Devido às últimas enchentes, milhares de pessoas ficaram desabrigadas e perderam e tudo que tinham em casa e algumas dezenas de municípios decretaram estado de emergência ou de calamidade pública. Eu olho tudo isso e só consigo pensar “que imensa estupidez”. 

Clique na foto para abri-la maior em outra janela.
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Eu sei que eu já tratei disso antes, mas… 

Para mim é sempre impressionante o quão imenso pode ser o grau de estupidez das pessoas, individual ou coletivamente. Toda vez que acontece uma enchente eu já saio de perto da TV e dos jornais porque eu sei que vou querer escrever outro artigo sobre a incomensurabilidade da estupidez. Isso significa que provavelmente uma vez por ano, pelo resto da minha vida, eu vou escrever uma nova versão deste mesmo artigo. 

Bem, vamos lá. 

Só para citar uma referência que pode ser facilmente conferida na internet, a agricultura surgiu há mais de dez mil anos. E todo povo agricultor sempre observou com atenção e interesse os ciclos anuais de insolação, temperatura e precipitação pluviométrica de sua região. Ano após ano, geração após geração, o conhecimento sobre os ciclos da natureza foi transmitido e mantido vivo pelos agricultores, pecuaristas, pescadores, marinheiros e outras profissões que dependem diretamente de uma razoável previsão do tempo. 

Modernamente, qualquer estudante de primeiro ano de meteorologia, climatologia, geologia, geografia, biologia, ecologia, engenharia civil, engenharia ambiental ou qualquer outro curso da área das ciências ambientais conhece o básico sobre os ciclos biogeológicos. 

Saber qual é o período das chuvas, qual a quantidade média de precipitação que ocorre em cada mês e conhecer as amplitudes que as cheias e as secas costumam atingir a cada ano, a cada década e a cada século é o be-a-bá de todas as atividades e áreas do conhecimento citadas. É conhecimento registrado, acumulado e transmitido há milênios. 

E no entanto há gente estúpida que já perdeu a geladeira, o fogão e todos os móveis de casa quatro ou cinco vezes na última década. 

E no entanto há gestores públicos com décadas de atuação e nunca nenhum deles modifica nada na gestão pública para evitar tragédias durantes os períodos de enchentes ou de secas. 

Santa Catarina está embaixo d’água, São Paulo está enfrentando racionamento d’água. Isso quarenta e cinco anos depois de sabermos que, querendo, conseguimos até mesmo colocar um homem a caminhar na lua e voltar são e salvo. Isso é uma vergonha. Isso é uma ridícula vergonha. 

Sabemos onde vai acontecer uma enchente ou uma seca dez vezes piores que as atuais nos próximos cem ou duzentos anos com certeza mais do que suficiente para nos prevenirmos de modo eficaz. 

Temos tecnologia para remover uma cidade e reconstruí-la com muito melhor planejamento urbano em lugares muito mais seguros. 

Temos mão-de-obra e material de construção para garantir uma casa segura, ampla e confortável para cada habitante do planeta. 

Como então temos milhares de desabrigados e dezenas de municípios em estado de emergência ou de calamidade pública?

Simples: ESTUPIDEZ. 

Eu gostaria de acreditar que a resposta estivesse em alguma teoria social mais complexa, claro. Mas a mesma estupidez já foi encenada pelos babilônios, pelos rapa nui, pelos incas, pelos maias, pelos astecas e por dezenas de outras civilizações cujos nomes não vou me dar o trabalho de pesquisar porque você já entendeu a idéia e sabe que são muitas mais. 

Todas estas civilizações cometeram a mesma estupidez que as civilizações atuais estão cometendo. Igualzinho, do mesmíssimo jeito. Fico imaginando se, entre elas, também havia indivíduos que tinham consciência das conseqüências sistêmicas do modelo de desenvolvimento de suas civilizações, se eles também tentavam alertar os outros e se também eram chamados de nerds, alarmistas e arautos do apocalipse, do ragnarok ou de como quer que se chamasse a versão maluca de fim de mundo dominante em sua cultura. Acho que sim. E prevejo a repetição desta história, desta vez em escala planetária, sem que praticamente nenhum povo aprenda nada com as desgraças acontecendo por todo o planeta bem na sua frente. 

Os babilonerds, rapanerds, incanerds e quejandos devem ter repetido à exaustão: “meu avô contava que no tempo do avô dele houve uma seca que durou três anos e que matou mais de metade das pessoas do povoado dele, então nós deveríamos ter um grande sistema de reservatórios de água que nos prevenisse de uma seca tão prolongada”. 

E os cidadãos da época respondiam: “ô meu, pára com essas maluquices, toma aí uma ceva e vem ver o sacrifício anual da virgem ao deus da chuva, tá o maior barato, muita faca, muito sangue, showzaço!”. Ou algo assim. 

E a civilização ia crescendo, e os ecologinerds e meteorologinerds avisando, e os sacerdotes do deus da chuva recolhendo oferendas e dizendo que esse papo de reservatórios era coisa do demônio, que o deus da chuva não aprovava, e os monarcas e detentores de riquezas e escravos enchendo os bolsos das túnicas de moedas de ouro, e os cidadãos comuns mandando os nerds irem pegar uma virgem antes que o deus da chuva ou algum de seus sagrados representantes o fizesse. 

Até que um dia o deus da chuva pegava um El Niño, tinha que fugir do processo e se esconder até a prescrição, e lá se ia uma civilização por água abaixo – ou torrada na seca.

No mínimo alguns milhares ficavam desabrigados, perdiam tudo o que tinham ou mesmo morriam em anos em que os ciclos da natureza apresentassem flutuações atípicas, distantes das médias anuais, mas perfeitamente previsíveis (ou relembráveis) no longo prazo. 

Eventos previsíveis geravam tragédias imensas. É muita estupidez. 

E sabem o que é mais estúpido? NADA MUDOU. Isso está se repetindo HOJE e vai se repetir muitas e muitas vezes ainda, num absurdo ciclo de estupidez e sofrimento evitável. 

Nos próximos anos veremos na TV novas notícias de tragédias com milhares de desabrigados e dezenas ou centenas de mortos em deslizamentos de terras em morros, veremos na TV histórias pungentes de casas, carros e pertences pessoais perdidos, veremos na TV pedidos de doações urgentes para pessoas alojadas emergencialmente em estádios de futebol, ginásios desportivos, escolas e igrejas, veremos na TV discursos de políticos dizendo que todas as medidas possíveis estão sendo tomadas… 

Tudo do mesmo jeito que vimos acontecer na primeira década do século XXI, na década de 1990, na década de 1980, na década de 1970, na década de 1960, na década de 1950… 

E isso se repetirá na década de 2020, na de 2030, na de 2040 e em muitas outras, e alguém sempre dirá que algo tem que ser feito, e os pajéconomistas vão declarar que os hereges devem ser sacrificados e que mais liberdade para arrebentar o mundo e mais acumulação de capital na mão de alguns são medidas que resolverão sem dúvida o problema, e os perdedores do jogo de acumulação vão dizer que programa-bolsa-enchente, cotas para os desabrigados pluviométricos morarem nas casas dos privilegiados orográficos e o fim do preconceito contra os portadores de história de sofrimento meteorológico é que solucionarão o problema, e como nada disso é solução pra nada eu terei um artigo previsível para publicar todos os anos até o fim da minha vida. 

Antes eu me preocupava e me estressava muito mais do que os próprios atingidos. Agora eu voltei a escrever um blog

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 30/06/2014 

20 thoughts on “As enchentes e a estupidez

  1. Arthur, cê num leu Colapso de Jared Diamond, leu? Se não leu, NÃO LEIA. Vai te deixar deprê!

    (Tou brincando, são mais de 600 páginas de prazer com brechas pra esperança. É pesado e tem histórias tristes do fim de povos, mas vale a pena. Este post me lembro dele. Achei um livro excelente!)

    1. Não, não li isso ainda. Não vou viver para ler tudo que gostaria. Acho que nem para ler tudo que já está na fila de leitura. 😛

  2. Taí o pobrema, depois do liberou geral do sexo não tem mais virgem pro sacrifice.

    1. É, vai ver é por isso que o clima está pirando. 😛

  3. E tem mais, essas tragédias vão se repetir na década de 2020, 2040, 2050 e 2060. Menos na de 2030.

    1. Tá bom, tá bom, eu pergunto: por quê?

    2. Mateus Folador (Fola)

      01/07/2014 — 19:01

      Não entendi…

    3. Palpite. Mas vai na fé que o bizu é forte.

    4. Assim, sem motivo? 😛

  4. Simples, meu caro. A culpa é da chuva que teima em acumular-se em terrenos baixos.
    Lamento pelos que são vítimas desta tragédia anunciada ,mas não os culpo por ignorar o fato.
    Aqui no RS os imigrantes alemães desmataram margens de arroios e plantaram eucaliptos. Mal sabiam eles que o eucalipto tem o péssimo hábito de cair e represar águas. É a raça humana desafiando a natureza , mesmo sabendo que um dia vai perder.

    1. Ah, eu culpo todo mundo por ignorar o fato. A grana que poderia ser gasta para estudar a cura do câncer ou para financiar um exoesqueleto igual àqueles de Avatar para a gente poder ir à padaria com segurança nas grandes cidades agora terá que ser usada para reconstruir – NO MESMO LUGAR – tudo aquilo que as águas destruíram. Já sabendo que daqui a mais algum tempo tudo irá por água abaixo de novo. É um inferno. É muita estupidez junta.

    2. Podiam pelo menos fazer as novas casas de isopor. Barato e flutua.

    3. Os locais mais atingidos deveriam ser simplesmente interditados à ocupação humana. SABE-SE que outras enchentes do mesmo porte virão. Pode demorar um ano, uma década ou um século, talvez até mais, mas virão. E causarão ainda mais danos, pois haverá ainda mais ocupantes nas áreas atingidas. Ocupantes estes que não construirão suas casas prevendo enchentes da altura dos atuais telhados.

      Quero dizer… É tão previsível… VAI acontecer tudo de novo… Mais vidas se perderão… Mais dezenas ou centenas de milhares de pessoas perderão tudo o que têm… Mais prejuízos exorbitantes ocorrerão… E mais uma vez TODOS se dirão “surpresos com a força das águas” ou algum besteirol do gênero.

      É um show de estupidez em grande escala.

      Eu não consigo entender isso.

  5. O que eu posso esperar de um país que abriga energúmenos?
    Pessoas endinheiradas que tem acesso aos estádios mais caros do mundo,que tem acesso a educação e a cultura em mesmo assim chegam lá e xingam a presidente da república com palavras de baixo calão. Diante disso, caro Arthur não adianta debater o óbvio. Não posso esperar bom senso por aqui.
    Aliás, estamos cultivando cada vez mais a idiotia.

    Estamos cá tu e eu perdendo tempo, tentando compreender a burrice alheia, corremos risco de ter a autofagia. Preserve o teu cérebro para outras coisas, pior que a burrice só o fanatismo.

    1. Eu sou da opinião de que é necessário explicitar essas coisas e sugerir soluções. Para que ninguém possa nos apontar e dizer “criticar é fácil, propor soluções ninguém propõe”.

  6. Não estou questionando quanto a isso. Aliás, já escreveu anteriormente, certo?
    O problema é que o pessoal não está interessado na solução, por isso o problema da enchente sempre é recorrente. E tudo indica que virou um círculo vicioso.
    Quando teremos essa quebra? Pelo andar da carruagem, creio que nunca. Talvez quando tiver um dilúvio descrito no Antigo Testamento.Aí sim, quem sabe e mesmo assim vai ser uma solução meia boca.

    1. Quando morrer alguém importante, talvez aconteça algo diferente. Como é só povão que morre e perde tudo nesses eventos, ninguém liga.

      Hoje ouvi uma mulher que mora em uma casa que vai cair nos próximos dias sendo entrevistada. Ela disse que saiu daquela casa mas voltou porque no “aluguel social” (sei lá o que é isso, mas já vi que é coisa subsidiada) “a gente tem que por do da gente”.

      Ou seja, ela quer morar sem pagar nada, ou prefere voltar para uma casa em uma encosta de morro que vai desabar com certeza nos próximos dias.

      Pô, eu também quero morar de graça. Mas eu não vou expor minha vida e de meus filhos para pressionar o Estado a me dar moradia de graça. Até porque eu sei que ninguém liga para ninguém…

  7. Nessa hora é bom que os políticos, empresários e toda a casta rica sofram também com esses adventos da natureza.

    O clima é uma das poucas coisas que o ser humano consegue um certo grau de previsibilidade, diferente dos terremotos e maremotos.

    Até lá os políticos vão faturando com essas desgraças e povo se resignando na forma de submissão.

    É por aí mesmo, cada um por si.

    1. Eles são os que menos sofrem com qualquer coisa, com o clima então nem se fala. O inferno é ver o povo todo se preocupando mais com o resultado da seleção de futebol do que com a enchente que vai arrasar sua casa, deu bairro ou sua cidade no ano que vem, ou na década que vem, ou a qualquer momento.

  8. Olá Arthur e demais. Saiu uma notícia obvia e revoltante. http://brasil.elpais.com/brasil/2015/02/12/politica/1423765554_696443.html

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