Amigos me perguntaram por que ando tão sumido do blog e do Facebook nos últimos dias. Estou bem, só não suporto esta saturação de futebol. É muita alienação para a minha paciência. 

bola_futebolNão há outro assunto na TV. Não há outro assunto nos jornais. Não há outro assunto nas conversas. Não há outro assunto no mundo, só futebol. E só um futebol incrível, maravilhoso, perfeito, que une todas as pessoas do mundo em torno de um belo ideal.

Hein? 

Vinte e dois marmanjos chutando um pedaço de vaca morta pelo meio de dois pauzinhos para a alienação de milhões de macacos e o lucro de alguns milhares de tubarões agora se chama “belo ideal”. E eu tenho que ver e ouvir isso o tempo todo se ligar a TV, se ler o jornal, se abrir o Facebook. 

Turistas foram roubados. Houve pancadaria nas ruas envolvendo torcedores argentinos. Faltou comida nos estádios. Os banheiros não funcionaram. Os hinos não tocaram. Um estádio foi invadido por arruaceiros chilenos.  O público com ingresso chegou uma hora antes e só conseguiu entrar uma hora depois de o jogo começar. A Copa começou e nem sequer os estádios estavam prontos e funcionais. 

Nenhuma das obras anunciadas como “o legado da Copa” ficou pronta. Aeroportos recém reformados foram inundados. Viadutos pela metade estão atravancando as cidades ao invés de contribuir para a mobilidade urbana. Partes de estádios desabaram antes destes ficarem prontos, mostrando a péssima qualidade do que está sendo construído. Pessoas morreram em acidentes vergonhosos nestas obras. 

Os black blocs causaram prejuízos milionários com vandalismo. Os cidadãos estão com seu direito de ir e vir limitado em seu próprio país por exigência de uma empresa de entretenimento. O comércio regular teve seu direito de funcionar cassado para não concorrer com os lucros da FIFA. O governo federal ofereceu uma renúncia fiscal da ordem de bilhões de dólares (provavelmente com um generoso PF com a FIFA). 

Tudo isso está acontecendo em uma época de início de recessão econômica, com a indústria apresentando 0,3% de retração (o que provocou o pior mês de maio desde 1992 em termos de geração de empregos), a inflação voltando, os juros reais novamente atingindo a marca de mais altos do mundo, a saúde e a educação na miséria de sempre.

Enquanto isso o governo aprovou a aberração da Lei da Palmada, promoveu uma redução absolutamente artificial e eleitoreira no preço da gasolina, precisou reduzir a zero o imposto de importação de trigo até agosto para evitar desabastecimento e proibiu o IBGE de divulgar dados sobre desemprego até o final do ano, passadas as eleições. 

A grande mídia se aliou à quadrilha criminosa que comanda o país para espinafrar os descontentes que vaiaram a líder do bando. Apresenta as notícias de tudo que dá certo em destaque e omite ou coloca numa nota de rodapé o tanto de absurdos que estão acontecendo. Insistem que o Brasil tem que ser um bom anfitrião e promover um belo espetáculo.

Ou seja, insistem que o brasileiro tem que ser um otário, fingir que está tudo bem para inglês ver e a Quadrilha Geral lucrar e depois “fazer um balanço e analisar o que tem que ser melhorado”. Como se já não soubéssemos há anos o que tem que ser melhorado. Como se isso não tivesse sido fartamente analisado e milhares de promessas não tivessem sido feitas nas últimas três eleições vencidas pelo mesmo partido. 

E todo mundo só fala em futebol. 

É exasperante. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 24/06/2014 

3 thoughts on “Saturação de futebol

  1. Arthur! Para quem não gosta dos componentes ruidosos e alienados das festas (ou das festas, sumariamente!) há um momento mágico! O fim da festa! Se há uma certeza sobre todas elas é que num determinado momento elas são obrigadas a acabar. Portanto tenha paciência! E então, quando os convidados partirem, aqueles que trabalham, vão suspirar, pegar vassouras, limpar a sujeira e fazer as contas. E depois, inevitavelmente, pagá-las, ou (alguns) questioná-las e discuti-las, ou (a grande massa festiva) engoli-las. Com sorte vamos demonstrar que a corrupção teve orgasmos; com azar – o mais provável –tudo vai ficar como está! Afinal, pão e circo já era uma boa manobra desde o tempo dos romanos. E nada nos faz crer que o discernimento humano evoluiu de forma significativa nos últimos dois mil anos.

    Mas como até o papel higiênico usado tem um lado bom vamos tentar observar esse outro lado. Metade da população do planeta está assistindo à copa, um marco tecnológico que, embora alcançado por motivações econômicas, não deixa de ter seu valor agregante, com um mínimo de litígio. Nesse ponto prefiro esse método às falsas políticas pacifistas e prefiro os arroubos nacionalistas futebolísticos aos fanatismos xiitas de toda espécie. Se estamos sendo enrolados pelo menos o estamos numa festa planetária e não numa revolução do proletariado oprimido contra a classe dominante e jacobinicida.

    E, além do mais, quase chorei vendo os japoneses recolhendo de forma seletiva o lixo aos finais de jogo. Só esse gol já valeu a copa!

  2. Eu até abdiquei de conversar com qualquer um que seja a respeito da lambança política que está sendo essa copa. E o pior é que não estou em casa, então sou meio que obrigado a assistir televisão, já assisti a quase todos os jogos!
    Mas desisti de ser “o cara chato” por nada. Por agora é engolir e depois saborear o amargo “eu avisei”.

  3. Até entendo esse sentimento de “saco cheio” ainda mais o que foi falado durante esses últimos 7 anos.
    No mais o negócio é se divertir com algumas situações não do “espetáculo” em si e sim acompanhar algumas coisas tolas e toscas de personagens ali e acolá.
    Basta ver a palhaçada do jogador do Uruguai, não há polêmica nenhuma, pelo menos o palhaço vai pensar duas vezes antes de morder os outros. É engraçado ver como a humanidade tem seres bizarros.
    Não é para menos que se porventura a humanidade se acabar, eu bato as mãos para o céu e digo: Aleluia, o planeta Terra se livrou da pior espécie viva.

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