Ninguém tem o direito de não ser ofendido. E ninguém tem o direito de exigir que o outro não fale o que pensa, ou que mude o que pensa, por sentir-se ofendido. 

palavrao

Segundo respingou na minha linha do tempo do Facebook, uma participante de um programa de TV ridículo por aí andou dizendo uma bobagem e um grupo de idiotas saiu em pintura de guerra exigindo uma retratação da emissora que veicula o programa. Quem foi e o que foi é irrelevante. 

O que é relevante é a absurda pretensão de que, se EU não gostei do que ELE disse, então ELE tem que se retratar. Isso é tão ridículo quanto perigoso. 

Se eu não gostar do que ouvi ou li, o problema é meu. Eu posso não falar mais com a pessoa, posso não ler mais a coluna ou o blog que ela escreve, posso não ouvir mais o programa de rádio em que ela fala, posso não assistir mais o programa de TV em que ela aparece, posso falar mal dela na fila da padaria, posso escrever um artigo no meu blog dizendo o que penso dela, posso até escrever uma carta para a fonte que veiculou a fala de que não gostei dizendo que eles são feios, bobos e têm chulé e que eu nunca mais vou dar um segundo do meu tempo a eles, #prontofalei. 

E só. 

Eu não tenho o direito de exigir que ela se cale ou que mude o que pensa em função da minha sensação de ser ofendido. 

Reductio ad absurdum

Vamos supor o contrário, para ver o que aconteceria. 

Eu não gostei do que você disse ontem, e, como eu tenho o direito de não ser ofendido, eu exijo que você se retrate. 

Você não gostou do que eu disse hoje, e, como você tem o direito de não ser ofendido, você exige que eu me retrate. 

E alguém não gostará do que nós dois dissermos amanhã, e, como ele tem o direito de não ser ofendido, ele exigirá que nós dois nos calemos.

Depois de amanhã, alguém ainda mais insuportavelmente mimimizento não gostará do que nenhum de nós três disser, e nos calará a todos na justiça. 

O resultado é que ninguém jamais poderá expressar qualquer opinião desfavorável ao que quer que seja, porque alguém se sentirá ofendido e terá o direito de exigir uma retratação. 

Uma sociedade que legitimasse esse direito seria uma sociedade paralisada pela intolerância, na qual ninguém pode falar o que pensa.

Logo, esse direito tornaria qualquer sociedade inviável. 

Mas e se eu for ofendido?

Bem, se você for ofendido, cresça. Não aja como uma criança chorona que vai reclamar pra Tia Justiça que o Joãozinho o chamou de bobo e por isso tem que ficar sentado no cantinho do castigo com chapéu pontudo.

Um pouco de maturidade vai bem. Desenvolva anticorpos. 

E diga com todas as letras para os mimimizentos que se sentem ofendidinhos e querem retratação, reparação e bajulação só porque ouviram alguma coisa de que não gostaram:  

– Deixa de frescura! 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 19/03/2014 

69 thoughts on “Se EU não gostei, então ELE tem que se retratar

  1. Não posso deixar traços do meu nome nesse post, se os comunistas do M.E. virem me tiram o couro

    21/03/2014 — 09:36

    Gostaria de fazer um exercício com uma situação real que aconteceu na universidade onde estudo.

    Há uns anos, junto comigo, entrou um rapaz, superficialmente parecia ser gente boa, e até hoje essa é minha impressão dele (nunca chegamos a nos aproximar muito).
    Um tempo depois ouvi pelos corredores que ele se dizia Skinhead (mas da ideologia original) e Integralista (mas que só defende os ideais de religiosidade, moral, e nacionalismo e apoia o governo militar). Na verdade era só um tonto, mas enfim…
    Em pouco tempo a informação se espalhou e logo causou uma grande comoção aqui na faculdade. rolou um certo assédio, principalmente por parte da maldita ala esquerdista (Vulgo M.E.). Tiraram print de algumas comunidades integralistas que ele participava no orkut e penduraram pelo campus. Ele sentiu a necessidade de se pronunciar publicamente, para evitar quaisquer reprimendas. Mas não teve a chance. O rapaz imprimiu numas folhas, uma carta aberta explicando suas opiniões e ia colar nas paredes (alguns dizem que era um símbolo Anauê, não cheguei a ver o que realmente era), mas os comunistas o proibiram justificando que “fascistas não passarão” e mimimi. Chegaram a ir até a casa do rapaz para linxá-lo (obviamente ele não saiu lá e ficou uns dias de molho), até a diretoria teve que intervir.
    Depois que a poeira baixou a vida seguiu.

    Mas enfim, minha questão é: Nesse caso, teria ele o direito de professar esse tipo de ideologia? Teria ele o direito de se dizer Skinhead e compartilhar sua ideologia, mesmo que fosse a do skinhead violento e racista que conhecemos? (não é do meu conhecimento lei que o proíba). E se hoje surgisse um outro que se dissesse Nazista, qual é o limite entre o livre pensamento e a apologia?

    Alguns esquerdistas mais moderados com os quais conversei, apoiaram a atitude de não deixá-lo colar seus cartazes, fossem eles a carta ou o símbolo, pois era “propaganda ou justificativa de uma ideologia fascista e totalitária que vai contra os princípios democráticos”. Não estariam eles agindo de forma autoritária e reprimindo a própria liberdade de expressão que eles dizem promover?

    1. Não existe ideologia mais autoritária e assassina que o comunismo e o Brasil tem uma penca de partidos comunistas, a maioria aliado com o governo federal e ocupando milhares de cargos públicos.

      O que eu quero é coerência: se o comunismo é permitido, então o nazismo, o fascismo e o raio que o parta também devem ser.

      O fato é que todos estes FDPs acham que eles têm o direito de dizer e fazer o que bem entenderem, mas os outros não.

      A minha maneira de pensar é a seguinte: só devem existir legalmente os partidos e ideologias que não querem calar os outros. A única regra válida para calar um partido ou uma ideologia é se ele ou ela quiserem calar alguém.

      Mas esse papo de “não posso me identificar ou os comunistas me tiram o couro” é absurdo. Claro que podes te identificar. Acho até que deves. Quanto mais nos escondemos, mais eles nos obrigam a nos esconder. É por isso que eles usam a estratégia de “assassinato de reputações” o tempo todo. Eles querem acovardar as pessoas.

      Temos que chutar a bunda desses cretinos, não permitir que eles nos amedrontem. Se não fizermos isso enquanto eles ainda não podem prender e matar abertamente quem eles odeiam, vamos acabar permitindo que eles se fortaleçam até o ponto em que poderão prender e matar abertamente qualquer um, por qualquer motivo.

      Pense nisso, “Anônimo”.

  2. Vocês estão de mimimi contra os mimimis. rs

    Estão fazendo a mesma coisa,só que não se dão conta disso,rs.

    1. Defender-se de um ataque armado usando uma arma não é um uso ilícito da arma. Eu já expliquei isso antes: http://arthur.bio.br/2011/12/28/solucoes-radicais/a-violencia-e-a-intolerancia-podem-ser-virtuosas#.UyzIM_GS5o4

  3. Joaquim Salles

    21/03/2014 — 11:58

    Acho que foi o Roberto Tramarim quem deu uma boa explicação do que seja calunia, difamação e injuria. Todas tem uma definição precisa.Estava tentando relembrar e achar essas definições, inclusive ache no Wiki esse trecho que diz: “Em 2012, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas declarou que a criminalização da calúnia viola a liberdade de expressão”. Aqui precisaria da ajuda dos “universitários”. Pois, tirando o caso da exceção da verdade, a calunia ( acusar alguém de assassino, por exemplo) pode trazer prejuízos de fato para essa pessoa.

    Também achei isso “O crime de calúnia consiste na falsa atribuição de fato definido como crime a alguém. No crime de calúnia, admite-se a prova da verdade a respeito do fato imputado (art.138, par. 3º). Caso seja verdadeiro o fato atribuído, não há que se falar em calúnia. Dessa forma, o acusado se isenta de responsabilidade por meio do instrumento de exceção da verdade, ao demonstrar que o fato atribuído é verdadeiro.”

    “O crime de difamação consiste na imputação a alguém de fato ofensivo à sua reputação. Embora, regra geral, a difamação também se constitua por imputação de fato verdadeiro, permite-se a exceção da verdade nos casos em que o ofendido é funcionário público e a ofensa é relativa ao exercício das suas funções (art. 139, parágrafo único).”

    Isso pode parecer um detalhe técnico, mas não é. Já presencie ações contra donos de blog por terceiros, que na minha opinião, estavam exercendo “liberdade de expressão”. Num dos casos,o autor do texto (assinado e tudo) teve que lembrar, na justiça, que existe a exceção da verdade; e, tudo que ele falava, era baseado em fatos documentados contra o cidadão que estava processando-o.

    Agora, como fica analises sobre questões como “racismo”,”feminismo”,”homofobia”,”pedofilia”,”lei maria da penha” e outro polêmicos? Como devemos analisar cada caso? Deveria existir lei especifica para esse casos? Ou é o estado-babá em ação?

    1. Não é porque alguma coisa é lei que é certa. Depois que a gente percebe que quem faz as leis, quem aplica as leis e quem julga as violações das leis é um bando de safados com raras e honrosas exceções, a sabedoria e a ética se tornam os únicos nortes válidos. O resto é mera disputa de poder.

      Pensa bem e me diz se faz sentido ser crime falar a verdade sobre alguém. Poderia haver crime no caso de violação de privacidade ou intimidade – espalhar por aí que alguém dorme pendurado de cabeça para baixo dentro do armário, quando a pessoa nunca contou isso para ninguém – mas não em qualquer outro caso. Aí é absurdo… Mas é lei.

      Quanto aos casos citados no fim do teu comentário, na maioria das aplicações práticas pretendidas pelos “movimentos sociais” eles já constituem o segundo degrau da escada que começa com o “direito de não ser ofendido”. (Exceto a pedofilia.) E o enfoque é sempre coletivista. Por que fazer essas distinções? Se uma pessoa sofreu uma discriminação indevida, ou uma violência ilegal, então teve seus direitos violados. Não importa o sexo, a cor ou a orientação sexual dela.

  4. Talvez eu seja ingênua, esteja falando bobagem, ou me limitando a um universo mais restrito do que vocês buscam abranger. Mas, eu comecei minha revolução quando gerei minha primeira filha. Acredito em pequenas sementes plantadas aqui e ali. Como é este blog e as postagens de vocês, a quem aprendi a respeitar, admirar, acreditar e divulgar.[

    Não penso que estejas errada,se todos fossem iguais seria um desastre.

    O problema é de quem quer impor sua opinião a todo custo.

    Se fala tanto em liberdade,mas cadê a liberdade de quem se sente ofendido?

    A lei existe para defender pessoas de outras pessoas. Pessoas que não sabem onde ficam as fronteiras do riso e da ofensa.

    Se uma pessoa desconhece seu limite,problema dela,vai ter que enfrentar um processo mais cedo ou mais tarde,se não aprender com os erros.

    Se ensinarmos nossas crianças a serem complacente com tudo,como irão se defender no futuro?

    Tenho filhos e netos,e não quero que sejam pessoas medrosas,pessoas que aceitam tudo passivamente.

    Acredito que a melhor forma de defender a justiça é dando espaço para que essa justiça possa ser feita de forma adequada,se alguém se sentir ofendido que procure seus direitos amparado na justiça,e se não se sentir ofendido,tudo bem.

    Mas desqualificar quem se ofende,não é defender a justiça,é trabalhar,ainda que a pessoa desconheça o que está fazendo,contra ela.

    Defendo direito das pessoas,das que gostam de rosas,e das que detestam rosa,rs.

    Porque EU gosto de bem-me -quer(margarida).


    1. “A lei existe para defender pessoas de outras pessoas. Pessoas que não sabem onde ficam as fronteiras do riso e da ofensa.” (Li)

      Li… Não existe esse limite. Ninguém tem o direito de impor este limite. Se tu te sentes ofendida, o problema é teu. A tua liberdade de ofendida se limita ao que eu citei no artigo:

      Se eu não gostar do que ouvi ou li, o problema é meu. Eu posso não falar mais com a pessoa, posso não ler mais a coluna ou o blog que ela escreve, posso não ouvir mais o programa de rádio em que ela fala, posso não assistir mais o programa de TV em que ela aparece, posso falar mal dela na fila da padaria, posso escrever um artigo no meu blog dizendo o que penso dela, posso até escrever uma carta para a fonte que veiculou a fala de que não gostei dizendo que eles são feios, bobos e têm chulé e que eu nunca mais vou dar um segundo do meu tempo a eles, #prontofalei.

      E só.

      Eu não tenho o direito de exigir que ela se cale ou que mude o que pensa em função da minha sensação de ser ofendido.

      Passou daí, é mimimi pernicioso à sociedade. É covardia e fraqueza com aura de “justiça”. É “tiaaaaaaaa, o Joãozinho me chamou de boba, põe ele de castigo!!!”

      Se o Joãozinho te der uma porrada, está certo chamar a tia. Se o Joãozinho te chamar de boba e tu chamares a tia, está certo o Joãozinho.

      “Se ensinarmos nossas crianças a serem complacente com tudo,como irão se defender no futuro?” (Li)

      E quem disse que chamar pela tia por qualquer mimimi é saber se defender? Isso é pedir o tempo todos para os outros te defenderem.

      Complacência é outra coisa. Eu não disse para aceitar passivamente. Eu não disse para não xingar de volta. Eu disse para não ir encher o saco da tia para calar o Joãozinho. Se o Joãozinho te der um tapa a história é outra.

  5. Acontece que não se trata de criança birrenta,se trata de adulto sem limite algum.

    É o caso do trote. Tem que ter humilhação?Não.

    Tem que ter morte? Não.

    O trote pode ser um pedágio divertido,arrecadar alimentos ou roupas.
    Ou ainda prendas que ajudem o calouro nesta nova fase da vida dele a se socializar melhor.

    No caso dos pseudos humoristas temos uma farta história de humor de excelente qualidade para servir de base aos que queiram se aventurar na arte de fazer rir.

    Fazer rir é uma arte,e das mais antigas.

    Toda escola vem de longe,ninguém as inventou hoje.

    Essa gente que usa pessoas como assunto e não situação,como sempre foi,se aproveita como qualquer charlatão para ganhar dinheiro e aplauso de idiotas que jogaram fora a água suja da banheira,com a criança dentro.

    Fora do riso estúpido,temos as leis.

    E,cá pra nós,quem defende a liberdade plena de expressão,por força da coerência tem que defender também o direito dos mimiqueiros.
    Dois pesos e duas medidas?

    Ou é só falta de assunto?

    1. O direito dos mimimizentos falarem merda eu defendo. O que eu condeno é eles quererem impedir que os outros falem merda, ou punir quem falar merda.

  6. Eu entendo que os mimizentos não querem que falem M…com eles.

    Por mim,podem falar M a vontade.
    Mas se falar DE MIM,eu não aceito.
    E posso recorrer a lei,e até ganhar uma graninha do idiota,rs.

    1. É, definitivamente tu e o Vladimir não entenderam o artigo.

  7. Joaquim Salles

    25/03/2014 — 18:26

    Para efeito de registro: “O direito de ridicularizar”, por Ronald Dworkin, Universidade de Nova Iorque
    Tradução de Desidério Murcho http://criticanarede.com/ed116x.html

    1. Para efeito de registro: não concordo com a maior parte do texto.

  8. Confesso.
    Ao ler o artigo,amadureci minha mente.
    Recentemente,fui muito ofendida num grupo do qual faço parte no facebook,por ter postado minha opinião.Deixei bem claro que era o que EU PENSAVA!
    Na hora fiquei muito chateada,com todos os xingamentos,e comuniquei ao administrador do grupo,que terminou retirando minha publicação.
    Enfim,ainda triste com o ocorrido,fiquei pesquisando sobre situações parecidas,e encontrei este artigo,que li pausadamente,juntamente com todos os comentários.
    A lição que tiro para mim é:Ninguém é o dono da verdade.
    Neste mundo,cada um diz o quer,na hora que quiser.É FATO!
    NÃO PODEMOS PROIBIR!
    NÃO PODEMOS CALAR O OUTRO!
    Por mais ofensivas,injustas,preconceituosas e erradas,que sejam as palavras,são as opiniões de cada ser humano.Ninguém é perfeito!
    Cabe a cada um de nós aceitar ou não.Eu pensando melhor após ler este artigo,decidi não aceitar.Não sou o que eles disseram.EU SEI O QUE SOU,AMO O QUE SOU,O QUE TENHO,E ME MANTENHO!
    Fim de Papo.

    1. UM depoimento como este vale pelas incompreensões, agruras e dificuldades de escrever um blog inteiro! 🙂

  9. Pensar Não Dói » Um depoimento emocionante
  10. Golgo, então é melhor vc dizer isso pros legisladores brasileiros, pq eles não sabem ainda. O princípio “ninguém tem o direito de não se sentir ofendido” é um princípio na legislação zeuaense –onde o debate é aberto, mas as conseqüências de ofender são drásticas–, e ainda não na brasileira –onde o debate é restrito, mas as conseqüências de ofender são leves.

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