Os automóveis são uma ótima solução para a mobilidade urbana e interurbana, tanto que todo mundo quer ter um automóvel. Por que raios a solução sugerida para os problemas como engarrafamentos e dificuldade de estacionamento é sempre proibir e penalizar ao invés de oferecer algo melhor? 

Engarrafamento

Há poucos dias um colunista do Diário Catarinense manifestou o desejo que surgisse um governante que tivesse coragem de limitar o uso do automóvel na Ilha de Florianópolis, porque a ilha está saturada e os engarrafamentos são paralisantes tanto na temporada de turismo quanto fora dela. 

Eu fiquei um bom tempo olhando para aquela coluna e pensando… Mas por que raios as “soluções” que eu vejo na política e nos meios de comunicação são sempre do tipo “proibir ou penalizar”? 

Se há automóveis demais circulando, a primeira coisa em que eles pensam é em proibir a entrada de automóveis em determinada região, seja em absoluto ou na forma de rodízio, ou cobrar impostos e taxas cada vez mais altos, como as cobranças para estacionar em via pública, para coagir as pessoas a abandonar o seu meio de transporte preferido e utilizar um meio de transporte que não desejam usar. 

A cada dia que passa eu fico mais desconfiado que fui abandonado neste planeta por alienígenas, porque não é desse modo que meu cérebro funciona. 

Se eu fosse político, ao invés de pensar em proibições e penalizações para pessoas que só estão tentando viver bem, fazendo o que lhes é mais conveniente e confortável,  eu estaria pensando em alternativas e encomendando estudos para oferecer oportunidades melhores para o maior número de pessoas possível. 

Agindo assim, ao invés de limitar as pessoas, eu lhes daria novas alternativas, desafogando o trânsito não porque o automóvel estaria proibido, ou porque sairia muito caro, mas porque as pessoas teriam disponíveis e em muitos casos escolheriam alternativas mais convenientes e mais confortáveis do que os automóveis.

Se eu pudesse sair de casa a qualquer hora do dia, pedalar 500m, entrar com minha bicicleta em um trem-bala com um vagão especialmente adaptado para ciclistas, percorrer 35 km em 10 minutos e descer pedalando no bairro para o qual eu queria ir, por que eu iria usar um automóvel?

Se eu dispusesse de túneis de casulomóveis para me deslocar sobre trilhos em alta velocidade, por que eu compraria um veículo tradicional e pegaria uma avenida supercongestionada ao invés de me deslocar acima do nível dos postes, rápido, sem riscos e com muito maior conveniência?

Se eu tivesse um sistema eficiente de bondes elétricos 24h/dia, ou de “metrô de superfície”, em que todos os passageiros andassem sentados, com ar condicionado, sem empurra-empurra, nos quais eu pudesse subir e descer sem dificuldade com um volume do tamanho de uma mala com rodinhas, ou de um pequeno carrinho de compras, por que eu iria para a aula, para o serviço, para a balada ou até o supermercado de automóvel?

Soluções existem muitas, mas é necessário substituir o ranço autoritário por uma mentalidade propositiva. Afinal, elegemos governos para que eles solucionem problemas e aumentem nossa liberdade ou para que nos criem problemas e nos imponham proibições e limitações? 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 07/04/2014 

14 thoughts on “Trânsito e cidadania

  1. é fácil ouvirmos políticos, bradarem contra as heranças da ditadura. Porém, quando estes políticos chegam no governo, são os primeiros a se abrigarem nos escudos dessa herança. O sistema político brasileiro é uma piada.

    1. Nossa política é um ambiente de fracasso. Guarda esta expressão: “ambiente de fracasso”. Pretendo escrever alguns artigos sobre conceitos políticos e este será um dos primeiros.

      Um ambiente de fracasso atrai um certo tipo de pessoa. Quando o ambiente político é um ambiente de fracasso, só quem se dá bem dentro dele é esse tipo de pessoa (a não ser que haja um grande movimento para modificar o ambiente político).

      Isso que disseste tem tudo a ver com esse conceito. Os que se abrigam nessa herança e na herança de todas as corrupções e maracutaias anteriores são sempre o mesmo tipo de indivíduos – sendo as siglas e ideologias as armas desta grande batalha em um imenso campo de lama.

  2. Desde criança eu espero a invenção do teletransportador. E já vai tempo, viu? Cientistas fail.
    Enquanto isso…há soluções, faltam vontade e inteligência política.

    1. Teletransporte eu acho meio difícil… 🙂 Mas eu imagino uma malha de trilhos aéreos de grande eficiência e não entendo por que raios isso não é implementado, uma vez que é uma solução que não exige uma reforma urbana muito profunda.

      Quero dizer… “Não entendo” não é uma boa expressão. É modo de dizer. Entendo, sim: é que temos uma grande Quadrilha Geral no poder, que não tem interesse em solucionar os problemas do país, nem em melhorar a qualidade de vida do povo.

  3. Acho que é fruto do modo de administra no Brasil. Assim como a polícia procura resolver o problema da violência no trânsito multando os motoristas, procura-se resolver o problema do engarrafamento e não resolver o problema do transporte. Também tem os políticos que defendem a proibição como forma de reduzir emissões.

    1. E o povo, que também tem essa mentalidade proibicionista (drogas, casamento gay, armas, fumo em lugares fechados, bebidas para menores, álcool líquido, antibióticos, etc.), continua elegendo os políticos que reduzem sua liberdade e impõem impostos e taxas que tornam tudo caro sem que haja uma contrapartida minimamente razoável em termos de qualidade de serviços públicos.

      O povo brasileiro tem os políticos que merece.

  4. Bombatômicaaaa!!!

    1. Do jeito que vai o país, não vai precisar, não…

  5. Sempre me pergunto por que não é feito um planejamento pra espalhar os postos de trabalho pelos bairros.

    1. Pois é. No mínimo podia haver um programa de incentivos para isso. A empresa perto do trabalhador e do consumidor. Seriam economizados bilhões em combustíveis, horas de deslocamento, stress, poluição, etc., além de aumentar a qualidade de vida e deixar a população com muito mais tempo livre para o estudo e o lazer.

  6. Antigamente eu lia os livros de Issac Asimov e pensava que no futuro todos nós seríamos transportados em esteiras deslizantes com vários níveis de velocidade. O tempo passou, mas o futuro não chegou! Faltou a execução do futuro por que os executores não leram Asimov. É mais fácil oferecer liberdade até onde a corda alcança do que remover o arame farpado.

    1. Talvez, ao invés do rei filósofo, estejamos precisando do rei inventor. 🙂

    2. Um rei cientista? Hmmmmmmm…. ideia pra ruminar..

      Isto será verdade?
      http://viatrolebus.com.br/wp-content/uploads/2014/04/carro-onibus-bicicleta.jpg

      Como imagem tá ótima, e parece fazer sentido.

    3. A questão do espaço está correta. O problema destas comparações é que elas não levam em consideração outras variáveis que são muito importantes.

      Por exemplo:

      Se eu tiver que pedalar 35 km de ida e 35 km de volta para ir ao centro da cidade, como é o caso aqui onde moro, imagina o tempo e o esforço envolvidos. Imagina se chover, ou se fizer um solzão de 42°C, como de fato faz.

      Se eu tiver que ir de ônibus e quiser ficar no centro até à 1h da madrugada, eu não terei como voltar para casa até às 6h da manhã.

      Se eu tiver que ir ao supermercado de bicicleta ou de ônibus, vou poder carregar somente uma fração do que poderia carregar de carro e terei que ir e voltar várias vezes.

      Ou seja, existem ótimos motivos para eu preferir um automóvel – e uma imensa quantidade de pessoas pensa do mesmo jeito, porque tem as mesmas necessidades e vê as mesmas dificuldades nos outros meios de transporte.

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