Este não é um artigo sobre futebol. É um artigo sobre educação e ciência. Os alemães solicitaram 20 vezes mais patentes do que os brasileiros e o placar de prêmios Nobel desde 1901 é Alemanha 103 x 0 Brasil. Esta é a verdadeira goleada com a qual o Brasil deveria se preocupar. 

microscopio-optico

Autor do texto: ANDRÉ LUÍS PARREIRA, 38 anos, físico pela Universidade Federal de São João del-Rei e mestre em tecnologia pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, diretor para o Brasil da Hiperlab, fabricante americana de planetários digitais. 

A goleada para a Alemanha

Sua respeitada ciência, sua história de reconstrução, a economia robusta, os automóveis e, mais recentemente, a energia renovável fazem a Alemanha estar sempre presente em nossas rodas de conversa. Lá, um povo apaixonado por futebol e cerveja consegue grandes placares também fora do campo.  

Por aqui, em 26 de junho e em ritmo de Copa do Mundo, foi sancionado pela Presidência da República o Plano Nacional de Educação (PNE). A meta mais comentada, embora não a mais relevante, tem sido a de se destinar 10% do PIB (Produto Interno Bruto) à educação em dez anos. Hoje, são investidos 6,4%.  

Felizmente, há outras metas previstas no PNE, pois somente esse aumento do investimento, ainda que significativo, não será suficiente para alcançarmos placares de patamar alemão ou de qualquer outro país que seja destaque educacional. Podemos concluir isso com a projeção de alguns números recentes do relatório “Education at a Glance”, da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).  

Proporcionalmente, destinar 10% do PIB à educação faria o investimento médio por estudante saltar de aproximadamente US$ 2.900/ano para cerca de US$ 4.500, o que ainda fica muito aquém dos US$ 10 mil/ano investidos pela Alemanha.  

O salário inicial médio de um professor de educação básica no Brasil passaria dos atuais US$ 5.000/ano para US$ 7.500 contra US$ 30 mil/ano na Alemanha. Como exigir cada vez mais anos de estudo e qualificação dos professores quando se oferece tão pouco?  

Mas o investimento ainda terá que dar conta de outra triste realidade: a precária estrutura para o desenvolvimento de uma educação de qualidade para a ciência. Já tive a oportunidade de visitar escolas na Alemanha e constatei que o laboratório de ciências, aliado a projeto pedagógico, é parte do dia a dia desde o ensino fundamental.  

Por aqui, segundo o portal QEdu.org.br, somente 2% das escolas públicas municipais possuem laboratório de ciências. Se esticarmos a amostra para escolas públicas, o que engloba as estaduais e as federais, o número cresce para 8%. E a pesquisa fala somente em possuir, nada sobre sua utilização efetiva.  

No Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) de 2012, com participação de 65 países, o placar em ciências ficou assim: Brasil com 405 pontos (59º lugar!) x Alemanha com 524 pontos (12º lugar!).  

No quesito inovação tecnológica, os alemães solicitaram 20 vezes mais registros de patentes do que nós. E, se colocarmos no placar o número de prêmios Nobel desde 1901, teremos Alemanha 103 x 0 Brasil!  

Ou seja, precisamos de muito mais que o investimento do PNE para melhorarmos nosso desempenho. Vamos ter que aprender com os alemães e trabalhar por muitos anos para reduzir as diferenças. Na educação, já estamos na prorrogação. 

Fonte: Folha de São Paulo

AGL

Em resumo: o autor propõe elevar o investimento em educação; pagar melhor os professores; melhorar a estrutura das escolas, com pelo menos um laboratório de ciências; buscar conhecimento em países mais avançados; trabalhar pensando no longo prazo. Cinco pontos. 

Eu tenho uma visão diferente, comecei a desenvolver alguns pontos extras, mas logo percebi que seria melhor fazer isso em um artigo separado – e ainda tenho aquele artigo do Feynman sobre a educação no Brasil para comentar antes disso. Gostaria primeiro de saber a opinião dos leitores sobre os pontos apresentados. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 10/07/2014 

4 thoughts on “A goleada para a Alemanha

  1. Eu começaria enxugando os currículos e criando uma forma de garantir o ensino nos moldes das autoescolas, ie, o sistema de ensino tem que ser de malha fechada.

  2. A longo prazo,isso não existe mais neste país.

    Se a família não ajudar,não existe escola que dê jeito.

    E vejo a família lavando as mãos.

  3. A escola pra mim deveria ser mais do que um lugar para se ter conhecimento enfiado goela abaixo, deveria ser um espaço para reflexão e debate, crescimento pessoal (pelo incentivo às artes e à expressão) e crescimento intelectual (Quando digo crescimento intelectual é de entendimento de mundo e capacidade de análise, e não decorar 2762752 fórmulas de física). Também acredito que a escola poderia colocar nas crianças algum senso de responsabilidade como por exemplo no modelo das japonesas onde as crianças fazem a limpeza da escola após as aulas em escala de revezamento. Também acho o currículo atual das escolas no Brasil muito rígidos e, no geral, inúteis.

  4. Mas concordo com a Li que o apoio da família seria necessário para quebrar o ciclo vicioso da má educação no Brasil. E também concordo com o autor do primeiro texto de que professores têm que ser melhor remunerados.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: