Quando a diplomacia é um agente do mal

Poucas coisas me soam mais estúpidas ou mal intencionadas do que a exigência de que o Estado de Israel use diplomacia para lidar com a organização terrorista Hamas (“Movimento de Resistência Islâmica”). 

Míssil palestino é destruído no ar por sistema de defesa israelense.
Míssil palestino é destruído no ar por sistema de defesa israelense.

O que quer o Estado de Israel? Deixar de sofrer atentados aleatórios contra a população civil. 

O que quer o Hamas? A aniquilação do Estado de Israel, a morte de todos os malditos judeus e a implantação da Sharia não somente em Gaza mas em toda a Palestina Histórica, em nome de Allah, o misericordioso. 

A assimetria destas intenções torna pornográfica a exigência de que o Estado de Israel use diplomacia para lidar com o Hamas. 

O simples fato de sugerir tal aberração já constitui uma ofensa a Israel, porque confere legitimidade aos terroristas que diariamente cometem dezenas de tentativas de homicídio aleatórias contra o povo israelense. 

“Ah, mas o conflito é “desproporcional”, porque Israel está matando “um número excessivo” de mulheres e crianças palestinas”, dizem. 

Como é que é? Sério que estão usando um argumento numérico de contagem de vítimas para classificar as ações de Israel? 

Então os partidários deste argumento indecente respondam aí: quantas mulheres e crianças palestinas vocês autorizam Israel a matar por dia para que o conflito se torne “proporcional”? 

Ou talvez vocês prefiram que Israel intercepte menos foguetes do Hamas, para aumentar o número de civis israelenses mortos e assim justificar um número maior de mortes entre os civis palestinos? 

Não se trata de proporcionalidade, mas de legitimidade. 

De um lado, há um grupo terrorista que armazena armamento e posiciona dispositivos lança-mísseis dentro de creches, escolas, hospitais, mesquitas e bairros residenciais e ameaça de morte os civis que desejam fugir das proximidades destes locais – porque o Hamas quer que eles sejam vitimados para poder promover a guerra de propaganda contra o infiel a ser aniquilado, não importa o preço. 

Do outro lado, há um Estado Nacional que tem que se defender diariamente de dezenas de mísseis lançados com o objetivo de assassinar e mutilar aleatoriamente seus cidadãos e provocar medo, pânico, terror. 

Clamar por diplomacia nestas condições é uma perversão. É conferir legitimidade aos terroristas e a seus métodos, ao mesmo tempo que condena a vítima do terrorismo a ceder às exigências de seus algozes fundamentalistas – que nunca ficarão satisfeitos, porque seu objetivo insano é aniquilar o Estado de Israel inteiro. 

“Ah, mas o Estado de Israel também não tem legitimidade, porque foi construído sobre o lar dos palestinos e blá-blá-blá”, dizem.  

Certo, certo… Então os que pensam assim tenham coragem e questionem na ONU a própria existência do Estado de Israel. 

Ou vão querer que o Estado de Israel exista mas esteja sempre errado pelo simples fato de existir? Muito conveniente, não? 

Certos discursos tornam evidente que para alguns há muito tempo a questão israelense-palestina não se trata de um conflito que deve ser resolvido para evitar a morte de inocentes, mas de um conflito que deve ser mantido e agravado para que se possa explorar politicamente a morte de inocentes. 

Fazem mais condenações ao Estado de Israel, que é vítima de dezenas de atentados terroristas diários, do que ao Hamas, que pratica tentativas de homicídio aleatórias todos os dias. Fazem muito mais exigências de que Israel use diplomacia do que exigências de que o Hamas pare de cometer crimes. 

São discursos convenientes e hipócritas

Ao mesmo tempo que tentam amarrar as mãos do Estado de Israel, exigindo dele o uso de blá-blá-blá notoriamente inútil, nada fazem para que o agressor terrorista cesse seus ataques. Isso é querer a manutenção do conflito. Isso é não se importar com mulheres e crianças mortas. Isso é usar estas mortes politicamente para os mais abjetos propósitos. 

A estes que querem resolver o conflito através da diplomacia eu convido a ir a Israel exigir das autoridades israelenses o uso de diplomacia e depois ir aos redutos do Hamas e exigir dos terroristas o uso de diplomacia. Mostrem que acreditam no que falam. Vão até lá e façam isso! E LOGO, porque tem gente inocente morrendo. O que estão esperando? 

Ah, não querem ir porque “esse é um conflito que deve ser resolvido entre as partes”? Bem, então calem a boca e não se metam a dizer para somente uma das partes – sempre a mesma – o que ela deve ou não deve fazer para não ser vítima de atentados e homicídios aleatórios diariamente. 

Vamos deixar isso bem claro: as opções que Israel tem não são usar a diplomacia ou usar a força. As opções que Israel tem são ou permitir que o Hamas continue assassinando civis israelenses aleatoriamente ou levar a culpa pela morte dos civis palestinos que o Hamas usa como escudos humanos para seu armamento e seus lança-mísseis. 

Entre uma e outra destas alternativas, qualquer Estado soberano ou grupo de combatentes no planeta faria exatamente o mesmo que o Estado de Israel faz: proteger os seus, mesmo que isso implique multiplicar as baixas do outro lado, seja de combatentes, seja de inocentes. 

Portanto, leitor do Pensar Não Dói, muita atenção perante estes discursos “pró-diplomacia”. Muitos deles – a maioria – são apenas discursos anti-Israel, anti-EUA, anti-“imperialismo”, anti-sociedade-ocidental, anti-“tudo-isso-que-está-aí”, etc.

Uma boa dica para detectar a orientação ideológica e ética desses discursos: verifique se quem exige que Israel use diplomacia também exige que o Hamas use diplomacia; verifique se as críticas aos abusos de Israel também se estendem ao uso de inocentes como escudos humanos por parte do Hamas; e principalmente verifique se a preocupação humanitária para com as vítimas dos bombardeios de Israel também se estende às vitimas dos bombardeios do Hamas. 

Se qualquer uma das respostas for “não”, você já sabe com certeza que não está diante de um defensor sincero da diplomacia. Isso para dizer o mínimo. 

 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 26/07/2014

::

AAA: Não há uma única palavra de apoio à morte de civis no texto acima. Se você acha que eu defendi que Israel mate palestinos inocentes porque o Hamas mata israelenses inocentes, então você entendeu tudo errado. Neste caso, leia o artigo de novo. 

Recadinho aos amigos

Pessoal, desculpem a demora em responder os comentários das últimas semanas, mas eu ando numa fase de muita introspecção, tentando definir mudanças drásticas de rumo na minha vida, o que está monopolizando minha atenção. Está tudo bem, só ando precisando pensar, pensar, pensar. 

Resolutividade The Flash

Passei a madrugada inteira escrevendo um artigo. Cansado, eu já não estava em condições de organizar as idéias de modo adequado. Fui então escrevendo coisas que eu sabia que seriam deletadas e talvez usadas em outros artigos. E quando fui salvar o último rascunho… Cliquei em “publicar”. 

Tux com cabos na mão

Nunca antes eu tinha achado bom ter uma conexão lenta. Fosse uma conexão banda larga de verdade, um segundo depois do clique já estaria tudo publicado – no blog e no Facebook. Seria um inferno ter que encontrar forças a esta hora da madrugada (05:20) para corrigir o artigo e deixá-lo prontinho, coerente e sem as partes que serão usadas em outros artigos. 

Como evitar que o artigo seja publicado depois de clicar em “publicar”? Simples: arrancando o cabo do modem. Uma solução primitiva e grotesca, mas eficaz. Uma decisão tomada em uma fração de segundo. Mas não é exatamente uma atitude muito recomendável para garantir o funcionamento e a durabilidade dos computadores. 

Preciso parar de escrever até altas horas da madrugada… 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 20/07/2014 

A goleada para a Alemanha

Este não é um artigo sobre futebol. É um artigo sobre educação e ciência. Os alemães solicitaram 20 vezes mais patentes do que os brasileiros e o placar de prêmios Nobel desde 1901 é Alemanha 103 x 0 Brasil. Esta é a verdadeira goleada com a qual o Brasil deveria se preocupar. 

microscopio-optico

Autor do texto: ANDRÉ LUÍS PARREIRA, 38 anos, físico pela Universidade Federal de São João del-Rei e mestre em tecnologia pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, diretor para o Brasil da Hiperlab, fabricante americana de planetários digitais. 

A goleada para a Alemanha

Sua respeitada ciência, sua história de reconstrução, a economia robusta, os automóveis e, mais recentemente, a energia renovável fazem a Alemanha estar sempre presente em nossas rodas de conversa. Lá, um povo apaixonado por futebol e cerveja consegue grandes placares também fora do campo.  

Por aqui, em 26 de junho e em ritmo de Copa do Mundo, foi sancionado pela Presidência da República o Plano Nacional de Educação (PNE). A meta mais comentada, embora não a mais relevante, tem sido a de se destinar 10% do PIB (Produto Interno Bruto) à educação em dez anos. Hoje, são investidos 6,4%.  

Felizmente, há outras metas previstas no PNE, pois somente esse aumento do investimento, ainda que significativo, não será suficiente para alcançarmos placares de patamar alemão ou de qualquer outro país que seja destaque educacional. Podemos concluir isso com a projeção de alguns números recentes do relatório “Education at a Glance”, da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).  

Proporcionalmente, destinar 10% do PIB à educação faria o investimento médio por estudante saltar de aproximadamente US$ 2.900/ano para cerca de US$ 4.500, o que ainda fica muito aquém dos US$ 10 mil/ano investidos pela Alemanha.  

O salário inicial médio de um professor de educação básica no Brasil passaria dos atuais US$ 5.000/ano para US$ 7.500 contra US$ 30 mil/ano na Alemanha. Como exigir cada vez mais anos de estudo e qualificação dos professores quando se oferece tão pouco?  

Mas o investimento ainda terá que dar conta de outra triste realidade: a precária estrutura para o desenvolvimento de uma educação de qualidade para a ciência. Já tive a oportunidade de visitar escolas na Alemanha e constatei que o laboratório de ciências, aliado a projeto pedagógico, é parte do dia a dia desde o ensino fundamental.  

Por aqui, segundo o portal QEdu.org.br, somente 2% das escolas públicas municipais possuem laboratório de ciências. Se esticarmos a amostra para escolas públicas, o que engloba as estaduais e as federais, o número cresce para 8%. E a pesquisa fala somente em possuir, nada sobre sua utilização efetiva.  

No Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) de 2012, com participação de 65 países, o placar em ciências ficou assim: Brasil com 405 pontos (59º lugar!) x Alemanha com 524 pontos (12º lugar!).  

No quesito inovação tecnológica, os alemães solicitaram 20 vezes mais registros de patentes do que nós. E, se colocarmos no placar o número de prêmios Nobel desde 1901, teremos Alemanha 103 x 0 Brasil!  

Ou seja, precisamos de muito mais que o investimento do PNE para melhorarmos nosso desempenho. Vamos ter que aprender com os alemães e trabalhar por muitos anos para reduzir as diferenças. Na educação, já estamos na prorrogação. 

Fonte: Folha de São Paulo

AGL

Em resumo: o autor propõe elevar o investimento em educação; pagar melhor os professores; melhorar a estrutura das escolas, com pelo menos um laboratório de ciências; buscar conhecimento em países mais avançados; trabalhar pensando no longo prazo. Cinco pontos. 

Eu tenho uma visão diferente, comecei a desenvolver alguns pontos extras, mas logo percebi que seria melhor fazer isso em um artigo separado – e ainda tenho aquele artigo do Feynman sobre a educação no Brasil para comentar antes disso. Gostaria primeiro de saber a opinião dos leitores sobre os pontos apresentados. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 10/07/2014 

Meus artigos sobre a Copa do Mundo 2014

Eis os meus quatro artigos sobre a Copa do Mundo: 

Fuleco
O motivo pelo qual ninguém nunca viu o Fuleco durante a Copa do Mundo da FIFA

Brasil, mostra a tua cara! (Sobre o que eu gostaria que acontecesse fora de campo durante esta Copa e por que isso seria bom para o Brasil.) 

Respondendo ao Estadão (Sobre o motivo pelo qual a seleção de futebol perder a Copa o quanto antes seria o melhor para o Brasil.) 

Saturação de futebol (Sobre o que estava acontecendo no Brasil real durante a Copa da Alienação.) 

Obrigado, Alemanha! (Sobre as reações de vandalismo e violência à derrota do Brasil na Copa e seu significado.)

Lista organizada a pedido de um internauta anônimo. Boa leitura! 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 09/07/2014 

Obrigado, Alemanha!

A Alemanha nos fez o favor de nos devolver à realidade, um favor que Chile e Colômbia, tão latinos e tão emocionalmente tíbios quanto o Brasil, não nos puderam fazer. 

Polícia detém depredadores após derrota perante Alemanha

Segue a cópia de duas reportagens, uma do jornal El País e a outra do site Boa Informação. Eu volto na seqüência. 

Dezenas de ônibus são queimados no Brasil após a derrota

Curitiba, Rio, Belo Horizonte, São Paulo, Salvador e Recife registram episódios de violência durante e após a goleada alemã

As principais cidades brasileiras vivenciaram episódios de violência nesta terça-feira durante e após a goleada sofrida pelo Brasil para a Alemanha, que marcou a eliminação do país da Copa do Mundo. Dezenas de ônibus foram incendiados e torcedores acabaram detidos por brigas e confusões, forçando as autoridades a ampliar a segurança para evitar que os casos aumentem nas próximas horas.

O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, já afirmou que o governo federal está reforçando as medidas de segurança em Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro como prevenção a manifestações mais violentas após a derrota brasileira, segundo informações da Agência Estado.

Em Belo Horizonte –local da partida– foram registrados os maiores focos de violência. A tradicional região da Savassi, reduto boêmio da capital mineira, reuniu cerca de 25.000 torcedores e inúmeras confusões. Durante o jogo, quatro pessoas foram presas e 12 ficaram feridas durante brigas na rua, de acordo com a agência France Presse. Segundo o site UOL, quatro pessoas chegaram ainda a ser expulsas do estádio do Mineirão por atitudes de violência e vandalismo.

Já em São Paulo, a partir das 19h15 ocorreram ataques a ônibus nas zonas sul, leste e norte paulistanas. Cerca de 20 coletivos teriam acabado em chamas em uma garagem, de acordo com informações do jornal Folha de S.Paulo. Outros veículos do mesmo porte também teriam sido incendiados em diferentes regiões, e um, depredado na Vila Medeiros, na zona norte.

No Rio de Janeiro, também houve brigas e correria no perímetro da Fan Fest, na praia de Copacabana. O espaço da FIFA equipado com telão chega a reunir cerca de 20.000 torcedores a cada jogo do Brasil. Pessoas relataram ter visto princípios de arrastão e disputas entre os que acompanhavam o jogo no local. Segundo a polícia, seis acabaram detidos devido às confusões, de acordo com o jornal Folha de S.Paulo.

Em Curitiba houve ainda depredação, mas a prefeitura afirma que foram atos de vandalismo isolados. O prefeito, Gustavo Fruet, escreveu em sua conta no Twitter: “Não se trata de nenhuma manifestação e não se pode admitir vandalismo por causa da derrota”. Em um terminal, algumas peças de um ônibus foram arrancadas e veículos de linhas municipais foram apedrejados, segundo informações da Gazeta do Povo. Houve ainda três casos de tentativa de incêndio, que acabaram controlados por populares, de acordo com a mesma fonte.

No Recife, a confusão começou antes do término da partida. Na Fan Fest da FIFA, que fica no centro da capital pernambucana, a polícia entrou com a cavalaria e usou gás lacrimogêneo para dispersar uma briga generalizada, segundo o UOL. Pessoas chegaram a ser pisoteadas, ainda de acordo com o portal, mas a organização do evento não informou sobre feridos.

Já na Fan Fest de Salvador, cujo público pode ter chegado a 50.000 pessoas nas imediações do Farol da Barra, também houve tumulto, que terminou com três homens e uma mulher detidos, segundo a mesma fonte. 

Fonte: El País

E: 

Atos de vandalismo se espalham pelo Brasil depois de goleada da Alemanha.

A humilhante derrota da seleção brasileira perante a Alemanha por 7 a 1 na semifinal da Copa do Mundo provocou uma reação de ira em parte da população que foi expressada com ônibus incendiados, depredação do patrimônio público e privado e uma onda de assaltos em várias cidades.

Enquanto a tristeza tomava alguns lugares preparados para a celebração, como o boêmio bairro de Vila Madalena e a Fan Fest de São Paulo, de onde muitas pessoas saíram antes mesmo do final do jogo, outros pontos da maior cidade brasileira eram testemunhas de uma onda de violência.

A empresa municipal de transportes SPTrans confirmou que a garagem de uma empresa de ônibus na zona sul da cidade, próxima à represa de Guarapiranga e da estrada de M’Boi Mirim, foi atacada por desconhecidos, que atearam fogo em 15 ônibus que estavam estacionados e fora de serviço. 

O fato ocorreu meia hora depois do final da partida disputada em Belo Horizonte. A polícia informou à Agência Efe que ninguém ficou ferido no ataque.

Na Avenida Yervant Kissajikian, na região sudeste da capital paulista, um ônibus foi incendiado, enquanto no bairro Jardim Presidente Dutra, em Guarulhos, também na região metropolitana, outro veículo do transporte público foi atacado com fogo.

Próximo a Guarulhos, no bairro Sapopemba, outro ônibus foi abordado por desconhecidos, que pediram aos passageiros que saíssem e incendiaram o veículo. No bairro de São Mateus, uma loja de eletrodomésticos foi depredada e três homens e dois adolescentes foram presos pela Polícia Militar.

Em Belo Horizonte, palco da partida, o boêmio bairro de Savassi, o mais visitado por turistas nacionais e estrangeiros com uma média de 25 mil pessoas em seus bares e ruas, registrou várias confusões, que terminaram com 12 detidos.

Dentro do estádio ocorreram alguns incidentes e várias pessoas que tentaram destruir parte do patrimônio público precisaram ser retiradas do Mineirão e acompanhadas pela polícia até a saída, segundo as autoridades.

Em Salvador, a Fan Fest da Fifa, que reunia 50 mil espectadores, teve que ser suspensa por conta de uma confusão que terminou em pancadaria e em tentativa de assalto coletivo. Três homens e uma mulher acabaram sendo detidos pela polícia.

Na praia de Copacabana, uma das maiores concentrações de turistas desta Copa, três pessoas foram detidas por causar uma confusão que assustou grande parte das pessoas que saíram em pânico, correndo, sem saber o que acontecia e pensando que se tratava de um arrastão.

Em Recife, a Polícia Montada teve que interromper a Fan Fest e usar gás lacrimogêneo para dispersar uma briga entre torcedores durante a partida. Na ação, algumas pessoas acabaram pisoteadas pelos cavalos.

Finalmente, em Curitiba, 15 ônibus foram apedrejados e outro assaltado e incendiado no bairro Sítio Cercado, de acordo com a informação do Centro de Controle Operacional Urbs, que não reportou feridos durante os atos de vandalismo. 

Fonte: Boa Informação

AGL

O Brasil da Copa das Copas de repente saiu do transe do oba-oba futebolístico lobotomizante e mostrou quem é: incapaz de lidar com uma frustraçãozinha ridícula em um mero evento de entretenimento, emergiu do coma alienante em uma explosão de vandalismo, violência e criminalidade. Uma selvageria… Por causa de uma porcaria de uma partida de futebol. 

O clima emocional é de trauma nacional. Pouca gente já se deu conta da profundidade e da extensão do dano provocados pela acachapante derrota de 7×0 perante a seleção da Alemanha. (Não, não foi 7×1, porque o único gol do Brasil foi obtido por pura caridade da equipe da Alemanha, penalizada com a incompetência técnica e a miséria tática da seleção do Brasil.) 

O alcance deste evento no imaginário e na auto-imagem nacionais ainda não foi percebido. Ainda não caiu a ficha. A derrota de 1950 perante o Uruguai por 2×1 finalmente deixará de assombrar o Brasil. Ela passará a parecer uma lagartixa perto do Tyranossauro rex que representa o 7×0 perante a Alemanha. (Tá bom, foi 7×1, não vamos discutir por isso). 

O estrago foi tão grande que a maior parte do país ainda está anestesiada. Onde o efeito da anestesia já passou, a explosão de brasilidade foi intensa. Sim, brasilidade é isso que os brasileiros fizeram: acender um estopim de intolerância e brutalidade e sair arrebentando o país, depredando patrimônio público e privado, provocando brigas e agressões, cometendo assaltos e enfrentando a polícia por causa de uma frustraçãozinha ridícula em um mero evento de entretenimento.

E de repente o Brasil real voltou a ser reconhecível por dentre as brumas de ilusão da grande mídia comprometida com o lucro gerado pela prestidigitação pachequista. Ainda que isso tenha sido um breve espasmo de sinceridade e que volte a omitir a realidade, filtrar a informação e impor um quadro cor-de-rosa pintado sobre uma parede de fuligem, o que vazou é suficiente para escancarar que as súbitas e aparentes eficácia e excelência que surpreenderam os brasileiros e a mídia internacional no decorrer da Copa, em contraste com o que se previa, nada mais eram do que uma impressão falsa causada por muita alienação e maquiagem. O verdadeiro Brasil novamente emergiu do lodo em que vive e no qual há anos se atola mais e mais. 

Agora que a grande mídia já se locupletou e que o Brasil fará de qualquer modo sete jogos, esperemos que voltem ao noticiário as informações que vinha omitindo ou relegado a notinhas de rodapé, como as quatro mortes diretamente provocadas por desabamentos de Obras da Copa, duas no Itaquerão e duas no viaduto de Belo Horizonte.

Agora que o oba-oba levou um chucrute na cara, esperemos que os brasileiros passem a se preocupar mais com os assassinos que mataram operários e outros trabalhadores e menos com o jogador que machucou acidentalmente o colega com quem vai jogar no mesmo time na próxima temporada.

Sério: o que é mais importante? Investigar e apurar a responsabilidade dos contratantes, planejadores e executores de Obras da Copa Que Matam ou de jogadores que exageram numa falta em uma partida de futebol mal apitada? Analisar o quadro político nacional e os rumos errados que o Brasil tem tomado na economia ou discutir os furos no meio-de-campo de um time de futebol? Qual é a noção de prioridades dos brasileiros? 

Os partidários do governo federal – que piada – já estão esbravejando sobre o “uso político da derrota da seleção”, o que mostra que estes safados sabem muito bem que a “Copa das Copas” sempre teve um imenso viés político. Vamos tirar uma febre do resultado da manobra ouvindo atentamente o que o povo cantará quando a presidANTA entregar a taça à seleção campeã.

Ah, sim, claro… Não será o povo, será a “elite branca paulistana”, será um monte de “coxinhas”. Mas peraí… Quer dizer então que o PT gastou bilhões de reais dos cofres públicos para produzir um espetáculo de entretenimento para coxinhas se divertirem e a FIFA lucrar enquanto o povo era excluído dos estádios? (Ou é uma coisa, ou é a outra. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come – que delícia ver o feitiço virar contra o feiticeiro.) 

Precisamos agradecer à Alemanha. Perder de 1×0 não seria suficiente. Tinha que ser uma bofetada na cara para o brasileiro perder o rebolado e parar de se iludir com a História da Carochinha de que o país vai bem. Não vai. Quando o moral de todo um povo desaba e convulsiona perante uma porcaria de uma partida de futebol, é porque o país vai muito mal. Muito, muito mal. O moral do Japão não caiu tanto com duas bombas atômicas quanto o moral do Brasil caiu por causa de sete gols. Isso é ridículo. Isso é vergonhoso. Isso é desastroso. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 09/07/2014 

A educação no Brasil vista por uma das mais brilhantes mentes do século XX

Richard P. Feynman, nasceu no ano de 1918 no estado de Nova Iorque, nos EUA. Estudou física no M.I.T. e em Princeton, e lecionou em Cornell e no Instituto de Tecnologia da California. Deu importantes contribuições à Física e foi considerado uma das mentes mais criativas de seu tempo. Ganhou o prêmio Nobel em 1965 e faleceu em 1988. Na década de 50 ele viveu e lecionou por quase um ano na cidade do Rio de Janeiro. 

Richard-Feynman

O texto abaixo foi extraído do livro autobiográfico “Deve ser brincadeira, Sr. Feynman!” (título original: “Surely You’re Joking, Mr. Feynman!”), publicado originalmente em 1985, nos Estados Unidos. 

Em relação à educação no Brasil, tive uma experiência muito interessante. Eu estava dando aulas para um grupo de estudantes que se tornariam professores, uma vez que àquela época não havia muitas oportunidades no Brasil para pessoal qualificado em ciências. Esses estudantes já tinham feito muitos cursos, e esse deveria ser o curso mais avançado em eletricidade e magnetismo – equações de Maxwell, e assim por diante.

Descobri um fenômeno muito estranho: eu podia fazer uma pergunta e os alunos respondiam imediatamente. Mas quando eu fizesse a pergunta de novo – o mesmo assunto e a mesma pergunta, até onde eu conseguia –, eles simplesmente não conseguiam responder! Por exemplo, uma vez eu estava falando sobre luz polarizada e dei a eles alguns filmes polaróide.

O polaróide só passa luz cujo vetor elétrico esteja em uma determinada direção; então expliquei como se pode dizer em qual direção a luz está polarizada, baseando-se em se o polaróide é escuro ou claro.

Primeiro pegamos duas filas de polaróide e giramos até que elas deixassem passar a maior parte da luz. A partir disso, podíamos dizer que as duas fitas estavam admitindo a luz polarizada na mesma direção – o que passou por um pedaço de polaróide também poderia passar pelo outro. Mas, então, perguntei como se poderia dizer a direção absoluta da polarização a partir de um único polaróide.

Eles não faziam a menor idéia.

Eu sabia que havia um pouco de ingenuidade; então dei uma pista: “Olhe a luz refletida da baía lá fora”.

Ninguém disse nada.

Então eu disse: “Vocês já ouviram falar do Ângulo de Brewster?”

– Sim, senhor! O Ângulo de Brewster é o ângulo no qual a luz refletida de um meio com um índice de refração é completamente polarizada.

– E em que direção a luz é polarizada quando é refletida?

– A luz é polarizada perpendicular ao plano de reflexão, senhor.

Mesmo hoje em dia, eu tenho de pensar; eles sabiam fácil! Eles sabiam até a tangente do ângulo igual ao índice!

Eu disse: “Bem?”

Nada ainda. Eles tinham simplesmente me dito que a luz refletida de um meio com um índice, tal como a baía lá fora, era polarizada: eles tinham me dito até em qual direção ela estava polarizada. 

Eu disse: “Olhem a baía lá fora, pelo polaróide. Agora virem o polaróide”.

– “Ah! Está polarizada”!, eles disseram.

Depois de muita investigação, finalmente descobri que os estudantes tinham decorado tudo, mas não sabiam o que queria dizer. Quando eles ouviram “luz que é refletida de um meio com um índice”, eles não sabiam que isso significava um material como a água. Eles não sabiam que a “direção da luz” é a direção na qual você vê alguma coisa quando está olhando, e assim por diante. Tudo estava totalmente decorado, mas nada havia sido traduzido em palavras que fizessem sentido. Assim, se eu perguntasse: “O que é o Ângulo de Brewster?”, eu estava entrando no computador com a senha correta. Mas se eu digo: “Observe a água”, nada acontece – eles não têm nada sob o comando “Observe a água”.

Depois participei de uma palestra na faculdade de engenharia. A palestra foi assim: “Dois corpos… são considerados equivalentes… se torques iguais… produzirem… aceleração igual. Dois corpos são considerados equivalentes se torques iguais produzirem aceleração igual”. Os estudantes estavam todos sentados lá fazendo anotações e, quando o professor repetia a frase, checavam para ter certeza de que haviam anotado certo. Então eles anotavam a próxima frase, e a outra, e a outra. Eu era o único que sabia que o professor estava falando sobre objetos com o mesmo momento de inércia e era difícil descobrir isso.

Eu não conseguia ver como eles aprenderiam qualquer coisa daquilo. Ele estava falando sobre momentos de inércia, mas não se discutia quão difícil é empurrar uma porta para abrir quando se coloca muito peso do lado de fora, em comparação quando você coloca perto da dobradiça – nada!

Depois da palestra, falei com um estudante: “Vocês fizeram uma porção de anotações – o que vão fazer com elas?”

– Ah, nós as estudamos, ele diz. Nós teremos uma prova.

– E como vai ser a prova?

– Muito fácil. Eu posso dizer agora uma das questões. Ele olha em seu caderno e diz: “Quando dois corpos são equivalentes?” E a resposta é: “Dois corpos são considerados equivalentes se torques iguais produzirem aceleração igual”. Então, você vê, eles podiam passar nas provas, “aprender” essa coisa toda e não saber nada, exceto o que eles tinham decorado.

Então fui a um exame de admissão para a faculdade de engenharia. Era uma prova oral e eu tinha permissão para ouvi-la. Um dos estudantes foi absolutamente fantástico: ele respondeu tudo certinho! Os examinadores perguntaram a ele o que era diamagnetismo e ele respondeu perfeitamente.

Depois eles perguntaram: “Quando a luz chega a um ângulo através de uma lâmina de material com uma determinada espessura, e um certo índice N, o que acontece com a luz?

– Ela aparece paralela a si própria, senhor – deslocada.

– E em quanto ela é deslocada?

– Eu não sei, senhor, mas posso calcular. Então, ele calculou. Ele era muito bom. Mas, a essa época, eu tinha minhas suspeitas.

Depois da prova, fui até esse brilhante jovem e expliquei que eu era dos Estados Unidos e que eu queria fazer algumas perguntas a ele que não afetariam, de forma alguma, os resultados da prova. A primeira pergunta que fiz foi: “Você pode me dar algum exemplo de uma substância diamagnética?” 

– Não.

Aí eu perguntei: “Se esse livro fosse feito de vidro e eu estivesse olhando através dele alguma coisa sobre a mesa, o que aconteceria com a imagem se eu inclinasse o livro?” 

– Ela seria defletida, senhor, em duas vezes o ângulo que o senhor tivesse virado o livro.

Eu disse: “Você não fez confusão com um espelho, fez?”

– Não senhor!

Ele havia acabado de me dizer na prova que a luz seria deslocada, paralela a si própria e, portanto, a imagem se moveria para um lado, mas não seria alterada por ângulo algum. Ele havia até mesmo calculado em quanto ela seria deslocada, mas não percebeu que um pedaço de vidro é um material com um índice e que o cálculo dele se aplicava à minha pergunta.

Dei um curso na faculdade de engenharia sobre métodos matemáticos na física, no qual tentei demonstrar como resolver os problemas por tentativa e erro. É algo que as pessoas geralmente não aprendem; então comecei com alguns exemplos simples para ilustrar o método. Fiquei surpreso porque apenas cerca de um entre cada dez alunos fez a tarefa. Então fiz uma grande preleção sobre realmente ter de tentar e não só ficar sentado me vendo fazer.

Depois da preleção, alguns estudantes formaram uma pequena delegação e vieram até mim, dizendo que eu não havia entendido os antecedentes deles, que eles podiam estudar sem resolver os problemas, que eles já haviam aprendido aritmética e que essa coisa toda estava abaixo do nível deles.

Então continuei a aula e, independente de quão complexo ou obviamente avançado o trabalho estivesse se tornando, eles nunca punham a mão na massa. É claro que eu já havia notado o que acontecia: eles não conseguiam fazer!

Uma outra coisa que nunca consegui que eles fizessem foi perguntas. Por fim, um estudante explicou-me: “Se eu fizer uma pergunta para o senhor durante a palestra, depois todo mundo vai ficar me dizendo: “Por que você está fazendo a gente perder tempo na aula? Nós estamos tentando aprender alguma coisa, e você o está interrompendo, fazendo perguntas”.

Era como um processo de tirar vantagens, no qual ninguém sabe o que está acontecendo e colocam os outros para baixo como se eles realmente soubessem. Eles todos fingem que sabem, e se um estudante faz uma pergunta, admitindo por um momento que as coisas estão confusas, os outros adotam uma atitude de superioridade, agindo como se nada fosse confuso, dizendo àquele estudante que ele está desperdiçando o tempo dos outros.

Expliquei a utilidade de se trabalhar em grupo, para discutir as dúvidas, analisá-las, mas eles também não faziam isso porque estariam deixando cair a máscara se tivessem de perguntar alguma coisa a outra pessoa. Era uma pena! Eles, pessoas inteligentes, faziam todo o trabalho, mas adotaram essa estranha forma de pensar, essa forma esquisita de autopropagar a “educação”, que é inútil, definitivamente inútil!

Ao final do ano acadêmico, os estudantes pediram-me para dar uma palestra sobre minhas experiências com o ensino no Brasil. Na palestra, haveria não só estudantes, mas também professores e oficiais do governo. Assim, prometi que diria o que quisesse. Eles disseram: “É claro. Esse é um país livre”.

Aí eu entrei, levando os livros de física elementar que eles usaram no primeiro ano de faculdade. Eles achavam esses livros bastante bons porque tinham diferentes tipos de letra – negrito para as coisas mais importantes para se decorar, mais claro para as coisas menos importantes, e assim por diante.

Imediatamente, alguém disse: “Você não vai falar sobre o livro, vai? O homem que o escreveu está aqui, e todo mundo acha que esse é um bom livro”.

– Você me prometeu que eu poderia dizer o que quisesse.

O auditório estava cheio. Comecei definindo ciência como um entendimento do comportamento da natureza. Então, perguntei: “Qual um bom motivo para lecionar ciência? É claro que país algum pode considerar-se civilizado a menos que… pá, pá, pá”. Eles estavam todos concordando, porque eu sei que é assim que eles pensam.

Aí eu disse: “Isso, é claro, é absurdo, porque qual o motivo pelo qual temos de nos sentir em pé de igualdade com outro país? Nós temos de fazer as coisas por um bom motivo, uma razão sensata; não apenas porque os outros países fazem”. Depois, falei sobre a utilidade da ciência e sua contribuição para a melhoria da condição humana, e toda essa coisa – eu realmente os provoquei um pouco.

Daí eu disse: “O principal propósito da minha apresentação é provar aos senhores que não se está ensinando ciência alguma no Brasil!”

Eu os vejo se agitar, pensando: “O quê? Nenhuma ciência? Isso é loucura! Nós temos todas essas aulas”.

Então eu digo que uma das primeiras coisas a me chocar quando cheguei ao Brasil foi ver garotos da escola elementar em livrarias, comprando livros de física. Havia tantas crianças aprendendo física no Brasil, começando muito mais cedo do que as crianças nos Estados Unidos, que era estranho que não houvesse muitos físicos no Brasil – por que isso acontece? Há tantas crianças dando duro e não há resultado.

Então eu fiz a analogia com um erudito grego que ama a língua grega, que sabe que em seu país não há muitas crianças estudando grego. Mas ele vem a outro país, onde fica feliz em ver todo mundo estudando grego – mesmo as menores crianças nas escolas elementares. Ele vai ao exame de um estudante que está se formando em grego e pergunta a ele: “Quais as idéias de Sócrates sobre a relação entre a Verdade e a Beleza?” – e o estudante não consegue responder. Então ele pergunta ao estudante: “O que Sócrates disse a Platão no Terceiro Simpósio?” O estudante fica feliz e prossegue: “Disse isso, aquilo, aquilo outro” – ele conta tudo o que Sócrates disse, palavra por palavra, em um grego muito bom. 

Mas, no Terceiro Simpósio, Sócrates estava falando exatamente sobre a relação entre a Verdade e a Beleza!

O que esse erudito grego descobre é que os estudantes em outro país aprendem grego aprendendo primeiro a pronunciar as letras, depois as palavras e então as sentenças e os parágrafos. Eles podem recitar, palavra por palavra, o que Sócrates disse, sem perceber que aquelas palavras gregas realmente significam algo. Para o estudante, elas não passam de sons artificiais. Ninguém jamais as traduziu em palavras que os estudantes possam entender.

Eu disse: “É assim que me parece quando vejo os senhores ensinarem ‘ciência’ para as crianças aqui no Brasil” (Uma pancada, certo?)

Então eu ergui o livro de física elementar que eles estavam usando. “Não são mencionados resultados experimentais em lugar algum desse livro, exceto em um lugar onde há uma bola, descendo um plano inclinado, onde ele diz a distância que a bola percorreu em um segundo, dois segundos, três segundos, e assim por diante. Os números têm erros – ou seja, se você olhar, você pensa que está vendo resultados experimentais, porque os números estão um pouco acima ou um pouco abaixo dos valores teóricos. O livro fala até sobre ter de corrigir os erros experimentais – muito bem. No entanto, uma bola descendo em um plano inclinado, se realmente for feito isso, tem uma inércia para entrar em rotação e, se você fizer a experiência, produzirá cinco sétimos da resposta correta, por causa da energia extra necessária para a rotação da bola. Dessa forma, o único exemplo de ‘resultados’ experimentais é obtido de uma experiência falsa. Ninguém jogou tal bola, ou jamais teriam obtido tais resultados!”

“Descobri mais uma coisa”, eu continuei. “Ao folhear o livro aleatoriamente e ler uma sentença de uma página, posso mostrar qual é o problema – como não há ciência, mas memorização, em todos os casos. Então, tenho coragem o bastante para folhear as páginas agora em frente a este público, colocar meu dedo em uma página, ler e provar para os senhores.”

Eu fiz isso. Brrrrrrrup – coloquei meu dedo e comecei a ler: “Triboluminescência. Triboluminescência é a luz emitida quando os cristais são friccionados…”

Eu disse: “E aí, você teve alguma ciência? Não! Apenas disseram o que uma palavra significa em termos de outras palavras. Não foi dito nada sobre a natureza – quais cristais produzem luz quando você os fricciona, por que eles produzem luz. Alguém viu algum estudante ir para cada e experimentar isso? Ele não pode”. 

“Mas, se em vez disso, estivesse escrito: ‘Quando você pega um torrão de açúcar e o fricciona com um par de alicates no escuro, pode-se ver um clarão azulado. Alguns outros cristais também fazem isso. Ninguém sabe o motivo. O fenômeno é chamado triboluminescência’. Aí alguém vai para casa e tenta. Nesse caso, há uma experiência da natureza.”

Usei aquele exemplo para mostrar a eles, mas não faria qualquer diferença onde eu pusesse meu dedo no livro; era assim em quase toda parte.

Por fim, eu disse que não conseguia entender como alguém podia ser educado neste sistema de autopropagação, no qual as pessoas passam nas provas e ensinam os outros a passar nas provas, mas ninguém sabe nada. “No entanto”, eu disse, “devo estar errado. Há dois estudantes na minha sala que se deram muito bem, e um dos físicos que eu sei que teve sua educação toda no Brasil. Assim, deve ser possível para algumas pessoas achar seu caminho no sistema, ruim como ele é.”

Bem, depois de eu dar minha palestra, o chefe do departamento de educação em ciências levantou e disse: “O Sr. Feynman nos falou algumas coisas que são difíceis de se ouvir, mas parece que ele realmente ama a ciência e foi sincero em suas críticas. Assim sendo, acho que devemos prestar atenção a ele. Eu vim aqui sabendo que temos algumas fraquezas em nosso sistema de educação; o que aprendi é que temos um câncer!” – e sentou-se. 

Isso deu liberdade a outras pessoas para falar, e houve uma grande agitação. Todo mundo estava se levantando e fazendo sugestões. Os estudantes reuniram um comitê para mimeografar as palestras, antecipadamente, e organizaram outros comitês para fazer isso e aquilo. 

Então aconteceu algo que eu não esperava de forma alguma. Um dos estudantes levantou-se e disse: “Eu sou um dos dois estudantes aos quais o Sr. Feynman se referiu ao fim de seu discurso. Eu não estudei no Brasil; eu estudei na Alemanha e acabo de chegar ao Brasil”.

O outro estudante que havia se saído bem em sala de aula tinha algo semelhante a dizer. O Professor que eu havia mencionado levantou-se e disse: “Estudei aqui no Brasil durante a guerra quando, felizmente, todos os professores haviam abandonado a universidade: então aprendi tudo lendo sozinho. Dessa forma, na verdade, não estudei no sistema brasileiro”.

Eu não esperava aquilo. Eu sabia que o sistema era ruim, mas 100 por cento – era terrível!

Uma vez que eu havia ido ao Brasil por um programa patrocinado pelo Governo dos Estados Unidos, o Departamento de Estado pediu-me que escrevesse um relatório sobre minhas experiências no Brasil, e escrevi os principais pontos do discurso que eu havia acabado de fazer.

Mais tarde descobri, por vias secretas, que a reação de alguém no Departamento de Estado foi: “Isso prova como é perigoso mandar alguém tão ingênuo para o Brasil. Pobre rapaz; ele só pode causar problemas. Ele não entendeu os problemas”. Bem pelo contrário! Acho que essa pessoa no Departamento de Estado era ingênua em pensar que, porque viu uma universidade com uma lista de cursos e descrições, era assim que era. 

AGL

Eu escrevi um comentário sobre este texto do Feynman, mas o conjunto ficou longo demais, então vamos primeiro discutir o que ele escreveu e depois postarei o meu comentário na forma de um artigo independente. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 02/07/2014