Volta e meia alguém me pergunta por que eu abandonei a carreira acadêmica após terminar o mestrado, por que eu não leciono mais, por que abandonei o serviço público, por que eu ainda não abri minha própria empresa e quais os meus planos. Vamos à história da minha vida, então. 

Vaca atolada

Eu decidi fazer o curso de licenciatura em biologia por puro prazer intelectual, mas no meu estágio probatório de graduação eu dei aula para uma turma de segundo ano do segundo grau (hoje “ensino médio”) no período noturno e aquilo fez minha carreira como professor acabar antes mesmo de começar.

Quando um aluno me perguntou “para que serve saber o que são mitocôndrias, ribossomos e retículos endoplasmáticos?”, eu respondi com toda a sinceridade: “para passar de ano e ter um diploma de segundo grau para conseguir emprego ou para passar no vestibular, mais nada”.

Ora, aquele tinha sido precisamente o meu questionamento quanto a todos os conteúdos que eu tinha visto no segundo grau. Incrivelmente, eu gostava tanto de estudar biologia que foi somente no último semestre da faculdade que eu percebi que lecionar aquilo em nível de segundo grau seria reproduzir o sistema absurdo que eu tanto criticava. Decidi, então, direcionar minha carreira para a pesquisa.

Após a graduação, a porta de entrada para o mundo acadêmico-científico costuma ser um curso em nível de pós-graduação. Então, no dia seguinte a minha formatura, eu prestei as provas de seleção para o ingresso no mestrado em ecologia.

Logo no início do mestrado descobri que a primeira grande dificuldade de quem deseja fazer ciência séria e relevante é obter financiamento para pesquisa. Minha dissertação de mestrado teve que ser 100% financiada por mim mesmo, porque avaliava ações do Poder Público e ninguém queria se incomodar.

Salários comparados
O dinheiro, como todos sabem e muitos tentam tapar o sol com a peneira, é a medida de valorização universal. Aquilo que é mais valorizado é mais precificado, aquilo que é menos valorizado é menos precificado. Do mesmo modo, aquilo que é mais valorizado é mais financiado, aquilo que é menos valorizado é menos financiado.

Esse foi um dos dois principais motivos pelos quais eu abandonei a carreira acadêmica: eu percebi que fazer ciência séria seria viver mendigando esmolas se quisesse fazer algo de real utilidade e impacto, enquanto que colegas que faziam dissertações de prateleira recebiam financiamento fácil de órgãos públicos e de empresas privadas. 

O segundo principal motivo foi perceber que os critérios de sucesso dentro da carreira acadêmica estão muito mais ligados à sociologia da ciência (eufemismo para “quem é amigo de quem e quem puxa o saco de quem”) e à produtividade bruta (número de publicações) do que à qualidade e à relevância da pesquisa.

Antes de desistir completamente da carreira acadêmica eu ainda lecionei em nível de pós-graduação. Alguns alunos me questionaram como era a carreira de pesquisador e de professor universitário. Eu falei para eles sobre a dificuldade de obter financiamento para a minha dissertação de mestrado, sobre os bastidores sociais da ciência e sobre o contra-cheque de um professor universitário. Todos eles disseram que, se era assim a coisa, não tinham interesse. Pois é, eu também não. 

Tendo desistido da carreira acadêmica e do magistério, prestei um concurso público e comecei a trabalhar como técnico. Tornar-me funcionário público foi, sem dúvida alguma, a pior decisão da minha vida, o meu maior erro, aquilo do que eu mais me arrependo. Se alguém aí encontrar o gênio da lâmpada, por favor, me mande de volta para o ano 2000 com uma cópia deste blog em disquete no bolso.

No serviço público eu descobri que todos os estereótipos sobre o funcionalismo público são verdadeiros. No serviço público há meia dúzia de pessoas que são sérias e produtivas para cada centena de parasitas e politiqueiros que deveriam ser atirados para as piranhas. Pouquíssimos são os que querem fazer algo mais além de ganhar seu salariozinho no final do mês sem se incomodar.

O que mais me incomodou, entretanto, é que muitos foram os que me proibiram de resolver problemas fáceis de resolver, mesmo quando eu poderia resolver o problema sozinho, o que mostra que criar ou manter problemas para vender soluções ou pseudo-soluções é uma realidade ubíqua no serviço público e em seus bastidores políticos. Uma realidade com a qual eu não estava disposto a colaborar.

Depois de abandonar a pesquisa, o ensino e decidir abandonar o serviço público, estudei diversas alternativas para me lançar na iniciativa privada. Deparei-me então com o excesso de regulamentações, taxas e impostos, a burocracia, as exigências estúpidas ou mal intencionadas, a corrupção, os abusos da legislação trabalhista e a concorrência desleal. Até que finalmente encontrei um amigo disposto a fazer uma parceria em um negócio que poderia ser muito lucrativo para os dois. 

Vendemos nossa casa, eu comprei os materiais, comprei os equipamentos, paguei mão-de-obra para construir uma estrutura e implantar o negócio, deixei tudo sob supervisão do meu amigo até que eu pudesse largar o serviço público. Estive doente, depois tive que lidar com doença na família, até que finalmente pude largar o emprego e me mudar de cidade para tocar nosso negócio.

Então, ainda com a saúde abalada, eu encontrei a estrutura desmanchada, o negócio parado, o material perdido e a maioria dos equipamentos destruídos. As condições que tínhamos combinado já não podiam ser mantidas e eu teria que me submeter a condições precaríssimas de alojamento ou ter uma série de custos extras se quisesse tocar o negócio.

Resumindo: a pesquisa científica é uma eterna mendicância, a vida acadêmica é uma panelinha de vaidades produtora de insignificâncias, o magistério não tem sentido, o serviço público é um elefante branco, a iniciativa privada é um atleta engessado e os amigos acabam sendo quem nos abre os olhos para a vida como ela realmente é. Um ambiente assim é um pântano. 

Pensei em organizar um movimento e até um partido político para tentar fazer alguma coisa pelo meu país, mas não encontrei correligionários em número suficiente. A maioria das pessoas prefere reclamar, dizer que “alguém tem que fazer alguma coisa” e esperar o pântano secar sozinho, para a conveniência delas, o que obviamente não vai acontecer. 

Então… Cá estou eu investindo neste blog as últimas gotas de esperança de encontrar colaboradores para uma Revolução Iluminista e já avaliando a possibilidade de migrar para um solo mais firme se isso não rolar e principalmente se os brasileiros não trocarem o governo federal já nas próximas eleições. 

C’est la vie

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 21/05/2014 

12 thoughts on “O Brasil é um pântano

  1. Te deixaria um pouco triste se eu disser que muitos países dito civilizados estão indo para o mesmo caminho seguindo políticas populistas, milhões de regulações arbitrárias, etc, etc?

    1. Aí eu vou ter que começar a procurar outro planeta para onde migrar…

  2. Chega de estado baba.

    1. Cara, tu não tens a menor noção de qual é o verdadeiro problema.

  3. Arthur, ó: tu não te motiva-te a ti mesmo e a mais ninguém porque até agora não se deu pra ver a parte palpável do teu sonho.
    Cadê o partido criado? Cadê sei lá, o diretório do movimento iluminista?
    Cadê o empreendimento de verdade?

    1. Eu vejo a coisa por outro lado, TG… Tão poucas pessoas manifestaram interesse em debater a questão que eu fiquei desanimado para dedicar um ano ou dois de intenso trabalho intelectual (em um momento em que eu preciso me focar na minha própria subsistência) para escrever todo o material programático e estatutário e dar início às questões burocráticas e então arregimentar menos de uma centena de pessoas…

      Eu não perdi o interesse nisso, mas estou reorganizando meus planos para fazer isso em um horizonte de tempo bem mais longo, no qual eu possa priorizar minhas condições de vida.

  4. Respondendo por mim, eu nao sou de debatimentos, sou de fazimentos. Talvez dai venha a nossa divergencia no assunto, kkk…

    1. Eu criei um espaço para conversar sobre o assunto, mas não surgiram interessados em número suficiente para sustentar o debate. Isso exige uma completa revisão de estratégia.

      Se eu estivesse em uma situação financeira confortável e tivesse uma equipe motivada e articulada para desenvolver o movimento, não seria problema ter que rever a rota que eu havia planejado, mas esse não é o caso.

      Meu projeto financeiro pessoal – que tinha sido planejado e preparado ao longo de anos e com o qual eu estava contando para me financiar e conferir tempo e liberdade de movimento para viajar e construir o movimento – foi torpedeado e naufragou.

      Eu não preparei um conjunto de diretivas para orientar o desenvolvimento do movimento porque eu esperava fazer isso de modo coletivo. Eu já sabia que ninguém jamais escreveu uma sinfonia a quatro mãos e mesmo assim tentei “em nome da democracia”. Foi estupidez da minha parte e vou ter que rever essa atitude.

      Então, eu precisarei resolver primeiro minha situação pessoal, depois refazer o projeto e somente depois reunir e organizar uma equipe para começar a estruturar o movimento na prática. Isso vai demorar um bom tempo.

      C’est la vie.

    2. E ainda tem mais um problema: eu começo a duvidar da capacidade dos brasileiros de construírem uma política saudável.

      Os desonestos fazem o que precisam fazer e se lançam a mentir e roubar com unhas e dentes, enquanto os honestos apresentam todo tipo possível e imaginável de desculpas para não fazer o que precisam fazer e vão se adaptando e reclamando que a política é corrupta.

      Se eu não encontrar mais uma dúzia de guerreiros obstinados dispostos a cavalgar pelo país inteiro e arriscar sua vida nas mais absurdas batalhas em busca do Santo Graal, não sei como prosseguir.

  5. Esse país precisa recomeçar do zero, está podre desde a raiz.

  6. Arthur,
    Você tem que entender que a liderança é uma posição muito solitária. Quem empreende qualquer coisa não tem muita gente com quem debater merda nenhuma. O empreendedor é um cara que tem um perfil ímpar, ele enxerga coisas que os outros não vêem e, sendo assim, discutir o que ele vê com alguém que não vê é tentar tirar leite de pedra. E ele segue dando murro em ponta de faca porque a liderança é uma posição de tentativa e erro, também. Não se ensina.
    E é uma posição que exige muita, muita muita muita resiliência, véio.
    Teu empreendimento pessoal ter dado errado é só o começo.
    Quem quer inventar a lâmpada tem que queimar 3983134971034809 projetos de lâmpadas até chegar na lâmpada certa.
    É en-lou-que-ce-dor, acredite. Mas vale a pena.

    1. É, eu acho que finalmente aprendi. Por isso mesmo resolvi ME colocar em uma situação melhor. Não adianta eu tentar tocar um projeto que exige, por exemplo, uma grande mobilidade, se eu estiver contando trocados para ver se a grana será suficiente para a gasolina mais um hotelzinho barato.

      O “probleminha” é que isso vai me levar a um caminho muito diferente do que eu tinha planejado e pode ser que, depois de ter obtido com muito sacrifício todas as condições necessárias, eu não tenha mais interesse em me sacrificar para salvar o mundo (do Brasil).

      O tempo dirá. Por enquanto o projeto continua em meus planos, só que de volta aos alicerces.

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