Toda vez que eu ouvia alguém dizer que eu não tenho o direito de meter bala num criminoso que invade minha residência porque “a vida vale mais que a propriedade” eu me tapava de nojo e indignação, sentindo claramente que isso é uma completa perversão da ética, mas não sabia explicar bem o porquê. Hoje caiu a ficha. 

Em primeiro lugar, ninguém pode ser obrigado a aceitar ser vitimado para proteger um agressor. 

Em segundo lugar, se a vida do agressor vale mais do que a minha ou a sua propriedade, então ele que não se coloque em risco

Não se trata de “vida versus propriedade”, trata-se de não ser exigível de mim ou de você que sejamos vitimados e de o agressor, sabendo disso, não expor sua própria vida a risco, bastando para isso não agredir nem roubar ninguém.

O que é mais decente, razoável e desejável para uma sociedade? A punição de quem de comete crimes e a proteção de quem se defende ou a proteção de quem comete crimes e a punição de quem se defende? 

Portanto, pessoal, vamos parar com a hipocrisia e com a inversão de valores: ninguém pode ser obrigado a correr qualquer risco, nem a sofrer qualquer perda, para proteger quem o está agredindo ou roubando.

Quem não quer ser picado não dá tapas em vespeiro. 

Quem não quer levar bala não invade a casa alheia. 

Simples assim. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 17/05/2014 

28 thoughts on “A vida e a propriedade

  1. Tai mais um exemplo do tal “excesso civilizatório” que eu ainda vou expor em detalhes no meu blog.
    A vida de alguém vale o valor que este dá a ela. Se uma pessoa barganha a própria vida pelo celular do outro, ela está sinalizando qual valor dá a sua vida em relação ao celular do outro. Se o próprio dono da vida faz isso, quem sou eu pra discordar?

  2. A minha propriedade vale mais do que a vida de quem quer se apropriar indevidamente dela. O valor da vida de quem quer se apropriar indevidamente de minha propriedade já foi declarado pelo agressor quando se expôs.

  3. Não existe individuo sem propriedade privada, as pessoas tem que ter uma área só sua pra exercer sua intimidade e aprofundar seu pensamento no silêncio da sua solidão. A propriedade privada é o resultado de anos de esforço e a expressão do individuo.

    1. Rolando de rir aqui imaginando um cidadão explicando para um vagabundo que invadiu sua residência que não é correto invadir sua intimidade e perturbar sua reflexão silenciosa e solitária. 🙂

  4. Arthur,se olharmos pela perspectiva de que a propriedade privada é fruto do emprego de muito tempo da vida para conquista-la, podemos entender que atentar contra a propriedade alheia também é atentar contra a vida alheia.

    1. Isso, isso, isso. (Chapolin feelings.)

  5. (Esperar três respostas com as quais concordo só para fazer essa piada do Chapolin… Quero ver a reação do Gerson B…)

    1. 🙂 Pô, eu adorava o Chapolin (não o Chaves).

    2. Eu também preferia o Chapolin. Quem não lembra da jovem camponesa que vai todos os dias à floresta recolher lenha? 🙂

      Parangaricotirimírruaru!

  6. É verdade, mas acho que não precisa nem chegar até aí.
    Dizer que vc não poderia meter uma bala na cabeça de quem invade sua propriedade pq a vida vale mais do que a posse é uma falácia pq quem invade a propriedade, ao fazê-lo, coloca em risco quem está nesta propriedade – você e sua família, por exemplo.

    Ou alguém vai achar que o bandido que está invadindo a casa está fazendo numa boa, sem apontar uma arma para os seus filhos, por exemplo?

    Então, na real, a questão nem chega na propriedade: ao meter uma bala na cabeça de quem estiver invadindo sua propriedade, você está defendendo SUA VIDA e a dos seus. Logo, a comparação, se for PROPRIEDADE x VIDA DO BANDIDO é falsa. A comparação correta é: SUA VIDA x VIDA DE QUEM ARRISCA TIRAR SUA VIDA.

    A resposta é óbvia.

    1. Isso, isso, isso, isso.

    2. …poupa tempo 🙂 .

    3. …do Arthur. Aliás já deviam ter inventado um comando issador equivalente ao “curtir” do Facebook, indicando um viés mais cognitivo que simplesmente emocional.

    4. Quanto ao comentário vida x vida:

      Isso (5x).

    5. Quanto ao issador:

      Isso (6x).

    6. Daqui a pouco vou perder a conta e apelar:

      Isso (nx).

  7. Se um estranho invade sua casa creio que você possa supor que as intenções dele são as piores possíveis e reagir do modo que for possível. Mas suponha que você deixou sua motocicleta ligada enquanto abre o portão de sua casa, nesse meio tempo um larápio sobe em sua motocicleta, tenta partir com o produto do roubo e é impedido por uma azeitona no meio das costas. É legítimo?

    1. É 100% legítimo. Ninguém tem que aceitar ser vitimado, seja por uma agressão física, seja por um roubo, seja por qualquer outra violação de direitos.

      Em função do teu comentário eu fiz uma mudança no texto do artigo: onde estava escrito “bastando para isso não agredir ninguém” agora se lê “bastando para isso não agredir nem roubar ninguém”.

      O fato de a bala pegar o cara pelas costas é irrelevante. O cara está em flagrante delito, violando um direito, não vai parar com pedido de “licença, seu criminoso, o senhor pode fazer o favor de parar?” e não pode se beneficiar da alegação de uso imoderado de meios de defesa (para garantir o direito à defesa da propriedade, que é legítimo) só porque estava de costas, porque esse é o único meio disponível naquela situação para fazer parar a agressão (ao direito de propriedade). Se não havia meio mais moderado para fazer parar a agressão ao direito, então por definição este é o meio mais moderado.

      Isso, é claro, é o razoável e é o que está escrito na lei. Claro que não vai faltar quem exija que tu sejas vitimado e aceite isso para não causar danos ao coitadinho injustiçado vítima da sociedade que está roubando tua moto só para garantir o leite das crianças.

      Tem gente que só falta dizer que o vagabundo tem o direito de te roubar. E tem gente que nem isso falta.

    2. A bala nas costas só é relevante para deixar claro que o dono da motocicleta iria perder apenas um bem material, já que a intenção de fuga do meliante estava clara. Nesse caso temos, de fato, um confronto entre vida e propriedade. Tendo a acreditar na legitimidade do tiro proporcionalmente aos problemas que a falta do bem material acarretaria para a vítima, mas não tenho opinião formada sobre isso.

    3. Vida dele>, que ele decidiu expor a risco quando decidiu cometer crimes contra o patrimônio de terceiros.

      Como eu disse, ninguém é obrigado a aceitar ser vitimado para proteger a vida de um agressor em flagrante delito. Todos têm o direito à legítima defesa da vida e da propriedade.

      E, sendo um tiro o único método disponível para evitar a continuidade da ação delituosa e preservar o direito à propriedade, não pode ser alegado que o meio necessário para fazer cessar o ilícito foi imoderado ou excessivo.

    4. E se não for uma motocicleta? E se for uma bicicleta? Ou uma bola de futebol?

    5. Hehehehe…

      Lembrei daquela piada:

      – Você transaria comigo por um milhão de dólares?

      – Puxa, por um milhão de dólares, é claro que sim!

      – E por cinqüenta reais?

      – O que você está pensando que eu sou, uma puta?

      – Bem, isso a gente já definiu na pergunta anterior. Agora nós só estamos discutindo o preço.

      Isso responde a tua pergunta?

    6. Não sei. Eu tendo a crer que quem se coloca em risco não tem o direito de exigir que a sociedade se desdobre para ajudá-lo. Seja um assaltante que encontra uma resistência armada, seja um aventureiro que se perde na mata. Mas o diabo é a gradação entre os extremos. Seja o assaltante que rouba algo de pouco valor, seja um aventureiro menor de idade.

    7. O problema é que o bom senso e a ética não são reguláveis por lei. Então, o que dá para fazer é proteger quem foi, está sendo ou será vitimado por uma ação criminosa.

      Se alguém que está cometendo um crime for vitimado pela defesa da sua própria vítima, por mais lamentável que possa ser ou parecer um episódio isolado, isso não é justificativa para impor qualquer obrigação de vitimização aos inocentes que não estão prejudicando ninguém.

      É uma questão gravíssima de segurança jurídica. Este princípio pode parecer ruim em algum caso específico no varejo (como os que citaste), mas seria tremendamente desagregador para uma sociedade não implementá-lo no atacado.

  8. E se o cara roubar para fugir da ameaça de morte feito por um terceiro? Ou se for um doido viajando sem noção de propriedade?

    1. Mesmo que eu pudesse saber destas coisas, o que é que eu tenho a ver com isso?

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