Saiu no Washington Post: “O gelo no mar antártico cresceu até uma extensão recorde pelo segundo ano consecutivo, desconcertando os cientistas que estão tentando entender por que o gelo está se expandindo ao invés de encolher em um mundo que está se aquecendo.”

Ei! Peraí! Acho que existe uma explicação simples para isso! 

Gelo na Antártida

Pressupostos  

1) Água doce e água salgada não se misturam imediatamente. 

Quando um rio deságua no mar, ele forma uma longa “língua” de água doce na superfície do mar. Do mesmo modo, quando ocorrem as marés cheias forma-se uma “cunha salina” que invade o leito do rio por baixo da água doce. 

A demora na mistura de águas com diferentes teores salinos pode ser vista sem o auxílio de instrumentos ou corantes, por exemplo, na confluência dos rios Negro e Solimões. Quem cria mariscos sabe que muita chuva pode prejudicar o desenvolvimento dos maricos e até mesmo matar as larvas em época de desova, reduzindo muito as safras. 

2) Água doce é mais leve que água salgada. 

Ou, dizendo mais propriamente, a água doce é menos densa que a água salgada, e portanto “flutua” sobre ela por um bom tempo antes de ser misturada pelos ventos e pela difusão dos sais. 

3) Água doce congela a uma temperatura mais alta que água salgada. 

A temperatura de congelamento da água doce é de cerca de zero graus, enquanto a temperatura de congelamento da água salgada é variável, dependendo do teor de sais, sendo de cerca de -2°C à salinidade média da água do mar, que é de 3,5%. 

Raciocínio

O aquecimento global promove o derretimento de milhões de toneladas de gelo. 

O derretimento de gelo sobre o solo faz escorrer água doce para o mar.

Essa água doce oriunda do derretimento do gelo sobre o solo não se mistura imediatamente com a água salgada do mar. 

Essa água doce, por ser mais leve (menos densa) que a água salgada, fica na superfície, exposta às temperaturas polares. 

Águas muito geladas com diferentes teores salinos devem se misturar ainda mais devagar do que águas quentes com diferentes teores salinos como as dos rios Negro e Solimões. Gostaria de saber por quanto tempo água doce recém derretida e água salgada quase congelada permanecem sem se misturar. Se a resposta for “semanas”, minha hipótese ganha muita força.

Nos anos em que ocorre mais derretimento de gelo, portanto, temos alguns milhões de toneladas de água doce (pelo menos ligeiramente menos salgada) a mais flutuando sobre o Oceano Antártico do que nos anos em que ocorre menos derretimento. 

Ou, dito de outra forma, nos anos em que ocorre mais derretimento de gelo temos um halo temos uma área maior na superfície do Oceano Antártico misturada com as águas do degelo, portanto com sua salinidade ligeiramente reduzida, portanto com uma temperatura de congelamento (ou “ponto de fusão) mais alta do que o usual, ainda que apenas alguns centésimos de grau. 

Conclusão 

A conseqüência óbvia deste raciocínio é que uma área maior da superfície do Oceano Antártico congelaria devido à redução da salinidade das águas superficiais provocada pelo degelo causado pelo aquecimento global. 

O volume total de água congelada, entretanto, somando todo o volume permanentemente congelado com o tanto que degela e congela a cada ano, seria cada vez menor. 

Macacos me mordam se esta hipótese estiver muito longe do que realmente ocorre.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 03/06/2014 

Aviso importante

Por melhor que eu tenha fundamentado meu raciocínio, isso é uma hipótese. Eu ainda não sei  se os volumes envolvidos são suficientes para promover o efeito que descrevi.

Se você souber de alguma informação mais solidamente fundamentada (isto é, resultado de estudos científicos), por favor me avise. 

15 thoughts on “O paradoxo antártico

  1. Mas o que está aumentando é a área de gelo ou o volume? Se for apenas a área, a água que estaria congelando para aumentar a área de gelo poderia vir da própria Antártida?

    1. O que está aumentando é a área. O volume só aumentaria com o aumento da precipitação de chuva ou neve.

  2. Os rebotes num sistema fechado levam ao equilíbrio? Ou o equilíbrio num sistema fechado deve levar em conta a variável temporal? Uma maior superfície congelada, num sistema fechado, não interfere no entorno, por contiguidade, gradativamente? E nesse caso, há prenúncios de glaciação? Devo comprar cuecões e luvas?

    1. Não é um rebote. O volume total congelado está diminuindo a cada ano. A área muda porque a água doce derretida tem que ir para algum lugar. Esse lugar é a superfície do Oceano Antártico, com o qual ela demora a se misturar. Por isso ela congela de novo quando chega o inverno.

      Até pode haver uma nova glaciação, dependendo de em que extremo do atrator estranho do clima o planeta estiver quando ocorrer uma mudança de fase (uma ruptura de equilíbrio que mude o formato do atrator estranho), mas o mais provável é sem dúvida um aquecimento-monstro.

  3. Estou comentando aqui porque estou com preguiça de procurar um artigo mais relevante para postar meu comentário. Poderia mandar isso via face, mas queria que ficasse público para os leitores do seu blog verem.

    Tem uma coisa me incomodando. Sinto que você, Arthur, por melhor intencionado que seja, e por mais que pregue a importância das ciências, deixa a desejar às vezes. Deixa de fazer seu dever de casa, e se dá o direito de opinar sem ter contato com a literatura empírica. Não acho que todos têm obrigação de ler todos os artigos sobre um assunto antes de poder emitir publicamente uma opinião sobre aquilo. Isso seria loucura. Mas eu esperava maior rigor vindo de você, afinal de contas, você tem um mestrado, e seu blog se chama “Pensar não dói”. Vou dar dois exemplos concretos que me incomodam bastante. Espero que você, que parece ter a pretensão de se guiar mais por evidências do que por preconceitos pessoais, esteja disposto a considerar a possibilidade de as ideias que eu apresentar estarem corretas, ou pelo menos explicar-me porque não acha que elas estão, ou talvez, ainda, eu possa estar entendendo suas opiniões errado.

    1. a sua opinião sobre psicoterapia manifestada em Costurar a língua para emagrecer (2). Você diz:
    O que podemos oferecer de ajuda à Dona Maria?

    Psicoterapia?

    Uma sessão de cinqüenta minutos por semana para Dona Maria falar sozinha sobre os sonhos que consegue lembrar? Enquanto o terapeuta fala “arrãm”, “arrãm” e “arrãm” e toma notas? Para daqui a dez anos Dona Maria estar com 180 kg e constatar “acho que essa terapia não está ajudando”? E o terapeuta dizer que “ela não consegue vencer suas resistências internas” e que precisa de mais tempo de terapia?
    Primeiro que a sua descrição se encaixa melhor com a psicanálise. Tenho impressão que ignora todo o movimento das Evidence-Based Therapies, a criação da terapia cognitivo comportamental, e a existência de meta-análises mostrando a eficácia dessas terapias, tanto aliadas à intervenções biomédicas, quanto quando admnistradas exclusivamente, no tratamento de vários problemas, incluindo transtornos de humor, ansiedade, esquizofrenia, transtornos alimentares, fobias, baixa competência social.
    http://ps.psychiatryonline.org/article.aspx?articleID=67973
    http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1093/clipsy.6.2.204/abstract
    Não, não estou falando que “baseado na opinião dos clínicos, os pacientes que eles tratam melhoram em média 60% mais do que os pacientes não tratados”. Existem literalmente centenas de estudos com grupo de controle, e que aderem ao design double-blind, com avaliadores independentes medindo a
    melhora dos pacientes. E mais, das técnicas psicoterapêuticas mais tradicionais/sérias, incluindo psicodinâmica, humanística (client-based), comportamental, cognitivo-comportamental, todas são efetivas. Todas. E, no geral, elas tem eficácia comparável (com algumas sendo melhores para alguns problemas específicos). Quase ninguém nos EUA pratica psicanálise freudiana estrita. Mas até mesmo as terapias atuais que descendem da psicanálise, as chamadas terapias psicodinâmicas, funcionam:
    https://www.apsa.org/portals/1/docs/news/JonathanShedlerStudy20100202.pdf

    2. Suas opiniões sobre educação. Você acha que a educação está errada, e propõe uma mudança radical. Sem evidências, exceto o fato de que, para você, sua proposta parece plausível e razoável. E, presumivelmente, você acha que ela é intrinsecamente plausível, você realmente acha que suas posições são razoáveis, não que elas te parecem razoáveis.

    Talvez essa seja nossa diferença principal. Eu acho que não podemos confiar em nós mesmos para dizer o que é plausível/razoável. Precisamos substituir percepções de plausibilidade/razoabilidade privadas por evidências publicamente verificáveis.

    Me parece que você, por outro lado, acha que “pensar” sobre um assunto, seguindo a “lógica”, é suficiente. (Cheguei a essa conclusão porque, mais uma vez, seu blog se chama “Pensar não dói”, você costuma dar seus próprios raciocínios como evidência para suas ideias, e você advoga o uso da lógica, embora eu ache que você esteja equivocado sobre a natureza da lógica).

    Eu tento evitar permitir ao meu cérebro construir grandes edifícios teóricos com poucos pilares empíricos o sustentando. Em particular, eu não aderiria a uma visão radical sobre educação sem ter contato com a literatura empírica sobre educação. Sem ler um livro texto como esse:
    http://www.amazon.com/ECONOMICS-OF-EDUCATION-Dominic-Brewer/dp/008096530X por exemplo.

    E mais uma coisa, para concluir. Você advoda o uso da lógica, uma ferramenta abstrata, para guiar o raciocínio humano. Você diz que a lógica tem valor normativo para determinar como devemos pensar se queremos ter ideias corretas. Eu concordo, para os raciocínios dedutivos, quanto mais nos aproximarmos das leis da lógica, mais corretos estaremos. Nos racicínios envolvendo certezas, concordamos que a ferramenta certa para ser usada é a ferramenta feita para lidar com certezas, a lógica (embora discordemos sobre algumas consequências disso, e sobre a natureza da lógica, mas eu não vou discutir isso agora).

    Mas nos raciocínios envolvendo incertezas intrínsecas, eu acho que devemos tentar nos aproximar do ideal representado pela ferramenta feita para lidar com incertezas, a probabilidade, e você parece discordar.

    1. Vi isso na fila de moderação hoje. Responderei oportunamente.

    2. Oba! Vai esquentar!

    3. Nessa questão da Psicanálise já toquei no artigo em si.

    4. Coloquei isso nas pautas sobre as quais pretendo blogar neste século ainda. 😛

    5. Hoje (um ano depois), ainda acho que psicoterapia funciona. Ainda acho que idealmente devemos ter contato com literatura empírica para opinarmos. Mas considero que “fazer o dever de casa” (ler uma porrada de artigos técnicos sobre um assunto) é uma tarefa mais difícil do que eu pensava. E que em muitos casos, a literatura empírica não dá uma resposta clara. E que a resposta que ela nos dá é influenciada pela nossa personalidade. E por isso essa coisa de ser lido e comentado pelos pares é bem necessária.

      Além disso, sou menos ambicioso com minhas próprias crenças. Me permito ter crenças relativamente menos bem embasadas. E ao mesmo tempo tenho menos expectativa de estar certo.

      Mas adoraria ver a prometida resposta a isso (mas sinceramente não faço questão de que venha logo).

    6. É uma enorme crueldade querer que o pobre Arthur, às voltas com sua mudança de cidade, responda a um desvio tão grande do assunto do artigo, passado mais de um ano, Elvis.

      _

      _

      _

      _

      _

      Mas eu tambem queria MWAHAHAHAHAHHAHAHAAH (150 decibéis de gargalhada diabólica)!!!

      Psis do mundo, uni-vos!

    7. Mas já que o Arthur anda ocupado, vou poupar um pouco de trabalho de digitação pra ele:

      [MODE AGL ON]Aff… eu mereço![MODE AGL OFF]

    8. Gente… Isso está na página de “pautas para este milênio”, eu sei que tenho demorado um pouquinho para responder algumas coisas e tratar de algumas pautas, mas eu vou fazer isso, está prometido. Minha transferência deve sair agora em julho, aí vou passar umas duas semanas enlouquecido arrumando casa nova e aí devo recomeçar a ter uma rotina mais saudável e suficientemente ordenada para não deixar o blog tão em segundo plano.

    9. Adiantando duas coisinhas, entretanto:

      1) Nós vivemos no Planeta dos Macacos, na Idade da Pedra digital, e quase tudo no mundo reflete essa condição, com exceção de alguns poucos centros de excelência – e olhe lá. Se existe ciência psicológica de fato além do behaviorismo, eu desconheço. Ao menos quando eu cursei psicologia na UFRGS eu não encontrei ciência de verdade no curso. E os relatos que ouço hoje em dia são de chorar. Por exemplo, fiquei sabendo que há universidades que usam RATOS DIGITAIS para fazer aulas de LABORATÓRIO de condicionamento operante. Essa é uma estupidez de um tamanho tão grande, mas tão grande, mas tão grande, que eu fecharia o curso e demitiria os professores do departamento inteiro se tivesse poder para isso. Ou passaria todo mundo no fio da espada, queimaria os cadáveres e colocaria as cinzas em caixões de chumbo e jogaria nas Fossas Marianas, para ter certeza de que nada sairia dali para assombrar algum possível curso decente no futuro.

      Sério, Elvis: precisa dizer mais alguma coisa além de “existem universidades usando ratos digitais para treinar condicionamento operante na disciplina de behaviorismo” para ter certeza absoluta que não existe ciência nenhuma que preste nessa jogada? Não, não precisa. Isso basta e supera todas as expectativas de estupidez e picaretagem imagináveis.

      2) Que a educação é um lixo é tão óbvio quanto dizer que a água é molhada. Cita alguma coisa além de ler, escrever, três das quatro operações (porque ninguém sabe dividir) e a “regra de três” que sejam úteis para mais que 0,1% das pessoas que perdem onze a doze anos (ou mais, para quem repete séries) da melhor idade de aprendizado de suas vidas naquelas farsas abomináveis denominadas “ensino fundamental” e “ensino médio”.

      Deveriam ser renomeados para “engano fundamental” e “ensino mediocrizante”.

    10. Em tempo, para o Gerson não tacar fogo na empresa de hospedagem do Pensar Não Dói: TALVEZ surja alguma ciência psicológica séria num futuro muito distante, quando as “humanidades” como as conhecemos forem varridas da face do planeta e todo mundo entenda de uma vez por todas que a espécie humana é uma espécie de macacos e que qualquer estudo sobre seres humanos – sem exceção – deve partir da biologia evolutiva e manter-se estritamente dentro das condicionantes biológicas do macaco falante. Antes disso não há esperança.

      O que nós temos hoje em dia, é claro, são algumas pessoas inteligentes e de bom senso ajudando de fato alguns sortudos no meio de um mar de picaretas baseados em ideologias mirabolantes e sem o menor fundamento científico ou capacidade preditiva. Isso pra falar só dos “profissionais da saúde mental” tradicionais, supostamente com fundamentação científica, formados em cursos reconhecidos pela comunidade científica. Se levarmos em consideração os caras que fazem horóscopos, terapias de vidas passadas, colocam pedras quentes nas costas do paciente, receitam florais “para equilibrar as energias” e outros cambalachos, aí é melhor se inscrever naquele programa para ir para Marte sem volta.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *