A Veja Online de 06/04/2014 traz a assustadora reportagem “A era pós-antibiótico“, que informa que podemos estar prestes a regredir à mesma situação de quando não existiam antibióticos. O perigo é devido ao desenvolvimento de bactérias multirresistentes (imunes a qualquer antibiótico), que decorre do uso indiscriminado de antibióticos. Mas a solução não é proibir que as pessoas se automediquem. 

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Eu falo sobre controle de antibióticos desde a minha graduação em biologia (terminei em 1989). O que eu jamais tinha imaginado é que, entre todas as alternativas imagináveis, o Brasil escolheria a pior, que, além de não resolver o problema, avilta a cidadania e consolida mais um precedente de violação institucional de Direitos Humanos, roubando do cidadão o direito de cuidar de sua própria saúde. 

O direito de automedicar-se não deve ser limitado em função do risco de desenvolvimento de bactérias super-resistentes. Não se trata de limitar um direito para evitar o risco, mas de proteger este direito e evitar o risco. Isso é perfeitamente possível e simples de resolver tecnicamente. O problema não é de ordem técnica, mas de mentalidade e de interesses econômicos. 

A mentalidade do ranço autoritário, que eu citei no artigo “Trânsito e cidadania“, parece estar presente em todas as áreas. Onde quer que seja necessário algum grau de gerenciamento, parece que as primeiras medidas lembradas – ou as únicas consideradas aceitáveis – são as proibições e as limitações de direitos, nunca a criação ou promoção de alternativas que conduzam a uma maior liberdade. Assim foi feito com os antibióticos no Brasil, cujo acesso direto foi proibido ao cidadão. 

Um controle de antibióticos razoável, que se pretenda eficaz sem exigir limitações à cidadania, não passa pela proibição de acesso direto, nem pela exigência de prescrição, mas pelo rodízio dos antibióticos no mercado. Para entender isso, é necessário conhecer um pouco sobre a genética e a ecologia das bactérias. 

As bactérias são microrganismos compostos por uma única célula, cuja genética funciona de modo diferente dos organismos multicelulares. As bactérias podem trocar genes umas com as outras, podem “engolir” genes que estejam soltos pelo ambiente e incorporá-los a seu genoma, podem “cuspir fora” parte de seus genes para se livrarem de seqüências de genes que não estejam em uso, entre outras peripécias impressionantes e inimagináveis do ponto de vista de um organismo multicelular. 

Uma destas características – a capacidade de eliminar seqüências de genes não utilizados – pode e deve ser explorada em benefício dos seres humanos. 

O que acontece é o seguinte: para uma bactéria, o gasto energético de replicar seqüências de genes não utilizados é bastante significativo na competição com outras bactérias do mesmo tipo, que exploram o mesmo nicho ecológico. Então, ao longo de bilhões de anos, as bactérias que tinham a capacidade de eliminar estes genes não utilizados tiveram uma significativa vantagem competitiva – e são as bactérias de hoje. 

Isso é fácil de entender: se você e outra pessoa vão apostar uma corrida, então aquele que não tiver que carregar um peso de 30 kg na barriga tem uma boa vantagem. Para uma bactéria, uma seqüência de genes inúteis que tem que ser replicada a cada divisão é o equivalente a 30 kg de peso na barriga. Só que as bactérias, ao invés de fazer dieta e malhação para eliminar a carga inútil, simplesmente “cospem fora” os genes que não usam por longos períodos. 

Para a população bacteriana de uma determinada região, pouco importa se as bactérias entram em contato com antibióticos usados com prescrição ou sem prescrição. O que importa é que elas entram em contato com os antibióticos – e isso tem dois efeitos. Primeiro, isso ativa os genes que produzem as enzimas que desativam os antibióticos. Segundo, isso marca bioquimicamente os genes que ativam estas enzimas como “genes ativos”.

Estas marcas bioquímicas funcionam como se a bactéria tivesse uma caderneta em que ela registra quais os genes que utilizou recentemente. Só que a “tinta” que a bactéria usa nessa caderneta se apaga com o tempo. Se um conjunto de genes não é ativado por muito tempo, estas marcas vão se apagando e a bactéria eventualmente acaba “cuspindo fora” estes genes.

A solução para o problema da resistência bacteriana, então, é na verdade simples: basta que as bactérias não sejam expostas a um determinado antibiótico por tempo suficiente para que as marcas de “genes ativos” se apaguem e elas mesmas “cuspirão fora” os genes que lhes conferem resistência a este antibiótico específico. 

Portanto, o que tem que ser feito não é violar o direito das pessoas se automedicarem com antibióticos, e sim oferecer às pessoas antibióticos que as bactérias já tenham “esquecido” como desativar por terem “cuspido fora” os genes necessários para fazer isso. E isso pode ser feito sem necessariamente termos que desenvolver novos antibióticos. Só é necessário um bom planejamento de distribuição dos antigos antibióticos, fazendo o rodízio que eu citei antes. 

Funcionaria assim: primeiro, teríamos que dividir o planeta em territórios de distribuição; depois, cada território receberia uma letra, A, ou C, e cada antibiótico um número, 1, 2 ou 3. Por cinco anos, nos territórios do grupo A só seriam disponíveis os antibióticos do grupo 1, nos estados do grupo B só seriam disponíveis os antibióticos do grupo 2 e nos estados do grupo C só seriam disponíveis os antibióticos do grupo 3. 

Ao final dos cinco anos, haveria o primeiro rodízio: nos estados do grupo A só seriam disponíveis os antibióticos do grupo 2, nos estados do grupo B só seriam disponíveis os antibióticos do grupo 3 e nos estados do grupo C só seriam disponíveis os antibióticos do grupo 1. 

Dali a mais cinco anos, haveria o segundo rodízio: nos estados do grupo A só seriam disponíveis os antibióticos do grupo 3, nos estados do grupo B só seriam disponíveis os antibióticos do grupo 1 e nos estados do grupo C só seriam disponíveis os antibióticos do grupo 2. 

Finalmente, cinco anos depois, haveria o terceiro rodízio e voltaríamos à distribuição original. Assim, as bactérias de cada território só entrariam em contato com o mesmo antibiótico dez anos depois, o que para as bactérias é um tempo imenso, no qual se passam muitas gerações – tantas, que os genes não usados acabariam se perdendo nestes dez anos. 

(Atenção: isso é um exemplo com números arbitrários. Os períodos corretos podem ser outros, e o número de grupos correto pode ser outro. Teria que ser feito um estudo prévio para definir os parâmetros mais adequados, assim como a definição adequada dos territórios.) 

A essas alturas eu imagino que você esteja se perguntando: se isso é tão simples assim, por que não é feito? Por que estamos correndo o risco de voltar à mesma situação de quando não existiam antibióticos, com todo sofrimento humano que isso implicará, ao invés de tomar uma medida tão simples que nos protegeria amplamente? 

Pelo mesmo motivo que estamos destruindo o único planeta que temos, consumindo combustíveis fósseis ao invés de utilizar fontes renováveis de energia: de um lado, tem gente lucrando com isso, de outro, tem gente lucrando para dizer que é “economicamente inviável” fazer a coisa certa, de outro, tem gente que só se preocupa com o horizonte de quatro anos de seu mandato, e de outro, tem você, que acha que “alguém tem que fazer alguma coisa”, mas não tem tempo, ou dinheiro, ou interesse para fazer o que é necessário fazer – que é a política iluminista

Todos estão focados apenas no curto prazo. O problema é que, quando certos problemas se tornam questões de curto prazo, já não há mais solução. Não adianta encomendar pára-quedas quando o avião já está caindo. 

No caso dos antibióticos, ainda há tempo para fazer a coisa certa – mas quem irá fazer isso? Os laboratórios, que lucram com a venda e teriam custos extras para organizar a distribuição? A classe médica, que lucra com o monopólio da prescrição? Os analistas econômicos, que teriam que admitir que a ética é mais importante que o mercado ou que a luta de classes? Os políticos da direita e da esquerda, que só pensam em roubar tudo que puderem o mais rápido que puderem? 

A resposta técnica à pergunta “como enfrentar a ameaça das superbactérias?” é, portanto, simples: “fazendo um rodízio global de distribuição de antibióticos”. 

A pergunta que fica sem resposta é “quem irá fazer isso?”. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 08/04/2014 

13 thoughts on “Como enfrentar a ameaça das superbactérias

  1. E as viagens internacionais? Não seriam suficientes para romper a barreira dos antibióticos?

    1. Dificilmente. O volume de pessoas que fazem viagens internacionais e adoecem e usam antibióticos de modo indiscriminado e incorreto – tudo ao mesmo tempo – não deve ser relevante a ponto de espalhar superbactérias pelo mundo de modo significativo.

      Vamos supor, entretanto, que isso aconteça de fato. Neste caso seria necessário reservar alguns antibióticos para distribuição exclusiva para os hospitais. O cidadão não teria o acesso impedido, mas teria que passar por orientação médica prévia. (Orientação não é prescrição.)

      Muito pouca gente teria o conhecimento necessário e seria chata ao ponto de ir ao hospital, receber orientação técnica e mesmo assim insistir em agir de modo contrário à orientação. Talvez eu e mais meia dúzia de chatos de galochas. 😛 Isso não representaria risco significativo.

  2. Olá, Arthur!

    Gostei muito desse artigo por tratar de conceitos que estou estudando (Evolução biológica e características de seres unicelulares). Fico muito feliz de saber que é formado em Biologia e iria também achar super legal se você falasse (quando tivesse alguma brecha em sua agenda) de vírus, virusóides, viróides e príons.

    Agora, a respeito do artigo em si, além da dúvida do André, fiquei imaginando…
    E se, na passagem de um ciclo para o outro ocorresse uma mutação que tornasse a bactéria menos propensa a eliminar plasmídeos? Se sua cepa, de um jeito ou de outro, sobrevivesse durante três ciclos seguidos, ou, por meio do mecanismo sugerido por André, “fugisse” dos antibióticos danosos a ela?

    Eu sei que uma cepa em desvantagem sobreviver três ciclos (15 anos) é altamente improvável, mas o uso inadequado de antibióticos não poderia preservá-la em corpos que não apresentam sintomas de doença? Nesse caso, não deveria ser mantido um antibiótico especial, sob monopólio de uma única entidade mundial que executaria ações de extermínio de bactérias especiais por meio de técnicas de controle específicas?

    Esse assunto é muito interessante, espero mais artigos assim!
    Até, LucasRig.

    1. Oi, Lucas.

      Putzgrila… Acho que eu vou ficar devendo o artigo sobre vírus, virusóides, viróides e príons. Além de não ser minha área de especialização, eu terminei a graduação há tanto tempo que ainda falo “putzgrila”. 😛

      Credo, fui brincar e me senti o Matusalém agora…

      Uma mutação que tornasse a bactéria menos propensa a eliminar plasmídeos até poderia surgir, mas pela lógica ecológica não duraria muito tempo, porque a bactéria que a portasse seria menos competitiva que as de mesma espécie que retivessem esta capacidade.

      Quanto a manter alguns antibióticos para uso exclusivo hospitalar, acho uma boa idéia, desde que não se proiba o cidadão de adquiri-los. A lógica está explicada na resposta para o André, logo acima.

  3. É demonstrável e aplicável a regra do rodízio. Se verifica na clínica há anos. Mesmo quando há uma pesada propaganda os médicos podem observar as tendências e estabelecer os critérios de rotatividade. Mas é difícil convencer os colegas de classe de que isso necessita ser feito, pois muitos sofrem de uma mal chamado caneta engessada. Imagine, então, como é no balcão da farmácia e no muro da vizinha. Acho correta a sua explanação, mas inviável na prática. A logística para efetuar tal alternância beira a loucura. É mais fácil, para se ter uma ideia, acabar com a corrupção no país. Se nós tivéssemos uma estratégia que retirasse de circulação, por decreto, certos antibióticos, para guardá-los no armário para serem novamente usados em alguns anos, poderíamos vislumbrar uma solução arthuresca. Não sei como os defensores da liberdade interpretariam esse decreto. Até gostaria que uma porta dessa fosse aberta. Imagine as outras aplicações!!! A mãe de Pongo não pensaria duas vezes.

    1. Para tirar o gesso das canetas eu pensei em estabelecer territórios bem grandes, que incluam o país inteiro e os países vizinhos. Temos vário blocos que são fáceis de delimitar: América do Norte, América Central, América do Sul, Europa, África, Oceania, Península Arábica e Ásia não-continental. O maior problema seria dividir adequadamente a Ásia continental, onde está a maior parte da população mundial e onde há muitas fronteiras terrestres, mas bastaria haver a cooperação de China e Índia (que teriam que ficar em grupos distintos) para que a divisão funcionasse razoavelmente bem.

      Na verdade, para dividir o planeta em três grupos com mesmo tamanho de população, os grupos teriam que ser 1) Ásia 1 (com a China), 2) Ásia 2 (com a Índia) e 3) o resto do mundo.

      Acho que uma solução mais razoável seria 1) Américas mais Oceania mais Ásia Insular; 2) Europa mais África mais Oriente Médio; 3) metade da Ásia com a China; 4) metade da Ásia com a Índia. Quatro grupos, 15 anos de intervalo até cada região encontrar de novo o mesmo antibiótico.

      A logística seria complicada, mas teríamos um mundo com antibióticos úteis e sem o problema da resistência bacteriana. A ONU bem que poderia parar de brincar de votar e vetar moções de repúdio contra tiranias genocidas e começar a fazer algum trabalho que preste.

  4. Rafael Holanda

    10/04/2014 — 02:17

    Belíssimo artigo. Proposta de muito bom senso e ética que esbarra no que eu acho o maior entrave da sociedade atual: o lucro.

    1. Quem teria que organizar isso é a ONU… Mas a ONU não faz nada nem sabendo dos massacres que devastam o continente africano inteiro, imagina se ia se mexer por causa de gente morrendo infectada por bactérias…

    1. “Uma vantagem da possível nova geração de medicamentos decorrente dessa descoberta seria o fato de que, por atacarem a barreira de proteção, e não a bactéria, não seria possível que o micro-organismo desenvolvesse resistência a esse tipo de droga no futuro.” (Da reportagem)

      Aí eu me lembro do argumento de Jurassic Park.

    2. 🙁

      Mas cê tá certo. A essa altura um cientista não deveria dizer isso.

    3. O raciocínio deles foi superficial. Se a bactéria forma esta barreira de proteção é porque essa habilidade está em seu genoma. Genomas variam por mutação. Basta colocar estas bactérias em meios seletivos (na presença de substâncias que destruam a tal barreira de proteção da maioria das bactérias, mas não de todas) e pronto, está deflagrado o processo que pode levar ao desenvolvimento de mais uma resistência bacteriana.

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