Hipocrisia é qualquer diferença entre aquilo em que alguém diz que acredita e aquilo que essa mesma pessoa faz. Pouco importa se a crença em questão é religiosa, moral, ideológica, política ou de qualquer outro tipo. 

Hipocrisia

Há poucos dias um “amigo” compartilhou uma imagem bastante ofensiva em sua linha do tempo no Facebook: era uma fusão entre uma imagem religiosa cristã e uma parte íntima do corpo humano.

Ele postou a imagem sem nenhum texto, no estilo “cada um entenda como quiser”. Então eu postei um comentário com apenas duas palavras: “Desrespeito total.”

A resposta dele foi: “Cara, basta dar unfollow. Eu sou a favor disso.”

Minha réplica foi: “Basta dizer que é um desrespeito. E tu bem sabes disso. Tu não gostarias que fizessem isso com imagens que representam a tua fé. Então, para que fazer isso gratuitamente com a dos outros?”

E a tréplica dele foi me bloquear. Direto, sem diálogo.

Aí eu fiquei pensando: por mais de três anos eu assisti esse cara dar palestras sobre o Dharma em nome do Lama Padma Samten e do CEBB, uma instituição budista que prega uma “cultura de paz”, de tolerância e de diálogo inter-religioso. Ele conhece tudo sobre budismo, fez diversas iniciações, traduziu inúmeros materiais e serviu de intérprete para diversos Lamas visitantes. A figura dele está ligada ao budismo e ele usa um nome tibetano no perfil público ao invés do nome de batismo. 

Depois de tudo isso o cara posta gratuitamente algo evidentemente ofensivo, eu critico sem jogar pedras e, ao invés de reconhecer e corrigir o erro, ele tem um faniquito de intolerância e me bloqueia. 

Imediatamente eu me lembrei do pastor evangélico Paul Washer, da Igreja Batista do Sul dos EUA. Em uma de suas pregações, entre muitas que eu assisti legendadas no Youtube, Paul Washer cita uma estatística que para mim, naquela época, foi chocante: não existe nenhuma diferença estatisticamente significativa entre o número de divórcios, roubos, homicídios e encarceramento pelos mais diversos crimes entre a população cristã e a população não-cristã nos EUA.

Logo em seguida eu me lembrei do “partido da ética na política”, cujo suposto diferencial ético era propalado aos quatro ventos como a grande novidade na política brasileira, que conquistou corações e mentes e trouxe a esperança de que “um mundo melhor é possível” e que recentemente teve toda sua cúpula condenada pelos mais diversos crimes, está afundado em escândalos de corrupção até o pescoço e cujas bases fazem vaquinha para ajudar a pagar as multas dos corruptos ao invés de exigir ética na política. 

E finalmente lembrei dos discursos sobre “cultura de paz”, tolerância e “diálogo inter-religioso” do Dalai Lama, aquele sujeito que perdeu o seu país e viu seu povo ser massacrado pelos marxistas chineses. 

Os marxistas chineses humilharam, torturaram e mataram centenas de milhares ou milhões de tibetanos, obrigaram monges e monjas a manter relações sexuais em público, queimaram templos e organizaram a transferência de milhões de chineses para o território do Tibete, numa óbvia operação de aniquilação cultural e étnica e fizeram desaparecer em algum porão de tortura o Panchen Lama, amigo pessoal do Dalai Lama. 

Sabendo de tudo isso, do alto de sua condição de “oceano de sabedoria”, o Dalai Lama se declara marxista, se declara partidário da doutrina de ódio mais intolerante e assassina de todos os tempos, cujo cerne é a luta de classes até a aniquilação de uma delas, como os marxistas chineses aniquilaram seu povo, e ainda é considerado iluminado, propagador de uma “cultura de paz” e reverenciado pelos budistas do mundo inteiro. 

E então voltei meus olhos novamente para a tela do notebook, onde havia uma mensagem de “página não encontrada” – a maneira hipócrita do Facebook dizer que o internauta não tem acesso a uma página sem informar que ele foi bloqueado – e pensei: que mundo é este, em que a tolerância é um dos valores mais afirmados nos discursos e mais negados nas práticas? 

Este é um mundo em que a hipocrisia é extremamente valorizada. Mas isso todo mundo nega, é óbvio. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 29/03/2014 

15 thoughts on “Hipocrisia

  1. Adorei o texto….
    Esta mesma hipocrisia se aplica no caso da pesquisa do IPEA sobre o comportamento da mulher e o estupro. Vejo tantas pessoas indignadas com o resultado da pesquisa e me pergunto: onde estão estes que opinaram, já que ninguém concorda? Estão hipocritamente negando julgamentos que devem fazer sem nem se darem conta.

    1. Peraí, peraí, peraí… “Esses que opinaram” que mulheres que usam roupas curtas merecem ser estupradas não hipócritas, eles simplesmente NÃO EXISTEM.

      Aquilo foi uma baita pilantragem do IPEA.

      Usaram uma linguagem dúbia, tiraram conclusões absurdas de um conjunto de dados que mostra o exato oposto, fizeram um escarcéu motivo a ativismo raivoso, venderam a idéia com uma campanha pra mostrar mulher pelada na internet e tem muita gente comprando essa idéia!

      Muito interessante a análise do Dr. Plausível a respeito deste episódio: http://drplausivel.blogspot.com.br/2014/03/atacadas-com-abobrinhas.html

  2. Mateus Folador (Fola)

    29/03/2014 — 10:30

    Arthur, desviando um pouco o assusnto…

    Você disse que a imagem compartilhada pelo seu amigo era um “desrespeito total” e visivelmente se incomodou com tal postagem. Isso de certa forma não vai contra o que você disse em mais de um artigo, que “ninguem tem o direito de não ser ofendido”, “se você for ofendido, cresca, não haja como uma criança birrenta” e similares?

    1. Excelente pergunta!

      O artigo mais recente em que eu afirmei isso foi o artigo Se EU não gostei, então ELE tem que se retratar. Portanto, é dele que vou tirar as citações que respondem a tua pergunta, Mateus.

      Eu disse:

      “Ninguém tem o direito de não ser ofendido. E ninguém tem o direito de exigir que o outro não fale o que pensa, ou que mude o que pensa, por sentir-se ofendido.”

      E disse:

      “Bem, se você for ofendido, cresça. Não aja como uma criança chorona que vai reclamar pra Tia Justiça que o Joãozinho o chamou de bobo e por isso tem que ficar sentado no cantinho do castigo com chapéu pontudo.”

      Mas também disse:

      “Se eu não gostar do que ouvi ou li, o problema é meu. Eu posso não falar mais com a pessoa, posso não ler mais a coluna ou o blog que ela escreve, posso não ouvir mais o programa de rádio em que ela fala, posso não assistir mais o programa de TV em que ela aparece, posso falar mal dela na fila da padaria, posso escrever um artigo no meu blog dizendo o que penso dela, posso até escrever uma carta para a fonte que veiculou a fala de que não gostei dizendo que eles são feios, bobos e têm chulé e que eu nunca mais vou dar um segundo do meu tempo a eles, #prontofalei.

      E só.

      Eu não tenho o direito de exigir que ela se cale ou que mude o que pensa em função da minha sensação de ser ofendido.”

      Ou seja, não é que eu não possa me sentir ofendido, nem que eu não possa reagir à ofensa. O que eu não posso – ou não deveria poder – é acionar a justiça ou apelar para a força ou para a violência para calar a pessoa que me ofendeu. (A não ser nos casos de calúnia, considerada e respeitada a exceção da verdade.)

      No caso específico em tela, eu fiz a coisa mais civilizada possível: falei diretamente com a pessoa, apontei o problema, apresentei argumentos e me mantive aberto ao diálogo. Quem cometeu a ofensa, quem foi intolerante e quem partiu para a estupidez foi sempre ele.

      Qual será minha atitude a partir daqui? Vou seguir meus próprios conselhos: não vou mais falar com ele, não vou mais divulgar o que ele escreve e sempre que um de nossos conhecidos em comum citá-lo eu vou contar essa história. E só. Ele não vale mais do que isso.

  3. Vc definiu ‘marxismo’ como «a doutrina de ódio mais intolerante e assassina de todos os tempos». Isso tá errado. Vc tá confundindo [o significado duma palavra] com [os atos de alguns proponentes desse significado].

    Outrossim, vc ataca ä hipocrisia como si ela fosse algo sem o qual tudo ficaria melhor. Será? Veja este texto, q conclue «A hipocrisia é o lugar onde a civilização acontece.»

    http://drplausivel.blogspot.com.br/2009/09/teoria-na-pratica-e-outra-conclusao.html

    1. Duas coisas, Geladinho:

      1) Lê as citações de Marx e de Engels contidas neste artigo: http://arthur.bio.br/2013/07/09/planeta-dos-macacos/o-nobre-caminho-decuplo-do-dalai-lama#.Uz4edvGS5o4 O problema é que todo marxista sempre cita as críticas de Marx aos capitalistas malvados e esconde as evidências de que Marx era um canalha movido a inveja e ódio, cuja obra nunca teve a menor intenção de “promover o surgimento de uma sociedade mais justa”.

      2) Teu texto afirma, mas não fundamenta nem argumenta por que a hipocrisia seria o lugar onde a civilização acontece. E, raios, eu discordo diametralmente.

  4. Nos teatros gregos da antiguidade os artistas seguravam na frente do rosto máscaras que mostravam as feições que melhor representavam as intenções do personagem. Elas eram de todos os tipos: sorridentes, chorosas, iradas, ou monstruosas. Mostravam para a platéia o que ia na alma do personagem. O nome dessas máscara era persona. Daí vem o termo personalidade – a máscara com que interagimos com nossos semelhantes. Se elas pudessem ser removidas por breves instantes nós teríamos medo de muitas pessoas que sorriem para nós. Um bom jogo íntimo para se fazer é avaliar quantos fugiriam de nós caso baixássemos a nossa máscara…

    1. Ah, mas esse é um jogo que somente pessoas muito honestas fazem. Justamente as que menos precisam fazer.

  5. Arthur… eu lembro quando vc postou sua indignação em relação à opinião do Lama sobre sua “tendência” política. Bem, de forma aqui quero deflagrar uma série de bate e volta, até pq não domino o assunto na amplitude desejada. Porém, creio que entendi de maneira diferente da tua a opinião dele.
    Como vc sabe que não sou budista, e também nem um pouco marxista, tenho alguma liberdade em escrever sobre o assunto de maneira equânime.
    O budismo defende uma ideia transcendente sobre o ser humano, dizendo que, na verdade, não existe o indivíduo. A presença do indivíduo, da pessoa, é uma manifestação temporária e material de uma inteligência maior, que se desvanece com a evolução, sendo que essa evolução não se dá por méritos pessoais e sim pelo acúmulo natural de experiências de vidas. Como somos uma “manifestação” de uma inteligência maior, somos originariamente e naturalmente todos “iguais”, sem exceções. A ideia de igualdade assim pregada, leva a uma situação mais próxima aos princípios do socialismo, sendo o marxismo uma doutrina socialista (científica).
    Foi isso que entendi do comentário do Lama.
    Veja bem, meu caro amigo debatedor, não estou defendendo esta ideia e mesmo peço desculpas aos budistas por expressá-la assim, como a minha mente ocidental até hoje conseguir interpretar as explicações. No mais, nada a contestar sobre o restante do texto, bastante preciso.

    1. “A ideia de igualdade assim pregada, leva a uma situação mais próxima aos princípios do socialismo, sendo o marxismo uma doutrina socialista (científica).”

      Há três problemas aqui.

      Em primeiro lugar, os princípios do socialismo são o terrorismo revolucionário, a violência revolucionária e a ditadura do proletariado. Nem de longe isso pode ser visto como algo positivo ou que pretenda promover igualdade ou justiça.

      Em segundo lugar, o marxismo não tem nada de científico. Ele é composto por um conjunto de dogmas que não correspondem à realidade, como a existência de uma suposta luta de classes e a tal da “determinação histórica” do ser humano que nega entretanto a determinação biológica do ser humano, que é “histórica” em um senso muito mais profundo que aquele usado pelos marxistas.

      Em terceiro lugar, se uma ideologia chega ao poder mais de sessenta vezes ao longo de dois séculos nos mais diversos países espalhados por todo o globo terrestre, com as mais diversas culturas e condições econômicas, e em TODOS eles, sem NENHUMA exceção, promove degradação moral, miséria econômica e autoritarismo político, promovendo massacres e genocídios, então qualquer cientista com um mínimo de honestidade intelectual é obrigado a reconhecer que não se trata de uma ideologia saudável, nem viável, nem desejável, nem sequer tolerável.

      E, raios, aquela besta perdeu o país dele para os marxistas e viu o povo dele e os amigos dele serem humilhados, torturados e assassinados pelos marxistas. Se ele ainda assim admira o marxismo, ou é muito estúpido, ou muito mal intencionado.

  6. Acredito que a questão de hipocrisia se encontra em um pouco de todos nós. Nós crescemos, nós tomamos decisões que às vezes não pensamos duas vezes, agimos contra nossa vontade, nossas intenções e pensamentos, boa parte destas vezes sendo em prol de coisas que nos dizem interesse. É um ótimo texto!

    1. Obrigado pelo elogio, Lucas! Mas será mesmo que agimos contra nossa vontade? Ou será que nossas ações é que mostram quais são nossas reais vontades?

      Eu tendo a acreditar que, entre o que dizemos e o que fazemos, é aquilo que fazemos que revela no que realmente acreditamos.

  7. ahhh… que pena que meu comentário sumiu…

    1. Recuperado acima. Estava na caixa de spam. Maluquices que acontecem quando se atualiza os plugins anti-spam.

  8. o socialismo de Marx foi chamado de científico para não ser confundido com o socialismo proposto pelos primeiros pensadores do movimento, chamados utópicos. É só uma diferenciação histórica, um rótulo.

    os princípios socialistas se deturpam devido á natureza humana, cada vez que chegam no poder. Quando o assunto é poder, tanto esquerda, quanto direita, ou mesmo qualquer centro, se comporta quase da mesma maneira.

    Os movimentos socialistas tiveram sua importância histórica desde o romper iluminista com os padrões sufocadores da liberdade, que os nobres e o clero impunham ao povo. Daí veio a Revolução Francesa, tão grande que marcou uma mudança de época na nossa contagem do tempo. Da igualdade, liberdade e fraternidade, surgiram correntes diversas de pensamentos. o “povo” que soube se aproveitar da situação se tornou um patrão muito mais cruel que o antigo nobre deposto.

    Estas convulsões sociais, certas ou erradas, sempre romperam paradigmas. Não vejo o marxismo como uma doutrina terrorista, nos seus princípios, mas é fácil ver que se tornou terrorista na prática. É claro, aí entra a natureza humana.

    Quanto ao lama, acho mesmo que ele devia ter deixado o assunto de lado… mas veja o que ele também falou:

    O que acho do marxismo? acho que ele não é nem bom nem ruim. Minha impressão é de que o marxismo original tinha uma série de pontos muito interessantes, muito bons. Mas depois, quando se tornou apenas parte de um poder político e nacionalista, tudo isso se perdeu…

    no fundo acho que deram muito valor a uma coisa que ele falou pelo cotovelo…

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