Deu no Fantástico de 20/04/2014: um médico nos EUA – que fala português! – inventou uma nova técnica para emagrecer: ele costura uma tela sobre a língua do paciente. A tela torna a mastigação difícil, o que faz as pessoas terem que se alimentar praticamente só com um shake nutritivo. 

Tela costurada na lingua

A imagem acima, entretanto, foi tirada do site do programa Bem Estar de 12/02/2014, no qual a Rede Globo já havia tratado do assunto.

Eu não teria resolvido escrever sobre este assunto não fossem as opiniões absurdas de todos os médicos que opinaram sobre a técnica nas duas reportagens. 

Porém, antes de analisar o que eles disseram, vou dizer o que eu penso a respeito da técnica: é simplesmente genial, apesar de grotesca.

E não, não estou sendo contraditório.

Se gordo tivesse disciplina alimentar, não seria gordo. O que essa técnica faz é simplesmente contornar a falta de disciplina do gordo e obrigá-lo a manter uma dieta bastante restritiva por um pequeno período, suficiente para que ele perca um peso significativo. Isso é genial.

O que é grotesco é ter que costurar a língua de alguém porque o gordo não consegue manter essa mesma dieta pelo mesmo período sem precisar de um limitador físico que ele não possa remover sem o auxílio de um médico ou de algum maluco disposto a cortar os pontos. Só que isso não é culpa da técnica. 

Mas vamos ao que os médicos disseram.

Segundo a reportagem do Bem Estar:

Para o cirurgião João de Moraes Prado Neto, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, trata-se de uma alternativa muito radical para atingir a perda de peso: “Como pode alterar a anatomia da pessoa para evitar que ela se alimente com sólidos? Existem tantas outras alternativas racionais que não passa pela minha cabeça como se chegou a esse extremo.”

Fico aqui pensando se esse cara nunca ouviu falar de cirurgia bariátrica, uma “alternativa muito radical” para atingir a perda de peso, cujo fundamento é “alterar a anatomia da pessoa para evitar que ela se alimente com sólidos” ou com líquidos de modo muito mais “extremo” e que no entanto eu aposto que ele não criticaria deste modo.

Dado que costurar uma telinha na língua é uma alternativa extremamente simples, nada invasiva, segura, facilmente reversível e de baixíssimo custo, ao contrário da cirurgia bariátrica, que é complexa, altamente invasiva, perigosa, difícil de reverter, de alto custo e limitante pelo resto da vida, o que é mais plausível? Que esta crítica seja verdadeira ou que os verdadeiros fundamentos desta crítica sejam outros? Deixo ao leitor a tarefa de pensar a respeito.

Ah, sim: considere também que o médico em questão é cirurgião plástico, uma especialidade cujo maior aporte financeiro vem de cirurgias (procedimentos que nunca podem ser descritos como “não invasivos”) com motivação estética – enquanto emagrecer costuma ser uma preocupação tanto estética quanto preventiva para uma série de problemas graves de saúde. Ainda faz sentido que este profissional tenha considerado este procedimento “extremo”?

Eis outro trecho da reportagem:

O médico Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), observa que – com ou sem a tela plástica fixada à língua – a adoção de uma dieta exclusivamente líquida pode dificultar a obtenção da sensação de saciedade. “Temos um sistema que controla nossa fome e saciedade e esse processo se inicia com a mastigação. A partir do momento que não se mastiga, não se libera estímulos para os núcleos hipotalâmicos da saciedade”, diz.

Outra complicação refere-se ao sistema digestivo. “Como a quantidade de fibras é muito pequena em uma dieta líquida, existe uma tendência de constipação, o intestino pode não funcionar”, diz. Ele acrescenta que, como outras dietas da moda, uma alimentação exclusivamente líquida tende a se tornar enjoativa depois de alguns dias.

Olhando estas declarações de modo isolado, este médico está correto e foi sensato em suas observações. O problema é o G1 apresentar estas informações no contexto de uma reportagem sobre emagrecimento, sem nenhuma ressalva quanto à probabilidade e a importância de uma simples constipação para um paciente que está lutando contra o peso há anos, assim como a imensa facilidade de introduzir fibras facilmente deglutíveis nesta dieta – por exemplo, adicionando granola, aveia ou farelo de trigo ao leite e bebendo em grandes goles, sem mastigar, ou mastigando mal, só para ter a sensação de mastigar. 

Quanto à alimentação líquida se tornar enjoativa depois de alguns dias… Sim, e daí? Por acaso a dieta pós-cirurgia bariátrica é agradável? Sempre lembrando que o paciente de cirurgia bariátrica não tem a opção de voltar ao consultório e pedir para o médico tirar a telinha para as festas de fim de ano e voltar a costurar a telinha ao final do verão. 

Então, vamos colocar as coisas na devida perspectiva: enfrentar uma dieta desagradável por trinta dias é absolutamente irrelevante para quem luta contra o peso há anos, especialmente quando as alternativas são ou perigosas medicações supressoras de apetite ou a por toda vida limitante cirurgia bariátrica. 

Na reportagem do Fantástico lemos o seguinte: 

“Quando você liquidifica um alimento sólido rico em fibras, muitas vezes esse alimento vai vir com menos fibras, e todo alimento, quando perde essas fibras, ele passa a não ser tão saudável quanto era antes. Logicamente é um método condenável. É impressionante até onde as pessoas chegam para tentar perder peso, né?”, explica Walmir Coutinho, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia.

Ponto para quem detectou o padrão: este depoimento é exatamente igual ao primeiro citado neste artigo, só que é do presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia, enquanto o primeiro era do presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. 

Curiosamente, o presidente da sociedade dos alteradores de anatomia achou “extremo” costurar uma telinha na língua, procedimento que pode ser revertido em qualquer ambulatório, e o presidente da sociedade dos alteradores de metabolismo achou “condenável” e “impressionante” o paciente ingerir uma quantidade pequena de fibras por trinta dias, como se o paciente que recorre a esse procedimento se caracterizasse por ter uma dieta muito saudável e bem balanceada antes. 

Não, peraí, eu nunca furei um olho tentando comer sopa com garfo. Dá licença, pessoal, mas nem uma ameba lobotomizada engoliria a “seriedade” dessas objeções. 

E a reportagem do Fantástico termina com este absurdo: 

“Do ponto de vista médico não funciona, é um embuste, e eu acho que acima de tudo o culto à beleza termina onde começa a saúde física e mental”, finaliza Prado Neto, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

Aí já é deboche com a inteligência alheia. De novo: esse cara nunca ouviu falar de cirurgia bariátrica? Como ele pode dizer que uma técnica que possui a mesma lógica – impedir fisicamente a alimentação – porém de modo muito mais simples, muito menos invasivo, muito mais seguro, facilmente reversível, muito mais barato e muito menos limitante “não funciona”? 

E como é que ele pode chamar um outro médico de embusteiro perante milhões de telespectadores? Isso não fere o Código de Ética Médica? Ou o código de “ética” só diz respeito aos que pagam anuidade para o mesmo conselho, não incluindo os colegas de profissão que atuam em outras circunscrições políticas e econômicas? Se for assim, será que dá mesmo para chamar isso de “ética”? 

Para concluir, apresento o diálogo entre a repórter do Fantástico, Renata Ceribelli, e o Dr. Nikolas Chugay, criador da técnica: 

Fantástico: O senhor acha mais fácil comer saudavelmente e fazer exercícios físicos do que colocar esse patch e passar esse sacrifício durante dois meses?

Nikolas Chugay: Absolutamente. [Nota do blogueiro: eu vi a cena, ele responde de imediato, sem titubear, com um sorriso no rosto, como quem fica surpreso ao ter que responder uma obviedade.] 

Fantástico: E por que o senhor não aconselha então os seus pacientes a fazerem isso? Alimentação saudável, exercícios físicos.

Nikolas Chugay: Bom, os pacientes já tentaram de fazer isso. E falharam. Eu não acho muito radical. Realmente, não.

Ou seja, o criador da técnica é uma pessoa centrada. Ele sabe e não nega que o melhor é alimentar-se de modo saudável e fazer exercícios, e que a técnica que inventou serve para as pessoas que já tentaram fazer isso e falharam.

E ele não acha a técnica “muito radical”… Como qualquer um que se lembrar que o procedimento pode ser revertido em dez minutos em qualquer ambulatório terá que concordar. 

Eu concordo totalmente com o Dr. Nikolas Chugay: para quem precisa emagrecer, já tentou fazer dieta e exercícios físicos e não conseguiu perder peso, a técnica dele é muito mais razoável do que o uso de medicamentos inibidores de apetite, cujos efeitos colaterais podem ser gravíssimos, e do que uma cirurgia bariátrica, que é muito mais invasiva, perigosa, cara, irreversível e limitante.

Estou errado?  

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 22/04/2014

12 thoughts on “Costurar a língua para emagrecer

  1. Penso que uma pessoa que necessite deste artifício, muito provavelmente, deverá fazer uso dele regularmente. Não é um tratamento ou uma solução. É um paliativo.

    1. Peraí, peraí. Eu entendi o que quiseste dizer, mas este procedimento é um tratamento e pode ser uma solução ou pelo menos fazer parte de uma solução.

      Dona Maria está com 160 kg. Quer emagrecer, mas não consegue. Vive comendo coisas que não devia, chega a esconder chocolate em cima do armário para comer sem ninguém ver, mas depois se sente culpada e come ainda mais chocolate para aliviar a culpa. Não está mais em condições de fazer exercícios: mal consegue caminhar até a padaria, a 200m de casa, para comprar leite e pão, e já se sente exausta.

      Dona Maria precisa de ajuda.

      O que podemos oferecer de ajuda à Dona Maria?

      Psicoterapia?

      Uma sessão de cinqüenta minutos por semana para Dona Maria falar sozinha sobre os sonhos que consegue lembrar? Enquanto o terapeuta fala “arrãm”, “arrãm” e “arrãm” e toma notas? Para daqui a dez anos Dona Maria estar com 180 kg e constatar “acho que essa terapia não está ajudando”? E o terapeuta dizer que “ela não consegue vencer suas resistências internas” e que precisa de mais tempo de terapia?

      Bom, não seria o meu método de escolha.

      Medicamentos supressores de apetite?

      Já vi estes medicamentos causarem insônia grave (72h a 96h sem dormir direto, a ponto de a pessoa ir parar na emergência de três hospitais diferentes, até conseguir obter uma receita de sonífero, porque os dois primeiros médicos não quiseram receitar nada, simplesmente disseram que ela “ia acabar dormindo uma hora”), crises de ansiedade, taquicardias, retenção de líquidos e distúrbios na fala.

      Também não seria o meu método de escolha.

      Cirurgia bariátrica?

      Conheço quem tenha feito. A pessoa só pode comer em cada refeição o equivalente a três copinhos de cafezinho daqueles bem pequenininhos, pelo resto da vida. Caso contrário, sente dores e vomita tudo, ou acaba alargando o estômago de novo e voltando a engordar, ou acaba arrebentando o estômago e tem que sofrer uma cirurgia de emergência ou morrer de um modo nada agradável. Se o sujeito não tinha disciplina antes da cirurgia bariátrica, de um momento para o outro ele vai ter que ter disciplina na porrada ou se arrebentar feio. E terá essas limitações para o resto da vida, tornando-se dependente de suplementos alimentares (porque não consegue comer o suficiente para ter uma dieta saudável) e de exames laboratoriais freqüentes, porque vive tendo anemias.

      Definitivamente, não seria o meu método de escolha.

      O que sobra?

      Hipótese 1: levar Dona Maria para o SPA do Arthur. [Gargalhada cavernosa ao fundo.] Eu faria a Dona Maria emagrecer sem precisar de médicos ou nutricionistas, pode ter certeza disso. Infelizmente, o tanto que eu economizaria com o salário dos médicos e nutricionistas eu teria que gastar depois com o salário dos advogados. Então, deixa quieto.

      Hipótese 2: a técnica do Dr. Nikolas Chugay – costurar uma telinha sobre a língua da Dona Maria e fornecer-lhe um shake nutritivo porém hipocalórico por trinta dias.

      Dona Maria termina esses trinta dias 20 kg mais leve. Está com 140 kg agora. Já consegue ir até a padaria para se entupir de pão com mais facilidade.

      Volta para a clínica do Dr. Nikolas Chugay com 150 kg. Faz de novo o processo e fica com 130 kg.

      Volta para a clínica do Dr. Nikolas Chugay com 140 kg. Faz de novo o processo e fica com 120 kg.

      Volta para a clínica do Dr. Nikolas Chugay com 130 kg. Faz de novo o processo e fica com 110 kg.

      Volta para a clínica do Dr. Nikolas Chugay com 120 kg. Faz de novo o processo e fica com 100 kg.

      Loucura?

      Até este ponto Dona Maria perdeu 60 kg e para fazer isso levou 30 pontos na língua e gastou 5 pedacinhos de tela com uns 5 cm² cada um, mais cinco anestesias locais na língua.

      Neste ponto, a vida dela está completamente diferente.

      Ela consegue se deslocar com facilidade, percebe uma mudança muito significativa e está em condições emocionais de entrar em uma academia para entrar em forma ao invés de apenas emagrecer.

      E ela já passou bastante tempo com uma tela costurada na língua para aprender a valorizar uma alimentação saudável e começar uma reeducação alimentar.

      Se eu tivesse que escolher entre passar por tudo isso e fazer uma cirurgia bariátrica, eu não pensaria por mais que dois segundos para escolher a técnica do Dr. Nikolas Chugay.

      Sério.

    2. Peraí, peraí. Eu entendi o que quiseste dizer, mas este procedimento é um tratamento e pode ser uma solução ou pelo menos fazer parte de uma solução.

      Escrevi uma resposta longa demais… Vou postar como segunda parte deste artigo.

  2. Sou da seguinte opinião: depois de um estudo feito por outros profissionais, segundo um método bem estabelecido e uma verificação de resultados comparativos, e que demonstre que o procedimento é eficaz, não é lesivo, apresenta efeitos colaterais contornáveis ou solucionáveis e levando a opinião dos pacientes submetidos em consideração, posso mudar o meu posicionamento atual, que é de observador divertido. Depois da Ritalina na merenda, até prova em contrário, tudo pode ser pegadinha.

    1. Ritalina na merenda? Essa eu não tinha ouvido falar!

      Eu acho a técnica do Dr. Nikolas Chugay bem plausível. A lógica é a mesma da cirurgia bariátrica: uma barreira física à ingestão de alimentos. Por que não funcionaria?

      Mas gostei do termo “observador divertido”. Tenho que aprender a assumir essa posição com mais freqüência. Afinal, para que me estressar?

    2. Porque gordo que é gordo come a telinha.

    3. Por isso ela tem que ser costurada na língua. 😉

  3. Ritalina na merenda?? Yay \o/

    1. Senta ali, Cláudia! Grunf!

  4. Comparem o preço de um tratamento com cirurgia bariátrica ou endocrinologista com o preço do tratamento com a telinha e descobrirão a motivação do médicos. Vejam a audiência recente do Fantástico e descobrirão a motivação da Globo.

    1. Como é mesmo aquela frase famosa?

      “Tu o disseste!”

      🙂

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