Invasões partidárias – como proteger os partidos e preservar a democracia

Repito: a ingenuidade na política é uma fórmula garantida de fracasso. No artigo anterior eu mostrei como uma “democracia total em todos os níveis” destrói a democracia. Neste vou mostrar como uma estrutura aparentemente não democrática na verdade pode ser a última linha de defesa da democracia. 

Conselho Jedi
Ao longo do artigo você vai sacar o que essa imagem do Conselho Jedi está fazendo aqui.

Eu confesso que não estava totalmente convicto de minha própria linha de raciocínio até que li o seguinte comentário sobre o artigo anterior: 

“Resumindo: a coisa se degrada por que as pessoas conseguem ‘invadir’ e dominar numericamente o partido, mas não é esse o ideal da democracia? Onde as pessoas conseguem entrar num partido e fazer valer seu ponto de vista? 

Estranho seria se o grupo que fundou o partido conseguisse manter a linha original mesmo em detrimento dos filiados… Isso não é democracia.” 

Quando li isso eu tive absoluta certeza de que minha linha de raciocínio original estava correta. E respondi o seguinte: 

Não, não é esse o ideal da democracia. Esse é o ideal da ditadura do proletariado, em que somente a maioria tem voz e é capaz de calar a minoria em todas as instâncias. 

O que tu chamas de “estranho” é justamente o que deve acontecer para que a diversidade de ideologias se mantenha e possa ser colocada à disposição do povo para apreciação. ISSO é democracia. 

Nunca será demais enfatizar isso: a diversidade de pensamento é um pressuposto básico da democracia. Em um ambiente onde a maioria das pessoas politicamente ativas possui uma mesma ideologia, todo partido político será invadido e convertido pelo poder dos números à ideologia da maioria. Portanto, para que possam sobreviver às invasões e preservar suas linhas ideológicas e éticas e em última instância a própria democracia, os partidos políticos precisam impedir ativamente que seus adversários ideológicos os invadam e eliminem a diversidade de pensamento. E não é através de programas e estatutos que isso pode ser feito, por mais que estes sejam muito bem escritos. 

Programas e estatutos não têm poder algum e não garantem nada. Eles podem descrever princípios, objetivos e métodos, mas não deixam de ser apenas palavras escritas, cujo único alcance é descritivo.  Quem pensa e age de fato são pessoas, independentemente do que consta nos documentos. Sem um grupo de pessoas que guardem de fato os princípios, objetivos e métodos programáticos e estatutários, com pleno poder para promover as ações necessárias para esta finalidade, palavras e mais palavras são e serão sempre inúteis.

É o caráter e o proceder de tais guardiões que estabelece de fato como uma instituição se comporta e como evolui, para o bem e para o mal

Isso é tão importante que vou repetir em destaque: 

Leis, decretos, portarias, regulamentos, acórdãos, jurisprudências, programas e estatutos são apenas palavras escritas. Se uma instituição confia em palavras escritas para preservar sua identidade e seu proceder, mais cedo ou mais tarde acontecerá uma entre seguintes possibilidades: ou as palavras serão reescritas, ou as palavras serão ignoradas e a instituição será gerida e se comportará de acordo com a cultura predominante, ou as palavras serão interpretadas por um grupo de invasores de modo distorcido e conveniente para os próprios propósitos deles. 

O único modo de garantir que uma instituição se mantenha nos trilhos, conforme pretendido por seus fundadores e apoiadores sinceros, é mantê-la sob o controle de um grupo de guardiões, pessoas tão íntegras e determinadas que sejam capazes de manter o grupo coeso e a instituição funcionando rigorosamente comprometida a manter seus princípios, objetivos e métodos acima de qualquer benefício pessoal e conveniência política ou econômica de curto prazo. E isso só é possível se esse grupo for pequeno, auto-gerido e auto-depurativo. Grupos grandes são fáceis de invadir, fáceis de desencaminhar e difíceis de depurar.

Obviamente, o verdadeiro nível ético e os objetivos e métodos de tal grupo se refletirão em toda estrutura e funcionamento da instituição. 

Para entender como funciona esta lógica, vejamos o caso de uma instituição conhecida por todos: uma empresa familiar.

A composição da diretoria de uma empresa familiar em geral não está aberta à discussão por indivíduos não pertencentes à família dos fundadores. Por mais que a empresa cresça, ao menos na primeira geração é certo que ela será sempre comandada pelos sócios fundadores e seus parentes próximos. E a segunda geração é que decidirá, ela mesma, se prosseguirá no comando ou se profissionalizará a gestão. Para o bem e para o mal, é a família dos fundadores que determina a filosofia de gestão e os rumos da empresa. 

Se você não faz parte da família, você não tem qualquer obrigação de se ligar à empresa. Você pode se candidatar a um cargo ou função e pode ser aceito ou não. Se você for aceito, já estará sabendo que dificilmente será chamado a compor a diretoria, ainda que isso possa de fato acontecer, e que terá que seguir a filosofia de gestão que a família dos fundadores determinar. 

Se a família for honesta, competente e trabalhadora, a empresa vai crescer, você vai crescer junto e todos viverão felizes para sempre, the end. Mas se você descobrir que entrou em um ninho de mafiosos, incompetentes e relapsos, a empresa vai afundar, você vai dar o fora e pouco importa o que acontecer com eles, a sua vida continua.

Você compreende o paralelo? Se o caráter dos guardiões é bom, você pode ter um ótimo relacionamento com a instituição gerida por eles, desde que tenha afinidade com a filosofia deles. Se o caráter deles é ruim, ou se você diverge da filosofia deles, você simplesmente não precisa ter qualquer relacionamento com a instituição gerida por eles.

O problema, evidentemente, são as instituições geridas por indivíduos de mau caráter ou com filosofias intoleráveis das quais você não pode se afastar de modo livre e voluntário. Este é o caso das oligarquias que dominam Estados nacionais ou partes deles, pois os cidadãos não têm escolha de participar ou não dos Estados nacionais ou territórios em que nascem. Mas os partidos políticos em nações democráticas são instituições de adesão livre e voluntária e só chegam a gerir Estados nacionais democráticos porque o povo destes Estados assim decide, através do voto,  e pode mudar de idéia a qualquer momento. 

Assim como o fato de a composição da diretoria de uma empresa familiar não estar aberta a discussão por terceiros não pertencentes á família garante a gestão da empresa segundo a filosofia da família, também o fato de a composição do grupo dos guardiões de um pequeno novo partido não estar aberta a discussão por indivíduos não pertencentes ao grupo de fundadores e seus indicados garante a manutenção da linha ideológica e ética da sigla conforme o pretendido pelo grupo de fundadores e por todos aqueles que apóiam a linha ideológica e ética dos fundadores. 

Assim como você pode se candidatar a um cargo ou função em uma empresa sabendo que terá que seguir a filosofia administrativa da empresa, sem a possibilidade de reunir um grupo de funcionários e exigir dos diretores da empresa que sejam substituídos por representantes dos funcionários, que imporão uma nova filosofia à empresa, também você pode aderir a um pequeno novo partido político sabendo que terá que seguir a linha ideológica e ética dos fundadores, conforme mantida pelos guardiões, sem a possibilidade de reunir um grupo de correligionários, substituir os dirigentes e impor uma nova ideologia ou padrão de atuação à sigla. 

Assim como você pode escolher livremente no mercado adquirir mercadorias ou produtos os mais diversos, produzidos pelas mais diversas empresas, com as mais diferentes filosofias de produção e atendimento ao cliente, porque cada uma delas mantém um propósito específico, ao invés de todas decidirem vender cachorro-quente, também você poderá escolher livremente nas urnas os representantes das mais diversas ideologias e filosofias de governo, porque cada novo pequeno partido será capaz de manter sua identidade, sua ideologia e sua linha de ação, livres do fenômeno de invasão partidária e homogeneização das pequenas siglas, graças ao controle exercido pelo grupo de fundadores e guardiões de cada sigla. 

Resumindo, então: 

– a democracia depende da manutenção da diversidade entre as siglas, para que o povo possa escolher entre elas; 

– uma sigla que institua “democracia total em todos os níveis” acabará invadida e rapidamente descaracterizada; 

– uma sigla controlada por um pequeno grupo de guardiões de sua ideologia e de seu proceder ético manterá suas características por um longo período

Mas atenção: agora que já descrevi a idéia, quero deixar bem claro que esta é uma solução do tipo “não resta outra alternativa”. Sua grande virtude é ser realista, mas ela decorre de uma triste constatação. 

O ideal seria, obviamente, que pudéssemos ter uma ótima democracia interna em todas as siglas. Mas isso só seria possível em um ambiente em que a esmagadora maioria da população, especialmente da população politicamente ativa, valorizasse verdadeiramente a ética. Não é este o caso no Brasil há muito tempo.

Nós não vivemos em um país em que a cultura considera abjeto, indecente e intolerável ingressar em um partido de cuja ideologia discordamos para seqüestrar sua estrutura a duras penas construída. Aquilo que seria impensável em uma nação civilizada aqui nem sequer desperta repulsa, indignação ou mesmo surpresa. Muitos consideram essa possibilidade como “parte do jogo” e chegam ao ponto de achar errado tomar alguma medida para impedir que isso aconteça: “faz parte da democracia”, dizem eles. E isso é de fato o que eles fazem. 

Se a invasão e o seqüestro de toda uma estrutura partidária não tivesse acontecido perante meus próprios olhos – se eu mesmo não tivesse sido expulso de uma sigla que ajudei a construir pelos invasores que a tomaram de assalto – eu não teria me afastado da política por mais de duas décadas e não teria gasto os últimos quatro ou cinco anos pensando em uma fórmula para evitar que isso acontecesse de novo. 

E se você duvida da pertinência ou da desejabilidade do método que eu descrevi, você só precisa verificar a composição de forças no Congresso Nacional ao longo da maior parte dos últimos doze anos: todas as pequenas siglas fazem ou fizeram parte da base aliada do governo federal pela maior parte deste tempo. Não há diversidade ideológica, a ética está morta e o fisiologismo impera. 

Mas eu ainda preciso alertar mais uma vez: a ingenuidade na política é uma fórmula garantida de fracasso. A mesma estratégia de estabelecer um grupo de guardiões pequeno, auto-gerido e auto-depurativo para controlar uma sigla e garantir sua pureza ideológica e seu proceder ético pode ser usada pelos piores canalhas para construir uma organização-marionete em benefício próprio. Não é a estratégia em si mas o caráter e o proceder dos indivíduos que compõem o grupo de guardiões que determinará o caráter e o proceder da sigla.

É, meus caros… Democracia em época de degeneração moral e cívica tem que usar colete à prova de balas. O tempora! O mores! 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 30/04/2014 

31 thoughts on “Invasões partidárias – como proteger os partidos e preservar a democracia

  1. Fabiano Golgo

    30/04/2014 — 10:41

    Essa teoria é um convite ao despotismo. No entanto, não serve como teoria universal, pois a democracia funciona muito bem, obrigado, em vários países europeus onde vários partidos dividem o poder (coligações de ideologias opostas é prática comum, inclusive) e onde há, evidentemente, bastante democracia na estrutura interna dos partidos. Ou seja, o problema está no brasileiro. Em nossa cultura egocentrista, em nossos conterrâneos tapuias. O problema de qualquer cultural empresarial ou partidária no Brasil é que nossa personalidade nacional sempre leva ao jeitinho, ao nepotismo e à corrupção. Enquanto isso não mudar, deixar um partido sob o poder quase exclusivo de um indivíduo é tão perigoso quanto dividir esse poder entre muitas pessoas. E um adendo: político decente não segue cegamente o seu partido, vota com a consciência. É disso que precisamos: mais políticos independentes, que prezem sua biografia, com senso de estadismo.

    1. Esse modo de pensar inviabiliza a formação de qualquer partido decente. Mas mantenho desconforto em relação ao artigo do Arthur. Não me agrada a ideia de necessitar de déspotas esclarecidos.

    2. OK, vamos por partes.

      1) Não, eu não fiz nenhum convite ao despotismo, eu fiz uma defesa da democracia. Despotismo é o que acontece hoje, em que a ideologia da maioria invade todos os partidos e elimina todas as vozes divergentes. Um tipo bem conhecido de despotismo: ditadura do proletariado.

      Infelizmente, no Brasil só se reconhece como nazista o sujeito que usar a suástica e berrar “Heil Hitler!”, só se reconhece como fascista o sujeito que repetir o bordão “tudo dentro do Estado, nada fora do Estado” e tiver um broche com um fasces na lapela, só se reconhece como comunista o sujeito que andar com camiseta vermelha com estampa de foice e martelo e idolatrar Marx, Lênin, Stálin e Mao. A verdadeira cara de todas estas políticas, entretanto, que é o que elas pregam e o que elas fazem quando detém o poder, ninguém enxerga, ninguém consegue distinguir mesmo quando elas estão explícitas.

      O Brasil é o país em que no final de toda reportagem o apresentador do Jornal Nacional diz “Fulano nega as denúncias”, como se isso tivesse algum significado, e isso cola.

      Precisamos aprender a enxergar um pouco além da superfície.

      A solução que eu apresentei para defender os partidos e a democracia não é a ideal, nem é a melhor. Eu mesmo disse isso no artigo: eu preferiria que vivêssemos em um ambiente onde isso não fosse necessário. Infelizmente, não vivemos. Infelizmente, é necessário.

      Como eu disse, esta é uma solução realista para que um partido possa se estruturar ao redor de uma ideologia sem correr o risco de ser tomado de assalto após anos de duro trabalho para construir uma sigla que em mais um ou dois anos terá sido invadida pelos esquerdistas e logo estará compondo a base aliada do PT.

    3. 2) Coligações de ideologias opostas é vergonhoso. Pouco me importa se isso é comum na Europa, isso não faz sentido. Eu reclamo que é uma vergonha termos PT e PP na mesma chapa – socialismo e liberalismo juntos – e vou achar isso certo só porque acontece na Europa? Não, né? Os europeus podem ter uma política menos avacalhada que a nossa, mas não são perfeitos. Não é porque algo errado acontece lá que deve ser considerado correto aqui.

    4. 3) Sim, o problema está no brasileiro. Neste aspecto concordamos. Se o brasileiro levasse a ética a sério, se visse uma coligação PT-PP e nunca mais votasse em nenhum dos dois, se votasse com conhecimento e por convicção ao invés de se enfileirar no curral eleitoral da bolsa-esmola, poderíamos ter partidos sérios, com perfil ideológico claro e uma direção de desenvolvimento consistente. Mas não temos.

      E é por não termos essa cultura que o brasileiro acha que está tudo bem se os esquerdistas entrarem em todo e qualquer partido novo, tomarem conta pela força dos números e calarem assim a voz de toda ideologia divergente da hegemônica. É “esperteza”. E “faz parte do jogo”.

      Aí fica difícil.

      Ou melhor, impossível.

    5. 4) Sim, um partido sob o poder de um único indivíduo é muito perigoso. Mas eu propus um grupo de guardiões, não uma pessoa só. Faz muita diferença.

      A questão, entretanto, é mais profunda: existe alternativa? Qual é a alternativa?

      “Políticos independentes, que prezem sua biografia, com senso de estadismo”, só podem ajudar se puderem surgir. Em um sistema em que todos os velhos partidos são fisiológicos e todos os novos partidos são e serão invadidos e convertidos a apêndices do PT, o que adianta ser um sujeito independente, honestíssimo, com uma visão política fantástica?

      Ninguém assim jamais terá chance de despontar como líder. Será sufocado pelos coitadistas na primeira convenção. Não concorrerá nem a vereador. Ficará pregando no deserto, porque todos os oásis serão convertidos em areia.

    6. Chegando finalmente ao comentário do Gerson.

      Déspotas esclarecidos não são problemáticos. O problema do sistema de despotismo esclarecido é que não existe mecanismo para substituir um déspota esclarecido por outro igualmente ou mais esclarecido. Um gênio compassivo e conciliador pode ser substituído por uma besta odienta e belicosa. O problema é, então, a sucessão.

      O sistema democrático supostamente deveria corrigir o problema da sucessão. Elegemos um déspota para mandar na gente por um período determinado, se gostarmos do jugo o reelegemos e se não gostarmos elegemos outro déspota para mandar na gente por outro período determinado. Ou seja, o que muda não é o fato de haver um déspota, é o fato de podermos trocá-lo a cada quatro ou cinco anos.

      Tanto isso é verdade que nossos presidentes, governadores e prefeitos não nos consultam sobre praticamente nenhuma obra ou programa de governo durante todo o tempo em que podem mandar. Não promovem debates nem encomendam pesquisas de opinião antes de decidirem o que vão fazer com nosso dinheiro, o qual nos tomam através de impostos. Eles só se preocupam com nossa opinião em época de eleição – e quase nunca cumprem o que prometeram, porque nem são obrigados a isso, nem deixamos de votar neles nas próximas eleições.

      Partidos com grupos de guardiões, como eu digo que é necessário ter, não mudam em nada essa lógica. Só permitem que pessoas com um perfil específico, diferente do hegemônico, possam se expressar e se oferecer como alternativa para uma população cansada de ter que escolher o menos pior a cada eleição.

  2. Você é chato. Ainda estou procurando falhas e/ou alternativas. De novo, não encontro.

    Mas você já participou de um partido? Qual? O PV como eu?

    1. Sim. Eu liderava um grande grupo de entusiastas por uma nova maneira de fazer política. Aí os caciques sem índio de um outro partido entraram no partido que eu tinha ajudado a construir, “ajudaram” o presidente do diretório estadual a pagar o aluguel de sua casa e ameaçaram o sujeito de cessar a “ajuda” se ele não me chutasse para escanteio em favor de um FDP que queria o meu cargo.

      Meu grupo de apoio se desmobilizou devido a uma estupidez cometida por um “amigo” meu, que teve um piripaque emocionalóide por ser contrariado durante a reunião que se seguiu a minha arquitetada expulsão e me surpreendeu saindo “em protesto” e assim arrastando a maior parte do grupo ao invés de ficar e lutar. Anos mais tarde, ele se filiou justamente ao partido de origem dos caras que me sacanearam e concorreu a prefeito em uma cidade próxima de Porto Alegre, eleição em que teve a candidatura cassada a dois dias do pleito por ofender um oficial de justiça e um juiz eleitoral em outro piripaque emocionalóide por ser contrariado.

    2. Eu também procurei falhas e alternativas e não encontrei. Espero que surja alguma alternativa, mas não tenho muita esperança, ao menos não no atual ambiente cultural.

  3. “Em um ambiente onde a maioria das pessoas politicamente ativas possui uma mesma ideologia, todo partido político será invadido e convertido pelo poder dos números à ideologia da maioria.”

    Mas as pessoas que se filiam a um partido não podem se filiar a outros. Então, desde que os dirigentes de partidos que representam minorias, aceitem o fato que serão líderes de partidos nanicos. Não vejo essa invasão como um problema recorrente, a menos que estimulado pelos próprios fundadores do partido.

    Hoje quem faz o papel dos guardiões propostos no texto são os caciques dos partidos. Se a ética imperasse a ponto de conseguirmos escolher tais guardiões e eles serem aceitos por todos, então eles não deixariam de ser necessários?

    1. De novo, vamos por partes.

      1) Tu crias um partido, o “Partido Andrezista”. Aí um monte de Arthuristas se filiam neste partido e na priemira convenção aprovam somente indivíduos arthuristas para os cargos dos diretórios e para concorrer nas eleições.

      Tu entras com uma representação no Conselho de Ética do partido e os arthuristas que tomaram conta do Conselho de Ética te dão uma banana. O mesmo acontece em qualquer outra instância partidária a que recorras.

      Então tu entras na justiça comum e a justiça comum te diz que tudo foi feito de acordo com o estatuto e que não lhe cabe julgar ideologias. Fim de jogo, foste chutado do partido que criaste.

      Entendeste agora qual é a dinâmica a que me refiro e por que é necessário preservar o poder na mão de um grupo de guardiões confiáveis?

    2. 2) Eu não falei em escolher os guardiões. Eu falei em fundar um partido e manter o controle de sua linha ideológica e ética nas mãos dos fundadores e de pessoas por eles indicadas, formando um grupo de guardiões que defenderá a identidade e o proceder do partido segundo as diretrizes originais. Se os guardiões fossem eleitos, cairíamos no mesmo problema de invasão e desencaminhamento, só que desta vez através do grupo de guardiões… Que não guardariam coisa nenhuma.

      Os caciques que hoje atuam como guardiões só guardam seus próprios interesses. Se não fosse assim, não atuariam de forma velada, escondendo ao máximo a verdadeira cara do controle que exercem em meandros complexos do estatuto e da burocracia partidária.

      Quando eu falo em guardiões eu falo em gente que encarna abertamente a identidade e o proceder do partido. São pessoas que se dão a conhecer publicamente para que o público as julgue e assim ao partido. São pessoas que precisam saber que serão alvo de todo tipo de calúnia, injúria e difamação, que serão alvo de todo tipo de canalhice e de manobras de assassinato de reputação as mais sórdidas imagináveis e inimagináveis, e que deverão enfrentar cada uma destas monstruosidades como alimento para sua determinação de construir um país em que isso seja posto à luz, reconhecido como a abominação que é, rejeitado vigorosamente e nunca mais repetido.

      Guardião não é flanelinha ilegal, que se esconde no meios dos carros quando vê o “rapa” chegar. É tarefa para um tipo raro de pessoa.

    3. Guardião chama o jogo pra si. Marcha na frente. Tem um alvo no peito. É isso?

  4. E também não creio que em qualquer sociedade seja fácil escolher os tais guaridões, principalmente na nossa. No episódio recente do Daniel Alves e da banana, apareceram um monte de “intelectuais guaranikaiowás altamente éticos e conscientes” tentando desqualificar as pessoas, inclusive os negros, que participaram da campanha derivada do gesto do Daniel Alves. Inclusive apelando para o fato do Daniel Alves não ser liderança do movimento, não ter lido certos autores e livros, etc.
    PS:
    1) Achei o gesto do Daniel Alves sensacional, principalmente por ter sido feita no calor do momento e sem planejamento.
    2) Achei ridícula a participação de certas celebridades na campanha.
    3) Achei bobinha a campanha da banana.

    1. De novo: eles não serão escolhidos, eles escolherão. O paralelo não foi a formação de uma cooperativa, foi a formação de uma empresa familiar, hierárquica.

    2. O gesto do Daniel Alves eu não sei se foi espontâneo, porque se isso acontece com uma certa freqüência, como dizem, ele e muitos outros jogadores poderiam estar apenas esperando uma oportunidade para realizar um ato já planejado.

      Mas a campanha da banana com certeza não foi espontânea, pois já havia até cenas gravadas previamente, apenas esperando a oportunidade certa.

      E é esse segundo fato que me faz desconfiar fortemente que o primeiro fazia parte dos planos e calhou de ser com aquele jogador naquele jogo, como poderia ter sido com vários outros jogadores em qualquer jogo.

  5. Interessante! Ficcional, mas interessante! Nunca fui adepto da ideia de devam existir donos da verdade, mas no contexto da postagem anterior é uma proposta no mínimo passível de análise. Uma proposta que seria apedrejada publicamente, mas que abriria uma discussão pertinente: “A democracia real é possível com as pessoas que existem?” Diria que é tão utópica quanto sua proposta! Cícero (foi ele, não foi?) perguntou “Quosque tandem?” e eu respondo: Até sempre!

    1. Pô, não é ficcional. E os guardiões não são donos da verdade, são protetores de uma ideologia e de uma linha ética. La garantía serán ellos, mas só comprará quem quiser.

      A esfera de poder destes indivíduos será interna ao partido. Entrará no partido quem quiser. Votará no partido quem quiser. Eles não terão nenhum poder que não lhes for conferido voluntariamente – menos ainda que um diretor de empresa familiar, porque no caso de uma empresa alguém ainda pode alegar que se submete à hierarquia por necessidade econômica, mas no caso de um partido nem mesmo isso acontece.

      E sim, é claro que a proposta será apedrejada. Afinal, é a única estratégia lícita que pode constituir uma oposição de fato hoje em dia. Será vilipendiada, ridicularizada e demonizada. Será difamada pela direita e pela esquerda. Quem a defender será comparado com desvantagem ao protozoário sobre o cocô da mosca sobre o cocô do cavalo do bandido e teria sua reputação lançada numa vala no fundo do Grand Canyon. Mas que alternativa existe perante o fenômeno descrito no artigo anterior?

    2. Estamos lidando com os invasores de corpos.
      Não podemos dormir de touca.

      .
      .
      .

      (Sim, eu sei, não posso viver de comédia stand-up.)

  6. Como é que isso funcionaria na prática? Eu fundo um partido com aqueles que acho competentes (os guardiões) e formo um “clubinho” fechado, deixando entrar só quem nós achamos que é bom o suficiente? Isso não seria antidemocrático? Digo, não seria talvez até proibido? (Não conheço a legislação que regula a formação de partidos). E além disso, essa ideia não formaria um partido impopular, antipático?

    1. Vamos por partes.

      1) Não, filtrar no ingresso não é uma boa idéia. Ninguém seria capaz de conhecer adequadamente 190.000.000 de pessoas para decidir quem entra e quem não entra de modo justo. O razoável é remover da instituição os indivíduos que se demonstrarem alinhados com ideologias incompatíveis com as da instituição ou que violarem o código de ética da instituição. Fora isso, pouca necessidade há de intervir. Havendo instituições desprotegidas, poucos safados prefeririam arriscar a sorte invadindo uma instituição com guardiões alertas e implacáveis.

      2) Depende do que se chamar de “democrático”. Eu não sou contrário a um alto grau de democracia interna. Pelo contrário, eu afirmei que “o ideal seria, obviamente, que pudéssemos ter uma ótima democracia interna em todas as siglas. Mas isso só seria possível em um ambiente em que a esmagadora maioria da população, especialmente da população politicamente ativa, valorizasse verdadeiramente a ética. Não é este o caso no Brasil há muito tempo”.

      O problema é quando alguém usa a democracia para destruir a democracia, como consta no título do artigo anterior. Eu costumo dizer que a democracia só é boa quando não é necessária – ou seja, quando a maioria das pessoas já pensa e atua segundo os princípios que a democracia deveria defender.

      Quando a maioria das pessoas não respeita estes princípios – caso do Brasil hoje – então “democracia total em todos os níveis” é pervertida e transformada em uma ferramenta para eliminar a própria democracia.

      Então… Por um lado, um grupo de guardiões como descrito não é imediatamente democrático, por outro lado, um grupo de guardiões como descrito pode ser a única garantia de que a diversidade ideológica possa ser preservada para ser apresentada e julgada pela população, o que é altamente democrático.

      3) Não, isso não é proibido. Os partidos têm plena liberdade de organização. Se algum partido quiser se constituir assim, não há impedimentos.

      4) Sim, seria antipático. As pessoas julgam o livro pela capa. Seria um trabalho hercúleo explicar para cada crítico a razão de ser deste tipo de organização. E os adversários apostariam o tempo todo na irracionalidade e na emoção para atacar com frases de efeito como “isso aí é desculpa de ditador enrustido” seguidas de gargalhadas e gritarias. Isso são favas contadas. Faz parte do ambiente de fracasso em que vivemos. (Vou postar alguns conceitos sob a categoria iluminismo nos próximos dias, um dos quais será o que é um ambiente de fracasso.)

  7. Seu raciocínio me fez lembrar, logo de cara, do STF, “invadido” por “guardiões” que interpretam as leis de um modo que seja conveniente àqueles que os colocaram lá.

    1. Recordando o que eu disse no artigo:

      “É o caráter e o proceder de tais guardiões que estabelece de fato como uma instituição se comporta e como evolui, para o bem e para o mal.”

      O problema do STF não é o fato de ser composto por guardiões da lei – este é seu papel constitucional – e sim o caráter e o proceder de seus componentes.

  8. Não adianta criar partidos e chegar ao poder e não acabar com essa hegemonia esquerdista. Se Aércio ganha ou qualquer outra bosta anti petista não vai durar muito no poder enquanto não desaparelhar essa praga de todas áreas, escolas, faculdades, sindicatos,estatais. Primeiro acabar com essa hegemonia cultural esquerdista.

  9. Eles aparelharam até o STF.

    1. Isso, o STF que foi rigoroso com os tucanos e leniente com os petistas.

  10. Esse filmo star wars retrata bem como é feita as revoluções por cima hoje, o lord lá sei lá, Sauron gerou o problema insuflando conflitos e depois culpou os Jedi pela crise e subiu ao poder sobre o pretexto de precisar medidas anti democráticas para por ordem na república de uma desordem que ele mesmo criou.

  11. Como?

    ocupação de espaço, o mesmo que a esquerda fez, só que o inverso. Só que isso demora alguns anos.

    1. Não funciona.

      Sabe o Google Plus? O Google Plus foi a tentativa da Google de ocupar o espaço que o Facebook já tinha ocupado.

      Não se pode combater um concorrente na área em que ele é melhor que nós. E a esquerda, devido a sua ideologia coletivista, é a campeã insuperável da ocupação de espaços.

      O centro e a direita, juntos ou separados, jamais terão sucesso em combater a esquerda usando a mesma tática que ela usa. Aliás, usar uma tática coletivista já é ceder espaço à esquerda.

      A direita poderia ter alguma chance de combater a esquerda se conseguisse desenvolver solidariedade universal, que é sua principal carência. Não aquela pseudo-solidariedade da “caridade voluntária”, mas uma solidariedade profunda, institucional, programática, ética, sincera, da qual tivesse orgulho.

      Mas aí a direita se converteria no centro. 🙂

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