Uma coisa interessantíssima sobre o cérebro humano é que ele possui um senso natural de lógica. A deseducação e a incultura podem perturbar bastante o funcionamento normal do cérebro, mas o senso natural de lógica é bastante resiliente.

Cérebro lógico

Estimulado pelas perguntas certas, o senso natural de lógica do cérebro humano tende a funcionar bem mesmo depois de muita deseducação. Ele é tão poderoso que, quando ativado, precisa ser ativamente suprimido para que uma afirmação obviamente falsa seja afirmada como verdadeira e vice-versa.

Interessantemente, o esforço necessário para suprimir o senso natural de lógica é tão grande que, com exceção dos psicopatas e dos mais rematados canalhas, a maior parte das pessoas muda de humor e de comportamento quando é conduzida a pensar logicamente em direção a uma conclusão a que ela não deseja chegar. 

Isso acontece justamente porque todo ser humano sabe que o outro também possui um senso natural de lógica e que aquilo que ele percebe ser absurdo o outro também percebe ser absurdo. Não é fácil para alguém com algum senso de moralidade assumir que pretende manter uma convicção errada sem ficar irritado. (Por isso os psicopatas e os canalhas não se abalam muito: seu senso de moralidade é nulo ou ínfimo.) 

Esse fenômeno costuma ser fácil de detectar em conversas sobre religião, política e futebol, ou outros assuntos nos quais paixões irracionais e argumentos indefensáveis se sobrepõem à lógica. Para que pessoas com paixões religiosas, políticas e futebolísticas se irritem, basta convidá-las a defender suas crenças de maneira lógica e racional, com base nas evidências. Muitas ficarão irritadas pelo simples fato de lerem este parágrafo – porque elas sabem que isso é verdade e esse conhecimento lhes é desconfortável ou mesmo doloroso. 

Há uma teoria que diz que as pessoas se apegam a idéias irracionais porque constroem sua identidade em função destas idéias, sentindo algo tão terrível quanto uma espécie de morte em vida caso estas idéias se mostrem erradas. 

Eu particularmente acho que isso é uma maneira pouco precisa de relatar um fenômeno biológico: quando um indivíduo não é ensinado a pensar logicamente durante a fase de organização ideofuncional primária do neocórtex – aquela que os psicólogos chamam de “fase de formação do superego” – só o que sobra para servir de subsunçor (“alicerce”) para dar suporte a novos conhecimentos e métodos de raciocínio são idéias fixas; quando estas idéias fixas são desconstruídas, o próprio senso natural de lógica do cérebro humano o faz perceber que construiu todas as suas estratégias de sobrevivência com base em informações erradas, o que o deixa numa situação de completa falta de referencial, o coloca em extremo perigo e é aterrorizante. O medo de estar perdido explica a negação.

Já quando um indivíduo é ensinado a pensar logicamente desde a fase de organização ideofuncional primária do neocórtex, ele forma um subsunçor plástico (“maleável”) virtualmente indestrutível, porque permanentemente adaptável; quaisquer falhas detectadas em sua estrutura de conhecimento ou raciocínio acionam a diretiva primária de autocorreção com base em evidências e coerência. Noutras palavras, o que cai é só uma parte do corpo de conhecimentos, o que pode ser inconveniente e desagradável, mas não é incapacitante e não o deixa sem referenciais, uma vez que a própria evidência que demoliu uma parte do referencial anterior já constitui um novo referencial. Para quem pensa logicamente, é impossível ficar perdido.

Não deixa de ser uma ironia que a estrutura mental mais sólida seja justamente a mais maleável, e que a absoluta adesão a uma regra torne mais fácil e eficaz a adaptação a um mundo em constante mutação, mas quando se trata da lógica e da manutenção da coerência perante as evidências este é precisamente o caso.

Aqueles que tentam provar o contrário afirmando que “nem tudo no ser humano é lógico” caem imediatamente em irrecorrível contradição: se isso é verdadeiro, então qualquer coisa que eles disserem depois disso é incerto; se nada do que eles disserem depois disso é incerto, então isso não é verdadeiro.

A lógica é um caminho estreito, porém livre, para além de cujas margens há um pântano imenso em que é impossível avançar.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 13/05/2014

7 thoughts on “O senso natural de lógica do cérebro humano

  1. Há uma teoria que diz que as pessoas se apegam a idéias irracionais porque constroem sua identidade em função destas idéias, sentindo algo tão terrível quanto uma espécie de morte em vida caso estas idéias se mostrem erradas.

    O desconfortável sentimento de sair da Matrix. Enquanto uns nascem em Sião e outros são resgatados da Matrix, o restante continua a ser escravo para o resto da vida.

    https://www.youtube.com/watch?v=pwO0cnSCWns

    1. Sim, esta cena para mim foi a mais marcante do filme.

  2. Só por curiosidade, já assistiu Matrix, Arthur? Um dos filmes [populares] mais fodas conceitualmente, na minha opinião.

    1. Assisti, mas foi numa madrugada no meio de vários outros filmes, então muita coisa acabou passando batida. Quero assistir de novo.

  3. Suscribirme si es gratuito

  4. …exPlicado esTá…

    1. É, né? Eles também.

      Ou principalmente. 🙂

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