O Brasil é um pântano

Volta e meia alguém me pergunta por que eu abandonei a carreira acadêmica após terminar o mestrado, por que eu não leciono mais, por que abandonei o serviço público, por que eu ainda não abri minha própria empresa e quais os meus planos. Vamos à história da minha vida, então. 

Eu decidi fazer o curso de licenciatura em biologia por puro prazer intelectual, mas no meu estágio probatório de graduação eu dei aula para uma turma de segundo ano do segundo grau (hoje “ensino médio”) no período noturno e aquilo fez minha carreira como professor acabar antes mesmo de começar.

Quando um aluno me perguntou “para que serve saber o que são mitocôndrias, ribossomos e retículos endoplasmáticos?”, eu respondi com toda a sinceridade: “para passar de ano e ter um diploma de segundo grau para conseguir emprego ou para passar no vestibular, mais nada”.

Ora, aquele tinha sido precisamente o meu questionamento quanto a todos os conteúdos que eu tinha visto no segundo grau. Incrivelmente, eu gostava tanto de estudar biologia que foi somente no último semestre da faculdade que eu percebi que lecionar aquilo em nível de segundo grau seria reproduzir o sistema absurdo que eu tanto criticava. Decidi, então, direcionar minha carreira para a pesquisa.

Após a graduação, a porta de entrada para o mundo acadêmico-científico costuma ser um curso em nível de pós-graduação. Então, no dia seguinte a minha formatura, eu prestei as provas de seleção para o ingresso no mestrado em ecologia.

Logo no início do mestrado descobri que a primeira grande dificuldade de quem deseja fazer ciência séria e relevante é obter financiamento para pesquisa. Minha dissertação de mestrado teve que ser 100% financiada por mim mesmo, porque avaliava ações do Poder Público e ninguém queria se incomodar.

Salários comparados
O dinheiro, como todos sabem e muitos tentam tapar o sol com a peneira, é a medida de valorização universal. Aquilo que é mais valorizado é mais precificado, aquilo que é menos valorizado é menos precificado. Do mesmo modo, aquilo que é mais valorizado é mais financiado, aquilo que é menos valorizado é menos financiado.

Esse foi um dos dois principais motivos pelos quais eu abandonei a carreira acadêmica: eu percebi que fazer ciência séria seria viver mendigando esmolas se quisesse fazer algo de real utilidade e impacto, enquanto que colegas que faziam dissertações de prateleira recebiam financiamento fácil de órgãos públicos e de empresas privadas. 

O segundo principal motivo foi perceber que os critérios de sucesso dentro da carreira acadêmica estão muito mais ligados à sociologia da ciência (eufemismo para “quem é amigo de quem e quem puxa o saco de quem”) e à produtividade bruta (número de publicações) do que à qualidade e à relevância da pesquisa.

Antes de desistir completamente da carreira acadêmica eu ainda lecionei em nível de pós-graduação. Alguns alunos me questionaram como era a carreira de pesquisador e de professor universitário. Eu falei para eles sobre a dificuldade de obter financiamento para a minha dissertação de mestrado, sobre os bastidores sociais da ciência e sobre o contra-cheque de um professor universitário. Todos eles disseram que, se era assim a coisa, não tinham interesse. Pois é, eu também não. 

Tendo desistido da carreira acadêmica e do magistério, prestei um concurso público e comecei a trabalhar como técnico. Tornar-me funcionário público foi, sem dúvida alguma, a pior decisão da minha vida, o meu maior erro, aquilo do que eu mais me arrependo. Se alguém aí encontrar o gênio da lâmpada, por favor, me mande de volta para o ano 2000 com uma cópia deste blog em disquete no bolso.

No serviço público eu descobri que todos os estereótipos sobre o funcionalismo público são verdadeiros. No serviço público há meia dúzia de pessoas que são sérias e produtivas para cada centena de parasitas e politiqueiros que deveriam ser atirados para as piranhas. Pouquíssimos são os que querem fazer algo mais além de ganhar seu salariozinho no final do mês sem se incomodar.

O que mais me incomodou, entretanto, é que muitos foram os que me proibiram de resolver problemas fáceis de resolver, mesmo quando eu poderia resolver o problema sozinho, o que mostra que criar ou manter problemas para vender soluções ou pseudo-soluções é uma realidade ubíqua no serviço público e em seus bastidores políticos. Uma realidade com a qual eu não estava disposto a colaborar.

Depois de abandonar a pesquisa, o ensino e decidir abandonar o serviço público, estudei diversas alternativas para me lançar na iniciativa privada. Deparei-me então com o excesso de regulamentações, taxas e impostos, a burocracia, as exigências estúpidas ou mal intencionadas, a corrupção, os abusos da legislação trabalhista e a concorrência desleal. Até que finalmente encontrei um amigo disposto a fazer uma parceria em um negócio que poderia ser muito lucrativo para os dois. 

Vendemos nossa casa, eu comprei os materiais, comprei os equipamentos, paguei mão-de-obra para construir uma estrutura e implantar o negócio, deixei tudo sob supervisão do meu amigo até que eu pudesse largar o serviço público. Estive doente, depois tive que lidar com doença na família, até que finalmente pude largar o emprego e me mudar de cidade para tocar nosso negócio.

Então, ainda com a saúde abalada, eu encontrei a estrutura desmanchada, o negócio parado, o material perdido e a maioria dos equipamentos destruídos. As condições que tínhamos combinado já não podiam ser mantidas e eu teria que me submeter a condições precaríssimas de alojamento ou ter uma série de custos extras se quisesse tocar o negócio.

Resumindo: a pesquisa científica é uma eterna mendicância, a vida acadêmica é uma panelinha de vaidades produtora de insignificâncias, o magistério não tem sentido, o serviço público é um elefante branco, a iniciativa privada é um atleta engessado e os amigos acabam sendo quem nos abre os olhos para a vida como ela realmente é. Um ambiente assim é um pântano. 

Pensei em organizar um movimento e até um partido político para tentar fazer alguma coisa pelo meu país, mas não encontrei correligionários em número suficiente. A maioria das pessoas prefere reclamar, dizer que “alguém tem que fazer alguma coisa” e esperar o pântano secar sozinho, para a conveniência delas, o que obviamente não vai acontecer. 

Então… Cá estou eu investindo neste blog as últimas gotas de esperança de encontrar colaboradores para uma Revolução Iluminista e já avaliando a possibilidade de migrar para um solo mais firme se isso não rolar e principalmente se os brasileiros não trocarem o governo federal já nas próximas eleições. 

C’est la vie

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 21/05/2014