Educação e honestidade intelectual

Você lembra do artigo “Metatolerância“? Pois bem, caiu a ficha aqui que aquela tabela-verdade pode ser muito útil aqui no blog. Eu deveria seguir meus próprios conselhos, certo? 

Olhe o que esse cara postou no artigo Os custos da cultura do Brasil (já deletei o comentário lá):

Educação é bom e preserva o comentário

Veja bem: um sujeito anônimo já chega chamando o autor do blog de ignorante (o que é falta de educação) e lança a afirmação maldosa “quanta dificuldade para entender que instituição financeira não é bagunça” (o que é falta de honestidade intelectual). 

Você mesmo pode verificar: em que momento eu falei qualquer coisa que possa ser confundida com “bagunça”? Leia aquele artigo e volte aqui. 

[Pausa para a leitura do artigo Os custos da cultura do Brasil.] 

Leu? Não tem nada lá que sugira que eu queira “bagunça”, certo? Muito antes pelo contrário, eu reclamei da cultura de bagunça, de falta de planejamento, de ineficiência e de gambiarra do Brasil. E no entanto o troll anônimo maldosamente tentou fazer parecer como se eu fosse um simples baderneiro incapaz de aceitar regras supostamenterazoáveis. Além de grosseiro, ele foi nitidamente mal intencionado. 

O problema é que tem muita gente desavisada por aí que morde esse tipo de isca – ou finge morder. Aí o interlocutor honesto fica na defensiva, o mal intencionado se diverte distorcendo tudo e lançando acusações sem o menor compromisso com a verdade, a claque do mal intencionado dá suporte ao estratagema e os desavisados acabam dando razão a quem não tem. Hoje em dia isso é um padrão recorrente e muito freqüente. 

Se o interlocutor honesto se preocupa em explicar tudo direitinho, para ter certeza de que não será mal compreendido, está ralado. Simplesmente não é possível: o arsenal de perversões de um interlocutor mal intencionado é inesgotável, todo safado na internet tem sua claque e o desavisado dificilmente percebe a tramóia ou aceita o alerta. Portanto, não adianta nem tentar. 

Então… O que fazer? 

Bem, no início deste artigo eu disse que eu deveria seguir meus próprios conselhos e é isso que eu pretendo fazer. Para o azar dos trolls, uma vez eu escrevi um artigo intitulado “Civilidade nem que seja na porrada“. Vou ter que mostrar que acredito no que escrevo e deletar os comentários em que detectar falta de educação ou falta de honestidade intelectual, como o que ilustra este artigo. 

Será esta a solução ideal? Não, eu acredito que não. Eu preferiria mil vezes jamais ter que deletar um comentário, até mesmo para não correr o risco de interpretar errado o que alguém disse e deletar um comentário legítimo, o que certamente vai acontecer uma vez ou outra. Mas este é o problema de viver em um ambiente de fracasso: nada funciona como deveria – e há um preço a pagar por isso, até mesmo (ou principalmente) ao se defender a boa educação e a honestidade intelectual. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 19/09/2014 

Pausa para o exorcismo

O autor deste blog comunica aos amigos e leitores que estará fora do ar (o autor, não o blog) durante este final de semana para o exorcismo dos Demônios da Imbecilidade. 

Dogbert

Esta medida drástica se fez necessária devido à incauta exposição seqüencial do autor ao Banco do Brasil e ao DETRAN em um período inferior a 48h. 

A toxicidade da imbecilidade foi tão grande que o fígado do autor quase saiu pela boca para escrever um artigo no blog. Como medida de segurança, para manter o blog com classificação “livre para todas as idades”, o autor decidiu vestir uma camisa-de-força e uma mordaça e está ditando este artigo em Código Morse para uma secretária: rosnado longo, rosnado curto, rosnado curto, rosnado longo… 

Assim que o autor parar de babar bile, voltaremos com nossa programação anormal. Enquanto isso, tomara que chova enxofre. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 12/09/2014 

Os custos da cultura do Brasil

Um país civilizado deveria funcionar bem e oferecer segurança, conforto e praticidade para seus cidadãos, certo?. Por exemplo, não é uma exigência excessiva querer que um cidadão possa pagar uma simples conta no banco sem contratempos. 

Banco-do-Brasil

Saí de casa ontem por volta das 18h para pagar duas contas no Banco do Brasil. Junto comigo estava meu pai, que tinha que passar no mercado. As ruas estavam lotadas, o trânsito não fluía. Em uma esquina que deveria ter uma sinaleira (sinaleira é semáforo em portoalegrês), os motoristas têm que negociar um a um a passagem em três sentidos diferentes. Na seguinte também. E na seguinte. Para que ordenar o trânsito com semáforos (opa, desta vez saiu em português) se dá para deixar o motorista disputar a tapa a vez de passar, né? 

Entrei por uma viela toda esburacada e cheia de quebra-molas, como toda Ilha de Florianópolis tem, demonstrando que tem um povo tão selvagem que precisa ser contido com barreiras físicas para não se matar a mais de 40 km/h até mesmo nas grandes avenidas, e evitei umas três outras esquinas de negociação de quem passa até o mercado. Lá chegando, estacionei na rua em frente e fiquei dentro do carro esperando meu pai fazer as compras, para não ter que entrar no estacionamento, que é muito movimentado, apertado para manobrar e só tem um portão para entrada e saída. 

Feitas as compras, observei um motorista saindo do estacionamento do mercado e tentando dar a volta por trás de um ônibus que estava parado em frente ao portão de saída do estacionamento. Sim, há uma parada de ônibus na frente do portão de saída do mercado. 

Dali fomos ao Banco do Brasil. Estacionei em uma vaga milagrosamente disponível no prédio ao lado, pois o estacionamento em frente ao BB é pago. Desta vez foi meu pai quem ficou no carro enquanto eu ia pagar as minhas contas no BB. 

Primeira maravilha: meu cartão estava bloqueado. Por quê? Porque o BB decidiu me obrigar a substituir o meu cartão com fita magnética por um cartão com chip, que ele já enviou… Para meu antigo endereço em outra cidade a 550 km de distância. E, claro, eu tenho que resolver isso na minha agência, que também fica na cidade em que eu morava antes. 

Bem, havia uma opção para desbloquear o cartão – o que indica claramente que o bloqueio tinha mesmo o objetivo de me encher o saco para me forçar a trocar de cartão, não qualquer motivo de segurança – então desbloqueei o cartão e tentei pagar minhas contas. 

Segunda maravilha: só pude pagar uma das contas. Quando tentei pagar a minha segunda conta, com meu cartão, com meu dinheiro, o BB me informou que eu não poderia fazer isso naquele dia, pois eu havia excedido o valor autorizado para pagamentos naquele dia. 

Minhas contas. Meu cartão. Meu dinheiro. E o Banco do Brasil me impediu de pagar uma das minhas contas, usando meu cartão, com meu dinheiro. 

Hoje vou ter que enfrentar novamente a negociação nas esquinas sem sinaleiras, mais a dificuldade de estacionar, ou o custo do estacionamento pago, mais o maldito sistema do BB, só que dentro do horário bancário, porque a segunda conta, sozinha, é mais alta que o limite diário que o Banco do Brasil me permite dispor do meu próprio dinheiro. 

Como eu já sei em que lixo de país eu vivo, a conta não vencia ontem. Eu estava pagando com antecedência, prevendo alguma palhaçada. Qual palhaçada viria eu não sabia, mas eu sabia que alguma palhaçada viria. E veio. 

O Brasil é um país em que temos que partir do princípio de que alguma coisa sempre dará errado, porque alguma coisa sempre terá sido mal feita. Além disso, a solução provavelmente não estará disponível a tempo, ou custará caro, ou causará mais um problema, freqüentemente exigindo alguma gambiarra ou “jeitinho”. 

E seria tão fácil fazer as coisas bem feitas! 

Vejamos: 

O BB quer que eu troque de cartão por um cartão mais seguro. Certo, então por que, ao invés de bloquear meu cartão para me forçar a ir buscar outro, o BB não me possibilita, em qualquer lugar do país, usar meu cartão antigo com fita magnética e minha senha ou mesmo um dado biométrico para validar um cartão novo com chip imediatamente

O BB quer que eu tenha segurança nas operações fora do horário bancário. Certo, então por que, ao invés de inventar limites que constituem um estorvo, o BB não me fornece uma segunda senha, que funcione igualzinho à primeira, mas que ative um alarme silencioso e chame a segurança ou a polícia ou ambos imediatamente

Aliás, por que nem o Banco do Brasil, nem nenhum banco no Brasil faz isso? 

Não será pelo mesmo motivo que nos faz ter cruzamento sem sinaleiras, paradas de ônibus na frente das portas de estacionamentos movimentados e quebra-molas em ruelas esburacadas onde é impossível desenvolver 40 km/h?

Quantos outros custos, em segurança, conforto e praticidade, nos impõe essa cultura de gambiarra e jeitinho e desprezo por fazer as coisas bem feitas? 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 10/09/2014 

Extremistas

Recebi a notícia pelo Facebook: “Justiça de SP culpa vítima de bala de borracha pela perda do próprio olho”. Já sei como a maioria das pessoas se posiciona nesses casos. 

Extremistas

De um lado ficam os extremistas que dizem que, se um seqüestrador com uma pistola apontada para a cabeça de uma vítima inocente for alvejado por um sniper da polícia, o Estado cometeu um crime. 

Do outro lado ficam os extremistas que dizem que, se um jornalista foi alvo de uma bala de borracha e perdeu a visão devido à imprudência da polícia em usar esse tipo de projétil contra multidões, a culpa de ser atingido é da vítima. 

Estou cansado de extremistas, seus simplismos e sua intolerância. 

Extremista tem que ser crucificado de cabeça para baixo em cima de um formigueiro, amarrado com arame farpado cheio de urtiga e ser chicoteado até se engasgar com o próprio sangue. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 06/09/2014 

O que o brasileiro quer?

Meu amigo Mauro Camargo acha que o povo brasileiro quer cidadania e respeito. Eu digo que o povo brasileiro quer alguém que o coloque na coleira, que o deixe preso no canil para que não se meta em encrenca mas que o leve para passear de vez em quando e que lhe dê casa, comida e um cafuné atrás da orelha. Tendo isso, ele dá a patinha e abana o rabinho, bem feliz. 

Canil Brasil

O Mauro disse isso aqui no artigo dele: 

“Veio a revolução do silêncio, manifestada em silêncio, nos 30% de inválidos do TSE (postado em 01/11/2010). O silêncio foi quebrado em junho de 2013 e a revolução ganhou as ruas e noticiários, obviamente. Alimentou a mídia e chamou a atenção para o fato de que uma parcela significativa da população estava descontente.” 

(…)

Mas, o que estes 30% de inválidos do TSE querem? O que esta população que foi às ruas nos movimentos de junho/13 quer? Querem mais decência e, consequentemente, menos mentiras por parte dos governos, em todas as suas esferas. Querem cidadania e tudo o que esta palavra significa. Querem respeito.” (Mauro) 

Fonte: A revolução do silêncio, Marina e a nova política… era disso que eu estava falando!!! 

Eu não vejo assim, Mauro. Para mim, tudo que os integrantes dessa turba toda querem é um salvador. Alguém que lhes tire a responsabilidade sobre os rumos do país e das vidas deles e a assuma sobre seus próprios ombros. E que lhes traga as benesses de uma vida de sucesso sem que eles tenham que fazer nada para merecer isso a não ser “serem quem são”. Igual a uma criança que ganha mesada dos pais pelo simples fato de ser filha deles.

Na política isso se chama “paternalismo” exatamente por este motivo. E é exatamente por isso que o Brasil vive cheio de vale-gás, vale-leite, vale-ônibus, vale-futebol, vale-isso, vale-aquilo, vale-tudo. E também é por este exato motivo que a principal disputa nas últimas eleições foi pela “paternidade” do bolsa-família. 

Se o brasileiro quisesse cidadania, trataria de exercer a cidadania, porque cidadania não se concede, se exerce. Por exemplo, negando-se a legitimar político ladrão ou político com ideologia porca. Mas para isso o brasileiro teria que conhecer um pouquinho de política, teria assumir um pouquinho de responsabilidade sobre sua própria vida e seu próprio destino. E isso o brasileiro não quer fazer. O máximo que o brasileiro sabe fazer é ameaçar “dê-nos uma vida boa ou a gente quebra tudo”, como em junho de 2013.

Se o brasileiro gostasse de respeito, o brasileiro em primeiro lugar trataria o outro com respeito. Bastaria que o brasileiro se tornasse a mudança que quer para o mundo que a mudança do mundo aconteceria. Mas se procurarmos bem, encontraremos um único brasileiro que assuma que não respeita os outros como deveria e que assuma o compromisso de fazer uma autocrítica e mudar de comportamento para respeitar mais os outros? Não. Isso non ecziste

As manifestações de junho de 2013 foram de fato emblemáticas.

O povo brasileiro não estava de saco cheio de roubalheira, claro que não! Chega a ser piada dizer que o povo brasileiro não gosta de ladrão. O povo brasileiro sempre elegeu quem “rouba mas faz”, e, se alguém lembrou do nome “Maluf” ao ouvir esta frase, não tem como discordar do que estou dizendo.

O povo brasileiro estava de saco cheio era de ficar amarrado num canil sujo sem que ninguém viesse lhe trocar a água, encher o potinho de comida e dar uma mangueirada no chão. Estava latindo, roendo a corda e as paredes do canil porque tem sido extremamente mal cuidado, porque está endividado por muitos anos devido à concessão irresponsável e eleitoreira de crédito podre, com a inflação subindo e o emprego caindo, o dinheiro sumindo e a violência crescendo. Mas basta jogar um osso para dentro do canil e dar uma mangueirada no chão para todo mundo voltar a dar a patinha e abanar o rabinho. 

Marina Silva é apenas a salvadora da vez. Ontem foi a Dilma. Anteontem foi o Lula. Um pouco antes o FHC. Antes dele, o Collor. Antes ainda, era pra ter sido o Tancredo. O povo brasileiro está sempre em busca de um salvador. E, quanto mais o suposto salvador assumir toda a responsabilidade por tudo que possa ser imaginado, tanto mais é reconhecido. Não é por acaso, por exemplo, que a mitologia daquele que “tira os pecados do mundo” prospera muito mais do que a mitologia daquele que diz “treine sua mente”, e que a teologia da graça conquista muito mais adeptos do que a teologia das obras. Isso tudo revela claramente o que o povo brasileiro quer. 

O que o povo brasileiro quer mesmo é alguém que lhe dê água, comida e uma casinha e que o leve para passear firmemente preso pela coleira. Alguém que o livre de assumir responsabilidades e de fazer esforços para cuidar de sua vida e que o entretenha para que ele esqueça que vive uma vida de cão. Alguém que tire de seus ombros até mesmo o peso de ter que pensar no que quer da vida e no que deve fazer para atingir seus objetivos, pois pensar não dói, mas exige responsabilidade e esforço. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 05/09/2014