

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Como eu disse no artigo “Iluminismo versus embrutecimento“, o cotidiano do brasileiro tem sido contaminado com um veneno que se espalha através de discursos raivosos. Como é da natureza do mundo virtual promover rapidamente uma forte interação entre pessoas que não se conhecem, é também natural que muita gente que não têm afinidade se veja conversando no mesmo espaço. E aí, ao invés de diálogos produtivos, o que mais tem acontecido é uma troca generalizada de agressões verbais nos mais diversos níveis de razoabilidade e moralidade. 

A internet tem potencial para muito mais do que isso.

Uma vez, no início do meu blog, eu comentei com a Mônica, que escreve o Crônicas Urbanas, que o blog dela parecia um passeio de sarongue pelas praias da Polinésia Francesa, enquanto o meu blog parecia um passeio de uniforme militar pelas ruas de Bagdá, enrolado na bandeira dos Estados Unidos e assobiando Yankee Doodle. Eu estava brincando, porque a Mônica sempre escreveu um blog leve e divertido, enquanto eu tratava de temas mais espinhosos e ainda por cima com a leveza de um rinoceronte tendo uma crise epilética no meio de uma loja de louças, mas com o tempo eu fiquei mesmo tão intoxicado pela raiva dos absurdos que eu comentava que o clima por aqui pesou um pouco além da conta.

Analisando minhas próprias análises, muitas vezes com a ajuda de bons amigos que conheci pelo mundo virtual, fiquei espantado ao comparar o modo como eu escrevia lá nos primórdios do Orkut e como eu tinha passado a escrever ao final da era Orkut. Eu tinha piorado muito, estava muito mais estressado, agressivo e superficial. Mesmo com aquele choque eu tive uma grande dificuldade para desacelerar e parar de reagir com o fígado aos absurdos que vejo em nosso país, em especial os oriundos de uma certa tendência ideológica que nem quero citar para não estragar o artigo.

Hoje eu percebo que os alertas dos amigos e a autocrítica tiveram muito mais efeito do que eu imaginava que teriam. Eu continuo me sentindo indignado com os absurdos que vejo por aí, mas eles perderam o poder de me cegar e me fazer investir de modo embrutecido contra seus perpetradores. Eu simplesmente não embarco mais tão facilmente nas armadilhas que costumavam me arrastar para os mais variados conflitos. 

Isso não significa que eu vá deixar de fazer críticas duras ao que tiver que ser duramente criticado, nem que eu não vá me meter em alguma pancadaria virtual aqui e ali, mas eu definitivamente não vou mais fazer isso de modo emocional, reativo, ligado no piloto automático. Essa era já acabou. 

Hulk burro - proibido 3
A fase em que eu reagia no estilo “Hulk esmaga homenzinhos!” passou naturalmente. É muito bom constatar isso.

No artigo “Basta! – Ou: a gota que faltava, postado no último dia de 2013, eu relatei que havia tomado a decisão de me afastar de quem me fazia mal. Foi um santo remédio, que já me proporcionou um grande alívio, mas eu ainda não estou contente. Afinal, aquela ainda era uma decisão negativa. Ninguém se torna feliz apenas por não estar doente, não estar faminto, não estar sedento, não estar brigando, não estar irritado, não estar estressado. A ausência do mal ainda não é a presença do bem.

Meu novo propósito, agora que conquistei esta serenidade, é muito maior do que me afastar de quem me faz mal: é me aproximar de quem me faz bem. Afinal, sejam quais forem os projetos a que eu vier a me dedicar, é com uma rede de amigos e de pessoas com afinidades que eu quero contar, não com quem apenas não gosta das mesmas coisas que eu não gosto. Sinergia se obtém proativamente, não reativamente. 

Eu procuro honestidade intelectual, racionalidade, sensibilidade, ética, boa vontade, boa companhia e bons projetos. 

Procuro pessoas que gostam tanto de esgrimir argumentos sérios quanto de dizer bobagem e dar risada, cada coisa no momento adequado, com bom senso e entusiasmo pela vida. 

Procuro pessoas que tenham a mente aberta para fazer amigos reais, que entendam que a internet é apenas uma tecnologia de comunicação e não um espaço apartado do mundo, que se lembrem que por trás da sopa de letrinhas e das imagens na tela existem outras pessoas com seus méritos, defeitos, expectativas e sentimentos. 

Procuro pessoas que procuram o mesmo que eu procuro, que queiram manter distância do que eu quero me manter distante e que não tenham medo de sair de sua zona de conforto para ir em busca do que procuram.

A maior parte das pessoas assim que conhecerei pela internet vão morar longe mim, mas isso já não impediu e não vai impedir o estabelecimento de laços de amizade e muitos bons momentos de troca de idéias aqui no blog ou em outros fóruns.

Eu tenho a mais profunda convicção de que, quando estamos abertos para novos relacionamentos e novos projetos, surpresas as mais agradáveis sempre surgem. 

Este artigo mesmo é o primeiro passo de um projeto que eu espero que vá longe e que traga muitas boas surpresas. O segundo passo do projeto eu explicarei no próximo artigo… E você é uma peça fundamental nele! 

Roa-se de curiosidade e volte ao Pensar Não Dói amanhã. 🙂 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 17/02/2014 

Atualização a 14/03/2014

Eu escrevi uma segunda versão, mais adequada, do artigo seguinte a este. Clique aqui e vá direto para o artigo “Pedido aos Amigos e Leitores: versão super-simplificada“. 

10 thoughts on “Uma gota de mel

  1. Pontes são elementos de ligação,não importa de que foram construídas.

    Sempre vai existir alguém melhor do que nós,e alguém pior e esses jamais serão os espelhos adequados.

    Sei que somos únicos e especiais,com defeitos e qualidades.

    Estamos aqui para fazer a nossa parte,aquela que só nós podemos fazer.

    Endurecer sem perder a ternura.
    Saber que são nossos defeitos que precisam de burilamento,nunca nossas qualidades.
    E que são esses defeitos que nos impulsionam o passo.

    Não é a estrada que determina o caminhar,é o caminhar que faz a estrada ser boa ou não.

    Sempre achei que o caminho não é só nosso.
    O caminho é de todos, resta saber como ele ficará após nossa passagem.

    Se tivermos coragem suficiente,e ousadia,para voltar onde algo se perdeu e recuperá-lo,com certeza caminho e caminhada serão melhores para todos.

    O problema nunca foi o se curvar,para enfrentar as tempestades,mas o permanecer com a cara no chão o resto da vida.

    Se entendermos que o inimigo não é tão inimigo assim,a vida ganha brilho e força.

    Nem sempre os amigos terão coragem de nos enfrentar e dizer as verdades que não queremos ouvir,isso é mais função dos inimigos.
    Só que os inimigos não se aproximam o suficiente para nos ferir,essa função pertence aos amigos.

    Muitas pessoas se protegem da dor usando uma armadura,só que essa proteção se transforma em maldição porque nos ilha num lugar chamado NADA.

    Vagar pelo NADA é terrível.

    Se deixar dominar pelo NADA é pior ainda.

    Admitir que temos que mudar em algo é muito difícil,admitir que erramos em alguma coisa,ou que o rumo não era exatamente aquele …é muito duro,por isso que eu te admiro,Arthur!

    Não somos seres prontos,somos seres em processo evolutivo,essa é a grande magia da vida.

    Só não muda quem não sabe que pode.

    1. Valeu, Li. 🙂

      Sabe, existe uma coisa que eu não consigo entender em quem é cabeça-dura ao lidar com seus erros: qual é a vantagem de insistir em fazer algo que já se percebeu que está errado, ou que não funciona, ou que traz efeitos indesejáveis?

      Não é muito melhor fazer um esforço para melhorar do que continuar patinando em um terreno pouco ou nada promissor?

      O Orkut me prejudicou muito. Aquele espacinho mínimo para escrever e aquela enxurrada de imbecis abusivos protegidos pela virtualidade acabaram se transformando em uma arena de trollagem e desgaste, um péssimo ambiente que me estressou imensamente e me desacostumou a um debate produtivo. Eu acabei virando um autômato: lá pelas tantas eu só reagia o tempo todo conforme a programação do ambiente.

      A frustração de ver a comunidade que eu defendi por tantos anos ter que ser encerrada devido ao egoísmo do Túlio também me desanimou muito. Não é mole ver anos de trabalho dedicado ruirem porque um ególatra prefere ver um espaço de defesa da causa afundar a prosperar nas mãos de outro.

      Mas nem todo o veneno do mundo foi suficiente para me fazer desistir de encontrar o caminho correto e perseverar na jornada. E agora espero encontrar muitos outros peregrinos indo na mesma direção. 😉

    1. Está guardado para assistir quando estiver com a velocidade normal de volta, no próximo ciclo mensal.

  2. então… como falamos, não deixar que a alienação dos seguidores e impotência dos oponentes o destrua… ótimo plano de vida!

    1. Valeu, Mauro! E estás incluído nele! 😉

  3. Arrisco dizer que é o artigo mais bonito que você escreveu ^^

    1. Valeu.

      Antes aprender tarde do que nunca. 😉

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