Fico pasmo ao constatar quão pouco progresso houve na consciência ambiental mesmo depois de mais de meio século de movimento ambientalista, mesmo tendo a Grande Porto Alegre abrigado a vanguarda deste movimento no Brasil, com José Lutzemberger, Augusto Carneiro, Henrique Roessler, Carlos Aveline, Magda Renner, Hilda Zimmerman e outros. 

Hospital de Clínicas 500

Recebi pelo Facebook o seguinte compartilhamento:

SAÚDE OU ÁRVORES?
É incrível! A Câmara de vereadores está debatendo a expansão do Hospital de Clínicas, em Porto Alegre.
Resumindo, o empecilho é que alguns vereadores querem manter 240 árvores ao invés de aumentar um hospital, com equipamentos para salvar milhares de vidas.
Espero que os ambientalistas e vereadores a favor das árvores, jamais queiram internar um parente ou eles mesmos em qualquer hospital.
Eles devem se pendurar nas árvores e ficar esperando a cura.
Às vezes, tenho que apelar, pois querem me convencer que o poste faz xixi no cachorro.
Com saúde não se brinca!!!!!!!!!

[Aqui a fonte da fonte.]

Não é uma questão de “saúde ou árvores”! Isso parece aquele velho e ultrapassadíssimo discurso de “ambiente ou desenvolvimento?”. Não se trata de um ou outro. Ambos são importantes. Na verdade, um não existe sem o outro. Trata-se de um e outro. 

Eu acho ótimo ampliar o Hospital de Clínicas. E eu acho ótimo preservar as poucas árvores que ainda há ao redor do Hospital de Clínicas. Já passei muitas horas à sombra delas esperando algum parente ou amigo que estava no hospital. E já entrei ali apenas para passear entre as árvores. 

Será mesmo que não há como fazer as duas coisas? Ampliar o hospital e preservar as árvores? Será que o único plano de expansão possível é por cima das árvores? 

Não há mais de um estacionamento descoberto ao lado do hospital? A área de um destes estacionamentos não poderia ser usada para construir um outro prédio, com dois ou três andares de estacionamento e mais quantos andares de hospital forem necessários acima? 

Não há prédios sub-aproveitados ao redor, que poderiam ser reformados ou demolidos para a construção de um complexo muito mais moderno? O próprio saguão frontal do hospital não poderia ser demolido e dar origem a um segundo prédio, incorporando a área de movimentação de veículos que há em frente ao hospital, que não deixaria de existir, apenas passaria a ser coberta? 

Por que a solução mais fácil sempre parece ser destruir o verde ao invés de procurar outras soluções factíveis?

E por que não tem ninguém falando em construir um telhado verde tanto no atual Hospital de Clínicas quanto nas futuras instalações?

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 08/03/2014

9 thoughts on “Saúde ou árvores?

  1. Fabiano Golgo

    08/03/2014 — 19:00

    Esse fetiche com plantio de árvores é só pra alimentar o ego, pra pessoa se sentir “correta”, salvando o planeta. Ora, é como reciclar pra evitar o aquecimento global – totalmente inócuo. É óbvio que precisamos de árvores, mas não temos um moooooonte delas por todos os lados? Os europeus, com muito menos árvores, respiram pior? Será que todo o arvoredo por todos os lados PRECISA de mais meia dúzia aqui ou ali? Em vez de verba pra plantar árvores (que não faltam em Poa), que tal investir em um sistema de limpeza do Arroio do Dilúvio? Que tal parar de desembocá-lo diretamente no Guaíba?? É muito mais efetivo, em termos ecológicos, do que umas árvores no Hosp. de Clínicas.

    1. Precisamos de CADA árvore a mais que pudermos preservar ou plantar. O sistema de termorregulação planetária depende disso. Mas a preservação de árvores dentro do ambiente urbano está ligada a outras prioridades.

      Em primeiro lugar, o microclima urbano. Porto Alegre é cheia de ilhas de calor. Cada árvore a mais conta para manter o microclima da cidade mais ameno e agradável. Cada metro quadrado de área verde preservada ou construída é importante para isso.

      Em segundo lugar, o exemplo. Colocar árvores abaixo tendo outras opções disponíveis, ainda que sejam opções de custo mais alto no curto prazo, representa um reforço ao velho comportamento pseudo-desenvolvimentista que nos trouxe até a presente situação de pré-colapso climático planetário. Um passo para frente é sempre um passo para frente, um passo para trás é sempre um passo para trás.

  2. Mefistófeles Sucks

    09/03/2014 — 00:05

    Nesse post, concordo plenamente com o que disse o primeiro comentário de Fabiano Golgo. Assino embaixo. Acho um exagero pensar em alternativas mirabolantes, e de custo muito mais alto, por causa de meia dúzia de arbustos… Ainda mais tratando-se da ampliação de um hospital, que é um estabelecimento cuja atividade fim é indiscutivelmente importante e crucial à sociedade. Se fosse pra ampliar uma pista de skate ou algo do gênero, talvez até coubesse um início de discussão… É o que eu acho.

    1. Bom…

      Primeiro que não são alternativas mirabolantes. Construir onde há um estacionamento ao invés de construir onde há um jardim só pode ser chamado de mirabolante de um ponto de vista absolutamente hostil à arborização urbana, o que não é nada razoável.

      Segundo que o custo das alternativas que eu apontei não é “muito” mais alto, especialmente se considerarmos a duração das instalações que serão construídas. Diluído ao longo de décadas, o custo extra se torna irrelevante.

      Terceiro que não são meia dúzia de arbustos, são 240 árvores, a diferença é bem considerável.

      Quarto que o fato de a atividade fim do hospital ser importante não torna desimportante a questão do microclima urbano, nem tampouco a questão do exemplo em relação à escolha do modelo de desenvolvimento.

      Quinto que a discussão já está iniciada, inclusive dentro do legislativo municipal.

      E sexto que tanto o comentário do Fabiano quanto o do Mefistófeles me reiteram a impressão que manifestei no primeiro parágrafo do artigo…

  3. Neste post concordo com o Sr. Golgo em 110%. O sem F.

    Especialmente quanto ao 1° parágrafo. É só ler os comentários no Face. Ninguem pensa no sistema como um todo. Ninguem pensa no que acontece quando se derrubam só mais algumas árvores. E mais algumas. E mais algumas. E mais algumas. E mais algumas…

    E ainda acreditam que essas árvores seriam replantadas caso fossem derrubadas.

    1. O com F é primo do sem F. 🙂

      Resumiste bem a questão: “Ninguém pensa no sistema como um todo.” É uma dúzia de árvores aqui, um prédio ali, e “de repente” a Mata Atlântica vira São Paulo, capital.

      Já dizia o Rei Roberto em 1976:

      “Eu não sou contra o progresso,
      mas apelo pro bom senso:
      um erro não conserta o outro
      – isso é o que eu penso!”

      (O Progresso)

      Continua atual. Incrível.

      Hoje daria para substituir “e as baleias desaparecendo” por “as geleiras estão derretendo”. E daqui a poucos anos talvez dê para substituir por “e o planeta pegando fogo”…

  4. que ótimo exemplo este para a ideia de “cuidar da doença e não da saúde”… aumentem o hospital e derrubem as árvores, cuidem da doença e não da saúde.

    1. Saúde não dá dinheiro. Doença dá.

  5. Se não me falha a memória, o Alto Petrópolis seria um lugar ideal para um complexo hospitalar decente.

    Me dei ao trabalho de desenhar o tal complexo.
    É perfeitamente viável,assim as pessoas não terias de ficar correndo entre um hospital e outro,desde que não fosse uma emergência.

    Atente que daria um bom dinheiro,já percebeste o quanto os acompanhantes gastam ?

    Imagine um complexo deste com restaurante,farmácia,floricultura,lanchonete,sorveteria,
    mercadinho,sapataria,livraria,banca de jornal,cinema,hotel,salão de beleza,barbearia,lavanderia,lan hause…

    Já desenhei muitas coisas…e quem ganha para pensar nelas…

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