Cinqüenta anos depois do golpe de Estado de 1964, o Brasil tem de novo no governo a mesma ideologia que catalizou aquela ruptura institucional. E não é que tem gente querendo repetir o mesmo erro pelos próximos cinqüenta anos?  

Marcha da Família com Deus pela Liberdade

Um erro não conserta o outro. 

Não se apaga incêndio com gasolina. 

Um movimento como este já nos trouxe um golpe de Estado, 25 anos de ditadura militar, a destruição das instituições democráticas, censura, perseguições, prisões arbitrárias, mortes, torturas e desaparecimentos. 

Depois de 25 anos de regime de exceção, o Brasil teve que enfrentar uma dolorosa transição política e econômica em direção à democracia, refazer todo seu ordenamento legal em busca de liberdade, lutar contra anos e anos de super-inflação, conquistar uma estabilidade econômica sofrida e assistir a corrupção institucionalizada tornar-se a regra na política.

Depois de 25 anos de democracia, o Brasil está enfrentando uma dolorosa transição política e econômica em direção ao autoritarismo, refazendo todo seu ordenamento legal em busca de controle estatal da sociedade, colocando a perder anos e anos de conquistas institucionais, periclitando a estabilidade econômica e assistindo a corrupção atingir níveis estratosféricos.

Incrivelmente, a única tendência que se manteve estável foi o crescimento da corrupção. Isso diz muito a respeito da cultura de um povo. 

Um país governado por corruptos e engessado pelo autoritarismo, seja de esquerda, como temos hoje, seja de direita, como alguns querem restituir, nem usufrui da liberdade, nem exercita a responsabilidade. O resultado disso é a contínua degradação da cidadania. 

Quando o povo esquece os motivos que conduziram ao autoritarismo – suas próprias más escolhas – começa a fazer novamente más escolhas. Ou elege as pessoas e partidos errados, ou pede que algum grupo assuma o poder e o livre das más escolhas que fez, ou ambas as coisas em seqüência.  

Esse pessoal da Nova Marcha da Família com Deus Pela Liberdade está pedindo de volta o atraso e o autoritarismo para combater o atraso e o autoritarismo. 

De onde foi que esse pessoal tirou a idéia de que uma nova ruptura institucional e uma nova ditadura teriam efeitos diferentes da anterior, ou da atual? 

Que tipo de lógica distorcida os leva a acreditar que ditadores golpistas lhes darão ouvidos e proteção após tomarem o poder ao invés de encastelarem-se no Estado por mais 25 anos? 

E por que temos que ver prosperar sempre as piores alternativas imagináveis na política nacional? 

A solução para o Brasil não é repetir os erros do passado. 

Quem pede uma ditadura militar para evitar a já instalada porém dissimulada ditadura da cleptocracia, ou uma eventual porém aberta ditadura marxista, na verdade não é um cidadão – é um escravo que só quer trocar de dono.

Lute por cidadania, não para ter um dono com um chicote supostamente mais macio.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 25/02/2014 

63 thoughts on “Marcha da Família com Deus pela Liberdade 2014

  1. “DH é para evitar abusos contra o individuo pelo estado.”

    Engraçado como esse povo é contraditório, falar em evitar abusos pelo estado mas tem uma mentalidade altamente estatista, não conseguem pensar em nada sem primeiro pensar no estado como solução.

    1. Não existe civilização sem Estado. Quem não quer Estado é porque quer dominar pela força das armas, do dinheiro ou de ambas.

  2. Li os comentários no facebook e no site da reportagem da revista Época, parece que o pessoal está bem dividido entre apoiar ou condenar esse movimento. Será que há risco real de sofrermos um novo golpe militar?

    1. Max, se acompanhares a coluna “50 anos atrás” da Folha de São Paulo, verificarás que o clima de tensão daquela época não era pior do que o de hoje, era apenas mais explícito. Hoje o jornalismo chapa-branca mascara a tensão e assim colabora com a manutenção da cleptocracia, mas não sabemos nada a respeito dos subterrâneos do poder, assim como naquela época. A diferença é apenas que, hoje, a grande mídia não tem a desculpa de não conhecer a história. Mas ninguém vai cobrar isso da grande mídia, mesmo que aconteça um golpe, então ela não se importa.

      Tudo isso para dizer “talvez”.

  3. pedi mais cedo- IURD

    10/03/2014 — 06:41

    “Não existe civilização sem Estado. Quem não quer Estado é porque quer dominar pela força das armas, do dinheiro ou de ambas.”

    Veja a evolução da carga tributária:
    * em 1947 = 13,8% do PIB;
    * em 1965 = 19% do PIB;
    * em 1970 = 26% do PIB;
    * em 1986 = 26,2% do PIB;
    * em 1988 = 26,4% do PIB;
    * em 1990 = 30,5% do PIB;
    * em 1991 = 25,21% do PIB;
    * em 1992 = 25,85% do PIB;
    * em 1993 = 25,72% do PIB;
    * em 1994 = 29,46% do PIB;
    * em 1995 = 37,3% do PIB;
    * em 1996 = 28,97% do PIB;
    * em 1997 = 29,03% do PIB;
    * em 1998 = 29,74% do PIB;
    * em 1999 = 32,15% do PIB;
    * em 2000 = 33,18% do PIB;
    * em 2001 = 34,7% do PIB;
    * em 2002 = 36,45% do PIB;
    * em 2003 = 34,92% do PIB;
    * em 2004 = 35,88% do PIB;
    * em 2005 = 37,37% do PIB.

    Já não há um abuso ai?

    1. Depende. Por três motivos.

      Primeiro, o PIB é um péssimo indicador para qualquer coisa. Se construímos um avião, o PIB sobe. Se o avião cai, o PIB sobe. Então, 20% do PIB pode representar uma carga tributária mais pesada que 30% do PIB, dependendo de quais são os fatores geradores deste PIB.

      Segundo, há que se considerar a distribuição desta tributação. Uma tributação regressiva, como existe no Brasil, é péssima.

      Tributação regressiva é aquela em que o pobre paga percentualmente um imposto maior sobre sua renda que o rico. Obviamente a tributação regressiva nunca é explícita, mas é fácil de sacar o conceito quando lembramos que um Fusca e uma Ferrari pagam o mesmo valor pela multa por ter estacionado num local proibido. O peso dessa multa é muito maior no bolso do dono do Fusca do que no bolso do dono da Ferrari. Uma medida mais justa seria que o valor da multa fosse um percentual do valor de mercado do carro. Uma medida ainda mais justa seria que o valor da multa fosse um percentual progressivo sobre o valor de mercado do carro. A lógica é que a multa tem que doer no bolso do infrator do mesmo modo, não importa quanto dinheiro o infrator tenha no bolso, para que riqueza não implique liberdade de infringir a lei. O mesmo raciocínio deve valer para os impostos em geral: quem aufere maior benefício da infra-estrutura e dos serviços oferecidos pelo Estado deve contribuir mais para a manutenção da infra-estrutura e dos serviços.

      Terceiro, há que considerar o retorno que o Estado oferece para cada centavo de imposto que arrecada. Eu não me importaria de pagar a carga tributária da Finlândia (seja lá qual for, não sei) se tivesse um sistema educacional tão bom quanto o da Finlândia. Eu não me importaria de pagar a carga tributária da Inglaterra (seja lá qual for, não sei) se tivesse um sistema de saúde tão bom quanto o da Inglaterra. O problema é que o brasileiro paga uma carga tributária de Alemanha e recebe um retorno de Zimbábue, devido à corrupção e ineficiência do Estado brasileiro.

  4. ADJALBAS PEREIRA

    13/03/2014 — 09:07

    ‘A solução para o Brasil não é repetir os erros do passado’
    Mas quando se fala isso,é preciso,no mínimo,apresentar alternativas verdadeiramente aplicáveis ao Brasil neste momento.Falamos muito em fazer esta mudança através do voto,mas como isso seria possível tendo uma legião de desocupados e parasitas do BOLSA FAMÍLIA como eleitores? Falam tanto em democracia,mas é fato que o Brasil não está preparado para este regime,o brasileiro não é educado para isso e confundem tudo com baderna,com falta de respeito ao direito do próximo e passam a fazer tudo aquilo que bem querem;sexo na televisão,sexo nas ruas em passeatas e carnaval,marcha da maconha,marcha das vadias,KIT GAY e Cartilha GAY,entre tantos outros.Não sou a favor de tortura e crimes em geral,mas sou a favor sim da intervenção militar,não aguento mais.

    1. Ah, entendi… Queres um golpe de Estado e uma ditadura militar para combater o sexo e a maconha. Arrãm. Ótima idéia. Excelentes motivações. Adequadíssimas prioridades.

  5. Ninguém está pedindo mais 25 anos de governo militar, ou ditadura. Queremos que alguma instituição dê um basta nos abusos totalitários da esquerda que hoje domina todos os campos da vida nacional através da propina, chantagem e armações, tentando impor sua agenda abortista, gayzista, estatizante e corrupta à população. As únicas excessões fora desse domínio são as FFAA. 22 de março, todos marchando nas ruas de verde-amarelo!

    1. Primeiro que as instituições que podem dar um basta aos abusos da esquerda se chamam Cidadania, Liberdade e Justiça, nenhuma das quais foi promovida pelas Forças Armadas nos 21 anos em que estiveram no poder. Pelo contrário, o que se viu durante o regime militar foi a instituição da censura, da tortura e dos homicídios como métodos de governo.

      Segundo que teu comentário é completamente incoerente. Começa dizendo que não quer governo militar ou ditadura e termina pedindo um golpe militar e uma ditadura.

      Terceiro que ô povo que gosta de um chicote nas costas!

  6. Arthur,depois de visitar a página do movimento e de ler os comentários aqui,fica tudo tão óbvio pra perceber os motivos pelos quais os grandes e mais sanguinários ditadores da história subiram ao poder.

    Todos eles tinham em comum um POVO PRA CHAMAR DE SEU!!

    É incrível,eu diria até que isso é fruto de estarem lendo muitas Histórias em Quadrinhos,não fosse o fato de serem tão ignorantes para lerem um exemplar sequer.
    Quando a situação começa a ficar difícil,tem que chamar um SUPER HERÓI pra salva-los,mesmo que esse “herói” seja na verdade um Lex Luthor ou um Coringa.

    Lembram daquela música do Zé Ramalho “Admirável Gado Novo” que o refrão dizia:

    “ÊH Ô Ô Vida de gado,POVO MARCADO,POVO FELIZ!”

    Pois é,esse deve ser o hino oficial dessa “Marcha”,aproveitem pois o cabresto é serventia da casa.

  7. Fabricio Azevedo

    24/03/2014 — 16:48

    Só uma coisa… Que autoritarismo de esquerda ??? Dilma e Lula, com seus defeitos e qualidades, foram eleitos democraticamente, nem o DEM nem o PSDB contestaram isso. Senadores, deputados, governadores e prefeitos de oposição são eleitos e reeleitos e começam e terminam seus mandatos descendo lenha no PT. A imprensa brasileira em sua grande maioria é conservadora e anti-PT, mas os jornais não são “empastelados”. Não ouvi falar de nenhum opositor do governo atual que tenha sido preso, torturado, ameaçado ou assassinado. Talvez eu seja um pouquinho obtuso, mas eu queria entender: Que autoritarismo de esquerda ?

    1. Putzgrila, eu não tinha visto isso antes… É, né? Que autoritarismo de esquerda, né? Isso non ecziste. 😛

      Na boa, voltar assim ao básico do básico não dá. Não sei nem por onde começar. Que tal fazer uma busca com a palavra “esquerda” na caixa de busca interna do blog e ler meia dúzia de artigos? Acho mais fácil assim.

  8. Antonio Jesuíno

    05/07/2014 — 19:56

    Não acredito que os militares farão outro golpe, pois dessa vez não há financiamento dos Estados Unidos (pelo menos eles demonstram não ter grana para isso).

    Sinceramente eu não vejo esperanças com nenhum tipo de governo. Acho que era hora do país fazer primeiro um controle forte de natalidade, e depois partir para outras questões.

    1. A transição demográfica no Brasil está completa. O ponto de inflexão estará por volta do ano 2050. Isso se o planeta não complicar as coisas antes disso…

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