Meu amigo Mauro Camargo acha que o povo brasileiro quer cidadania e respeito. Eu digo que o povo brasileiro quer alguém que o coloque na coleira, que o deixe preso no canil para que não se meta em encrenca mas que o leve para passear de vez em quando e que lhe dê casa, comida e um cafuné atrás da orelha. Tendo isso, ele dá a patinha e abana o rabinho, bem feliz. 

Canil Brasil

O Mauro disse isso aqui no artigo dele: 

“Veio a revolução do silêncio, manifestada em silêncio, nos 30% de inválidos do TSE (postado em 01/11/2010). O silêncio foi quebrado em junho de 2013 e a revolução ganhou as ruas e noticiários, obviamente. Alimentou a mídia e chamou a atenção para o fato de que uma parcela significativa da população estava descontente.” 

(…)

Mas, o que estes 30% de inválidos do TSE querem? O que esta população que foi às ruas nos movimentos de junho/13 quer? Querem mais decência e, consequentemente, menos mentiras por parte dos governos, em todas as suas esferas. Querem cidadania e tudo o que esta palavra significa. Querem respeito.” (Mauro) 

Fonte: A revolução do silêncio, Marina e a nova política… era disso que eu estava falando!!! 

Eu não vejo assim, Mauro. Para mim, tudo que os integrantes dessa turba toda querem é um salvador. Alguém que lhes tire a responsabilidade sobre os rumos do país e das vidas deles e a assuma sobre seus próprios ombros. E que lhes traga as benesses de uma vida de sucesso sem que eles tenham que fazer nada para merecer isso a não ser “serem quem são”. Igual a uma criança que ganha mesada dos pais pelo simples fato de ser filha deles.

Na política isso se chama “paternalismo” exatamente por este motivo. E é exatamente por isso que o Brasil vive cheio de vale-gás, vale-leite, vale-ônibus, vale-futebol, vale-isso, vale-aquilo, vale-tudo. E também é por este exato motivo que a principal disputa nas últimas eleições foi pela “paternidade” do bolsa-família. 

Se o brasileiro quisesse cidadania, trataria de exercer a cidadania, porque cidadania não se concede, se exerce. Por exemplo, negando-se a legitimar político ladrão ou político com ideologia porca. Mas para isso o brasileiro teria que conhecer um pouquinho de política, teria assumir um pouquinho de responsabilidade sobre sua própria vida e seu próprio destino. E isso o brasileiro não quer fazer. O máximo que o brasileiro sabe fazer é ameaçar “dê-nos uma vida boa ou a gente quebra tudo”, como em junho de 2013.

Se o brasileiro gostasse de respeito, o brasileiro em primeiro lugar trataria o outro com respeito. Bastaria que o brasileiro se tornasse a mudança que quer para o mundo que a mudança do mundo aconteceria. Mas se procurarmos bem, encontraremos um único brasileiro que assuma que não respeita os outros como deveria e que assuma o compromisso de fazer uma autocrítica e mudar de comportamento para respeitar mais os outros? Não. Isso non ecziste

As manifestações de junho de 2013 foram de fato emblemáticas.

O povo brasileiro não estava de saco cheio de roubalheira, claro que não! Chega a ser piada dizer que o povo brasileiro não gosta de ladrão. O povo brasileiro sempre elegeu quem “rouba mas faz”, e, se alguém lembrou do nome “Maluf” ao ouvir esta frase, não tem como discordar do que estou dizendo.

O povo brasileiro estava de saco cheio era de ficar amarrado num canil sujo sem que ninguém viesse lhe trocar a água, encher o potinho de comida e dar uma mangueirada no chão. Estava latindo, roendo a corda e as paredes do canil porque tem sido extremamente mal cuidado, porque está endividado por muitos anos devido à concessão irresponsável e eleitoreira de crédito podre, com a inflação subindo e o emprego caindo, o dinheiro sumindo e a violência crescendo. Mas basta jogar um osso para dentro do canil e dar uma mangueirada no chão para todo mundo voltar a dar a patinha e abanar o rabinho. 

Marina Silva é apenas a salvadora da vez. Ontem foi a Dilma. Anteontem foi o Lula. Um pouco antes o FHC. Antes dele, o Collor. Antes ainda, era pra ter sido o Tancredo. O povo brasileiro está sempre em busca de um salvador. E, quanto mais o suposto salvador assumir toda a responsabilidade por tudo que possa ser imaginado, tanto mais é reconhecido. Não é por acaso, por exemplo, que a mitologia daquele que “tira os pecados do mundo” prospera muito mais do que a mitologia daquele que diz “treine sua mente”, e que a teologia da graça conquista muito mais adeptos do que a teologia das obras. Isso tudo revela claramente o que o povo brasileiro quer. 

O que o povo brasileiro quer mesmo é alguém que lhe dê água, comida e uma casinha e que o leve para passear firmemente preso pela coleira. Alguém que o livre de assumir responsabilidades e de fazer esforços para cuidar de sua vida e que o entretenha para que ele esqueça que vive uma vida de cão. Alguém que tire de seus ombros até mesmo o peso de ter que pensar no que quer da vida e no que deve fazer para atingir seus objetivos, pois pensar não dói, mas exige responsabilidade e esforço. 

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 05/09/2014 

19 thoughts on “O que o brasileiro quer?

  1. Concordo com o artigo, exceto por este trecho:

    “Mas se procurarmos bem, encontraremos um único brasileiro que assuma que não respeita os outros como deveria e que assuma o compromisso de fazer uma autocrítica e mudar de comportamento para respeitar mais os outros? Não. Isso non ecziste. “

    1. É, de fato, tem meia dúzia de exceções, é claro. Eu devia começar a beber, para dar algo para o meu fígado fazer enquanto eu escrevo… 😛

  2. bom artigo… e concordo com muita coisa nele. Na verdade a minha discordância cai na área da porcentagem. Não creio que os 30% emblemáticos que falo no meu artigo se comportem totalmente como o “povo brasileiro” que vc descreve. Estes estão mais misturados na massa dos 70%, fazendo massa critica neste meio.
    Creio que a generalização está muito ampla…

    1. Claro, claro, existem exceções, como registrei na resposta acima, para o Gerson B… Mas, tomando como parâmetro a maioria, tomando como parâmetro o resultado das eleições desde a Abertura, tomando como parâmetro os frustrantes 0,07% que encontrei quando procurei os indomáveis… Não acho que eu tenha exagerado muito na crítica, não…

  3. roberto Tramarim

    06/09/2014 — 21:12

    O povo brasileiro já queria um salvador antes de Tancredo. Não deveria surpreender que JK, o presidente que endividou o Brasil, ou GV, aquele ditador do “Estado Novo”, também sejam tão venerados pelo brasileiro, afinal um deu comida e casinha e outro o levou pra passear pelo interior do país. A própria ditadura militar durou 21 anos e teve bem menos oposição que movimentos equivalentes nos vizinhos porque também eram “salvadores”, compraram ração nova(“milagre econômico”) mas deixaram a conta do Pet Shop pra outros pagarem.
    Será que D. Pedro II acostumou mal esse povo?

    1. Eu acho que a coisa é pior do que a gente pensa. Nós tendemos a falar que a história do Brasil tem 500 anos. Não é verdade. Quem chegou aqui vindo da Europa já tinha uma cultura desenvolvida por muitos séculos lá. Os portugueses de 1500 são o ancestral comum entre os portugueses atuais e os brasileiros atuais, assim como houve algum ancestral comum entre os seres humanos atuais e os chimpanzés atuais.

      O que me apavora é descobrir que tipo de macaco se desenvolveu por lá, levando em consideração que os macacos daqui saíram tão problemáticos…

  4. O povo brasileiro quer maraca cheio, ceva na mão e carnaval com bastante bunda. Se tiver um troco pra aplicar nas mina, melhor ainda!

    1. Sim. só que ele não quer fazer o que tem que ser feito para poder ter estas coisas. É como gostar de lasagna e querer que exista uma árvore de lasagna.

    1. Mauro… Não nego que ainda haja 0,07% de gente que se salve.

      Mas percebes que o simples fato de existir alguém que se intitule “caçador de bons exemplos” já mostra que os bons exemplos são tão raros que é necessário caçá-los ativamente para poder encontrá-los?

      Bons exemplos não deveriam ser a regra?

  5. o que deve ser visto é a quantidade surpreendente de bons exemplos que encontraram. Se formos debater o assunto, creio que chegaremos na ideia de que o que realmente falta é escolaridade, como sempre. Há um pessimismo generalizado em relação ao Brasil. A ditadura fez de tudo para vender uma imagem de paraíso tropical e engabelar a população com uma fantasia que não se sustentava na realidade (assim como a propaganda do PT faz hj). Quando a ditadura soltou o ferrolho da imprensa, que vive de vender notícia, esta encontrou um mercado sem educação e que se interessa muito mais pelo mágico, pelo sonho, pelo ilusório… pelo maraca cheio, cerveja e carnaval… pelo salvador da pátria. A conjugação de baixa e ruim escolaridade com mídia sedenta por renda gera um suco pessimista que retroalimenta um sistema perverso. Um povo melhor educado poderá gostar menos de big brother e se preocupar mais em escolher quem vai melhorar sua cidadania e, com o tempo, trabalhando na educação desde cedo, muito cedo, bons exemplos passariam a ser regra. Culpar o povo brasileiro de indolência e má vontade, apenas, sem considerar o contexto educação, é diminuí-lo como ser humano.

    1. “A conjugação de baixa e ruim escolaridade com mídia sedenta por renda gera um suco pessimista que retroalimenta um sistema perverso.”

      Estás intimado a usar esta frase em um livro, Mauro! 🙂

    2. Mas eu não concordo com “Culpar o povo brasileiro de indolência e má vontade, apenas, sem considerar o contexto educação, é diminuí-lo como ser humano.”

      Quem comete aquilo que reclama no outro sabe muito bem o que está fazendo, em qualquer nível de educação.

  6. mas daí a gente entra naquela do muito se pedirá a quem muito recebeu… o que pedir a quem recebeu pouco? imagine uma família construída por gerações de baixa escolaridade… é ser tão perverso quanto o sistema pedir que tenham educação em todos os níveis. Existem exceções, mas…

    1. O que pedir a quem recebeu pouco?

      Por exemplo, muito mais do que isso aqui: https://www.facebook.com/video.php?v=462659950490862

      Tem coisas para as quais não cabe relativização.

  7. também é preciso considerar o quanto o nosso sistema judiciário e penal é defasado. Uma pessoa entra num trem na Itália e anda muito e pode não aparecer ninguém para conferir se pagou a passagem. Porém, se aparecer e não tiver a passagem, além da multa ser grande, o “crime” vai para a carteira de trabalho. O sistema penal é efetivo. Quando a polícia fez greve de uma semana em Salvador foi saques e desordem de todo tipo. Então a educação tem que ser acompanhada de penalidades (aplicáveis e aplicadas) para os não educados.

    1. O problema do nosso país é que ele é gerenciado por quem tinha que estar na cadeia, eleito por quem é roubado.

  8. Oi,tudo bem?!

    Dá uma olhada nisso:

    http://wp.clicrbs.com.br/laurna/2014/09/06/quer-a-mesma-m-de-sempre-ok-eu-volto-para-beverly-hills-diz-o-candidato-dr-rey/?topo=13,1,1,,1,13

    Quem sabe o brasileiro queira um pouquinho de “sotaque americano” como diz o Dr.Rey.
    Talvez queiram também comprar “um balde de tinta e pintarem suas casas.”,pois pra ele, o Brasil está muito “cinza”.
    Risos?

    Ps: Sério,quando eu li pensei que fosse alguma piada,mas parece que não é não!
    Como tem otário pra tudo,muita gente se interessa pelas “propostas” dele.

    Até mais.

    1. “Querem uma democracia em que nenhum inocente vai para a cadeia. Não existe isso. Em uma guerra, soldados morrem inocentemente. Esse medinho de um inocente ser preso acaba matando os cidadãos.”

      Quem aí se habilita a ir para cadeia sendo inocente para garantir a tranquilidade de quem não se importa que inocentes vão para a cadeia?

      Será que ele não se importaria se fosse ele?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *