Duas horas da manhã e o som bombando a milhão no apartamento 302. Dona Maria, do 404 – do outro lado do prédio – não conseguia dormir. Telefonou para pedir para o vizinho baixar o som. A resposta que ouviu é impublicável. 

Ensaio semi-ficcional

Caixas de som 500

Ligou para a síndica. O telefone da síndica tocou, tocou, tocou e ninguém atendeu, até cair. Uma vez, duas, três. Dona Maria desceu até a garagem. O carro da síndica estava lá. Subiu até o sétimo andar e tocou a campainha da síndica, que morava no 702. Nada. A síndica ia mesmo se fazer de morta de novo. 

Dona Maria voltou para casa e ligou para a polícia. Pela quarta vez em uma semana. E pela quarta vez os policiais vieram, bateram na porta, uma sombra cobriu o olho mágico, o som foi desligado e então o morador do 302 abriu a porta para a polícia. 

Tão logo a viatura dobrou a esquina, o som voltou. Mais alto. E Dona Maria ligou de novo para a polícia, que só apareceu de novo dali a mais de uma hora. Mais alguns minutos de silêncio, até a viatura dobrar a esquina novamente. 

Quatro vezes em uma semana, três delas até o sol raiar. 

Na quinta noite, Dona Maria estava disposta a partir para a briga. Ia meter o dedo na campainha tantas vezes quantas fosse necessário, até o som parar ou até ser agredida. Talvez fosse a única maneira de fazer aquilo parar. A que ponto chegamos, criou-se o direito de infernizar e ninguém mais está a salvo, nem tem a quem recorrer. Os incomodados que se mudem. 

O som começou um pouco mais tarde naquela noite. Já passava da meia-noite. Dona Maria se segurou por uma hora, até que não agüentou e decidiu enfrentar o vizinho do 302 novamente. Desceu as escadas, ia chegando no andar de baixo, quando sentiu o fedor. 

A porta do 302, as paredes ao redor e o capacho de limpar os pés estavam cobertos de cocô. No meio da porta, em uma área deixada limpa, lia-se a seguinte mensagem escrita com pincel atômico: 

TODA VEZ QUE VOCÊ FIZER MEUS OUVIDOS DE PENICO

EU VOU DEVOLVER O CONTEÚDO

Dona Maria caiu na gargalhada. Saiu logo dali, porque o cheiro estava insuportável. O som continuou alto por mais meia hora. Por todo este tempo, pela primeira vez em semanas, foi música para seus ouvidos. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 09/04/2014 

13 thoughts on “Som na caixa, Brasil!

  1. Consiga um abafador para ouvidos e uma caixa de som potente.
    Use o abafador de ruidos e deixe a caixa de som tocando Gummy Bear ad aeternam para o vizinho chato ter a amostra do próprio remédio.
    ?????
    Profit.

    1. Gummy Bear? Não corro o risco de derrubar o prédio?

  2. Se fosse numa favela o cara já teria sido linchado pelos moradores ou esfaqueado pelo vizinho.

    1. Não perde o artigo de amanhã.

  3. Essa vai pra coletânea: “Manual Moderno para Viver no Planeta.” Pode me processar por plágio.

    1. Hehehehe… Mas não é?

      Na ausência de civilidade, é necessário civilização.

      Na ausência de civilização, a civilidade é contraproducente.

  4. joaquim salles

    10/04/2014 — 00:55

    Algo semelhante aconteceu comigo de fato. Só que o cara colocava musica alto durante os jogos da copa em que o Brasil jogava. Minha mãe ( que era americana) ficava irada com isso. A solução foi hilaria (fogo contra fogo) ela colocou um country americano, com ritmo completamente diferente da musica que o cara colocava, no volume mais alto possível. Ele acabou abaixando o som 🙂

    Quanto ao cocô, quando morava em casa, um vizinho joga isso no meu quintal. Minha mãe não teve duvidas. Pegou uma pá de lixo, catou todos os cocôs jogados e mais alguns dos cachorros, foi até a casa do vizinho, tocou a campainha…e quando o mesmo abriu a porta jogou tudo dentro da casa dele e disse: que cada vez que aparecesse isso na minha casa ela iria até lá e jogaria mais dentro da casa dele.:) O problema acabou “milagrosamente”…

    1. Espero que nenhum vizinho jamais tenha jogado bombinhas, rojões ou fogos de artifício no pátio da tua mãe…

      Mas ela correu um grande risco, hein?

  5. joaquim salles

    10/04/2014 — 00:59

    agora o pior de tudo, é ser acordado as 7 horas da manhã de domingo, escutando hinos da igreja (ou templo ou culto) próximo a sua casa…esse é um dos poucos casos que agradeço não ter armas em casa… se não seria manchete de jornal: “vizinho extermina cantores de igreja( templo) próximo a casa dele no domingo de manhã…”

    1. Acho o fim da picada um desrespeito destes. E não adianta ligar para a prefeitura – eles vão mandar alguém com um decibelímetro às 7h de domingo para verificar se o som está dentro dos limites legais? Não, né?

      Uma vez eu vi uma pichação em um muro de igreja:

      REZE EM VOZ BAIXA – JESUS NÃO É SURDO!

      Santo conselho.

    2. Mas há três armas que podem ser usadas contra estas igrejas.

      A primeira é o apelo ao bom senso. Chegando com jeitinho, muitos religiosos são sensíveis a reclamações da vizinhança e evitam incomodar.

      A segunda é o apelo ao constrangimento. Um carro de som com uma mensagem musical para explicar para os crentes (e para toda a vizinhança num raios de cinquenta quilômetros) durante o culto que Jesus não ia gostar que eles perturbassem os vizinhos para louvá-lo faria um bom abalo na imagem deles. Especialmente se o showfor gravado e colocado no Youtube.

      E a terceira é o apelo ao fogo contra fogo. Um funk proibidão alternado com um Gummy Bear (sugestão sádica do Silmar, mais acima) num volume de derrubar Boeing do céu, durante todo o culto, é uma briga que eles não vão querer comprar.

      E, se alguém vier reclamar, a tua resposta já está escrita há dois mil anos: “hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, para depois soprar o cisco do olho do teu irmão”. 😉

  6. joaquim salles

    10/04/2014 — 23:07

    Curiosamente, você tem razão: nunca ninguém jogou bombinhas, rojões e assemelhados em casa.:) Mas lembre-se: minha mãe chegou no Brasil em 1953. Veio com a cultura de lá. E o povo não levava desaforo para casa na época dela no USA. Lembre que a população americana, daquela época, era provinciana e defendiam a casa e o lar deles com “unhas e dentes”. Ajudavam os vizinhos quando necessario também.

    Gostei das dicas sobre templos e musica domingo de manhã 🙂

    1. Corrigi um errinho de digitação no “unhas e dentes”, tudo bem?

      Mas, quanto às dicas, tens que seguir a ordem… A primeira aproximação tem que ser na boa… 😉

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