Antes de tudo: o fato relatado no artigo anterior é real e a estratégia escatológica funcionou. Os vizinhos nunca mais foram perturbados por som alto vindo do apartamento 302. Mas o episódio impõe uma reflexão sobre os rumos de nossa sociedade e de nosso Estado. 

Caixas de som 500-2

Os moradores do apartamento 302 não tinham respeito pelos demais. Para eles, somente o seu próprio conforto era importante. Ignoravam as necessidade e o bem estar dos outros. Confundiam liberdade com abuso. 

As primeiras tentativas de lidar com os abusos dos moradores do 302 foram pacíficas, sutis, através do diálogo respeitoso. Não surtiram efeito. 

Com a falha do diálogo, houve reclamações diretas, com conversas no elevador ou pelo telefone. Não surtiram efeito. 

Com a falha das reclamações, houve queixas formais para o primeiro nível de autoridade acessível, a síndica. A síndica fez duas ou três comunicações por escrito. Não surtiram efeito. 

Com a falha das comunicações da síndica, houve o apelo à polícia. A polícia veio diversas vezes, fez diversas intervenções verbais. Não surtiram efeito. 

Com a falha das intervenções verbais, foram feitos vários BOs, cujas cópias foram colocadas na caixa de correspondência do apartamento 302. Não surtiram efeito. 

Com a falha de todas as tentativas anteriores, foi chamada uma reunião extraordinária de condomínio, com a pauta de ingressar na justiça solicitando a desocupação do apartamento 302. 

Só que a maioria dos moradores do prédio é de inquilinos, e os proprietários não quiseram entrar na justiça contra o morador do 302, que também é proprietário. 

O que restava aos inquilinos? Ou abandonar o prédio, ou entrar em juízo contra os proprietários, para que estes tomassem alguma providência, ou diretamente contra o morador do 302. 

Conhecendo a morosidade da justiça brasileira, e não desejando gastar horrores com um advogado para talvez ter uma solução daqui a sete anos, alguns inquilinos começaram a procurar outros imóveis para alugar. 

Todos os moradores agiram de modo civilizado, dentro da lei, e foram prejudicados por um infrator e desamparados pelo Estado brasileiro, que é burocratizado, incapaz, desinteressado, negligente, inútil. 

Então um morador, cansado de pedir para o agressor não agredir e de mendigar atenção para o Estado inútil e criminófilo, decidiu fazer justiça com as próprias mãos – uma reação visceral… Literalmente

E obteve sucesso imediato. 

O que eu não havia contado ainda, e o faço agora, é que eu sei quem tomou aquela iniciativa e conversei com ele. Ele me contou os detalhes da operação, um dos quais é extremamente significativo. 

Não foi uma pessoa isolada quem fez aquilo. Foram várias pessoas, todas absolutamente enraivecidas e armadas com objetos contundentes (porretes e martelos) e pérfuro-cortantes (pelo menos um canivete). 

Caiu aí a ficha do alcance do episódio? 

A pessoa que resolveu retaliar o incômodo causado pelos moradores do apartamento 302 sabia que estava lidando com gente grosseira e abusiva. Sabia que seria agredida se fosse pega em flagrante sujando a porta daquele jeito. Sabia que precisava de proteção. E reuniu a proteção que pôde encontrar. 

Essa pessoa deveria ter sido protegida por diversas instâncias, todas as quais falharam: a síndica, a assembléia geral do condomínio, a polícia, o judiciário. Desamparada, decidiu retaliar como podia. Amedrontada porém determinada e precavida, reuniu um pequeno exército para garantir sua integridade física. 

Mas e se as coisas tivessem saído de controle? 

Hoje estaríamos assistindo os jornais na TV dizerem que uma “gangue de justiceiros” tinha “cometido uma barbárie” contra “moradores inocentes” que estavam “apenas ouvindo música” e a “blogosfera progressista” estaria clamando por vingança contra os “coxinhas intolerantes” que “decidiram tocar o terror”, obviamente “por motivo fútil”. 

A não ser, é claro, que não sobrassem testemunhas vivas. 

Caiu aí a segunda ficha sobre o possível alcance de episódios como este?

Isso é o que acontece quando uma parcela significativa da sociedade perde as noções de civilidade e o Estado desampara os cidadãos de forma sistemática: chega um momento em que a violência se torna o método usual de resolução dos conflitos, até mesmo dos menores conflitos. 

Em muitos casos, episódios de grande violência são desencadeados por motivos fúteis: um jogo de futebol degenera em pancadaria e morte, um olhar em via pública degenera em briga de gangues, uma encostadinha no pára-choque do carro da frente degenera em espancamento com seqüelas permanentes.

Estes são sinais de que a barbárie não está “se instalando” entre nós, ela já está instalada em nossa sociedade.

Eu gostaria de completar o parágrafo acima dizendo “sob as vistas de um Estado incompetente”, mas não posso. A verdade é que eu tenho a mais profunda convicção de que esse embrutecimento generalizado faz parte dos planos do atual governo. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 10/04/2014 

13 thoughts on “Som na caixa, Brasil! – análise do ocorrido

  1. Essa poderia figurar no CNPND: http://extra.globo.com/noticias/mundo/asilo-processado-por-contratar-strippers-para-entreter-idosos-12137654.html.
    Algumas velhinhas fizeram uma festinha e contrataram um stripper, o filho de uma delas processou o asilo e os PC estão todos ouriçados defendendo o direito das velhinhas de contratarem um homem-objeto. Fico imaginando se fossem um bando de velhinhos (brancos e hetero) contratando uma mulher-objeto se os politicamentecorretosguaranikaiowa também os defenderia.

    1. Ah, mas aí é uma “falsa simetria”…

  2. Opa, olha o colapso da nossa sociedade dando oi ai gente! Daqui a pouco é mad max!!

    1. Tá zoando, mas é um pra lá, dois pra cá…

      Os exemplos estão estourando todo dia em velocidade alucinante, só que todo mundo está anestesiado, porque a aproximação foi lenta.

      Não é mais algo a vir, é algo que já chegou.

  3. Ninguém pensou em desligar o disjuntor do ap do cara?

    1. ele entraria com um processo contra o condomínio.

    2. Talvez, mas disjuntor é feito para desligar com sobrecarga. Ninguém precisa admitir que desligou.

    3. André… Entende a seguinte lógica: a existência do safado mau-caráter é o que justifica o salário dos membros do Judiciário, enquanto que o cara que resolve o problema sem passar pelo Judiciário elimina a razão de ser do salário dos membros do Judiciário. Qual dos dois tu achas que o Judiciário tem realmente mais interesse em proteger e qual dos dois tua achas que o Judiciário tem realmente mais interesse em ferrar?

  4. Nessa horas tem que se reunir mesmo e sofisticar um jeito certeiro ao sabotar um cara desses, é brincadeira até que ponto chegamos, pois não se tem o mínimo respeito? Vamos reinventar o bullying às reversas. Já que que não tem justiça, vamos conspirando. Vamos detonar o que já tá ruim mesmo, detalhe com isso vamos partir para a malevolência.

    1. Que é o que os grupos que estão no poder hoje mais desejam. Tanto os políticos (e seus parentes e amigos e associados e cúmplices) quanto os membros do Judiciário (e seus parentes e amigos e associados e cúmplices) lucram tanto mais quanto maior for o caos social e econômico.

  5. É estranho que os grupos que dominam o status quo desejam isso? A não ser que eles queiram mesmo isso, então esse pessoal são uns bandos de psicopatas. Se a destruição da humanidade for objetivo deles, só me resta a resignação.

    1. Não, eles não objetivam a destruição da humanidade. Isso é apenas uma conseqüência com a qual eles não se importam. O negócio deles é egoísmo total a curto prazo, sempre. E ironicamente usam o coletivismo como método para se beneficiarem.

    2. Não são psicopatas, são canalhas. É um pouco pior.

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